
O processo de edição por vezes é cruel, ainda mais quando o tema é tão estimulante quanto o sensacional livro Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo Drogas e Rock`n`roll Salvou Hollywood, do jornalista americano Peter Biskind. Com os acréscimos que tiveram de ser limados da versão em papel e outras observações que me ocorreram posteriormente - diante de um livro obrigatório para cinéfilos em qualquer grau de paixão e do qual cada capítulo mereceria uma resenha própria -, segue o texto publicado no Segundo Caderno desta quinta-feira.
Algo muito estranho, mais forte e inesperado que um dos habituais terremotos, começou a mudar a paisagem de Hollywood no começo dos anos 1970.
De uma hora para outra, os grandes estúdios tiveram executivos de cabelo escovinha, terno e gravata substituídos por jovens de batas, sandálias, barba e rabo de cavalo. O tilintar do gelo nos copos de uísque silenciou quando o ambiente foi impregnado pelo cheiro de maconha.
A efervescência da contracultura, enfim, parecia dominar um dos territórios mais sagrados do estilo de vida americano. Era o início de uma revolução que teve curta duração, mas deixou marcas definitivas na história do cinema. À frente dela nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma, Steven Spielberg e George Lucas, entre outros jovens cineastas que, fortemente influenciados pela nouvelle vague francesa criariam a Nova Hollywood.
Com 10 anos de atraso, chega ao Brasil o livro que disseca este momento: Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, ex-editor da revista Premiere e um dos mais respeitados jornalistas culturais dos Estados Unidos. Hollywood consagrou na ficção a máxima de que “entre a lenda e o fato, publique-se a lenda”. Ao decidir contar os bastidores de um período em que muitos fatos têm diferentes versões e essas ressurgem fragmentadas em memórias distorcidas pelos excessos de álcool e drogas, Biskind correu riscos. Mas, em vez da avalancha de processos que seus editores e advogados previam, seus maiores danos foram amizades rompidas e desmentidos, que ele coloca no livro como contrapontos nos casos em que as versões são antagônicas.
Em meio a revelações mundanas de alcova, intrigas e maquinações que ergueram mitos ou arruinaram carreiras, relatos dos conturbados bastidores de clássicos como O Poderoso Chefão, Chinatown e Taxi Driver, Biskind detalha como nasceu, brilhou e sucumbiu a geração - os chamados Moleques - que tentou cravar nas colinas de Hollywood o cinema autoral praticado pelo diretor onipotente, que varreria da sala de comando os antigos chefões dos estúdios que até então davam a palavra e a forma final aos filmes.
Biskind dismistifica alguns conceitos dessa turma liderada por um Coppola que é pintado ao mesmo como genial e truculento, visionário e irresponsável. O autor do livro destaca que nem todos da turma eram malucos-beleza loucos para pegar as então recentes câmeras portáteis e sair às ruas filmando o filme genial que, não raro, só existia em suas cabeças, turbinadas por pretensão e arrogância juvenis - e frequentemente embaralhadas pelo efeitos de drogas e litros de birita.
Entre eles, por exemplo, havia um Peter Bogdanovich, careta e cinéfilo de impressionante conhecimento enciclopédico, que realizou o marcante A Última Sessão de CInema reverenciando mestres do cinema americano como John Ford e Howard Hawks - diferentemente de colegas que só tinham olhos para Godard, Truffaut, Antonioni e Bergman.
Easy Riders, Raging Bulls (lançamento da editora Intrínseca, em duas capas diferentes e com tradução da jornalista Ana Maria Bahiana) faz referência aos dois filmes que, para o autor, representam a duração do último período de lampejo criativo do cinema americano: Sem Destino (1969), de Dennis Hopper, e Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese. Um, o projeto seminal que rompeu barreiras ao levar para as telas a cultura hippie que conquistava o mundo protestando contra a Guerra do Vietnã, ouvindo rock’n’roll e rompendo o cordão umbilical com a geração de seus pais. Outro, a obra-prima derradeira da chamada Nova Hollywood, que então se consumia pela combinação de vaidade, excesso de drogas e gastos desmedidos que levaram a maiorias de seus promissores realizadores à falência, ao anonimato ou de volta à porta dos grandes estúdios que combatiam e imaginavam derrotar.
Biskind mostra como caminhos que começaram em paralelo, movidos por camaradagem e mútua colaboração - que se impunham à rivalidade e à competição - se desmembraram em muitos outros, por vezes contraditórios - e com alguns rompimentos no curso - à medida que que esses diretores amadureciam e deparavam com questões mundanas de gente grande, como pagar as contas e sustentar uma família.
“Sem Destino”, a loucura que deu certo
Ninguém em Hollywood parecia louco o suficiente para colocar um dólar que fosse na mão de Peter Fonda e de Dennis Hopper, dois atores que representavam em tempo integral a geração sexo, drogas, encrenca e rock’n’roll. Ambos eram vistos como párias e motivo de chacota, maconheiros e bebuns condenados aos filmes B que protagonizavam. Peter era só o filho desengonçado do grande Henry Fonda e irmão da musa em ascensão Jane. Dennis, que se achava o herdeiro de James Dean, dava pinta de que em breve estaria morto, preso ou internado num
manicômio. Além da amizade, eles tinham um vago laço de parentesco – a companheira de Dennis à época era filha de uma ex-mulher de Henry Fonda.
Foi Peter, apaixonado por motos, quem bolou o vago argumento sobre dois motoqueiros cruzando os Estados Unidos, que viria a se tornar o marco da contracultura Sem Destino (1969). Dennis entrou de carona e, diante da insegurança do amigo em atuar e dirigir ao mesmo tempo – e pela falta de quem encarasse a bronca –, estreou com o diretor e colocou seu nome na história do cinema.
O produtor Bert Schneider foi o louco visionário – e endinheirado – que a dupla precisava encontrar. Certo de que era a hora de ver a efervescência da cultura paz e amor representada nas telas dos cinemas, e vendo que o risco de fracasso traria prejuízo mais à vaidade que ao bolso, Schneider, um entusiasta do cinema de autor europeu e defensor da ideia do diretor com poder total, bancou Sem Destino. Os US$ 340 mil investidos viraram milhões e fizeram do produtor o midas da Nova Hollywood.
O filme determinou o rompimento entre Peter e Dennis. A briga, que começou no caótico set, diante das diferentes concepções que tinham da história, prossegue ainda hoje pela paternidade autoral de Sem Destino. Peter, que assinou com produtor, acusa Dennis de ter se apropriado e ficado com os louros da criação "artística" de um projeto seu. Dennis, por sua vez, diz que, das concepções narrativas e estéticas - em que barbeiragens e erros técnicos viraram "marcas autorais" - à espetacular trilha sonora, é tudo ideia dele.
Na verdade, o longa deve muito à interferência de Terry Southern, que divide com eles os créditos pelo roteiro. Foi Southern deu liga às ideias descabeçadas e fragmentadas da dupla – e acrescentou outras fundamentais, como o sombrio desfecho com os cabeludos mortos a tiros por caipiras, quando os atores queriam um final épico, com os motoqueiros sumindo na estrada rumo ao poente. Deve muito também a Schneider, que - ao perceber que sua defesa do diretor-autor não funcionaria com um maluco paranoico - tirou Sem Destino de Dennis na montagem, quando este empacou numa versão com mais de três horas de duração e não tinha a menor ideia de quando finalizaria o filme
Quem se deu bem nessa saborosa história foi o coadjuvante Jack Nicholson, então um ator com reconhecido potencial, mas futuro incerto, que era companheiro dos excessos etílicos e químicos da turma. Grande amigo de Schneider, Nicholson iria acompanhar a produção como uma espécie de olheiro, com a missão principal de impedir que os protagonistas matassem um ao outro numa de suas muitas brigas. Entrou no elenco em cima do laço, substituindo um ator que pulou fora após ser ameaçado com um faca por Dennis, e saiu daquela roda de baseado em torno da fogueira onsagrado para um longo reinado em Hollywood.
“Touro Indomável”, o réquiem
Martin Scorsese resistiu um pouco mais que muitos de seu bons companheiros de geração, mas, quando se abraçou às drogas, pegou muito pesado. Ao decidir, enfim, realizar Touro Indomável (1980), antigo projeto que seu amigo e parceiro Robert De Niro havia lhe apresentado em 1974, Scorsese já era um consumidor compulsivo de cocaína. A combinação de pó, álcool e os medicamentos com que tratava sua asma crônica, somada às fragilidades física e emocional daquele instante de sua carreira, quase custaram a vida do diretor. Scorsese gostava de profetizar que iria morrer antes dos 40 anos – era a máxima da geração que queria eternizar a imagem do cadáver jovem e bem-sucedido. Scorsese sobreviveu a excessos como o de mandar buscar cocaína em Paris, de jatinho, ao ver seu estoque chegar ao fim em Cannes, quando apresentava no festival o documentário O Último Concerto de Rock (1978).
Touro Indomável foi o quarto dos oito longas que Scorsese fez com De Niro. Eles cresceram próximos um do outro em Nova York, conheceram-se adultos e viram que suas personalidades fortes se complementavam também no set. Scorsese, filho de alfaiate e criado numa casa sem livros, apreciava a formação cultural de De Niro, vindo de família classe média ligada às artes plásticas. O ator inveja em Scorsese a vivência nas ruas, vindas do flerte com a marginalidade que ele tão bem retratou em seus filmes - embora, destaca Biskind, o diretor, franzino e asmático, nunca tenha sido de se meter em confusão; pelo contrário, tinha por hábito se esconder quando a coisa esquentava.
Quando enfim topou tocar adiante a biografia do ex-pugilista Jake La Motta, Scorsese estava inseguro quanto a sua vida profissional - vinha do fracasso New York, New York (1977) e havia realizado O Último Concerto de Rock para exercitar sua paixão pelo rock e pela amizade que tinha com os músicos da The Band. Embora a fidelidade ao cinema autoral fosse uma opção, o diretor sentia não ter no currículo sucessos de bilheteria, como o que permitiu aos amigos Coppola (O Poderoso Chefão 1 e 2), Spielberg (Tubarão) e Lucas (Guerra nas Estrelas) tomarem as rédeas de suas carreiras – apenas por esse aspecto, deixava claro. A tensão e o desencanto de Scorsese naquele momento acabaram refletidos no filme, aclamado pela crítica mas um fracasso de público.
Embora tenha sido eleito o melhor filme de 1980, o longa, segundo Peter Biskind “é um filme dos anos 70, uma baleia encalhada na praia da nova década”. O autor destaca: “Touro Indomável era a coisa mais distante possível da papinha subserviente e mandatoriamente otimista produzida pela contrarrevolução cultural que se aproximava. Scorsese recusara-se a fazer concessões, tinha feito o anti-Rocky, dado uma banana para Star Wars, e pagaria por isso.”
Postado por Marcelo Perrone