(compilação publicada originalmente no Segundo Caderno de Zero Hora)
2009 foi o ano de um recorde de bilheterias no país (A Era do Gelo 3) e de um sucesso nacional histórico (Se Eu Fosse Você 2). Também foi, no entanto, mais um ano de bons filmes saindo direto em DVD ou sendo exibidos nos cinemas apenas em mostras especiais - para não falar do atraso na chegada de algumas produções a Porto Alegre, quando não no Brasil inteiro.
Foi, sobretudo, um ano com bons filmes para todos os gostos, das mais diversas procedências e propostas estéticas. Hollywood, por exemplo, além dos blockbusters tradicionais, produziu longas de caráter autoral de alta qualidade, de realizadores de idades e estilos tão diferentes quanto Clint Eastwood (Gran Torino) e Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios), James Gray (Amantes) e Michael Mann (Inimigos Públicos).
Do Oriente - embora a maior parte das cinematografias da região continuem alijadas dos cinemas brasileiros - vieram títulos notáveis de países mais tradicionais, como o Japão (A Partida, de Iôjirô Takita), e de lugares cuja produção nos é menos conhecida, como Taiwan (Desejo e Perigo, de Ang Lee).
Também não faltaram bons títulos latino-americanos e sobretudo europeus, principalmente aqueles vindos de países de presença tradicionalmente marcante no circuito local, como a Itália (Almoço em Agosto, de Gianni di Gregorio) e a França (Paris, de Cédric Klapisch). Foi do país da nouvelle vague, que nos últimos tempos vem retomando a consistência produtiva, que veio, por exemplo, uma das grandes notícias do ano no cinema: Entre os Muros da Escola.
Com sua estética semidocumental e sua contundência narrativa, o longa de Laurent Cantet conseguiu transcender o universo sempre restrito dos debates culturais e mobilizou a sociedade inteira a discutir uma das questões mais importantes do mundo contemporâneo: a educação. É daqueles casos em que, ser considerado um dos melhores filmes do ano, pura e simplesmente, parece pouco para suas qualidades.
Confira, a seguir, um resumo do que foi a temporada cinematográfica de 2009, com seus destaques mais diversos, elaborados pela equipe de cinema do Segundo Caderno de ZH.

OS 10 MELHORES
> Entre os Muros da Escola: Dirigido por Laurent Cantet, o drama francês se passa quase todo dentro da sala de aula – mas as discussões que provoca são universais e refletem a sociedade como um todo. Um dos “acontecimentos” cinematográficos do ano.
> Desejo e Perigo: Depois da consagração em Hollywood, o diretor Ang Lee voltou a Taiwan para filmar um drama arrebatador sobre uma jovem que, durante a invasão japonesa na China em meio à II Guerra, se debate entre a resistência política e a paixão por um colaboracionista.
> Bastardos Inglórios: Quentin Tarantino alterou até o desfecho da II Guerra ao narrar a história de impiedosos caçadores de nazistas. Além do doce sabor de vingança, premiou o espectador com sequências antológicas e uma sensação de raro prazer cinematográfico.
> Deixa Ela Entrar: Não deixa de ser irônico que, enquanto Crepúsculo virou fenômeno de público, o cinema sueco tenha brindado o público com um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos. O longa de Tomas Alfredson tem efeitos mínimos - e emoção máxima.
> Gran Torino: Retrato comovente da relação entre um veterano de guerra ranzinza e um jovem imigrante oriental nos EUA multiétnico e intolerante, o filme marcou o encerramento da carreira de Clint Eastwood como ator. Não podia ter sido em mais alto estilo.
> Valsa com Bashir: Animação e documentário, filme autobiográfico e memorialista, o longa do israelense Ari Folman é um exercício de denúncia dos horrores da guerra tocante e original. Correu o mundo chamando a atenção para a barbárie no conflito entre judeus e palestinos.
> O Lutador: Filme da volta por cima de Mickey Rourke, é resultado da combinação entre a entrega total do protagonista e a direção precisa de Darren Aronofsky. Consta que marmanjos de todos os tamanhos se derreteram com a história de Randy “The Ram” Robinson.
> Amantes: Filme da afirmação do diretor James Gray, traz Joaquin Phoenix em atuação extraordinária como um jovem dividido entre a segurança de um amor e os riscos de outro. Sua imaturidade e bipolaridade são representativas do americano contemporâneo.
> Os Falsários: A incrível jornada do maior falsificador de dinheiro do século 20, que viveu em Porto Alegre, é revelada em seus episódios mais ricos - quando foi colaboracionista na II Guerra - neste drama do austríaco Stefan Ruzowitzky. Uma das boas surpresas do ano.
> A Bela Junie: Um dos mais promissores cineastas franceses, Christophe Honoré volta a prestar tributo à nouvelle vague no filme que revelou a nova musa Léa Seydoux. Na trama de A Bela Junie, os conflitos adolescentes têm estofo dramático e alcance filosófico.

OS VOTOS INDIVIDUAIS
> Daniel Feix: Desejo e Perigo, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Inimigos Públicos, Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes e A Bela Junie.
> Marcelo Perrone: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, A Bela Junie, Entre os Muros da Escola, Gran Torino e O Lutador.
> Roger Lerina: Entre os Muros da Escola, Desejo e Perigo, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Bastardos Inglórios, Abraços Partidos, Foi Apenas um Sonho, Paris e Goodbye Solo.
> Ticiano Osório: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Leitor, Quem Quer Ser um Milionário? e Há Tanto Tempo que te Amo.

OS REIS DO BORDERÔ E DO BOCA A BOCA
> O aguardado Avatar estourou em 2010 e já é o segundo filme que mais arrecadou nos cinemas em todos os tempos, perdendo apenas para Titanic (1997), também dirigido por James Cameron. Em 2009, fechou o ano como o quinto filme que mais levou gente às salas em sua primeira semana em exibição. O título nesta categoria ficou com Lua Nova, seguido de A Era do Gelo 3, Harry Potter e o Enigma do Príncipe e 2012. Foi a animação dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha que fechou o ano como o campeão de bilheterias no país - A Era do Gelo 3 foi visto por nada menos que 9,2 milhões de espectadores, número recorde na história do Brasil.
> Enquanto isso, os recordes de permanência nos cinemas ficaram com dois dos melhores filmes lançados este ano na Capital - e que só alcançaram este posto graças à propaganda boca a boca: o francês Paris, de Cédric Klapisch, e o japonês A Partida, de Iôjirô Takita. O primeiro esteve em cartaz durante 24 semanas no Guion Center, onde foi visto por mais de 8,8 mil pessoas - o total de público mobilizado pelo longa de Klapisch no Brasil inteiro não chegou a 60 mil.
O ASSUNTO DO ANO
> Não é de hoje que o tema dos imigrantes vem se sobressaindo na - boa – produção contemporânea. Em 2009, a coleção de bons filmes que abordou o assunto é ainda maior. Pelo menos três destaques do ano versam sobre a inadequação e a intolerância étnica, subtemas intimamente ligados à globalização e, consequentemente, à imigração.
O drama francês Bem-Vindo, de Phillipe Lioret, e as produções independentes norte-americanas O Visitante, de Thomas McCarthy, e Goodbye Solo, do diretor de origem iraniana Ramin Bahrani, todos premiados no circuito de festivais, abordam o assunto de jeitos peculiares. Enquanto o primeiro chama a atenção para a rigidez da legislação francesa para com aqueles que ajudam imigrantes ilegais, os outros tratam de maneira delicada os laços de amizade que surgem entre pessoas de origens e concepções de mundo às vezes completamente opostas.
Nada a ver com o tema, mas também reflexo de uma produção cuja marca é a diversidade, outros títulos interessantes de 2009 vieram dos mais diferentes países, a exemplo de Tony Manero (Chile), Polícia, Adjetivo (Romênia), Gigante (Uruguai), A Teta Assustada (Peru) e Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal).

OS MELHORES DAS MOSTRAS ESPECIAIS
> Enquanto os blockbusters tomam cada vez mais conta das salas do circuito tradicional de exibição, os espaços que sobram para a produção de caráter mais autoral são cada vez mais restritos. Não são poucos os filmes que poderiam, tranquilamente, estar entre as unanimidades do ano - se tivessem conseguido entrar em meio a esse mercado restrito.
Fome, primeiro longa do videomaker e artista visual britânico Steve McQueen, e 3 Macacos, produção turca dirigida por Nuri Bilge Ceylan, são dois exemplos. O primeiro, apesar da enorme coleção de prêmios que angariou pelo mundo todo (no Festival de Cannes, no Bafta e no European Film Awards, entre outros), só foi exibido na mostra especial em comemoração aos 10 anos da Sala P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro.
3 Macacos até teve mais sessões, mas também ficou longe de ganhar um espacinho no circuito: o longa de Ceylan, um dos cineastas turcos de maior projeção no cenário contemporâneo, foi um dos grandes destaques do Festival de Verão, em março, tendo sido exibido em duas salas de shopping da Capital.

OS MAIS POLÊMICOS
> A temporada começou com a estreia de um dos vencedores do Oscar que mais dividiram a crítica e, antes de chegar ao fim, viu pelo menos outros dois filmes serem recebidos com um misto de elogios rasgados e pauladas impiedosas.
Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, foi saudado pelo seu caráter lúdico e lírico, mas, ao mesmo tempo, foi comparado a algo que começava como Cidade de Deus e terminava como Caminho das Índias - ou seja, ia da invenção formal ao novelão tradicional.
Celeuma ainda maior veio com o drama de Lars Von Trier Anticristo, que acompanha o desvairado luto de um casal que acaba de perder o filho. Já no seu lançamento, em maio, no Festival de Cannes, causou escândalo, sendo acusado de gratuito, misógino e falsamente profundo. Parte dos críticos saiu no meio da sessão, e houve quem, no final, preferisse a vaia. Mas também apareceu quem o apontasse como uma obra-prima de rara intensidade.
Em outro nível, Brüno, sobre um repórter austríaco gay, dedicado à cobertura de moda, também inflamou polêmica. Muita gente se divertiu com o filme, mas houve que dissesse que, desta vez, o diretor inglês Sacha Baron Cohen, o mesmo de Borat, avançara além da conta.

OS LONGAS QUE NÃO PASSARAM NO CINEMA
> Se Fome e 3 Macacos ainda ganharam sessões especiais, houve filmes que, apesar de sua qualidade, só puderam ser vistos pelo porto-alegrense no DVD. Sem lugar no circuito, diversos longas que igualmente poderiam estar entre as unanimidades do ano só não estão por conta das restrições de espaços - ou da desatenção dos distribuidores nacionais.
A situação que mais chama a atenção é a de Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow, que foi disponibilizado há meses nas locadoras mas que, diante do favoritismo assumido em premiações como o próprio Oscar, terá um lançamento tardio - em fevereiro - nos cinemas brasileiros.
Mas há outros casos ainda mais notáveis - de filmes ainda melhores. Entre eles, o belíssimo drama belga O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne, também um filme sobre a inadequação dos imigrantes no mundo contemporâneo, e os documentários norte-americanos Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney, e O Equilibrista, de James Marsch, ambos vencedores do Oscar em 2008 e 2009.

O ANO DELAS
> A temporada também foi delas. Kate Winslet ganhou o Oscar e esteve nos muito interessantes O Leitor, de Stephen Daldry, e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes. A inglesa radicada na França Kristin Scott Thomas estrelou Partir, de Catherine Corsini, e Há Tanto Tempo que te Amo, de Philippe Claudel. Já Penélope Cruz, entre os trabalhos com Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona) e Rob Marshall (Nine) protagonizou mais um belo filme de Pedro Almodóvar, Abraços Partidos, outro dos destaques de 2009.

OS MELHORES BRASILEIROS
> 2009 foi um ano atípico para o cinema brasileiro. Tudo por conta da Se Eu Fosse Você 2. O longa de Daniel Filho estreou no primeiro fim de semana da temporada e levou inacreditáveis 6,093 milhões de espectadores aos cinemas, ganhando o segundo posto entre os filmes mais vistos no país - atrás só de A Era do Gelo 3.
Mais que isso, fez a terceira maior bilheteria de um filme brasileiro em todos os tempos, anunciando uma fase de consagração das comédias populares. Não à toa, dois outros exemplares do gênero ficaram respectivamente com o segundo e o terceiro lugares entre os brasileiros mais vistos do ano: A Mulher Invisível, de Cláudio Torres, e Divã, de José Alvarenga Jr.
Mas os melhores filmes nacionais do ano foram outros. Foram alguns dos títulos representativos da onda de documentários musicais em curso no país (Loki - Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle, Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal) e dramas de realizadores experientes (A Erva do Rato, de Júlio Bressane) ou novatos na direção (A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele). Se Nada Mais Der Certo, que afirmou o diretor José Eduardo Belmonte entre os melhores de sua geração, também está entre os destaques da temporada.
