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Posts de março 2010

Quando Coppola foi rei

19 de março de 2010 0

Gene Hackman é o protagonista de A Conversação

Marcelo Perrone

Francis Ford Coppola sempre cita A Conversação (1974) como seu projeto mais autoral, um dos raros filmes que conseguiu realizar com total liberdade criativa, sem pressão de estúdios e investidores, sem restrições orçamentárias e sem os devaneios megalômanos - dele próprio - que o levaram ao topo e depois a tombos espetaculares, dos quais nunca se recuperou plenamente. Finalmente disponível em DVD no Brasil, pela Lume, selo sempre atento na garimpagem de preciosidades cinéfilas, A Conversação é fruto da safra mais exuberante de Coppola, timoneiro da turma de jovens diretores que, nos anos 1970, meteram o pé nos portões de Hollywood para espanar o pó do cinema americano.

A Conversação saiu no momento exato em que Coppola dava as cartas na indústria. A realização do filme foi uma imposição sua ao estúdio Paramount para comandar a continuação de O Poderoso Chefão (1972). A sequência, lançada também em 1974, fez com que Coppola disputasse consigo mesmo os Oscar de melhor filme e direção, categorias pelas quais foi indicado também com A Conversação - venceu com O Poderoso Chefão 2, que levou um total de seis estatuetas.

Com prestígio, muita grana no bolso e o poder decorrente dessa combinação, Coppola buscava autonomia para tocar projetos sobre os quais tivesse controle total como diretor e produtor. Queria se alimentar numa ponta da indústria que dizia desprezar para praticar na outra ponta o cinema de arte aos moldes dos mestres europeus que tanto admirava. Inflamado por essa visão - que logo se mostraria ingênua -, Coppola fundou a Directors Company, selo "independente" (pois era bancado pela Paramount) que abrigou além dele outros dois talentos emergentes com egos igualmente gigantescos: Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema) e William Friedkin (Operação França e O Exorcista).

A Conversação foi o primeiro título da companhia. Inspirado pelo clima de tensão nacional do escândalo Watergate, em 1972, Coppola acompanha a rotina do perito em vigilância Harry Caul (Gene Hackman). O foco do diretor não é contar uma história no modelo clássico, mas sim dissecar os conflitos existenciais e morais de um personagem complexo. Genial em sua função de voyeur, o tímido e solitário Caul se mostra incapaz de travar um contato mais pessoal. Seu único prazer além de ser reconhecido como o melhor em seu ofício, é tocar saxofone seguindo o compasso de mestres do jazz - a trilha tem Duke Ellington, entre outros. Contratado para espionar um casal, Caul fica obcecado em decifrar nas fitas cobertas por estática e ruídos o conteúdo das conversas captadas à distância. Percebe que seu trabalho pode colocar o casal em risco e mergulha num labirinto autodestrutivo que culmina na desorientação e no choque diante da constatação de que, pela primeira vez, pode ter sido traído por seus aguçados sentidos - o defecho de A Conversação é um dos mais belos e impactantes já encenados pelo diretor.

Os sócios de Coppola não viam a razão de ser do filme. Friedkin, por exemplo, dizia que era "como ver tinta secar e ouvir cabelo crescer, que era uma imitação superobscura e com som de Blow-Up", o clássico enigmático de Michalangelo Antonioni - esse episódio está narrado no livro Easy Riders, Raging Bulls - Como a Geração Sexo, Drogas e Rock'n'Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind. Coppola deu os ombros - a parceria com Friedkin e Bogdanovich implodiu logo depois sem jamais ter vingado - e foi recompensado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes naquele ano - ainda ganharia mais uma com Apocalypse Now.

Embora seja evidente a comparação com Blow-Up (1966), referência sempre assumida por Coppola, A Conversação quase nada tem a ser decifrado. Pelo contrário. Tecnicamente brilhante na elevação dos elementos sonoros à mesma importância dramática das imagens - estas por suas vez muito bem articuladas no ritmo dos cortes, nos movimentos da câmera e sobretudo no uso dos flashbacks que vão "limpando" a tal conversação -, o filme é um registro seco, comovente até, que espelha em seu protagonista o estado de espírito da sociedade americana à época. Questões éticas e morais acerca de certo e errado, mocinho e bandido andavam embaralhadas pela guerra no Vietnã e pela grave crise no andar de cima da nação. E era muito presente a sensação de que olhos e ouvidos estavam a observar a tudo e a todos. Lançamento da Lume Filmes.

Assista abaixo ao trailer e, na sequência, ao making of de A Conversação (ambos sem legendas).


O orgulho de Hitler

11 de março de 2010 0

Nos extras do DVD de Bastardos Inglórios tem O Orgulho da Nação, o filme dentro do filme na cena do cinema em chamas. A direção é do Eli Roth, chapa do Tarantino que também atua em Bastardos.

Oito cortes, diz Campanella

07 de março de 2010 0

Atualização importante para o tema do post abaixo. Trecho da matéria que chegou da Agência Estado:

Los Angeles - Já se transformou em tradição o encontro no sábado de manhã dos candidatos a melhor filme estrangeiro no Samuel Goldwyn, o luxuoso teatro da Academia de Hollywood. E, neste ano, sob o comando de Mark Johnson, que participa do comitê dessa categoria, todos se voltaram para o argentino Juan José Campanella, diretor de "O Segredo de Seus Olhos". "Queremos saber como foi rodada a cena do estádio de futebol", inquiriu Johnson que, antes, a narrou para a plateia - o filme ainda não estreou nos Estados Unidos.

De fato, é uma tomada aparentemente sem cortes de cinco minutos e meio, que começa com uma vista aérea de um estádio de futebol lotado, aproxima-se dos jogadores até focar um homem na torcida que passa a ser perseguido pelos policiais protagonistas. A cena continua com corrida atrás do homem e termina quando ele invade o campo de jogo. "Eu sabia que ia ser perguntado sobre isso", brincou Campanella, confessando que não se trata, de fato, de uma tomada única. "Foram oito, na verdade, e levamos oito meses de preparação e três dias de filmagem."

Segundo ele, o efeito de continuidade é resultado de uma trucagem de alta tecnologia. "ê tão bem feito que já ouvi pessoas contarem terem visto quadro a quadro no DVD e, mesmo assim, não terem descoberto os momentos de corte."

¿Que pasó? - O plano-sequência

05 de março de 2010 6

O Segundo Caderno desta sexta-feira traz uma reportagem sobre como foi feito o badalado plano-sequência do filme argentino O Segredo dos seus Olhos, que foi assunto por aqui em um post mais abaixo. Logo adiante, coloco a íntegra da matéria, já que no sempre penoso processo de edição algumas declarações e informações tiveram de ser limadas.

Como prometido no papel, seguem a cena de "O Segredo dos seus Olhos" e alguns outros planos-sequência inesquecíveis da história do cinema, esses na categoria dos clássicos e realizados sem artifícios digitais.

Mas, antes, segue um texto do Ticiano Osório exclusivo para o blog:

Quem acha que o plano-sequência de O Segredo dos seus Olhos não passa de puro exibicionismo - o que também é: Juan José Campanella demonstra um insuspeitado virtuosismo técnico - não entrou no filme. Literalmente.
Porque é isso o que a sequência proporciona ao espectador, que se torna, naqueles cinco minutos, uma testemunha in loco da perseguição de Benjamin Esposito (Ricardo Darín, a cara do cinema argentino) e seu colega Sandoval ao suspeito de um crime bárbaro. E quem já esteve em um estádio de futebol lotado - que dirá em um estádio argentino - sabe a tarefa insana que seria procurar um sujeito em meio à multidão. (A propósito, o Marcelo Perrone matou a pulga que tinha ficado atrás da orelha dos caçadores de furos em roteiros: por que Esposito foi procurar um fanático do Racing em um jogo na casa do Huracán? A resposta é óbvia - porque a torcida visitante tem sempre menor público.)
Nas arquibancadas, a câmera vai e vem como nossos olhos fariam, de vez em quando ficamos desnorteados, o barulho ensurdecedor também atrapalha - mas seguimos ali, não há como cortar para a cena seguinte. Vale o mesmo raciocínio para o momento posterior, quando Esposito e Sandoval disparam em corrida atrás do provável assassino: muito mais tensa do que uma sucessão de cortes rápidos e "nervosos" é aquela sequência em tomada única, tradução exata do calor da hora, que culmina em um pulo inacreditável de uma grande altura - que só os efeitos especiais ou um extraordinário trabalho de grua explicam.
Seja como for, em O Segredo dos seus Olhos a técnica está a serviço da narrativa, como nos clássicos citados pelo Perrone na matéria de capa do Segundo Caderno (A Marca da Maldade e Profissão: Repórter) e como em dois filmes relativamente recentes de dois cineastas apaixonados pelo recurso do plano-sequência, mesmo que ambos (os filmes) não estejam entre os melhores da carreira de seus realizadores. Um é Gangues de Nova York (2002), de Martin Scorsese. Uma tomada única magistral narra como foi forjada a união dos Estados Unidos: os estrangeiros chegam ao porto, vão para a fila da imigração, são encaminhados ao recrutamento e embarcam de novo para defender "sua pátria" - no mesmo navio que traz os caixões dos soldados mortos na guerra.
O outro é Dália Negra (2006), de Brian De Palma. Um dos planos-sequência une diversas tramas paralelas, com a câmera subindo da rua, onde dois policiais fazem tocaia para pegar um estuprador e assassino de crianças negras, para revelar, atrás de um prédio, o cadáver da pin-up Betty Short. O mais bacana deste filme é a maneira como essa tomada, como se fosse um quebra-cabeças às avessas, depois vai ser desconstruída, sob diferentes ângulos - em outra marca do diretor, como visto em Um Tiro na Noite (1981) e Femme Fatale (2002). Aliás, se você ficou embasbacado pelo plano-sequência de O Segredo de seus Olhos, fica a dica: assista aos filmes de Brian De Palma.

O Segredo dos seus Olhos (2009), de Juan José Campanella

Sob o Signo de Capricórnio (1949), de Alfred Hitchcock

* Reparem que por volta de 1'41 tem indício de um corte disfarçado, técnica que o mestre havia aprimorado na realização de seu longa anterior, Festim Diabólico (1948), todo ele em plano-sequência, mas com cortes camuflados cenicamente por imposição da duração dos rolos de filme. Para alguns teóricos da linguagem cinematográfica, um plano-sequência também pode resultar da intenção de seu autor em dar à cena a fluência de uma tomada única, mesmo que recorra a cortes e efeitos. Outros defendem que a "pureza" do plano está justamente na ausência de cortes e efeitos. E tem ainda os que separam plano longo de plano-sequência, argumentando que uma tomada estática de cinco minutos com pessoas conversando numa mesa seria apenas um PL, por não dar à cena a sugestão de movimento, ação e diferentes acontecimentos, características do "autêntico" PS.

A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles

I Am Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov

Week End (1967), de Jean-Luc Godard

Profissão:Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni

Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese

O Jogador (1992), de Robert Altman

Olhos de Serpente (1998), de Brian De Palma (só achei pessimamente dublado em espanhol. Esqueça o áudio)

Outros planos-sequência espetaculares (clique sobre o nome do filme)

Fervura Máxima (1992), de John Woo

Boogie Nights (1997), de Paul Thomas Anderson

Kill Bill 1 (2003), de Quentin Tarantino

Filhos de Esperança (2006), de Alfonso Cuarón

Filhos da Esperança

Desejo e Reparação (2007), de Joe Wright

Por fim, é obrigatório recomendar três longas-metragens realizados em plano-sequência: o clássico Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock (sim, tem cortes, necessários para trocar os rolos de filme, mas o conceito é de um ps), Arca Russa, de Aleksandr Sokurov, e Ainda Orangotangos, do gaúcho Gustavo Spolidoro.