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O que funciona e o que não funciona na Alice de Tim Burton

22 de abril de 2010 9

Daniel Feix

A questão proposta no título deste post poderia ser resumida de várias formas. Dois exemplos: o visual é bom, mas a história não engrena; alguns atores, leia-se Johnny Depp e Helena Bonham Carter, têm desempenhos extraordinários, mas a trama em que se envolvem é rasa, foi simplificada em demasia pelo diretor Tim Burton.

Acontece que o projeto Alice no País das Maravilhas, concebido pela Disney e realizado pelo cineasta californiano radicado em Londres, não resultou num filme comum. A estreia no Brasil, nesta sexta-feira (há sessões de pré-estreia no país a partir da meia-noite de quinta para sexta), foi antecedida de um verdadeiro bombardeio, que incluiu produtos licenciados, ações de marketing, reedições de livros velhos e novas publicações. Até a publicidade alheia incorporou o imaginário da mais nova adaptação da clássica obra de Lewis Carroll.

Tanto quanto Avatar, esta versão de Alice nos leva a pensar sobre as possibilidades de transcendência do cinema. Infelizmente, no entanto, não a transcendência artística que grandes filmes são capazes de proporcionar. Alice pode ser deslumbrante do ponto de vista plástico, porém, diante de toda a expectativa gerada, não deixa de ser decepcionante como projeto estético, ou artístico.

Alice (Mia Wasikowska) no filme de Tim Burton

Burton, 51 anos, é um visionário. Seus filmes retratam invariavelmente personagens desajustados socialmente, o que não deixa de ser um clichê, mas com uma inventividade absolutamente incomum. Faz desse desajuste poesia, usando recursos visuais como poucos outros autores são capazes de usar. Edward Mãos de Tesoura (1990) talvez seja o melhor exemplo, mas como não se encantar com Peixe Grande (2003) e Noiva Cadáver (2005)?

Mesmo em adaptações, ou refilmagens, Burton foi grande, gigante – quem viu seu Batman (1989) e a sua versão para A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005) sabe do que estou falando. Neste último e também em seu filme anterior a Alice, o soturno e melancólico Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007), Burton reencontrou em Johnny Depp um ator capaz de transformar esse desajuste em motor criativo para a construção dos personagens. A parceria dos dois, com Alice, já soma sete longas-metragens.

No novo filme acontece algo parecido com Helena Bonham Carter – aliás, mulher de Burton na vida real. Suas ordens como a Rainha Vermelha compõem um personagem brilhantemente concebido em todos os seus aspectos – figurino, maquiagem, efeitos de computação. No texto que circula na ZH de hoje, escrevi que seu cabeção, assim como os olhos esbugalhados do Chapeleiro Maluco, personagem de Johnny Depp, têm função dramática. É isso: eles dizem algo, trazem informações sobre o personagem, e são explorados pelos atores em seus movimentos e pelo diretor na forma como os enquadra e os conduz em meio à trama. A monarca cabeçuda é uma déspota que adora decapitar quem a desobedece, enquanto o chapeleiro doidão, com aquelas bolitas coloridas saltadas no rosto, torna-se ainda – e muito – mais melancólico.

O Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter)

É de fato uma pena que atuações tão marcantes – Helena para mim seria desde já candidata a um Oscar de atriz coadjuvante – e acertos incontestáveis do ponto de vista plástico não estejam a serviço de uma história mais rica. Sim, porque o que Burton fez ao mesclar elementos de Alice no País das Maravilhas (publicado originalmente em 1865) e Alice Através do Espelho (1872) foi achatar a trama e seus personagens, dando a eles definições tão simplórias quanto vilão e mocinho – algo que não combina em nada com o universo de Carroll e que só faria sentido em histórias mais infantis ou menos imaginativas.

Alice, que aqui tem 19 anos e não mais os 10 da obra original, não é mais a criança cuja presença fez suscitar suspeitas de pedofilia da parte do escritor, e sim uma garota que se recusa a seguir certas tradições e reivindica a própria liberdade de escolha na sociedade britânica do século 19 – ela foge para a toca do Coelho Branco num momento de dúvida, em que se recusa a fazer parte de um casamento de cartas marcadas.

Lá pelas tantas, no entanto, transforma-se numa justiceira do underground, espécie de salvadora de um povo oprimido por uma líder má (a Rainha Vermelha) e ansioso pelo retorno da líder boa (a Rainha Branca interpretada por Anne Hathaway). O final, claro, não podia reservar algo diferente de uma grande batalha, às vezes amedrontadora, em todo o tempo cansativa. Essa concepção contestável da personagem, tanto quanto a sua própria trajetória, deixam claro como a coragem e a falta dela andam juntas no filme.

É claro que você, que esperou tanto por Alice, não pode deixar de assistir. Mas também pode ser que se decepcione um pouquinho.

Comentários (9)

  • Dina diz: 22 de abril de 2010

    Moro nos Estados Unidos e aqui o filme foi lançado no dia 25 de março. Corri ao cinema logo no primeiro final de semana. Infelizmente, o que senti foi decepçao. Muito, muito marketing para pouco resultado. O filme é bem colorido, bonitinho, mas deixou a desejar.

  • Renata Tissot diz: 22 de abril de 2010

    Concordo com a Dina em relação ao marketing. O que vi nas ruas foram de um dia para outro vitrines das mais variadas lojas com elementos que remetiam ao filme. O assisti logo após seu lançamento (5 de março aqui na Irlanda) cheia de espectativas. Não chego a dizer que foi uma decepção, mas esperava muito mais do que efeitos visuais 3D… De qualquer forma, acho que sempre vale a pena assistir.

  • Conexão ZH » Blog Archive » Alice à moda antiga diz: 23 de abril de 2010

    [...] de Tim Burton estreia na Capital nesta sexta-feira. Confira a programação no Guia da Semana. Lá no blog Cineclube, descubra o que funciona e o que não funciona na [...]

  • Objetivo diz: 23 de abril de 2010

    O QUE VCS. QUERIAM, UM FILME CABEÇA?
    È FANTASIA, É PRA VIAJAR NO MUNDO 3D.
    NÃO É UM FILME PRA PENSAR, É PRA DIVERSÃO, VER O VISUAL
    EFEITOS ESPECIAIS.

  • João Narizduro diz: 23 de abril de 2010

    Assisti ontem a pré-estréia deste que já considero um dos piores filmes que já vi. O uso do 3D, o ambiente e os efeitos são terrivelmente mal usados. Mas a bomba do filme mesmo é o desenrolar da história, que é feita no modo correria. Os personagens não se desenvolvem, e quando o filme acaba tu pode pensar que Alice recém havia descido ao reino subterrâneo, mas lá se foram 2 horas de um filme que é… ruim, simples assim.

  • Graci diz: 23 de abril de 2010

    Assistimos em Buenos Aires também, muito feito, imagens muito bem projetadas, um cenário surpreendente, mas uma história fraca, sem lógica que deixa muito a desejar. Não é um filme infantil e nem é a Alice que todos nós adultos conhecemos na infância, é um delírio pessoal assinado com o nome de “Alice no país das maravilhas”. Todo desempenho de meu ídolo Jonhy Deep não foi suficiente para dar brilho ao filme.

  • André diz: 26 de abril de 2010

    Olá,

    Me chamo André e sou estudante de jornalismo da Unisinos. Procurei algum contato direto via e-mail, mas não encontrei. Gostaria de saber se há alguma possibilidade de marcarmos uma entrevista via e-mail sobre cinema 3D. Aguardo retorno.

    Atenciosamente,
    André.

  • ContrerasLEANNE diz: 15 de julho de 2011

    I had a desire to make my company, however I did not have got enough amount of cash to do this. Thank heaven my close mate suggested to take the credit loans. Therefore I used the car loan and realized my old dream.

  • MarisaCervantes diz: 21 de abril de 2012

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