
Silvio Tendler no Vietnã com o general Giap. Crédito: Caliban
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Marcelo Perrone
Mais bem-sucedido documentarista do Brasil - no resultado comercial de suas produções -, o carioca Silvio Tendler mantém firme seu foco no cinema político, que nos tempos de democracia consolidada ele vê não despertar mais tanto interesse do público em assistir e dos colegas em realizar.
Autor de sucessos impensáveis no cenário atual do cinema nacional, como Os Anos JK (1980) e Jango (1984), Tendler apresenta agora Utopia e Barbárie, em cartaz a partir desta sexta-efeira. Na última segunda-feira, Tendler lançou o filme em Porto Alegre, em uma sessão seguida em debate, no CineBancários.
Utopia e Barbárie é o resultado de uma jornada de 19 anos na qual Tendler, 60, foi costurando imagens e depoimentos para fazer um inventário histórico sob o ponto de vista dos sonhos e desilusões de sua geração – jovens dos anos 1960 e 1970 que pregaram paz e amor mas conviveram com guerras e ditaduras, que imaginavam a justiça social pelo comunismo mas despertaram dentro da bolha de consumo da sociedade globalizada.
O documentário faz um recorte entre o final da II Guerra, em 1945, e a crise mundial de 2009, quando Tendler sublinha com ironia o fato de o capitalismo e a economia de mercado terem sido salvos pela intervenção do Estado. Em formato de road movie, o filme mostra a viagem do diretor por 15 países, nos quais falou com dezenas de protagonistas e testemunhas de fatos emblemáticos do século 20.
Embora siga um ordenamento cronológico, o ritmo do filme é ditado pelas lembranças de Tendler, que guia o espectador em primeira pessoa – o que justificaria seus entusiasmo diante de determinadas passagens e personagens polêmicos, que dão margem ao debate político e ideológico, risco assumido pelo autor (leia entrevista ao lado).
Utopia e Barbárie tem a ambição de compor um painel global. Seu eixo são personagens que, como diz Tendler, “fizeram a cabeça” de jovens brasileiros como ele. Do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, do guerrilheiro argentino Che Guevara ao general vietnamita Giap, o estrategista que derrotou os Estados Unidos no Vietnã. Uma parte significativa desse inventário – que se equilibra sobre os tons emotivo, panfletário e crítico, em dosagem variável conforme as convicções do espectador –, Tendler dedica ao contraste entre a efervescência política e comportamental que o mundo viveu no fim dos anos 1960 e a repressão da ditadura militar no Brasil.
– Documentário não é um trabalho jornalístico, não tem o compromisso de ser objetivo, pode ser subjetivo – diz o diretor. – Mas também pode ser objetivo e parcial ao mesmo tempo. Cada um que assiste ao filme faz seu próprio filme na cabeça. Já fui cobrado por não mencionar a luta de Mandela na África do Sul ou a Revolução do Cravos em Portugal. Gostaria de voltar ao tema, acrescentando a utopia anarquista e a atual utopia fundamentalista. Mas no momento me dedico ao documentário sobre Tancredo Neves, que devo lançar no segundo semestre, com foco nos bastidores da sua eleição no Colégio Eleitoral.
Tendler assina os três documentários mais vistos do cinema nacional. Jango teve 1 milhão de espectadores, Os Anos JK somou 800 mil e O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981) alcançou 1,7 milhão de espectadores, mas Tendler credita esse sucesso à popularidade de Renato Aragão e sua trupe. Ele reconhece que os documentaristas estão hoje mais voltados para temas sociais e ambientais, que não deixam de ser políticos a seu modo, e para trabalhos de experimentação de linguagem:
– Sempre trabalhei no cinema como forma de debater ideias. Tenho pena dos outros que abandonaram o barco. É uma viagem proveitosa.
Veja trechos da entrevista do diretor.
Zero Hora – Seu filme parte de um painel histórico do século 20 e assume o formato de um diário pessoal, com muitas referências autobiográficas. Qual era sua intenção inicial no projeto?
Silvio Tendler – O documentário foi ficando pessoal pelo caminho. Meu primeiro movimento foi o de resgate histórico. O filme teria como título Utopia ou Barbárie, como dois conceitos antagônicos. Mas percebi que são complementares, que andam juntos em alternância. Delimitei o recorte histórico a partir do fim da II Guerra Mundial. A utopia da paz, de estar vivo após um conflito que matou 60 milhões de pessoas, veio junto com os horrores revelados nos campos de concentração do Holocausto e nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.
ZH – Quando exatamente o senhor decidiu realizar o documentário?
Tendler – O filme começou a tomar forma em 1990, quando eu morava na França. A motivação veio um ano antes, em 1989, quando na mesma semana o Collor foi eleito presidente no Brasil e o Muro de Berlim caiu na Alemanha. No caso da queda do muro, minha decepção não foi com o fato si, pois eu o via como um símbolo negativo, mas por representar o fim da utopia socialista. Esses dois episódios provocaram em mim uma forte indignação diante da pergunta: “Será que eu joguei fora minha juventude e tudo pelo que lutei?”. Passei a aproveitar viagens e realização de outros filmes para fazer entrevistas e pesquisar imagens. O ponto final foi dado em 2009. Foi um trabalho penoso nesses 19 anos, como juntar caquinhos.
ZH – O senhor é reconhecido pela militância esquerdista. Mas colocar entre os entrevistados com maior destaque Dilma Rousseff (candidata do PT à presidência) não abre margem para considerar seu filme uma peça de campanha eleitoral?
Tendler – Achar que a Dilma tem destaque no filme é como um golpe de vista. Se você perceber bem, ela tem o mesmo espaço do (poeta) Ferreira Gullar, que é contrário à luta armada, fala que via a guerrilha como maluquice e lembra o racha que existiu na esquerda por conta disso. Dilma é uma mulher corajosa. Ela podia, como outros, dizer “Esqueçam tudo que fiz”. Tem gente que gosta de passar um sabão na história. Eu decidi incluir o depoimento muito antes de a Dilma ser candidata, por conta daquele episódio em que ela foi criticada ao dizer que já havia mentido para salvar a vida de companheiros. Não tenho culpa de o Ferreira Gullar vestir cinza e a Dilma vestir vermelho, que chama mais atenção. (Risos.) Eles têm o mesmo espaço. Não estou fazendo campanha.
ZH – Também tem o depoimento do jornalista Franklin Martins (ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva).
Tendler – Franklin teve presença em momentos importantes da luta contra a ditadura e é meu amigo. Não teria por que não ouvi-lo. Eu assumo que é um filme de esquerda. Sou honesto. É o meu ponto de vista que está ali. Se você não concorda, podemos discutir. Não sou lulista nem petista. Respeito muito o Lula, mas nos oito anos de seu governo estive uma única vez no Palácio do Planalto, em uma cerimônia pública.
ZH – Entre os filmes citados no documentário, o senhor dedica atenção especial a dois, Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, e As Invasões Bárbaras (2003), de Denys Arcand. Eles representariam esse recorte histórico de início e fim das utopias?
Tendler – Minha geração teve a cabeça feita pelo mito do guerrilheiro heroico, que nasceu muito antes do Che Guevara. Eles estava representado nos partisans franceses e italianos que lutaram contra os nazistas, na figura do marechal Tito nas montanhas da Iugoslávia. Roma, Cidade Aberta é símbolo da utopia que uniu católicos e socialistas na luta contra o fascismo. Aqueles meninos que assistem ao fuzilamento do padre são os futuros revolucionários dos anos 1960. Já As Invasões Bárbaras representa o fim daquela utopia. Aquelas pessoas que seguiram os “ismos” quando jovens (comunismo, socialismo, existencialismo, anarquismo, entre outros movimentos) são na maturidade o retrato do desencanto. Fiz questão de ir ao Canadá entrevistar o Denys Arcand para dizer a ele: “Rémy sou eu”. (Rémy é o personagem principal do filme.)
ZH – Entre em dezenas de depoimentos registrados nestes 19 anos em diferentes países, qual foi o mais difícil de conseguir?
Tendler – Foi o do general Giap (Vo Nguyen Giap), no Vietnã, em 2003. Ele é uma grande figura histórica para a minha geração. Era um professor sem formação militar, virou general por força das circunstâncias e foi o estrategista que derrotou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A entrevista foi longamente negociada, busquei apoio do Itamaraty. Foi designado um intérprete vietnamita que falava espanhol para me acompanhar e me deram só 15 minutos com ele. Mas o Giap falava francês, como eu, e os 15 minutos viraram uma hora. O intérprete ficou louco. (Risos.)
ZH – O general Giap aparece numa foto segurando a bandeira do MST. Por que razão?
Tendler – Eu dei de presente a ele, junto com meu filme sobre o Marighella (Carlos Marighella, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil). Sou simpático, sim, à causa do MST, mas é uma foto de 2003, não tem por que discuti-la sobre o contexto atual.
ZH – O senhor menciona que uma de suas utopias como jovem judeu foi viver o socialismo sionista em um kibutz (fazenda coletiva) de Israel. Qual sua utopia hoje?
Tendler – É a luta pela paz, ver palestinos e israelenses conviverem no mesmo espaço. Isso não é impossível. Existe gente tolerante e aberta ao diálogo dos dois lados. Mostro isso no filme.
ZH – A vida numa democracia arrefeceu a juventude, no caso a brasileira?
Tendler – Está cada dia mais difícil a luta pública coletiva. Estamos organizando uma manifestação contra o governo do Irã, pela libertação do cineasta Jafar Panahi. Está difícil reunir as pessoas até para uma foto. É mais fácil conseguir 1 milhão e meio de assinaturas pela internet.