Marcelo Perrone
Francis Ford Coppola sempre cita A Conversação (1974) como seu projeto mais autoral, um dos raros filmes que conseguiu realizar com total liberdade criativa, sem pressão de estúdios e investidores, sem restrições orçamentárias e sem os devaneios megalômanos - dele próprio - que o levaram ao topo e depois a tombos espetaculares, dos quais nunca se recuperou plenamente. Finalmente disponível em DVD no Brasil, pela Lume, selo sempre atento na garimpagem de preciosidades cinéfilas, A Conversação é fruto da safra mais exuberante de Coppola, timoneiro da turma de jovens diretores que, nos anos 1970, meteram o pé nos portões de Hollywood para espanar o pó do cinema americano.
A Conversação saiu no momento exato em que Coppola dava as cartas na indústria. A realização do filme foi uma imposição sua ao estúdio Paramount para comandar a continuação de O Poderoso Chefão (1972). A sequência, lançada também em 1974, fez com que Coppola disputasse consigo mesmo os Oscar de melhor filme e direção, categorias pelas quais foi indicado também com A Conversação - venceu com O Poderoso Chefão 2, que levou um total de seis estatuetas.
Com prestígio, muita grana no bolso e o poder decorrente dessa combinação, Coppola buscava autonomia para tocar projetos sobre os quais tivesse controle total como diretor e produtor. Queria se alimentar numa ponta da indústria que dizia desprezar para praticar na outra ponta o cinema de arte aos moldes dos mestres europeus que tanto admirava. Inflamado por essa visão - que logo se mostraria ingênua -, Coppola fundou a Directors Company, selo "independente" (pois era bancado pela Paramount) que abrigou além dele outros dois talentos emergentes com egos igualmente gigantescos: Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema) e William Friedkin (Operação França e O Exorcista).
A Conversação foi o primeiro título da companhia. Inspirado pelo clima de tensão nacional do escândalo Watergate, em 1972, Coppola acompanha a rotina do perito em vigilância Harry Caul (Gene Hackman). O foco do diretor não é contar uma história no modelo clássico, mas sim dissecar os conflitos existenciais e morais de um personagem complexo. Genial em sua função de voyeur, o tímido e solitário Caul se mostra incapaz de travar um contato mais pessoal. Seu único prazer além de ser reconhecido como o melhor em seu ofício, é tocar saxofone seguindo o compasso de mestres do jazz - a trilha tem Duke Ellington, entre outros. Contratado para espionar um casal, Caul fica obcecado em decifrar nas fitas cobertas por estática e ruídos o conteúdo das conversas captadas à distância. Percebe que seu trabalho pode colocar o casal em risco e mergulha num labirinto autodestrutivo que culmina na desorientação e no choque diante da constatação de que, pela primeira vez, pode ter sido traído por seus aguçados sentidos - o defecho de A Conversação é um dos mais belos e impactantes já encenados pelo diretor.
Os sócios de Coppola não viam a razão de ser do filme. Friedkin, por exemplo, dizia que era "como ver tinta secar e ouvir cabelo crescer, que era uma imitação superobscura e com som de Blow-Up", o clássico enigmático de Michalangelo Antonioni - esse episódio está narrado no livro Easy Riders, Raging Bulls - Como a Geração Sexo, Drogas e Rock'n'Roll Salvou Hollywood, de Peter Biskind. Coppola deu os ombros - a parceria com Friedkin e Bogdanovich implodiu logo depois sem jamais ter vingado - e foi recompensado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes naquele ano - ainda ganharia mais uma com Apocalypse Now.
Embora seja evidente a comparação com Blow-Up (1966), referência sempre assumida por Coppola, A Conversação quase nada tem a ser decifrado. Pelo contrário. Tecnicamente brilhante na elevação dos elementos sonoros à mesma importância dramática das imagens - estas por suas vez muito bem articuladas no ritmo dos cortes, nos movimentos da câmera e sobretudo no uso dos flashbacks que vão "limpando" a tal conversação -, o filme é um registro seco, comovente até, que espelha em seu protagonista o estado de espírito da sociedade americana à época. Questões éticas e morais acerca de certo e errado, mocinho e bandido andavam embaralhadas pela guerra no Vietnã e pela grave crise no andar de cima da nação. E era muito presente a sensação de que olhos e ouvidos estavam a observar a tudo e a todos. Lançamento da Lume Filmes.
Assista abaixo ao trailer e, na sequência, ao making of de A Conversação (ambos sem legendas).




