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Posts de janeiro 2010

Jason Reitman e os jornalistas

25 de janeiro de 2010 0

Jornalistas que participavam das entrevistas de lançamento de Up in The Air (aqui com o bobinho título Amor sem Escalas) mundo afora estranhavam quando o diretor Jason Reitman sacava seu celular e começava a fotografá-los. Aos curiosos diante da cena inusitada - afinal, quando é o contrário assessores dos astros costumam intervir para frear jornalistas-tietes -, Reitman explicava que fazia um registro pessoal das maratonas de imprensa, que ninguém era obrigado a posar, etc. Mas a maioria parece ter topado na boa, em que pese o cuidado que se tem lá fora com direitos de imagem e quetais jurídicos.

O resultado está no divertido vídeo abaixo, embalado pelo eternamente ótimo The Clash, com Janie Jones:

Lost In The Air: The Jason Reitman Press Tour Simulator from Jason Reitman on Vimeo.

Grandes momentos do cinema - Eric Rohmer (1920-2010)

13 de janeiro de 2010 2

Rápida e modesta homenagem a um dos grandes do cinema francês contemporâneo (pós-nouvelle vague), vai abaixo um extrato de Amor à Tarde, filme que Eric Rohmer lançou em 1972, logo após o festejado O Joelho de Claire (1970).

Rohmer morreu esta semana, aos 89 anos, deixando uma obra significativa, composta por filmes em sua maioria dedicados a investigar os paradoxos das relações amorosas e invariavelmente divididos em séries como a dos Seis Contos Morais ou a dos Contos das Quatro Estações. Esta última, composta por quatro longas-metragens, cada um com o nome de uma estação do ano, foi exibida integralmente em Porto Alegre num ciclo da Sala P.F. Gastal na virada dos anos 1990 para os 2000 - se minha memória de cinéfilo não estiver me traindo.

No total, foram 24 longas, entre os quais Minha Noite com Ela (1969) e O Raio Verde (1985), homenagem a Julio Verne que lhe rendeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, maior prêmio de toda a sua carreira.

Amor à Tarde, último de seus Seis Contos Morais, como você pode ver abaixo, vê com uma fina e significativa ironia as inquietações masculinas em relação ao desejo - e à fantasia de possuir todas as mulheres possíveis. O pequeno burguês insaciável e um tanto ridículo é interpretado por Bernard Verley. O trechinho tem legendas em inglês e também em espanhol.

Depois, na sequência, vai também uma compilação de todos os filmes de Rohmer disponíveis em DVD no Brasil (lançados pela distribuidora Europa).

Rohmer em DVD no país:

O Signo de Leão (1959)
A Padeira do Bairro (1963)
A Carreira de Suzanne (1963)
A Colecionadora (1967)
Minha Noite com Ela (1969)
O Joelho de Claire (1970)
Amor à Tarde (1972)
A Marquesa D'O (1976)
A Mulher do Aviador (1981)
O Casamento Perfeito (1982)
Pauline na Praia (1983)
Noites de Lua Cheia (1984)
O Raio Verde (1986)
As Quatro Aventuras de Reinette e Mirabelle (1987)
O Amigo de Minha Amiga (1987)
Conto de Primavera (1990)
Conto de Inverno (1992)
Conto de Verão (1996)
Conto de Outono (1998)
A Inglesa e o Duque (2001)
Os Amores de Astrée e Céladon (2007)

Os destaques de 2009

08 de janeiro de 2010 3

(compilação publicada originalmente no Segundo Caderno de Zero Hora)

2009 foi o ano de um recorde de bilheterias no país (A Era do Gelo 3) e de um sucesso nacional histórico (Se Eu Fosse Você 2). Também foi, no entanto, mais um ano de bons filmes saindo direto em DVD ou sendo exibidos nos cinemas apenas em mostras especiais - para não falar do atraso na chegada de algumas produções a Porto Alegre, quando não no Brasil inteiro.

Foi, sobretudo, um ano com bons filmes para todos os gostos, das mais diversas procedências e propostas estéticas. Hollywood, por exemplo, além dos blockbusters tradicionais, produziu longas de caráter autoral de alta qualidade, de realizadores de idades e estilos tão diferentes quanto Clint Eastwood (Gran Torino) e Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios), James Gray (Amantes) e Michael Mann (Inimigos Públicos).

Do Oriente - embora a maior parte das cinematografias da região continuem alijadas dos cinemas brasileiros - vieram títulos notáveis de países mais tradicionais, como o Japão (A Partida, de Iôjirô Takita), e de lugares cuja produção nos é menos conhecida, como Taiwan (Desejo e Perigo, de Ang Lee).

Também não faltaram bons títulos latino-americanos e sobretudo europeus, principalmente aqueles vindos de países de presença tradicionalmente marcante no circuito local, como a Itália (Almoço em Agosto, de Gianni di Gregorio) e a França (Paris, de Cédric Klapisch). Foi do país da nouvelle vague, que nos últimos tempos vem retomando a consistência produtiva, que veio, por exemplo, uma das grandes notícias do ano no cinema: Entre os Muros da Escola.

Com sua estética semidocumental e sua contundência narrativa, o longa de Laurent Cantet conseguiu transcender o universo sempre restrito dos debates culturais e mobilizou a sociedade inteira a discutir uma das questões mais importantes do mundo contemporâneo: a educação. É daqueles casos em que, ser considerado um dos melhores filmes do ano, pura e simplesmente, parece pouco para suas qualidades.

Confira, a seguir, um resumo do que foi a temporada cinematográfica de 2009, com seus destaques mais diversos, elaborados pela equipe de cinema do Segundo Caderno de ZH.

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, França

OS 10 MELHORES

> Entre os Muros da Escola: Dirigido por Laurent Cantet, o drama francês se passa quase todo dentro da sala de aula – mas as discussões que provoca são universais e refletem a sociedade como um todo. Um dos “acontecimentos” cinematográficos do ano.

> Desejo e Perigo: Depois da consagração em Hollywood, o diretor Ang Lee voltou a Taiwan para filmar um drama arrebatador sobre uma jovem que, durante a invasão japonesa na China em meio à II Guerra, se debate entre a resistência política e a paixão por um colaboracionista.

> Bastardos Inglórios: Quentin Tarantino alterou até o desfecho da II Guerra ao narrar a história de impiedosos caçadores de nazistas. Além do doce sabor de vingança, premiou o espectador com sequências antológicas e uma sensação de raro prazer cinematográfico.

> Deixa Ela Entrar: Não deixa de ser irônico que, enquanto Crepúsculo virou fenômeno de público, o cinema sueco tenha brindado o público com um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos. O longa de Tomas Alfredson tem efeitos mínimos - e emoção máxima.

> Gran Torino: Retrato comovente da relação entre um veterano de guerra ranzinza e um jovem imigrante oriental nos EUA multiétnico e intolerante, o filme marcou o encerramento da carreira de Clint Eastwood como ator. Não podia ter sido em mais alto estilo.

> Valsa com Bashir: Animação e documentário, filme autobiográfico e memorialista, o longa do israelense Ari Folman é um exercício de denúncia dos horrores da guerra tocante e original. Correu o mundo chamando a atenção para a barbárie no conflito entre judeus e palestinos.

> O Lutador: Filme da volta por cima de Mickey Rourke, é resultado da combinação entre a entrega total do protagonista e a direção precisa de Darren Aronofsky. Consta que marmanjos de todos os tamanhos se derreteram com a história de Randy “The Ram” Robinson.

> Amantes: Filme da afirmação do diretor James Gray, traz Joaquin Phoenix em atuação extraordinária como um jovem dividido entre a segurança de um amor e os riscos de outro. Sua imaturidade e bipolaridade são representativas do americano contemporâneo.

> Os Falsários: A incrível jornada do maior falsificador de dinheiro do século 20, que viveu em Porto Alegre, é revelada em seus episódios mais ricos - quando foi colaboracionista na II Guerra - neste drama do austríaco Stefan Ruzowitzky. Uma das boas surpresas do ano.

> A Bela Junie: Um dos mais promissores cineastas franceses, Christophe Honoré volta a prestar tributo à nouvelle vague no filme que revelou a nova musa Léa Seydoux. Na trama de A Bela Junie, os conflitos adolescentes têm estofo dramático e alcance filosófico.

Desejo e Perigo, de Ang Lee, Taiwan

OS VOTOS INDIVIDUAIS

> Daniel Feix: Desejo e Perigo, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Inimigos Públicos, Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes e A Bela Junie.

> Marcelo Perrone: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Amantes, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, A Bela Junie, Entre os Muros da Escola, Gran Torino e O Lutador.

> Roger Lerina: Entre os Muros da Escola, Desejo e Perigo, Gran Torino, O Lutador, Valsa com Bashir, Bastardos Inglórios, Abraços Partidos, Foi Apenas um Sonho, Paris e Goodbye Solo.

> Ticiano Osório: Deixa Ela Entrar, Bastardos Inglórios, Desejo e Perigo, A Partida, Os Falsários, Entre os Muros da Escola, Gran Torino, O Leitor, Quem Quer Ser um Milionário? e Há Tanto Tempo que te Amo.

Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson, Suécia

OS REIS DO BORDERÔ E DO BOCA A BOCA

> O aguardado Avatar estourou em 2010 e já é o segundo filme que mais arrecadou nos cinemas em todos os tempos, perdendo apenas para Titanic (1997), também dirigido por James Cameron. Em 2009, fechou o ano como o quinto filme que mais levou gente às salas em sua primeira semana em exibição. O título nesta categoria ficou com Lua Nova, seguido de A Era do Gelo 3, Harry Potter e o Enigma do Príncipe e 2012. Foi a animação dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha que fechou o ano como o campeão de bilheterias no país - A Era do Gelo 3 foi visto por nada menos que 9,2 milhões de espectadores, número recorde na história do Brasil.

> Enquanto isso, os recordes de permanência nos cinemas ficaram com dois dos melhores filmes lançados este ano na Capital - e que só alcançaram este posto graças à propaganda boca a boca: o francês Paris, de Cédric Klapisch, e o japonês A Partida, de Iôjirô Takita. O primeiro esteve em cartaz durante 24 semanas no Guion Center, onde foi visto por mais de 8,8 mil pessoas - o total de público mobilizado pelo longa de Klapisch no Brasil inteiro não chegou a 60 mil.

Paris, de Cédric Klapisch, França

O ASSUNTO DO ANO

> Não é de hoje que o tema dos imigrantes vem se sobressaindo na - boa – produção contemporânea. Em 2009, a coleção de bons filmes que abordou o assunto é ainda maior. Pelo menos três destaques do ano versam sobre a inadequação e a intolerância étnica, subtemas intimamente ligados à globalização e, consequentemente, à imigração.

O drama francês Bem-Vindo, de Phillipe Lioret, e as produções independentes norte-americanas O Visitante, de Thomas McCarthy, e Goodbye Solo, do diretor de origem iraniana Ramin Bahrani, todos premiados no circuito de festivais, abordam o assunto de jeitos peculiares. Enquanto o primeiro chama a atenção para a rigidez da legislação francesa para com aqueles que ajudam imigrantes ilegais, os outros tratam de maneira delicada os laços de amizade que surgem entre pessoas de origens e concepções de mundo às vezes completamente opostas.

Nada a ver com o tema, mas também reflexo de uma produção cuja marca é a diversidade, outros títulos interessantes de 2009 vieram dos mais diferentes países, a exemplo de Tony Manero (Chile), Polícia, Adjetivo (Romênia), Gigante (Uruguai), A Teta Assustada (Peru) e Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal).

Goodbye Solo, de Ramin Bahrani, EUA

OS MELHORES DAS MOSTRAS ESPECIAIS

> Enquanto os blockbusters tomam cada vez mais conta das salas do circuito tradicional de exibição, os espaços que sobram para a produção de caráter mais autoral são cada vez mais restritos. Não são poucos os filmes que poderiam, tranquilamente, estar entre as unanimidades do ano - se tivessem conseguido entrar em meio a esse mercado restrito.

Fome, primeiro longa do videomaker e artista visual britânico Steve McQueen, e 3 Macacos, produção turca dirigida por Nuri Bilge Ceylan, são dois exemplos. O primeiro, apesar da enorme coleção de prêmios que angariou pelo mundo todo (no Festival de Cannes, no Bafta e no European Film Awards, entre outros), só foi exibido na mostra especial em comemoração aos 10 anos da Sala P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro.

3 Macacos até teve mais sessões, mas também ficou longe de ganhar um espacinho no circuito: o longa de Ceylan, um dos cineastas turcos de maior projeção no cenário contemporâneo, foi um dos grandes destaques do Festival de Verão, em março, tendo sido exibido em duas salas de shopping da Capital.

3 Macacos, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia

OS MAIS POLÊMICOS

> A temporada começou com a estreia de um dos vencedores do Oscar que mais dividiram a crítica e, antes de chegar ao fim, viu pelo menos outros dois filmes serem recebidos com um misto de elogios rasgados e pauladas impiedosas.

Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle, foi saudado pelo seu caráter lúdico e lírico, mas, ao mesmo tempo, foi comparado a algo que começava como Cidade de Deus e terminava como Caminho das Índias - ou seja, ia da invenção formal ao novelão tradicional.

Celeuma ainda maior veio com o drama de Lars Von Trier Anticristo, que acompanha o desvairado luto de um casal que acaba de perder o filho. Já no seu lançamento, em maio, no Festival de Cannes, causou escândalo, sendo acusado de gratuito, misógino e falsamente profundo. Parte dos críticos saiu no meio da sessão, e houve quem, no final, preferisse a vaia. Mas também apareceu quem o apontasse como uma obra-prima de rara intensidade.

Em outro nível, Brüno, sobre um repórter austríaco gay, dedicado à cobertura de moda, também inflamou polêmica. Muita gente se divertiu com o filme, mas houve que dissesse que, desta vez, o diretor inglês Sacha Baron Cohen, o mesmo de Borat, avançara além da conta.

Anticristo, de Lars Von Trier, Dinamarca

OS LONGAS QUE NÃO PASSARAM NO CINEMA

> Se Fome e 3 Macacos ainda ganharam sessões especiais, houve filmes que, apesar de sua qualidade, só puderam ser vistos pelo porto-alegrense no DVD. Sem lugar no circuito, diversos longas que igualmente poderiam estar entre as unanimidades do ano só não estão por conta das restrições de espaços - ou da desatenção dos distribuidores nacionais.

A situação que mais chama a atenção é a de Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow, que foi disponibilizado há meses nas locadoras mas que, diante do favoritismo assumido em premiações como o próprio Oscar, terá um lançamento tardio - em fevereiro - nos cinemas brasileiros.

Mas há outros casos ainda mais notáveis - de filmes ainda melhores. Entre eles, o belíssimo drama belga O Silêncio de Lorna, dos irmãos Dardenne, também um filme sobre a inadequação dos imigrantes no mundo contemporâneo, e os documentários norte-americanos Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney, e O Equilibrista, de James Marsch, ambos vencedores do Oscar em 2008 e 2009.

O Silêncio de Lorna, de Jean-Luc e Pierre Dardenne, Bélgica

O ANO DELAS

> A temporada também foi delas. Kate Winslet ganhou o Oscar e esteve nos muito interessantes O Leitor, de Stephen Daldry, e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes. A inglesa radicada na França Kristin Scott Thomas estrelou Partir, de Catherine Corsini, e Há Tanto Tempo que te Amo, de Philippe Claudel. Já Penélope Cruz, entre os trabalhos com Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona) e Rob Marshall (Nine) protagonizou mais um belo filme de Pedro Almodóvar, Abraços Partidos, outro dos destaques de 2009.

Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, EUA

OS MELHORES BRASILEIROS

> 2009 foi um ano atípico para o cinema brasileiro. Tudo por conta da Se Eu Fosse Você 2. O longa de Daniel Filho estreou no primeiro fim de semana da temporada e levou inacreditáveis 6,093 milhões de espectadores aos cinemas, ganhando o segundo posto entre os filmes mais vistos no país - atrás só de A Era do Gelo 3.

Mais que isso, fez a terceira maior bilheteria de um filme brasileiro em todos os tempos, anunciando uma fase de consagração das comédias populares. Não à toa, dois outros exemplares do gênero ficaram respectivamente com o segundo e o terceiro lugares entre os brasileiros mais vistos do ano: A Mulher Invisível, de Cláudio Torres, e Divã, de José Alvarenga Jr.

Mas os melhores filmes nacionais do ano foram outros. Foram alguns dos títulos representativos da onda de documentários musicais em curso no país (Loki - Arnaldo Batista, de Paulo Henrique Fontenelle, Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal) e dramas de realizadores experientes (A Erva do Rato, de Júlio Bressane) ou novatos na direção (A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele). Se Nada Mais Der Certo, que afirmou o diretor José Eduardo Belmonte entre os melhores de sua geração, também está entre os destaques da temporada.

A Era do Gelo 3, de Carlos Saldanha, EUA

Carrasco de terno e gravata

07 de janeiro de 2010 1

Henning Boilesen simbolizou o apoio do empresariado brasileiro à repressão militar

Até tombar metralhado numa calçada da capital paulista, em 15 de abril de 1971, o dinamarquês Henning Albert Boilesen ostentava uma imagem pública acima de qualquer suspeita. Líder empresarial bonachão e falastrão, representava a imagem do empreendedor estrangeiro visionário seduzido pela combinação de calor, beleza, lascívia e perspectivas comerciais do então país do futuro.
Mas a figura que emerge no documentário Cidadão Boilesen é a que se movia nas sombras da ditadura militar, capitaneando uma ainda hoje polêmica e nebulosa vaquinha entre poderosos endinheirados do mundo civil para financiar a repressão aos opositores do regime.

Apresentado em uma sessão especial na Capital em outubro passado, Cidadão Boilesen entra em cartaz nesta sexta-feira, no CineBancários e no Instituto NT. É um programa mais que recomendável para quem se interessa pela história do Brasil e por bom cinema. Eleito melhor filme brasileiro da edição 2009 do É Tudo Verdade, o mais importante festival de documentários da América Latina, e ganhador do prêmio de melhor documentário nacional concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Cidadão Boilesen é o resultado de 16 anos de trabalho do jornalista e cineasta fluminense Chaim Litewski (veja entrevista abaixo).

Boilesen, naturalizado brasileiro por conta de seu casamento, chamou a atenção do diretor quando foi tema de uma reportagem de TV, em 1968. Intrigado pela desenvoltura de empresário, então presidente do poderoso grupo Ultra (de empresas como a Ultragaz), no ambiente militar, Litewski passou a investigar Boilesen a partir do assassinato deste, em 1971. Em 1993, optou por realizar o documentário.
Garimpando arquivos particulares e oficiais e coletando depoimentos em diferente países, o realizador costurou um farto e contundente material que revela, sobretudo, o aspecto mais monstruoso do executivo, desenhado ainda em sua infância na Dinamarca. Anticomunista ferrenho, Boilesen não só articulava a caixinha para financiar a Operação Bandeirante (Oban) - a grande ação paramilitar que perseguiu, prendeu e assassinou opositores do governo em São Paulo - como  tinha o prazer sádico de assistir a sessões de tortura nos calabouços.

Muita coisa mostrada no filme vem à tona pela primeira vez. Entre os entrevistados está o ex-guerrilheiro Eugênio da Paz, responsável pelo tiro de misericórdia em Boilesen. O "outro lado" está representado por personagens como Brilhante Ustra e Erasmo Dias (morto na última segunda-feira), coronéis que simbolizaram a imagem de cães de guarda do regime, e do filho brasileiro de Boilesen. Estes sublinham a imagem do empreendedor visionário, do filantropo injustiçado que, por conveniência, serviu de bode expiatório para que gente bem mais poderosa e influente do que ele permanecesse nas sombras.


Nascido em Nilópolis, Rio de Janeiro, há 55 anos, Chaim Litewski vive há quase 20 em Nova York, onde chefia o departamento de televisão da ONU. Jornalista, fez graduação e pós-graduação na Westminster University/Polytechnic of Central London, na Inglaterra, onde especializou-se em cinema. Por muitos anos viajou pelo mundo realizando documentários e reportagens sobre conflitos, emergências humanitárias e meio ambiente. Na entrevista a Zero Hora, concedida por e-mail, Litewski fala sobre a realização de Cidadão Boilesen.

Zero Hora - Embora fantástica, a história e a trajetória do Boilesen são pouco conhecidas dentro do inventário que se costuma fazer do período da repressão militar no Brasil. Como você chegou a ele e qual foi o ponto de partida para realizar o documentário?
Chaim Litewski -
Eu acho que a primeira vez que vi o Boilesen foi em 1968 numa reportagem, possivelmente na TV Tupi. No mínimo achei estranho que o presidente de uma firma importante como a Ultragaz estivesse diretamente associado aos militares, de uma maneira tão clara. Em abril de 1971, após o assassinato do Boilesen, me lembro perfeitamente de guardar os obituários, já com o intuito de, no futuro, escrever alguma coisa a respeito dele, pois nessa altura já se falava sobre uma ligação entre empresários e o aparelho repressivo da ditadura. Soube, através de amigos, que em 1977 saiu um livro sobre o Boilesen na Dinamarca - Likvider Boilesen, de Henrik Kruger, entrevistado no filme - até que, eventualmente, em fins de 1993, decidi fazer um documentário sobre o Boilesen.

ZH - Sobre o financiamento do empresariado à repressão, um dos entrevistados diz que muita coisa foi convenientemente varrida para baixo do tapete. Presumo que isso se deve ao fato de muitos desses financiadores, ou suas empresas, serem nomes conhecidos ainda em atividade. Alguma dessas revelações o surpreendeu ou até mesmo chocou?
Litewski  -
Como você, presumo que a razão pela qual esse tema continua sendo "tabu" se deve ao fato de que muitas das empresas continuam em atividade. Quanto a tua pergunta, não. Nenhuma revelação me chocou ou me surpreendeu muito.

ZH -  Sem esse apoio financeiro você acredita que a Oban seria realizada de qualquer forma?
Litewski -
Não tenho a menor dúvida de que, com ou sem a ajuda de empresários, a Operação Bandeirante teria sido realizada. A participação de empresários foi prática e simbólica ao mesmo tempo. Serviu para estreitar ainda mais as relações entre o governo militar e a classe empresarial que, obviamente, já existiam bem antes. Não esqueça que os empresários participaram ativamente do golpe militar em 1964.

ZH - Pelo que você apurou, houve financiamento semelhante em outros Estados ou essa foi uma relação criada pontualmente em São Paulo?
Litewski -
Aparentemente o apoio de empresários a repressão política ocorreu em outros estados. Ouvi historias sobre contribuições de empresários cariocas mas nunca tive acesso a provas concretas.

ZH - José Mindlin e Antônio Ermírio de Moraes são citados como exemplos de empresários que se recusaram a financiar a Oban. Foram os únicos ou apenas os mais representativos? 
Litewski -
Mindlin e Ermírio de Moraes são os mais citados. Mas certamente devem ter havidos muitos outros que se recusaram a contribuir. Ouvi dizer que o empresário do setor elétrico Kurt Rudolf Mirow, autor do livro A Ditadura dos Cartéis, também teria se recusado a contribuir, mas não tenho certeza.

ZH _ Quanto tempo você levou para reunir o farto material de arquivo que costura o filme e quais foram as maiores dificuldades nessa garimpagem?
Litewski -
O documentário foi feito episodicamente, num período de, aproximadamente, 16 anos. Estabeleci contato com vários tipos de arquivo em varias países. Esses arquivos - de documentos oficiais, fotos, filmes e vários outros - entenderam o tipo de projeto que estava realizando e, de maneira geral, ajudaram muitíssimo, facilitando acesso e busca de material relevante. Tenho certa experiência nesse tipo de trabalho. O problema de qualquer pesquisador é saber quando terminar a pesquisa. No meu caso acabou virando uma espécie de hobby. "Colecionava" informações sobre o período pesquisado. O maior problema foi ter acesso a documentos oficiais. Quando recebi o material do SNI sobre o Boilesen, me dei por satisfeito e pus um ponto final nas pesquisas.

ZH - O documentário também reúne vários entrevistados que ajudam a construir a imagem do Boilesen, grosso modo, entre santo e demônio.
Você buscou um equilíbrio entre as versões contraditórias sobre o personagem?
Litewski -
Absolutamente. Sempre achei fundamental que o documentário fosse um leque - ou colcha de retalhos - e que todos que, de alguma forma, tiveram alguma relação direta ou indireta com o personagem pudessem se manifestar. Minha opinião pessoal é que ninguém é de todo ruim ou bom. O Boilesen fez coisas positivas e negativas, como todos nos. Ele certamente gostava de coisas que muita gente dita "legal" gosta - futebol, amor, musica e bebida. Fez muita filantropia, ajudou estudantes e funcionários da Ultra. Mas ele era um sujeito violento, sem dúvida. E foi tremendamente anticomunista. Eu acho que ele tinha essa coisa de Jekyll e Hyde, essa enorme dualidade que fez dele um sujeito tão interessante. Como diz o Per Johns no documentário, ele é um verdadeiro ser ficcional pois carrega em si todas as contradições humanas...

ZH - Quais foram seus critérios na escolha dos entrevistados? Com quais deles foi mais complicada a negociação?
Litewski -
A maneira de como eu me aproximava dos possíveis entrevistados sempre foi a mesma, independentemente com quem eu falava. Sempre falei a verdade, que gostaria de realizar um documentário "multifacetário" sobre Boilesen e o surgimento da Operação Bandeirante. Que era um documentário 100 % bancado por mim, sem nenhuma ligação com meios de comunicação ou qualquer outra instituição, privada ou governamental. Fui muitíssimo bem recebido por todas as pessoas que quiseram conversar comigo. As pessoas falaram sobre o que quiseram. Muitas vezes diziam não saber sobre assuntos específicos. Tive, obviamente, que respeitar.  Sempre adiantei, em termos gerais, qual seriam os temas que iriam ser discutidos nas entrevistas. O único entrevistado que pediu as perguntas antecipadas foi o coronel Brilhante Ustra. Em vista da importância do depoimento dele para o filme não tive o menor problema em relação ao seu pedido. O critério foi que cada pessoa entrevistada deveria contribuir de alguma forma para um maior entendimento do personagem central e do período histórico retratado. Em alguns casos a negociação foi longa e complexa. Em outros casos foi bem mais simples. Obviamente muitos se recusaram a falar. Outros falaram em "off". Ao final, conseguimos gravar umas 50 ou 60 entrevistas.

ZH -  Como foi a negociação com o filho do Boilesen? Ele impôs alguma condição específica para participar do filme?
Litewski -
Ninguém impôs nenhuma condição na participação do documentário. A negociação com o filho do Henning Boilesen foi bastante longa, talvez tenha demorado dois ou três anos para que ele finalmente concordasse participar do documentário. Dissemos para ele as mesmas coisas que dissemos para as outras pessoas. Tudo foi feito de uma maneira clara e transparente.

ZH - Você procura dar voz ao contraditório, mas logicamente a figura que toma a maior dimensão no filme é do Boilesen dissimulado e sádico. Você tentou, na medida em que isso fosse possível nesse caso, deixar o julgamento do Boilesen a cargo do espectador?
Litewski -
Essa contradição que você se refere me atraiu muito e foi uma das principais razoes em realizar o documentário. Essas dicotomias ficcionais clássicas, bem/mal, amor/ódio, sempre garantem que haverá conflito e drama - elementos fundamentais numa "boa história". Na literatura, um dos principais exemplos disso é sem duvida, Jekyll e Hyde de Robert Louis Stevenson. Essa dicotomia faz com que a historia pessoal de Boilesen se torne ainda mais fascinante. Mas ao final cabe o espectador decidir.

ZH -_ Você foi até a Dinamarca investigar o passado do Boilesen, revelando inclusive que ele foi uma criança que sentia prazer em ver colegas de escola castigados. Isso enriquece a perfil sobremaneira. Foi um opção sua desde o começo do projeto, dado que, imagino, isso tenha provocado um significativo aumento no orçamento da produção?
Litewski -
Eu acho muito importante a parte do documentário que fala sobre a infância de Boilesen. Eu contratei um jornalista bastante conhecido na Dinamarca, Ojvind Kyro, que me ajudou na pesquisa e produção em Copenhague. Outro jornalista dinamarquês, Niels von Kohl, também me ajudou bastante. Realmente a nota escrita por um professor de Boilesen no seu cartão escolar - sobre o fato de que ele aparentava sentir um certo prazer em ver outros meninos da sua escola sendo punidos - foi surpreendente tanto para mim como para as pessoas que trabalham no Arquivo Municipal de Frederiksberg. Mas eu acho que não se pode julgar nenhum ser humano somente por uma nota num cartão escolar. Somos seres muito complexos, todos nos. Em relações aos custos da filmagem na Dinamarca: foram altos porque Dinamarca é um pais caro.

ZH - Você acredita que o Boilesen, por ser estrangeiro, possa ter tido um bode expiatório conveniente para simbolizar essa parceria entre os empresários e a repressão, como sugerem alguns de seus defensores? Existiriam "Boilesens" nacionais com papel tão relevante como o dele, mas que agiram de forma mais discreta e permaneceram nas sombras?
Litewski -
Com certeza. De maneira geral os outros empresários foram bem mais discretos (isso é dito com clareza num documento sobre o Boilesen que descobrimos no arquivo do SNI). O Boilesen por ser estrangeiro, falastrão e muito vaidoso serviu de bode expiatório. Existiram muitos outros Boilesens brasileiros que permaneceram nas sombras e devem ter tido seguramente papeis tão relevantes quanto o de Boilesen. Cabe aos historiadores e jornalistas interessados descobrir quem são esses outros personagens.

ZH- Nesse momento em que se discute no Brasil mudanças na legislação para permitir a punição de torturadores, você acredita que filmes como Cidadão Boilesen possam manter viva a memória sobre os crimes praticados no período?
Litewski -
Cidadão Boilesen serve exatamente para isso: discussão. Ficaria muito feliz se o documentário servir para que se mais fale, escreva e filme esse assunto. A história do período militar brasileiro, dentro do contexto da Guerra Fria, deve continuar sendo discutida. Cidadão Boilesen nada mais é do que uma pequena contribuição a essa discussão. Quanto a punição aos torturadores, o país possui meios legais para decidir se essas pessoas devem ou não serem julgadas. Mas é essencial que se abra os arquivos históricos. Sem acesso aos documentos oficiais tudo vira suposição e especulação.

O novo petardo dos Coen

02 de janeiro de 2010 2

Depois da consagração com Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Queime Depois de Ler (2008), os irmãos roteiristas e diretores Ethan e Joel Coen parecem ter conseguido manter o alto nível em Um Homem Sério (2009), filme que tem estreia nacional no Brasil marcada para 19 de fevereiro.

A crítica norte-americana aplaudiu e mesmo aquela parcela dos espectadores que estranhou Onde os Fracos Não Têm Vez recebeu muitíssimo bem o longa de humor negro sobre um professor de Física do meio oeste que vê sua vida naufragar em fracassos até que resolve pedir ajuda a três rabinos - ele é judeu. Isso que o elenco de Um Homem Sério, diferentemente dos dois títulos anteriores, sobretudo Queime Depois de Ler, não traz atores que se possam considerar chamarizes de público.

Os Coen, pode-se dizer, estão se aproximando de uma quase unanimidade que não é muito frequente no cinema contemporâneo, marcado pelo grande distanciamento entre a produção de caráter mais autoral e aquela apreciada pelo grande público. No início do primeiro dos dois vídeos abaixo há um apanhado dos elogios publicados na imprensa sobre Um Homem Sério. É algo comum em se tratando de uma peça concebida pelos próprios produtores do filme em questão, mas, neste caso, vale a pena reparar no que dizem esses elogios.

Na sequência desse vídeo de apresentação do longa, que inclusive tem entrevista com os realizadores de Fargo (1996) e Barton Fink (1991), segue o trailer oficial de Um Homem Sério. Legendado (o vídeo anterior, infelizmente, não encontrei com legendas em português).