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As muitas vidas de Ana

09 de abril de 2010 1

Cultuado pelo inesquecível Os Amantes do Círculo Polar (1998), o espanhol Julio Medem já demonstrara ser um dos mais interessantes cineastas contemporâneos desde o lançamento de filmes como Vacas (1992) e Terra (1996).

Mas suas histórias de amores impossíveis com pano de fundo político centradas em mulheres fortes porém vulneráveis haviam desaparecido depois de Lucía e o Sexo (2001). Após a depressão que se seguiu à trágica morte de sua irmã, em acidente de carro, e à péssima repercussão de seu documentário La Pelota Basca (2003), pelo qual chegou a ser acusado de defensor do grupo extremista ETA, Medem voltou com um de seus trabalhos mais radicais.

Incompreendido, Caótica Ana (2007) praticamente passou em branco por vários festivais e sequer ganhou o circuito das salas de cinema no Brasil. Chegou com bastante atraso ao DVD, em lançamento da pequena Visual Filmes. É uma palavra de fã, mas direcionada não apenas aos admiradores do realizador de 51 anos nascido em San Sebastián, no País Basco: a recompensa ao garimpá-lo por aí pode render uma boa surpresa.

No longa, uma garota de 18 anos (Manuela Vellés), pele delicada e olhos imensos, hipnóticos, vive isolada com o pai (Matthias Habich) na ilha de Ibiza. Visual meio hippie, personalidade borderline, ela se dedica à pintura – suas telas são  na verdade as da irmã morta do cineasta, cujo nome também é Ana. Ainda no início do filme, chama a atenção de uma mecenas (Charlotte Rampling), que resolve levá-la até Madri. Na cidade grande, instalada numa espécie de república em que vivem diversos artistas, descobre o amor ao se apaixonar pelo personagem misterioso de Nicolas Cazalé e consolida uma amizade de irmã com a performer interpretada por Bebe Rebolledo. Tudo contado em 10 capítulos curtos, em muitos aspectos fechados e independentes entre si, que aos poucos vão revelando o caos interno da protagonista.

Ana tem seguidos ataques de pânico, que a levam a ter visões sobre vidas passadas, sempre de mulheres cujo destino é trágico. É um anjo como o de Asas do Desejo (1987), mas um anjo torto, contrário àquele visto no filme de Wim Wenders – tem o poder de vivenciar o que outras pessoas vivenciam, no entanto, o rejeita. Não quer ser todas as mulheres, mas uma única, como diz a certa altura. Não quer viver a eternidade, quer apenas o agora.

Medem é pretensioso: pontua a narrativa com diversas metáforas, a maior parte relacionadas à natureza, não se permite ser convencional em nenhum plano, apostando em muitas viradas e surpresas, e também em composições visuais – além de deslumbrantes – diferentes a cada delírio de Ana, como se incorporassem a desordem de sua personalidade.

A insistência com as sessões de hipnose a que ela se submete e, ao final, a guinada política, anti-americanista do longa, atordoam quem não entrou em sua viagem. Teria o diretor, aqui também roteirista e montador, exagerado em suas obsessões pelas histórias complexas, labirínticas, e perdido a mão? Melhor tirar a prova vendo o filme. Medem tem crédito.

Abaixo, o trailer e um clipe de Tiempo y Silencio, linda canção de Pedro Guerra cantada por ele e Cesária Évora que está na trilha do longa (as imagens são todas de Caótica Ana).

Comentários (1)

  • ana diz: 9 de abril de 2010

    Bela canção…

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