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Posts do dia 28 abril 2010

Odorico volta com a alma lavada e enxaguada

28 de abril de 2010 0

Zero Hora foi conferir em primeira mão o lançamento de O Bem Amado, no Cine PE. Confira a íntegra do texto publicado na edição desta quarta-feira do Segundo Caderno.

 


Roger Lerina / Enviado Especial a Recife

 

O 14º Cine PE começou na segunda-feira com cinema lotado, homenagem a um realizador pernambucano de sucesso e exibindo em primeira mão um dos filmes mais esperados do ano. Versão do sucesso televisivo dos anos 1970 e 1980, O Bem Amado provocou risos e nostalgia no público ao ressuscitar os habitantes de Sucupira e o folclórico prefeito Odorico Paraguaçu – encarnado agora pelo ator Marco Nanini.

 

Mais de 2,6 mil pessoas foram ao Teatro dos Guararapes, no Centro de Convenções de Olinda, prestigiar o primeiro dia da competição nacional do Cine PE – popularmente conhecido como Festival do Recife, o evento exibe até domingo um total de 63 filmes (47 curtas e 16 longas). Antes da exibição de cinco curtas da competição e da projeção fora do concurso de O Bem Amado, o diretor Guel Arraes foi homenageado pelo conjunto de sua obra. Aplaudido de pé, o recifense reconhecido por programas de TV como Armação Ilimitada, TV Pirata e Comédias da Vida Privada e por filmes tipo O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro (2003) recebeu o Troféu Calunga de Ouro das mãos de Marco Nanini. (2000) e

 

Guel e Nanini estavam à frente também da grande atração da noite: a première de O Bem Amado, longa dirigido pelo primeiro e protagonizado pelo segundo – e cuja apresentação contou com a presença ainda dos atores José Wilker, Andrea Beltrão, Maria Flor, Caio Blat e Edimilson Santos e da produtora Paula Lavigne.

 

Com estreia nacional prevista para 23 de julho, a adaptação cinematográfica da obra escrita por Dias Gomes foi rodada durante cinco semanas na região de Marechal Deodoro, no litoral alagoano, com orçamento estimado em R$ 10 milhões. Escrita como peça de teatro em 1962 e transformada em novela em 1973, O Bem Amado foi uma febre nacional tão grande que a Globo reeditou a trama em forma de seriado em 1980.

 

Nessa nova visita à cidadezinha nordestina que é uma espécie de Brasil em microcosmo, a trama volta para o início dos anos 1960. Ao lado do corroteirista Cláudio Paiva, Guel Arraes situa o enredo em 1961, traçando paralelos entre os episódios da vida política e social da fictícia Sucupira e os fatos históricos nacionais da época – como a renúncia do presidente Jânio Quadros, as tensões entre esquerda e direita durante o governo João Goulart e o golpe de 1964.

 

O Bem Amado recoloca em cena o imbróglio que celebrizou a obra: protótipo do prefeito corrupto de interior, Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) sonha em coroar sua administração inaugurando um cemitério em Sucupira. Auxiliado pelo secretário Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele) e pelas assanhadas Irmãs Cajazeira (Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes), o político venal enfrenta em seus desmandos a oposição do inflamado Wladymir (Tonico Pereira), editor do jornal esquerdista A Trombeta. Paralelamente, Odorico tenta manipular o matador Zeca Diabo (José Wilker) e lidar com o namoro da filha rebelde Violeta (Maria Flor) com o jovem jornalista idealista Neco (Caio Blat).

 

- Acho que a peça do Dias Gomes é mais atual hoje. Nesse período de democracia, em que a esquerda já chegou no poder, criticar um político eleito hoje tem mais a ver do que na época da ditadura – justificou Guel na entrevista coletiva concedida na manhã de ontem.

 

- Temos um acordo com a Globo, em que filmamos também quatro capítulos da história que vão passar na TV como microssérie – informou a produtora Paula Lavigne.

 

Se na TV o tom era mais realista – ainda que indubitavelmente cômico -, no cinema O Bem Amado abraça a farsa ligeiríssima, típica dos trabalhos de Guel, em que os diálogos afiados são digladiados pelos atores em um ritmo excessivamente vertiginoso, quando não mesmo gritados. Como os tempos são outros, Odorico agora parece menos um coronel nordestino do que um bacharel picareta que fala difícil para impressionar; da mesma forma, as Cajazeira atuais são bem menos recatadas e beatas e mais jovens do que as três irmãs do original.

 

O destaque de O Bem Amado é o roteiro bem amarrado e as falas que recuperam o vocabulário singular de Odorico, criado originalmente por Dias Gomes e pontuado por prosopopeias, frases feitas e neologismos como “jenipapança”, “emboramente” e “imprensa marronzista”.

 

- Não havia compromisso com as referências anteriores. Havia uma preocupação de fazer uma coisa contemporânea. Esse projeto estava na nossa cabeça há muito tempo – explicou Nanini, cuja encarnação histriônica de Odorico acaba sendo mais caricatural do que a antológica interpretação de Paulo Gracindo.

 

Já a atuação de Wilker na pele de Zeca Diabo está totalmente descolada da figura celebrizada na televisão por Lima Duarte.

 

- Eu não tive tempo na época, infelizmente, de ver a novela ou a série, estava sempre trabalhando. Eu conheço o texto. Tenho uma admiração imensa pelo meu amigo Lima Duarte. Um dia antes das filmagens, encontrei o Lima e ele me mostrou uma foto em que todo o elenco do seriado estava reunido em uma pizzaria em Roma, quando eles foram filmar lá. Toda a informação que eu tive dele foi essa conversa. O que me alimentou foi o que estava escrito no roteiro e o que o diretor mandou eu fazer. Eu sou muito bem mandado. O filme é um dileto filho de um casamento pouco provável, mas que existiu, entre o Nanini e o Guel – disse Wilker.