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Posts do dia 7 novembro 2009

O mundo desaba sobre Rodrigo

07 de novembro de 2009 2

Rodrigo (no detalhe) é autor e vítima da destruição de Los Angeles em

Se você achar que já leu isso em algum lugar, não estranhe. É a mesma matéria que está no site, com chamada na capa. Ou quase. Complemento a entrevista que fiz com o Rodrigo Teixeira com duas perguntas que não entraram na versão papel, na ZH deste sábado: sobre seu trabalho no filme The Box, com Cameron Diaz, e sobre o mercado de trabalho para os profissionais brasileiros que sonham em se dar tão bem em Hollywood como ele se deu.

Lá em embaixo tem ainda o trailer de The Box e o videoclipe de House of Cards, música do Radiohead, que tem Rodrigo na equipe resposável pelos efeitos visuais

O mundo desaba sobre Rodrigo

Gaúcho que vive em Hollywood é responsável por efeitos visuais em "2012", superprodução que estréia no dia 13

Preste atenção na imagem acima. Quando esta cena for exibida no cinema, mal vai dar para notar o sujeito apavorado prestes a ser soterrado no dia em que o mudo vai acabar, segundo uma secular profecia maia: 21 de dezembro de 2012. Rodrigo Teixeira, gaúcho que vive em Los Angeles há oito anos, é o nome dele, vítima na ficção e também um dos autores da sequência apocalíptica.

O passo que o artista gráfico nascido em Bagé deu ao sair de Porto Alegre e desembarcar em Hollywood, em 26 de fevereiro de 2001, foi tão espetacular quanto os trabalhos que faz hoje. Teixeira faz parte de um time de profissionais cada vez mais valorizados e presentes no cinema comercial americano: aqueles que respondem pelos efeitos visuais de superproduções como 2012 , novo filme do alemão Roland Emmerich, diretor que se tornou o grande especialista do cinema catástrofe assinando sucessos como Independence Day (1996) e O Dia Depois de Amanhã (2004).

– Foi quando assisti a Independence Day numa sala do Iguatemi que decidi que era aquilo que eu queria fazer na vida – diz Rodrigo, por telefone, de Los Angeles (veja entrevista com ele abaixo).

À época, ele trabalhava com computação gráfica numa agência de publicidade da Capital. Para profissionais como Rodrigo, um horizonte promissor se desenhava nas grande produtoras de São Paulo ou na Globo. Mas ele pensou grande e decidiu arriscar Hollywood, sem escalas. Desembarcou com US$ 500 e 150 cópias de seu portfólio. Hoje ganha cachês “na casa dos seis dígitos” (em dólar), mora à beira-mar na chique Marina del Rey, e a lista de trabalhos que já teve de recusar (como as franquias Piratas do Caribe e Transformers) impressiona tanto quanto as que têm seu nome nos créditos: Sin City, As Crônicas de Nárnia, Superman Returns, o seriado de TV True Blood, este 2012 e o que no momento lhe ocupa até janeiro de 2010: Alice no País das Maravilhas, na aguardada versão que Tim Burton filma para a Disney. Em uma pausa no cinema, ajudou na criação do videoclipe de House of Cards, do Radiohead.

Unindo as pontas desses dois momentos, segundo Rodrigo, muita ralação e uma combinação de cara-de-pau, sorte e, sem razão para modéstia, talento para fazer por merecer as oportunidades que surgiram.

– Logo que cheguei a Los Angeles, um amigo me convidou para uma festa em que ia ter um pessoal de cinema. Fui apresentado a um alemão que trabalhava com efeitos visuais. Disse que Independence Day tinha sido o filme que me fez querer trabalhar no cinema. Era o Volker Engel, parceiro do Roland Emmerich, que me respondeu: “Prazer, eu ganhei um Oscar por esse filme”. Um ano depois, Volker me chamou para trabalhar com ele, primeiro em um projeto para a TV e depois em O Dia Depois da Amanhã, que considero minha estreia oficial em Hollywood.

Quando se refere a “cara-de-pau”, Rodrigo lembra iniciativas como a de incluir por conta própria o logotipo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe) junto ao símbolo da Nasa em uma cena de O Dia Depois de Amanhã:

– O Roland Emmerich achou engraçado e resolveu deixar.

Depois disso, Rodrigo passou a “assinar” seus trabalhos, como o “T” que colocou na placa do carro de Bruce Willis em Sin City ou ele próprio na cena de 2012.

Filho único, levou os pais para morar em um apartamento próximo:

– Tenho orgulho de ser brasileiro e ainda não consegui voltar ao Brasil. Mas a casa da gente é onde a gente é feliz, por isso fiz questão de que meus pais viessem viver comigo.

“Efeito invisível é o mais legal”

O contato começou pelo Facebook, emendou numa trocas de e-mails, não rolou pelo Skype e finalmente se deu por telefone, em três brechas que se abriram na apertada agenda de Rodrigo Teixeira: por volta de 3h da madrugada de quarta-feira, às 4h de quinta e às 3h de ontem, no fuso de Los Angeles, seis horas atrás do horário brasileiro de verão. É quando ele costuma se desligar do trabalho – no momento, integra o time responsável pelos efeitos visuais do filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Confira a seguir trechos da entrevista com o artista gráfico gaúcho que trabalha em Hollywood.

Zero Hora – No filme 2012, você é creditado como “senior lighting technical director”. Traduzindo, que função é essa?

Rodrigo Teixeira – Sou responsável por criar efeitos de iluminação de texturas para determinadas sequências. No meu caso, sou responsável pela destruição de Los Angeles e Las Vegas. Muitos filmes contam apenas com cenários digitais, sem nenhum cenário, então profissionais como eu assumem responsabilidades artísticas parecidas com as do diretor de fotografia. São novas funções criadas pelo cinema digital.

ZH – No seriado True Blood, você aparece como “visual effects compositor”. E essa?

Rodrigo – É quem uniformiza, compõe numa sequência imagens de diferentes fontes, como o ator diante da tela verde, o cenário virtual e os efeitos gráficos, elementos que serão fundidos na mesma cena.

ZH – Em que etapa da realização você começa a trabalhar?

Rodrigo – Em geral, desde o início, já na fase de roteirização, pois é um trabalho que vai influenciar no orçamento do filme. Tem aqueles trabalhos em que você é chamado para um função específica, com a produção já em andamento. No primeiro As Crônicas de Nárnia (2005), fui contratado para integrar uma equipe que já estava há dois anos trabalhando apenas na figura do leão digital. Tem ainda o chamado “trabalho 911”, a emergência, que é para resolver algo que não funcionou como deveria na filmagem. Não costuma ser creditado, pois ninguém gosta de assumir que não fez algo direito e que vai trazer um custo não previsto para o orçamento. Já fiz alguns desses, mas não posso dizer em que filmes foram (risos).

ZH – O potencial do que é possível fazer na área dos efeitos visuais está próximo do limite?

Rodrigo – Não existe limite. Perto do que existia quando comecei, a tecnologia de hoje é um sonho. A tecnologia evolui em curva exponencial. Quanto maior essa evolução, mais perfeccionistas e exigentes se tornam os criadores. Em O Dia Depois de Amanhã alguém observou: “Puxa, esse concreto não está se comportando como deveria numa situação como essa”. Aí começa de novo, até acertar.

ZH – Existe um trabalho que seja mais desafiador do que outro?

Rodrigo – Parece mais fácil quando você cria algo sobre o qual não exista referência, como o mundo novo criado por James Cameron em Avatar (superprodução de ficção científica que deve estrear em dezembro), no qual você pode usar toda sua imaginação. Quando você trabalha com elementos reais, como cidades e pessoas, caso de 2012, é mais complicado. O efeito tem de ser muito mais realista.

ZH – Como você avalia esse nova aposta no cinema 3D?

Rodrigo – Sou um entusiasta do 3D. Em As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl, do Robert Rodriguez, trabalhei com 3D ainda naquele formato antigo, que nem se compara com o atual. Acho que veio para ficar, não apenas no cinema, mas também em transmissões esportivas e de shows. Vi cenas em 3D da Olimpíada de Pequim e foi deslumbrante. Estou trabalhando com 3D agora, em Alice no País das Maravilhas, do Tim Burton.

ZH – Fale sobre esse trabalho.

Rodrigo – O que posso dizer é que trabalho nos efeitos de iluminação, passo até nove horas por dia dentro do cinema revisando cenas e mais outras tantas horas em videoconferências. Tim Burton é um diretor com uma marca visual muito forte, a gente sabe do que ele gosta.

ZH – Qual o melhor efeito visual? O espetacular ou o imperceptível, aquele que o público nem desconfia que foi um truque?

Rodrigo – O mais legal é o efeito invisível, aquele que nunca o espectador vai saber que é um efeito. Como substituir o dia pela noite, o sol por nuvens, ou o chamado efeito cosmético, que é interferir diretamente no corpo do ator.

ZH – Você também está nos créditos de The Box, mais recente filme de Richard Kelly, diretor do cultuado Donnie Darko. Qual foi seu trabalho nesse longa?

Rodrigo – Nesse eu fui chamado para criar neve em algumas cenas, trabalho que realizei em três semanas.

ZH – Carlos Saldanha (brasileiro que dirige a franquia da animação A Era do Gelo) diz que os artistas e técnicos  brasileiros costumam ser valorizados nos EUA. Você concorda?

Rodrigo – Totalmente. Não sei dizer se o mercado aqui está melhor ou pior. Quando cheguei era horrível e talvez esteja mais difícil. Mas é fato que quem está acostumado a tirar leite de pedra no Brasil, com pouca grana e poucos recursos técnicos, quando tem pela frente os grandes orçamentos e a mais alta tecnologia faz chover. Nos meus trabalhos sou o único brasileiro da equipe, mas em Hollywood, hoje, creio que cerca da metade dos profissionais de cinema são estrangeiros.

Veja a galeria com trabalhos de Rodrigo Teixeira clicando AQUI

Confira o trailer de The Box. Na história, um casal recebe na porta de sua casa uma estranha caixa, trazendo um artefato e um botão vermelho. Um sujeito misterioso surge para explicar: se o botão for apertado eles ganham um milhão de dólares, mas uma pessoa desconhecida vai morrer. O casal tem apenas 24 horas para decidir o que fazer.


Aqui, o clipe do Radiohead

Postado por Marcelo Perrone