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Posts de dezembro 2009

Estrangeiros do Oscar 2010

23 de dezembro de 2009 4

Produção alemã A Fita Branca, dirigida pelo austríaco Michael Haneke

A Fita Branca, de Michael Haneke, escolhido para representar a Alemanha, é de cara um postulante ao Oscar de filme estrangeiro de 2010. Além de realizado primorosamente, o longa, Palma de Ouro no Festival de Cannes, aborda um tema caríssimo em Hollywood: o nazi-fascismo.

Mas não é o único favorito na disputa. O elogiadíssimo Um Profeta, de Jacques Audiard, representante da França, também premiado em Cannes, e o italiano Baarìa, de Giuseppe Tornatore, surgem como dois dos principais candidatos à lista dos indicados. Esses três concorrem à categoria no Globo de Ouro juntamente com o chileno La Nana, de Sebastián Silva, e o espanhol Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar.

Um Profeta, longa de Jacques Audiard premiado em Cannes

Embora as regras do Oscar tenham mudado, e a Academia de Cinema dos EUA possa indicar um filme que não foi eleito para representar o seu país, convém lembrar que La NanaAbraços Partidos foram preteridos em seus países de origem e não figuram entre os 65 pré-indicados. Esse também é o caso do uruguaio Gigante, de Adrián Biniez. O representante uruguaio na disputa é Meu Dia para Pescar, de Alvaro Brechner. O chileno é Dawnson - Isla 10, de Miguel Littin, e o espanhol, El Baile de la Victoria, de Fernando Trueba.

Baarìa é o mais recente longa do italiano Giuseppe Tornatore

É bom lembrar também que preciosidades como o sueco Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson, o turco 3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan, e o francês Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, entre outros, embora tenham estreado no Brasil em 2009, foram lançados originalmente em 2008 - e, por isso, estão fora do páreo.

Uma enxuta lista de filmes que surgem com pinta de favoritos entre os selecionados dos 65 países que enviam os seus representantes está abaixo:

> Alemanha: A Fita Branca, de Michael Haneke*
> Argentina: El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella**
> Austrália: Samson and Delilah, de Warwick Thornton**
> Brasil: Salve Geral, de Sergio Rezende****
> Coreia do Sul: Mother, de Bong Joon-ho**
> Espanha: El Baile de la Victoria, de Fernando Trueba**
> França: Um Profeta, de Jacques Audiard*
> Itália: Baarìa, de Giuseppe Tornatore**
> Peru: A Teta Assustada, de Claudia Llosa***
> Romênia: Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu***

* Estreia garantida em 2010 no Brasil
** Aguarda distribuidora para ser exibido por aqui
*** Já estreou no circuito brasileiro
**** Estreou no Rio e em SP e não tem previsão de estreia em Porto Alegre

Mother, de Bong Joon-ho, foi indicado ao Independent Spirit Awards

Música no cinema

23 de dezembro de 2009 0

Eric Elmosnino encarna Serge Gainsbourg, com Lucy Gordon no papel da modelo e musa Jane Birkin

Uma recente safra de cinebiografias passou em revista vida e obra de ídolos da música como Ray Charles, Johnny Cash,  Bob Dylan, Edith Piaf e Ian Curtis. Os próximos projetos do gênero, entre realizados e anunciados, mantêm a diversidade de ritmos e a relevância artística dos homenageados.

Dos filmes já concluídos, três se destacam: Serge Gainsbourg, Vie Héroïque tem como personagem o grande ídolo da música francesa que transitou pelos mais diferentes estilos musicais e se tornou uma referência do pop contemporâneo. O longa sobre a trajetória do autor do sussurante hit erótico Je T'aime moi non Plus estreia em janeiro na França e chama a atenção pela impressionante caracterização do ator Eric Elmosnino como Serge - que é pai da atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Com estréia prevista para este final de semana na Inglaterra, Nowhere Boy tem foco na infância e adolescência de John Lennon, destacando seus conflitos familiares, a paixão pelo rock'n'roll e a amizade com George Harrison e Paul McCartney, com quem faria história nos Beatles. Em março, entra em cartaz, nos EUA, The Runaways, que passa em revista a história da seminal banda de rock dos anos 1970 formada por garotas ainda adolescentes. No elenco estão Kristen Stewart (a Bella da saga Crepúsculo), como a guitarrista Joan Jett, e Dakota Fanning, no papel da cantora Cherie Currie - leia mais sobre esse filme no post abaixo.


Na lista de cinebiografias anunciadas, tem Michael Douglas vivendo o pianista Liberace - com Matt Damon de guarda-costas e amante do espalhafatoso músico. Bob Marley está no centro de uma disputa entre sua viúva, Rita, que desenvolve um longa de ficção, e o cineasta Martin Scorsese, que toca um documentário sobre o ídolo do reggae - a pendenga envolve os direitos de uso das músicas de Marley.

Enquanto isso, o comendiante Mike Myers ainda tenta encenar seu tributo a Keith Moon, o mítico maluquinho baterista do The Who, e o produtor Thomas Tull (de Wacthmen) garante que sai seu filme sobre o guitarrista Jimi Hendrix - os músicos Lenny Kravitz e André Benjamin (do Outkast) estão na lista de candidatos ao papel. Já a cinebiografia de Freddie Mercury parece distante, embora tenha sido especulado que o cantor do Queen seria revivido por Sacha Baron Cohen - que fica bem de bigodão, como mostrou em Borat.



The Runaways, enfim

19 de dezembro de 2009 1

Demorou, mas finalmente vem aí o filme que promete contar a história da primeira grande banda de garotas do rock, as riot girls conhecidas como The Runaways. Formado nos EUA em 1975, o grupo pintou na cena pré-punk no embalo do glam rock e já flertando com o som que vinha sendo apresentado por nomes como Ramones. À frente, entre algumas mudanças na formação, de quinteto a quarteto, despontaram três gatas ainda adolescentes: a morena Joan Jett (guitarra) e as loiras Cherie Currie (voz) e Lita Ford (guitarra).

No filme The Runaways, dirigido pela italiana Floria Sigismondi, elas são interpretadas, respectivamente, por Kristen Stewart, a Bella da saga Crepúsculo, Dakota Fanning, conhecida pela penca de filmes que faz desde criança, e Scout Taylor-Compton, sem nada relevante no currículo.

As Runaways estouraram logo de cara com o hit Cherry Bomb - alusão ao perído de TPM das minas - e tiveram um grande êxito em turnês com ingressos esgotados, subretudo no Japão. Mas rivalidades internas e um tanto de preconceito no universo machista do rock à época - que estranhava belas garotas combinando peso e melodia com temas juvenis como farra, pegação, escola e família - levariam à dissolução do grupo ainda naquela década.

Na carreira solo, Joan Jett se saiu superbem lapidando o som que fazia nas Runaways e conseguiu enorme sucesso com hinos roqueiros do porte de I Love Rock 'n' Roll e Bad Reputation. Lita Ford, nem tanto, sobretudo por ter investido na onda do metal farofa poser oitentista - a jaqueta de couro mostrou ter mais fôlego que o laquê e as lantejoulas. Cherie também tentou seguir sozinha, mas não vingou nem na música e tampouco no cinema.

Confira na sequência o trailer do filme The Runaways e momentos marcantes da banda e de Joan Jett solo.

A Alice de Tim Burton

19 de dezembro de 2009 2

É qualquer coisa fora de série o visual deste novo Alice in Wonderland, provavelmente Alice no País das Maravilhas no Brasil, se os distribuidores não se perderem na tradução.

Pela expectativa criada, o novo Tim Burton é candidato a ser um dos melhores, se não o melhor trabalho do visionário cineasta de 51 anos - eles, Burton e a fábula fantástica de Lewis Carroll, não parecem ter sido feitos um para o outro?

O longa estreia nos Estados Unidos em março, dois dias antes do Oscar 2010.

Por aqui? Eu é que não sei.

Esta semana a Disney liberou o segundo trailer. Dá uma olhada abaixo. E aproveita para ver, na sequência, o trailer anterior e um vídeo com a caracterização de alguns dos personagens - Mia Wasikowska como Alice, Johnny Depp como o chapeleiro maluco, Helena Bohnam Carter como a Rainha de Copas, Anne Hathaway como a Rainha Branca.



Mia quem?, você pode ter se perguntado.

Pois é, a protagonista do filme é uma atriz australiana de 20 anos, longos cabelos loiros e crespos que, depois da Alice de Tim Burton, já foi recrutada para o novo longa de Gus Van Sant e para uma nova versão de Jane Eyre, livro de Charlotte Bronte adaptado nos anos 1990 pelo diretor italiano Franco Zeffirelli.

Mia Wasikowska também já filmou com realizadora indiana Mira Nair (Amélia, lançado em 2009 e inédito no Brasil), com o cineasta Edward Zwick (Um Ato de Liberdade, 2008) e com o ator Sam Worthington, o protagonista do Avatar de James Cameron. Com Worthington a atriz esteve num tal de Morte Súbita (2007).

Ao que tudo indica, no entanto, os astros e as estrelas da Alice de Tim Burton deverão ser as figuras amalucadas com as quais ela depara quando cai na toca do Coelho Branco, dando início à jornada fantástica relatada no livro de Carroll.

No Brasil, "Guerra ao Terror" só em DVD

16 de dezembro de 2009 1

Cena do filme Guerra ao Terror

ATUALIZAÇÃO: a Imagem Filmes acaba de nos informar que - em razão da dimensão que o filme tomou, tema deste comentário - vai lançar Guerra ao Terror nos cinemas brasileiros, em 5 de fevereiro de 2010.

Como será que a distribuidora nacional de Guerra ao Terror está lidando com essa? O filme lançado no Brasil direto em DVD, em abril, indicativo da pouca fé em seu desempenho nos cinemas, se tornou um dos grandes destaques da temporada, circulando em importantes festivais sob ótima recepção da crítica. E agora vence importantes prêmios no aquecimento do Oscar, festa na qual, aliás, sua presença já é dada como certa, ainda mais que aumentou para 10 a lista de indicados a melhor filme.

Nesta terça-feira, Guerra ao Terror ganhou três importantes indicações ao Globo de Ouro: melhor filme em drama, melhor direção, para Kathryn Bigelow, e melhor roteiro. O longa já foi eleito o filme do ano pelos críticos de Nova York,  Kathryn venceu como diretora a votação da crítica de Washington, e o ator Jeremy Renner teve sua performance reconhecida pela prestigiada National Board of Review, a associação dos críticos dos EUA, como ator revelação.

Em Guerra ao Terror, Kathryn (diretora de filmes como Caçadores de Emoção) mosta o cotidiano no Iraque de um grupo de militares especialistas em garimpar e desarmar explosivos. Em sequências muito bem encenadas e de extrema tensão, o filme destaca dramas e conflitos de personagens que vivem cada dia como se fosse o último, tamanho é o risco de ir pelos ares em uma de suas missões. Curioso é que a capa do DVD brasileiro busca vender o filme com nomes de atores conhecidos que ficam apenas minutos em cena, como coadjuvantes: Ralph Fiennes, Guy Pearce e David Morse. Outra curiosidade é que o longa saiu em DVD no Brasil antes mesmo de seu lançamento comercial nos EUA e Europa, que só embalou neste segundo semestre.

Quando vi o fime achei bom, tenso, interessante nesse peculiar recorte que faz do literalmente explosivo dia a dia no front iraquiano. Mas nada que se compare, por exemplo, ao sensacional, contundente e solenemente ignorado por aqui Redacted, de Brian de Palma (não custa colocar também o trailer deste mais uma vez aqui no blog).

Onde os monstros têm vez

15 de dezembro de 2009 2

Falam muito de Avatar, e seguem falando muito de Avatar, mas eu vou confessar que tenho mais vontade de ver este filme aqui, ó:

Chama-se Where The Wild Things Are e é o novo longa de Spike Jonze, o diretor de Adaptação, Quero Ser John Malkovich, muitos videoclipes legais etc. No Brasil, o título será Onde Vivem os Monstros. A estreia nacional, por aqui, está prevista para fevereiro.

A música espetacular do trailer é cortesia da banda Arcade Fire (que já fez um show antológico em Porto Alegre) e está no disco igualmente espetacular intitulado Funeral.

Postado por Daniel Feix

Quatro mestres e o anti-semitismo

12 de dezembro de 2009 1

Quatro dos melhores cineastas do planeta resolveram se debruçar sobre o mesmo tema em seus últimos filmes. Não se trata de algo tão inusitado tendo em vista que esse tema é, por assim dizer, o já batido nazismo/anti-semitismo. Mas, como se tratam de realizadores muito diferentes entre si, e de abordagens todas tão pertinentes quanto incomuns, eu diria até inusitadas, o painel que acabam formando é dos mais interessantes.

Lhes digo que vi os quatro e gostei de todos, especialmente os dois primeiros da lista abaixo. Obras de mestres mesmo.

A Fita Branca, de Michael Haneke (Áustria/Alemanha/França)
Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, distribuição garantida no Brasil pela Imovision, é uma das obras-primas do diretor de Caché, A Professora de Piano e Violência Gratuita. Rodado todo em preto e branco, com uma fotografia ao mesmo tempo soturna e deslumbrante e com quase todos os atores desconhecidos do público internacional, o filme narra uma série de acontecimentos estranhos numa pequena comunidade do norte da Alemanha, pouco antes do início da I Guerra Mundial. São atos de violência e intolerância, alguns relacionados a crianças e à forma como a disciplina ajuda a moldar o seu comportamento, o que reforça a ideia de formação das gerações que propagariam a ideologia nazi-fascista. Absolutamente perturbador.

Adam Resurrected, de Paul Schrader (EUA/Israel/Alemanha)
Esse nem título em português tem, apesar de ter sido lançado lá em 2008. Talvez sequer estreie no Brasil, embora tenha sido exibido na Mostra Internacional de São Paulo de 2009. Seu argumento é tão ou mais inquietante quanto o de A Fita Branca: Jeff Goldblum, naquele que talvez seja o papel da sua vida, é um artista de circo que foi preso pelos alemães durante a II Guerra mas acabou poupado da camara de gás para "entreter" os outros judeus enquanto eles caminhavam para a morte. Sua história, incluindo os detalhes mais sórdidos, como a obrigação de se comportar literalmente como um cachorro para divertir os nazistas, é revivida a partir de suas lembranças em um sanatório construído em Israel. Tem alguns dos diálogos mais impressionantes dos últimos tempos. E uma mise-en-scène impecável. Filmaço.

Mais Tarde Você Vai Entender, de Amos Gitai (França/Israel/Alemanha)
A senhora que você vê no pôster acima é Jeanne Moreau, ela mesma, interpretando a mãe de um homem que busca solucionar o misterioso desaparecimento de seus avós - no caso, pais da mulher. Ele, que é vivido por Hippolyte Girardot, até tenta conversar, mas ela não gosta de falar sobre o assunto. Ao investigar o caso e descobrir que os velhos foram assassinados pelos nazistas durante a ocupação de Paris na II Guerra, vai descobrindo também porque a própria tradição judaica da família foi sendo corroída ao longo dos anos. Tudo daquele jeito que os conhecedores da obra do israelense Gitai (de Kedma, Kippur e Free Zone) já estão acostumados - Mais Tarde Você Vai Esperar é um filme enxuto, cheio de lacunas narrativas e composto de poucas sequências, quase todas costituídas de um único e longo plano. Em Porto Alegre, passou no recente Festival Varilux, mas não tem previsão de estreia no circuito.

Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (EUA)
Todos já devem ter visto nos cinemas, e quem ainda não o fez eu aconselho a recuperar o tempo perdido - o DVD não deve demorar muito a ser lançado. Neste filme, que é estrelado por Brad Pitt e Christoph Waltz (em interpretação antológica) e que narra a cruzada de um grupo de assassinos de nazistas durante a II Guerra, o eterno adolescente Tarantino, o mais abobado entre os mestres da arte de filmar, rearranja a própria história do século 20 e cria uma série de situações inverossímeis buscando levar o espectador a um prazer cinematográfico pleno, genuíno: ao mesmo tempo em que é envolvido por cenas construídas com um rigor absoluto, de texto, montagem, interpretação, criaçao de clima de suspense, humor ou drama, às vezes tudo isso simultaneamente, o público também se sente vingado pela barbárie que foi o Holocausto. Êxtase, no mínimo, em dobro - se todos os filmes fossem assim...

Postado por Daniel Feix

Robôs uruguaios abrem caminhos

10 de dezembro de 2009 0

Para quem já estava por dentro, quando falamos do curta Ataque de Pânico AQUI no blog, o Segundo Caderno desta quinta-feira traz uma entrevista com o diretor uruguaio Federico Álvarez (colaboração do chapa Lucca Rossi). Fede Álvarez, como assina, abriu um espaço na agora apertada agenda para nos contar como o vídeo que colocou no YouTube o levou a assinar um contrato de US$ 30 milhões em Hollywood, apadrinhado por Sam Raimi. Confira AQUI a reportagem.

Postado por Marcelo Perrone

Quando Hollywood viajou no ácido

09 de dezembro de 2009 1

Martin Scorsese e Robert De Niro no ringue de
O processo de edição por vezes é cruel, ainda mais quando o tema é tão estimulante quanto o sensacional livro Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo Drogas e Rock`n`roll Salvou Hollywood, do jornalista americano Peter Biskind. Com os acréscimos que tiveram de ser limados da versão em papel e outras observações que me ocorreram posteriormente - diante de um livro obrigatório para cinéfilos em qualquer grau de paixão e do qual cada capítulo mereceria uma resenha própria -, segue o texto publicado no Segundo Caderno desta quinta-feira.

Algo muito estranho, mais forte e inesperado que um dos habituais terremotos, começou a mudar a paisagem de Hollywood no começo dos anos 1970.
De uma hora para outra, os grandes estúdios tiveram executivos de cabelo escovinha, terno e gravata substituídos por jovens de batas, sandálias, barba e rabo de cavalo. O tilintar do gelo nos copos de uísque silenciou quando o ambiente foi impregnado pelo cheiro de maconha.
A efervescência da contracultura, enfim, parecia dominar um dos territórios mais sagrados do estilo de vida americano. Era o início de uma revolução que teve curta duração, mas deixou marcas definitivas na história do cinema. À frente dela nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma, Steven Spielberg e George Lucas, entre outros jovens cineastas que, fortemente influenciados pela nouvelle vague francesa criariam a Nova Hollywood.

Com 10 anos de atraso, chega ao Brasil o livro que disseca este momento: Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, ex-editor da revista Premiere e um dos mais respeitados jornalistas culturais dos Estados Unidos. Hollywood consagrou na ficção a máxima de que “entre a lenda e o fato, publique-se a lenda”. Ao decidir contar os bastidores de um período em que muitos fatos têm diferentes versões e essas ressurgem fragmentadas em memórias distorcidas pelos excessos de álcool e drogas, Biskind correu riscos. Mas, em vez da avalancha de processos que seus editores e advogados previam, seus maiores danos foram amizades rompidas e desmentidos, que ele coloca no livro como contrapontos nos casos em que as versões são antagônicas.

Em meio a revelações mundanas de alcova, intrigas e maquinações que ergueram mitos ou arruinaram carreiras, relatos dos conturbados bastidores de clássicos como O Poderoso Chefão, Chinatown e Taxi Driver, Biskind detalha como nasceu, brilhou e sucumbiu a geração - os chamados Moleques - que tentou cravar nas colinas de Hollywood o cinema autoral praticado pelo diretor onipotente, que varreria da sala de comando os antigos chefões dos estúdios que até então davam a palavra e a forma final aos filmes.

Biskind dismistifica alguns conceitos dessa turma liderada por um Coppola que é pintado ao mesmo como genial e truculento, visionário e irresponsável. O autor do livro destaca que nem todos da turma eram malucos-beleza loucos para pegar as então recentes câmeras portáteis e sair às ruas filmando o filme genial que, não raro, só existia em suas cabeças, turbinadas por pretensão e arrogância juvenis - e frequentemente embaralhadas pelo efeitos de drogas e litros de birita.
Entre eles, por exemplo, havia um Peter Bogdanovich, careta e cinéfilo de impressionante conhecimento enciclopédico, que realizou o marcante A Última Sessão de CInema reverenciando mestres do cinema americano como John Ford e Howard Hawks - diferentemente de colegas que só tinham olhos para Godard, Truffaut, Antonioni e Bergman.

Easy Riders, Raging Bulls (lançamento da editora Intrínseca, em duas capas diferentes e com tradução da jornalista Ana Maria Bahiana) faz referência aos dois filmes que, para o autor, representam a duração do último período de lampejo criativo do cinema americano: Sem Destino (1969), de Dennis Hopper, e Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese. Um, o projeto seminal que rompeu barreiras ao levar para as telas a cultura hippie que conquistava o mundo protestando contra a Guerra do Vietnã, ouvindo rock’n’roll e rompendo o cordão umbilical com a geração de seus pais. Outro, a obra-prima derradeira da chamada Nova Hollywood, que então se consumia pela combinação de vaidade, excesso de drogas e gastos desmedidos que levaram a maiorias de seus promissores realizadores à falência, ao anonimato ou de volta à porta dos grandes estúdios que combatiam e imaginavam derrotar.

Biskind mostra como caminhos que começaram em paralelo, movidos por camaradagem e mútua colaboração - que se impunham à rivalidade e à competição - se desmembraram em muitos outros, por vezes contraditórios - e com alguns rompimentos no curso - à medida que que esses diretores amadureciam e deparavam com questões mundanas de gente grande, como pagar as contas e sustentar uma família.

“Sem Destino”,  a loucura que deu certo

Ninguém em Hollywood parecia louco o suficiente para colocar um dólar que fosse na mão de Peter Fonda e de Dennis Hopper, dois atores que representavam em tempo integral a geração sexo, drogas, encrenca e rock’n’roll. Ambos eram vistos como párias e motivo de chacota, maconheiros e bebuns condenados aos filmes B que protagonizavam. Peter era só o filho desengonçado do grande Henry Fonda e irmão da musa em ascensão Jane. Dennis, que se achava o herdeiro de James Dean, dava pinta de que em breve estaria morto, preso ou internado num
manicômio. Além da amizade, eles tinham um vago laço de parentesco – a companheira de Dennis à época era filha de uma ex-mulher de Henry Fonda.

Foi Peter, apaixonado por motos, quem bolou o vago argumento sobre dois motoqueiros cruzando os Estados Unidos, que viria a se tornar o marco da contracultura Sem Destino (1969). Dennis entrou de carona e, diante da insegurança do amigo em atuar e dirigir ao mesmo tempo – e pela falta de quem encarasse a bronca –, estreou com o diretor e colocou seu nome na história do cinema.

O produtor Bert Schneider foi o louco visionário – e endinheirado – que a dupla precisava encontrar. Certo de que era a hora de ver a efervescência da cultura paz e amor representada nas telas dos cinemas, e vendo que o risco de fracasso traria prejuízo mais à vaidade que ao bolso, Schneider, um entusiasta do cinema de autor europeu e defensor da ideia do diretor com poder total, bancou Sem Destino. Os US$ 340 mil investidos viraram milhões e fizeram do produtor o midas da Nova Hollywood.

O filme determinou o rompimento entre Peter e Dennis. A briga, que começou no caótico set, diante das diferentes concepções que tinham da história, prossegue ainda hoje pela paternidade autoral de Sem Destino. Peter, que assinou com produtor, acusa Dennis de ter se apropriado e ficado com os louros da criação "artística" de um projeto seu. Dennis, por sua vez, diz que, das concepções narrativas e estéticas - em que barbeiragens e erros técnicos viraram "marcas autorais" - à espetacular trilha sonora, é tudo ideia dele.

Na verdade, o longa deve muito à interferência de Terry Southern, que divide com eles os créditos pelo roteiro. Foi Southern deu liga às ideias descabeçadas e fragmentadas da dupla – e acrescentou outras fundamentais, como o sombrio desfecho com os cabeludos mortos a tiros por caipiras, quando os atores queriam um final épico, com os motoqueiros sumindo na estrada rumo ao poente. Deve muito também a Schneider, que - ao perceber que sua defesa do diretor-autor não funcionaria com um maluco paranoico - tirou Sem Destino de Dennis na montagem, quando este empacou numa versão com mais de três horas de duração e não tinha a menor ideia de quando finalizaria o filme

Quem se deu bem nessa saborosa história foi o coadjuvante Jack Nicholson, então um ator com reconhecido potencial, mas futuro incerto, que era companheiro dos excessos etílicos e químicos da turma. Grande amigo de Schneider, Nicholson iria acompanhar a produção como uma espécie de olheiro, com a missão principal de impedir que os protagonistas matassem um ao outro numa de suas muitas brigas. Entrou no elenco em cima do laço, substituindo um ator que pulou fora após ser ameaçado com um faca por Dennis, e saiu daquela roda de baseado em torno da fogueira onsagrado para um longo reinado em Hollywood.

“Touro Indomável”, o réquiem

Martin Scorsese resistiu um pouco mais que muitos de seu bons companheiros de geração, mas, quando se abraçou às drogas, pegou muito pesado. Ao decidir, enfim, realizar Touro Indomável (1980), antigo projeto que seu amigo e parceiro Robert De Niro havia lhe apresentado em 1974, Scorsese já era um consumidor compulsivo de cocaína. A combinação de pó, álcool e os medicamentos com que tratava sua asma crônica, somada às fragilidades física e emocional daquele instante de sua carreira, quase custaram a vida do diretor. Scorsese gostava de profetizar que iria morrer antes dos 40 anos – era a máxima da geração que queria eternizar a imagem do cadáver jovem e bem-sucedido. Scorsese sobreviveu a excessos como o de mandar buscar cocaína em Paris, de jatinho, ao ver seu estoque chegar ao fim em Cannes, quando apresentava no festival o documentário O Último Concerto de Rock (1978).

Touro Indomável foi o quarto dos oito longas que Scorsese fez com De Niro. Eles cresceram próximos um do outro em Nova York, conheceram-se adultos e viram que suas personalidades fortes se complementavam também no set. Scorsese, filho de alfaiate e criado numa casa sem livros, apreciava a formação cultural de De Niro, vindo de família classe média ligada às artes plásticas. O ator inveja em Scorsese a vivência nas ruas, vindas do flerte com a marginalidade que ele tão bem retratou em seus filmes - embora, destaca Biskind, o diretor, franzino e asmático, nunca tenha sido de se meter em confusão; pelo contrário, tinha por hábito se esconder quando a coisa esquentava.

Quando enfim topou tocar adiante a biografia do ex-pugilista Jake La Motta, Scorsese estava inseguro quanto a sua vida profissional - vinha do fracasso New York, New York (1977) e havia realizado O Último Concerto de Rock para exercitar sua paixão pelo rock e pela amizade que tinha com os músicos da The Band. Embora a fidelidade ao cinema autoral fosse uma opção, o diretor sentia não ter no currículo sucessos de bilheteria, como o que permitiu aos amigos Coppola (O Poderoso Chefão 1 e 2), Spielberg (Tubarão) e Lucas (Guerra nas Estrelas) tomarem as rédeas de suas carreiras – apenas por esse aspecto, deixava claro. A tensão e o desencanto de Scorsese naquele momento acabaram refletidos no filme, aclamado pela crítica mas um fracasso de público.

Embora tenha sido eleito o melhor filme de 1980, o longa, segundo Peter Biskind “é um filme dos anos 70, uma baleia encalhada na praia da nova década”. O autor destaca: “Touro Indomável era a coisa mais distante possível da papinha subserviente e mandatoriamente otimista produzida pela contrarrevolução cultural que se aproximava. Scorsese recusara-se a fazer concessões, tinha feito o anti-Rocky, dado uma banana para Star Wars, e pagaria por isso.”

Postado por Marcelo Perrone

Filmes de ninja

07 de dezembro de 2009 24

Cena de Ninja Assassin, que dispensa comentários/Divulgação
A coisa de dois finais de semana, estreou nos EUA o filme Ninja Assassin. Com um nome desses, eu não preciso me estender a respeito do seu conteúdo, certo?

Quando criança e um pouco durante a adolescência, eu adorava filmes de ninja. Em grande parte culpa do Michael Dudikoff e seu American Ninja, que dominavam as madrugadas entre o final dos 80 e começo dos 90 e dos quais fui espectador assíduo do original e suas quatro sequências. Fora outros títulos que seguiam a mesma receita de relacionar _ de todas as mais bizarras formas _ os milenares mercenários japoneses com os EUA contemporâneo.

O último que vi, por pura e simples curisidade mórbida, foi Ninja, tosquice de marca maior lançado direto para o vídeo este ano. O protagonista é Scott Adkins, o dublê de corpo de Ryan Reynolds no filme do Wolverine quando ele é transformado em Weapon XI _ ou coisa que o valha...

Mas como sói acontece, eu nunca havia reparado o quão gays eles são. Filmes de ninja são tão gays quanto, por exemplo, filmes de faroeste. Pouco importa se um é subgênero lado b dentro das produções de artes marciais e o outro uma respeitável linha avalizada por grandes nomes. A tinta homossexual é tanta que escorre mais que o sangue que fazem jorrar aos litros durante o tempo de duração.

É fato. Repare: se um cultua a pistola, o outro coloca a espada _ literalmente _ como protagonista. Ambos objetos fálicos, ambos usados para perfurar e matar. Ambos instrumentos de poder, de dominação, de orgulho, tratados com carinho pelos donos e cobiçados pelos oponentes.

Como nos faroestes onde a disputa é para ver quem tem a pistola maior e mais rápida, nos filmes de ninja a luta é para ver quem, além de tudo, consegue transpassar o outro, penetrá-lo _ o que nunca acontece sem um suspiro, uma lufada de prazer. "Aaaaaah!", e fura o outro, sangue pra todo lado, respiração ofegante, suor escorrendo brilhante pele abaixo.

Antes, os ninjas lutam. Batem suas espadas, alizam e cobiçam a lâmina do oponente. Antes ainda, longos planos de treinamento, o sujeito apenas de calças de quimono, closes no peitoral, bíceps e tríceps brilhantes de suor enquanto maneja a espada, olhar compenetrado, feição trincada, impávido colosso.

Depois, o ritual da escolha das armas. Espadas curtas, espadas longas, facas, estrelinhas, zarabatanas, punhais, todos mostrados em panorama demorado, contemplados com orgulho e resignação pelo ninja tal o cowboy limpando sua pistola antes de um duelo.

O entorno também ajuda, com as histórias ocorrendo sempre numa sociedade machista, preconceituosa e regida pela força bruta _ o velho oeste norte-americano ou o Japão feudal, tanto faz _ que oferece terreno fértil para o surgimento de metáforas homoeróticas.

Quer dizer, não tem como ser diferente. O máximo que dá para fazer, se isso causa algum desconforto, é fazer de conta que não, aqueles dois sujeitos se batendo com espadas, fugando um no cangote do outro, olhando fundo nos olhos um do outro com a mesma intensidade fulgurante de quem pensa "vem, arranca minha máscara, me faz bainha pra tua espada, mostra quem manda e..." ao invés de "vou te matar para vingar a morte de papai, seu... seu... seu... desonrado!".

A diferença entre os dois é que os filmes de cowboy, além de levados a sério, já saíram do armário _ vide O Segredo de Brokeback Mountain. E justamente com um diretor oriental, olha a ironia. Por isso, dois apelos: Hollywood, que tal começar a produzir bons filmes de ninja (tô falando de orçamento, a temática continua a mesma)? E ninjas: que tal assumir de uma vez?

UPDATE - 18H50

Pessoal, pra que tanta tensão? É válido criticar o texto e seu autor, mas vamos manter a elegância, ok? Nada de palavrões ou demonstrações de intolerância. Relaxem...

Postado por Gustavo Brigatti

Conexão Montevidéu - Hollywood

01 de dezembro de 2009 0

Lembram do curta Ataque de Pânico, que foi tema de um post recente por aqui, logo mais abaixo?  Pois chega a informação, via Omelete, que o diretor americano Sam Raimi convidou o uruguaio Fede Martinez, autor do impressionante e devastador ataque de robôs a Montevidéu, para realizar um filme de ficção científica nos EUA. Segundo Martinez, seu primeiro longa deverá custar entre US$ 30 e 40 milhões (padrão de uma produção de "baixo orçamento" no gênero).

Postado por Marcelo Perrone