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Posts de abril 2010

Tudo pode dar certo... ou errado

30 de abril de 2010 1

Depois de dirigir quatro filmes na Europa,  o diretor Woody Allen volta a usar Nova York como cenário na comédia Tudo Pode Dar Certo, que entra em cartaz nesta sexta-feira depois de uma semana de sessões de pré-estreia.  Leia a abaixo a opinião de quem gostou e de quem achou que deu tudo errado.

A malhação do jeca

Cláudia Laitano

Para um filme que começa com um antológico monólogo sobre a falta de sentido da vida, o final festivo e romântico de Tudo Pode Dar Certo pode parecer um anticlímax. Se nada leva a nada e tudo o que nos resta é fazermos o melhor possível com a sorte (ou falta de) que nos toca, como acreditar em amores que caem do céu para nos redimir e dar sentido a nossa vidinha mais ou menos? O que pode parecer uma contradição é na verdade o eixo sobre o qual se estrutura todo o cinema de Woody Allen, esse senhor que nos últimos 45 anos vem equilibrando sua obra entre um ceticismo absoluto a respeito da natureza humana e a capacidade de lançar um olhar amoroso (e divertido) sobre nossas pequenas misérias cotidianas.

É verdade que essa comédia em tom de fábula exige que o espectador embarque no tom da brincadeira – e quando vemos o protagonista falando diretamente para a câmera (ou para nós, os espectadores) o registro de farsa fica ainda mais evidente. O casmurro Boris Yellnikoff (interpretado no tom exato de azedume por Larry David) é um físico brilhante que já foi cotado para o Nobel e foi casado com uma mulher rica, bonita e inteligente, mas jogou tudo para o alto – ou para baixo, quando tentou, sem sucesso, se matar atirando-se da janela do edifício. Tudo vai placidamente mal, como previsto pelo seu folclórico pessimismo, quando ele conhece uma descabeçada menina interiorana, Melody (Evan Rachel Wood), a quem, qual Pigmalião do mal, ele tenta moldar a sua imagem e semelhança. Mal ou bem, um motivo para acordar todos os dias – o que, no caso dele, não é pouco.

Egressa de uma família com as quatro patas plantadas no coração mais conservador da América, Melody vai receber em Nova York a visita dos pais. E é no conflito entre a Nova York intelectualizada de Boris e a América jeca que elegeu George W. Bush duas vezes que se dá o lado mais sadicamente engraçado do filme, com o diretor divertindo-se em ridicularizar o conservadorismo que ainda domina boa parte dos intestinos dos Estados Unidos. A América do Tea Party não faz mesmo a mínima questão de saber o que Woody Allen pensa da vida ou de qualquer outra coisa.  Nada mais justo que seu primeiro filme de volta a cidade natal, depois de quatro longas rodados na Europa, sirva exatamente para tirar onda da obtusidade carola de boa parte de seus conterrâneos.

Tudo pode dar errado

Roger Lerina

De volta a sua querida Nova York depois de rodar suas últimas produções em Londres e Barcelona, Woody Allen requentou um roteiro escrito nos anos 1970 – mas o tom de sua nova comédia está milhas aquém do humor inteligente dos melhores momentos do mestre: Tudo Pode Dar Certo (2009) deu errado.

O filme tem um ótimo personagem – o neurótico pessimista Boris Yellnikoff, físico aposentado “quase indicado ao Nobel” – e um excelente ator no papel principal: o comediante Larry David, produtor por trás dos seriados humorísticos de sucesso Seinfeld e Curb your Enthusiasm (do qual também é protagonista). Allen parece que quis conjugar em Tudo Pode Dar Certo sua verve singular com a experiência de David no mundo das comédias televisivas – ideia por princípio promissora. No entanto, a impressão que fica é que o protagonista fez a sua parte, o diretor não.

David encarna uma espécie de alter ego de Allen que levou ao paroxismo as características dessa persona cinematográfica do realizador: Boris é o sujeito mais misantropo, cético e hipocondríaco concebível. Depois de um brilhante monólogo em que se apresenta para o público, o personagem é confrontado com o inusitado: uma adorável garota sulista perdida em Nova York acaba por acaso entrando na vida do solitário velhote ranzinza. A implausibilidade das situações remete à dramaturgia rarefeita das sitcoms americanas: Boris acaba se casando com Melodie (Evan Rachel Wood) – loirinha burra de uma estupidez tão plena e singela que desafiaria qualquer Pigmalião –, enquanto os pais da jovem desbundam com o clima intelectual e liberal nova-iorquino e subitamente abandonam seus valores caipiras retrógrados.

O problema é que Allen não consegue manejar esses clichês a ponto de moldar Tudo Pode Dar Certo como uma paródia desse tipo de humor televisivo. Allen em vão abriu mão da sutileza e fez uma comédia tola, que parece pedir o auxílio daquelas risadas eletrônicas depois de cada piada para alertar o público que é hora de rir.

A ferro e laser

30 de abril de 2010 0

Tudo começa com o céu em chamas, AC/DC estourando nos alto-falantes, garotas seminuas e Robert Downey Jr. abusando do direito de ser bufão. Lembrou de trocar a massa cinzenta por testosterona antes de entrar no cinema? Então relaxe, porque Homem de Ferro 2, que estreia nesta sexta-feira (29/04) em Porto Alegre, apenas começou e não será preciso nada além disso.

Voar, voar, subir, subir...

Depois de contar a origem do herói em 2008, num primeiro filme morno demais, parece que o diretor Jon Favreau sentiu-se livre para investir no que realmente interessa: ação. O fiapo de roteiro que conduz as duas horas de filme é uma desculpa para as duas horas de escaramuça entre Tony Stark (Downey Jr.) e o mundo _ amigos, inimigos, figurantes, ninguém está a salvo do trem desgovernado que é o sujeito, esteja ele vestindo ou não sua armadura.

E é por conta dessa instabilidade que o governo dos EUA quer de todo jeito que o playboy fanfarrão entregue a tecnologia do Homem de Ferro. E também porque, para o Tio Sam, o mundo estará muito mais seguro se só ele tiver um exército de guerreiros blindados.

Stark, claro, se nega. Ele sequer pensa em perde tempo tentando resolver assuntos chatos assim, como a segurança do país ou o comando da sua gigantesca organização. Por isso, nomeia a assistente e escada preferida para piadas Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) como presidente da companhia e dá o assunto por encerrado.

Assim, pode se dedicar à festas de arromba, onde entorta o caneco e pratica tiro ao alvo com seus feixes de laser em garrafas, pratos e melancias atiradas por garotas lascivas. Ou ficar em uma garagem high-tech aperfeiçoando seus brinquedos favoritos _ incluindo o escudo de um certo soldado bandeiroso.

Mas a farra dura pouco. Querendo vingança _ sem muito motivo, é verdade _ surge o burlesco Ivan Vanko (Mickey Rourke), russo que possui o corpo coberto por tatuagens, um papagaio branco fã de vodca e um onipresente palito no canto da boca. Ele surge sem muito propósito, a não ser o de desacreditar o herói mostrando que possui tecnologia semelhante a dele _ o que dá carta branca para os norte-americanos apertarem Stark pela posse de sua armadura.

E consegue. Durante uma dessas festinhas, o coronel James Rhodes (Don Cheadle), farto da petulância do amigo, toma uma das armaduras e a leva para o exército. Não sem antes protagonizar um dos melhores quebra-paus do filme, reduzindo a escombros a residência de Stark.

Sem amigos, credibilidade e em vias de morrer por conta de um infecção, Stark se afunda em autopiedade e suco de clorofila. Mas se afunda em uma poça rasa: em questão de minutos ele literalmente inventa uma cura para a doença desconhecida, aperfeiçoa sua armadura e sai mandando bala _ raios lasers, é verdade _ pra todo lado.

E ainda ganha o amigo de volta, agora travestido de Máquina de Combate, espécie de Homem de Ferro tunado por Justin Hammer (Sam Rockwell), dublê de empresário que quer derrubar Tony como fornecedor exclusivos de armas para os EUA _ além de outra boa escada para suas tiradas.

E aí? Vai encarar? Tenta...

Ah, sim, e ainda tem Scarlett Johansson ruiva, com meia dúzia de falas, muitos closes de rosto e peitos e uns minutinhos surrando bandidos vestindo um colant preto.

Não tem como exigir mais do que isso, convenhamos. A não ser que a troca do primeiro parágrafo não tenha sido feita com sucesso…

Confira abaixo o trailer oficial:

Mensagem ecológica com animação

30 de abril de 2010 0

Marcelo Perrone

Aventura, ação e romance, heróis que triunfam e vilões que se dão mal. Visual que combina história em quadrinhos com seres virtuais e mensagem ecológica.
São ingredientes que parecem irresistíveis para um filme que mira sobretudo na plateia infanto-juvenil. E é isso que procura oferecer A Casa Verde, longa-metragem gaúcho que estreia hoje.

A escassez de títulos brasileiros voltados para os pequenos é ao mesmo tempo esperança e receio do diretor Paulo Nascimento, autor de dramas como Valsa para Bruno Stein e do ainda inédito Em Teu Nome (veja abaixo).

– Muitos disseram que eu estava louco quando falei em fazer um filme para crianças na faixa dos seis aos 11 anos – diz o diretor. – A Casa Verde partiu da constatação de que minha filha, à época com oito anos, quase não tinha filmes brasileiros para ver. Minha geração cresceu com Os Trapalhões no cinema. A dela já passou da fase Xuxa, está muito mais ligada nos desenhos do Cartoon e nos filmes da Disney. Foram essas referências que busquei ao criar a história e o visual de A Casa Verde.

A filha do diretor, Alice, hoje com 11 anos, não só ganhou um filme para assistir como viu seu papel secundário na trama evoluir até se tornar uma das protagonistas – confiança justificada pelo ótimo trabalho da garota diante da câmera. Com locações em Garibaldi, A Casa Verde centra foco na premente causa ambiental, sem querer, segundo o diretor, fazer a pregação “ecochata” – tanto que um discurso sobre sustentabilidade nos créditos finais da cópia exibida à imprensa foi tirado da versão final, por ficar “redundante”.

O filme conta a história de um grupo de personagens de uma história em quadrinhos que, diante da crise criativa do desenhista (Nicola Siri), decide agir por conta própria para enfrentar Jordão (Zé Victor Castiel), que explora o comércio de lixo e faz de tudo para impedir o Professor (Lui Strassburger) de criar uma máquina para reciclar os detritos. A cruzada contra Jordão e sua desmiolada assistente Gigi (Ingra Liberato) é liderada por Nerd 1 (Alice), sobrinha do cientista, que convoca ajuda da heroína Eu (Fernanda Moro), avatar criado por ela no computador, e de Leonardo Del Vinte (Leonardo Machado), um alquimista que vive isolado do mundo.

Após a captação das cenas com os atores reais, A Casa Verde passou por um processo de tratamento digital de imagem com filtros e com a técnica conhecida como rotoscopia, que deu a personagens e cenários cara de desenho.

– Queríamos dialogar com a estética dos quadrinhos, elemento condutor da narrativa. Foram oito meses de trabalho de pós-produção até achar o tom certo – diz Nascimento.

Quando recebeu a reportagem de ZH, o diretor ouvia de sua distribuidora, a Espaço Filmes, a informação de que o circuito de exibição estava sendo alterado, para um pouco menos do previsto, em razão do sucesso de Alice no País das Maravilhas e da estreia de Homem de Ferro 2.

– Mesmo assim vamos estrear bem e em circuitos e espaços importantes, com 15 cópias em todo o país (são duas na Capital), 10 em película e cinco digitais. O filme está pronto desde o verão de 2009, sempre esperando a melhor hora. Filme infantil no Brasil é uma dificuldade da captação de recursos ao lançamento. Antes era Avatar, agora tem Alice, a outra – brinca. – Estou confiante, nas sessões prévias a gurizada gostou bastante.

Diretor tem mais dois filmes a caminho

É comum um diretor brasileiro encarar o lançamento de um filme como o fim de um longo e não raro penoso processo, agora entregue à boa vontade de distribuidores e exibidores e aos humores de público e crítica.  Costuma ser uma fase de tomar fôlego antes de pensar no próximo projeto. Com Paulo Nascimento é diferente. Ele está lançando A Casa Verde, já tem outro filme pronto na fila e começa a rodar mais um no começo de 2011.
É um ritmo que o diretor gaúcho, à frente da produtora Accorde, se impõe desde sua estreia na direção de longa-metragem, com o drama de época Diário de um Novo Mundo (2005), após a experiência acumulada com comerciais e produções para a televisão.
– Temos projetos alinhavados até 2014.  É preciso encarar o cinema como um negócio, com filmes que precisam ser vistos e gerar dinheiro – diz Nascimento. – Aprendi a trabalhar com orçamentos e equipes menores e, sobretudo, a lapidar bem um roteiro antes de ir pro set.

Nascimento destaca a importância do trabalho de consultoria junto a Miguel Machalski, argentino radicado em paris especialista na consultaria de roteiros:

- Ele nos ajuda a ver furos que muitas vezes têm o risco de serem percebidos na tela, com o filme pronto.

Ainda este ano Nascimento lança o Eu Teu Nome, drama sobre a trajetória de um exilado político nos anos da ditadura militar, que teve locações na França, no Chile e no Marrocos. O longa lhe valeu o Kikito de melhor diretor no Festival de Gramado. Na sequência, o diretor vai filmar na Cordilheira dos Andes A Oeste do Fim do Mundo, que fala do relacionamento de uma brasileira que mora em Mendoza, na Argentina (Fernanda Moro), com um argentino veterano da  Guerra das Malvinas (o uruguaio César Troncoso, de O Banheiro do Papa). 
– Quando assegurei o lançamento de Em Teu Nome na Inglaterra já firmei a coprodução dos ingleses para esse próximo filme, que já tinha a parceria de produtores argentinos. E unir ingleses e argentinos num filme relacionado às Malvinas foi muito interessante.

Odorico volta com a alma lavada e enxaguada

28 de abril de 2010 0

Zero Hora foi conferir em primeira mão o lançamento de O Bem Amado, no Cine PE. Confira a íntegra do texto publicado na edição desta quarta-feira do Segundo Caderno.

 


Roger Lerina / Enviado Especial a Recife

 

O 14º Cine PE começou na segunda-feira com cinema lotado, homenagem a um realizador pernambucano de sucesso e exibindo em primeira mão um dos filmes mais esperados do ano. Versão do sucesso televisivo dos anos 1970 e 1980, O Bem Amado provocou risos e nostalgia no público ao ressuscitar os habitantes de Sucupira e o folclórico prefeito Odorico Paraguaçu – encarnado agora pelo ator Marco Nanini.

 

Mais de 2,6 mil pessoas foram ao Teatro dos Guararapes, no Centro de Convenções de Olinda, prestigiar o primeiro dia da competição nacional do Cine PE – popularmente conhecido como Festival do Recife, o evento exibe até domingo um total de 63 filmes (47 curtas e 16 longas). Antes da exibição de cinco curtas da competição e da projeção fora do concurso de O Bem Amado, o diretor Guel Arraes foi homenageado pelo conjunto de sua obra. Aplaudido de pé, o recifense reconhecido por programas de TV como Armação Ilimitada, TV Pirata e Comédias da Vida Privada e por filmes tipo O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro (2003) recebeu o Troféu Calunga de Ouro das mãos de Marco Nanini. (2000) e

 

Guel e Nanini estavam à frente também da grande atração da noite: a première de O Bem Amado, longa dirigido pelo primeiro e protagonizado pelo segundo – e cuja apresentação contou com a presença ainda dos atores José Wilker, Andrea Beltrão, Maria Flor, Caio Blat e Edimilson Santos e da produtora Paula Lavigne.

 

Com estreia nacional prevista para 23 de julho, a adaptação cinematográfica da obra escrita por Dias Gomes foi rodada durante cinco semanas na região de Marechal Deodoro, no litoral alagoano, com orçamento estimado em R$ 10 milhões. Escrita como peça de teatro em 1962 e transformada em novela em 1973, O Bem Amado foi uma febre nacional tão grande que a Globo reeditou a trama em forma de seriado em 1980.

 

Nessa nova visita à cidadezinha nordestina que é uma espécie de Brasil em microcosmo, a trama volta para o início dos anos 1960. Ao lado do corroteirista Cláudio Paiva, Guel Arraes situa o enredo em 1961, traçando paralelos entre os episódios da vida política e social da fictícia Sucupira e os fatos históricos nacionais da época – como a renúncia do presidente Jânio Quadros, as tensões entre esquerda e direita durante o governo João Goulart e o golpe de 1964.

 

O Bem Amado recoloca em cena o imbróglio que celebrizou a obra: protótipo do prefeito corrupto de interior, Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) sonha em coroar sua administração inaugurando um cemitério em Sucupira. Auxiliado pelo secretário Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele) e pelas assanhadas Irmãs Cajazeira (Zezé Polessa, Andréa Beltrão e Drica Moraes), o político venal enfrenta em seus desmandos a oposição do inflamado Wladymir (Tonico Pereira), editor do jornal esquerdista A Trombeta. Paralelamente, Odorico tenta manipular o matador Zeca Diabo (José Wilker) e lidar com o namoro da filha rebelde Violeta (Maria Flor) com o jovem jornalista idealista Neco (Caio Blat).

 

- Acho que a peça do Dias Gomes é mais atual hoje. Nesse período de democracia, em que a esquerda já chegou no poder, criticar um político eleito hoje tem mais a ver do que na época da ditadura – justificou Guel na entrevista coletiva concedida na manhã de ontem.

 

- Temos um acordo com a Globo, em que filmamos também quatro capítulos da história que vão passar na TV como microssérie – informou a produtora Paula Lavigne.

 

Se na TV o tom era mais realista – ainda que indubitavelmente cômico -, no cinema O Bem Amado abraça a farsa ligeiríssima, típica dos trabalhos de Guel, em que os diálogos afiados são digladiados pelos atores em um ritmo excessivamente vertiginoso, quando não mesmo gritados. Como os tempos são outros, Odorico agora parece menos um coronel nordestino do que um bacharel picareta que fala difícil para impressionar; da mesma forma, as Cajazeira atuais são bem menos recatadas e beatas e mais jovens do que as três irmãs do original.

 

O destaque de O Bem Amado é o roteiro bem amarrado e as falas que recuperam o vocabulário singular de Odorico, criado originalmente por Dias Gomes e pontuado por prosopopeias, frases feitas e neologismos como “jenipapança”, “emboramente” e “imprensa marronzista”.

 

- Não havia compromisso com as referências anteriores. Havia uma preocupação de fazer uma coisa contemporânea. Esse projeto estava na nossa cabeça há muito tempo – explicou Nanini, cuja encarnação histriônica de Odorico acaba sendo mais caricatural do que a antológica interpretação de Paulo Gracindo.

 

Já a atuação de Wilker na pele de Zeca Diabo está totalmente descolada da figura celebrizada na televisão por Lima Duarte.

 

- Eu não tive tempo na época, infelizmente, de ver a novela ou a série, estava sempre trabalhando. Eu conheço o texto. Tenho uma admiração imensa pelo meu amigo Lima Duarte. Um dia antes das filmagens, encontrei o Lima e ele me mostrou uma foto em que todo o elenco do seriado estava reunido em uma pizzaria em Roma, quando eles foram filmar lá. Toda a informação que eu tive dele foi essa conversa. O que me alimentou foi o que estava escrito no roteiro e o que o diretor mandou eu fazer. Eu sou muito bem mandado. O filme é um dileto filho de um casamento pouco provável, mas que existiu, entre o Nanini e o Guel – disse Wilker.

 

Tarantino outra vez, enfim. Será?

27 de abril de 2010 1

Quem acompanha o blog sabe o quanto já lamentamos o inexplicável esquecimento de À Prova de Morte no circuito comercial brasileiro. Dia 19 de abril de 2008 (!) o filme banido de Quentin Tarantino já era assunto AQUI. Pois agora parece que o longa vai estrear mesmo no Brasil, e não direto em DVD, como chegou a ser cogitado. A Europa Filmes, informou a ZH o Meneco Siqueira, repassou os direitos de distribuição à PlayArte, que anuncia o lançamento de À Prova de Morte para 23 de julho agora.

Quem quiser saber mais sobre o filme, clique no link indicado acima. À Prova de Morte faz parte do projeto dois-em-um Grindhouse, lançado nos EUA em 2007 por Tarantino e Robert Rodriguez. Não deu certo (na bilheteria) e foi desmembrado em dois filmes separados. Planeta Terror, de Rodriguez, tributo aos filmes de zumbi, chegou ao Brasil e já saiu em DVD. À Prova de Morte (Death Proof) ganhou várias datas de lançamento, a última no embalo de Bastardos Inglórios, mas foi pra gaveta. O filme presta homenagem aos filmes B dos anos 70 com carrões envenenados, mulheres gostosas e muita violência (deve ser indicado para maiores de 18 anos) . O protagonista é um dublê serial killer (Kurt Russell) que persegue com sua caranga belas gatas ao volante.

O time feminino espetacular é liderado por Rosario Dawson, Rose McGowan, uma nova musa, Vanessa Ferlito, e um astro quase aposentado (Russell). A trilha sonora, como sempre, traz as pérolas garimpadas na discoteca de Tarantino. Sente o clima:

O que funciona e o que não funciona na Alice de Tim Burton

22 de abril de 2010 9

Daniel Feix

A questão proposta no título deste post poderia ser resumida de várias formas. Dois exemplos: o visual é bom, mas a história não engrena; alguns atores, leia-se Johnny Depp e Helena Bonham Carter, têm desempenhos extraordinários, mas a trama em que se envolvem é rasa, foi simplificada em demasia pelo diretor Tim Burton.

Acontece que o projeto Alice no País das Maravilhas, concebido pela Disney e realizado pelo cineasta californiano radicado em Londres, não resultou num filme comum. A estreia no Brasil, nesta sexta-feira (há sessões de pré-estreia no país a partir da meia-noite de quinta para sexta), foi antecedida de um verdadeiro bombardeio, que incluiu produtos licenciados, ações de marketing, reedições de livros velhos e novas publicações. Até a publicidade alheia incorporou o imaginário da mais nova adaptação da clássica obra de Lewis Carroll.

Tanto quanto Avatar, esta versão de Alice nos leva a pensar sobre as possibilidades de transcendência do cinema. Infelizmente, no entanto, não a transcendência artística que grandes filmes são capazes de proporcionar. Alice pode ser deslumbrante do ponto de vista plástico, porém, diante de toda a expectativa gerada, não deixa de ser decepcionante como projeto estético, ou artístico.

Alice (Mia Wasikowska) no filme de Tim Burton

Burton, 51 anos, é um visionário. Seus filmes retratam invariavelmente personagens desajustados socialmente, o que não deixa de ser um clichê, mas com uma inventividade absolutamente incomum. Faz desse desajuste poesia, usando recursos visuais como poucos outros autores são capazes de usar. Edward Mãos de Tesoura (1990) talvez seja o melhor exemplo, mas como não se encantar com Peixe Grande (2003) e Noiva Cadáver (2005)?

Mesmo em adaptações, ou refilmagens, Burton foi grande, gigante – quem viu seu Batman (1989) e a sua versão para A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005) sabe do que estou falando. Neste último e também em seu filme anterior a Alice, o soturno e melancólico Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007), Burton reencontrou em Johnny Depp um ator capaz de transformar esse desajuste em motor criativo para a construção dos personagens. A parceria dos dois, com Alice, já soma sete longas-metragens.

No novo filme acontece algo parecido com Helena Bonham Carter – aliás, mulher de Burton na vida real. Suas ordens como a Rainha Vermelha compõem um personagem brilhantemente concebido em todos os seus aspectos – figurino, maquiagem, efeitos de computação. No texto que circula na ZH de hoje, escrevi que seu cabeção, assim como os olhos esbugalhados do Chapeleiro Maluco, personagem de Johnny Depp, têm função dramática. É isso: eles dizem algo, trazem informações sobre o personagem, e são explorados pelos atores em seus movimentos e pelo diretor na forma como os enquadra e os conduz em meio à trama. A monarca cabeçuda é uma déspota que adora decapitar quem a desobedece, enquanto o chapeleiro doidão, com aquelas bolitas coloridas saltadas no rosto, torna-se ainda – e muito – mais melancólico.

O Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter)

É de fato uma pena que atuações tão marcantes – Helena para mim seria desde já candidata a um Oscar de atriz coadjuvante – e acertos incontestáveis do ponto de vista plástico não estejam a serviço de uma história mais rica. Sim, porque o que Burton fez ao mesclar elementos de Alice no País das Maravilhas (publicado originalmente em 1865) e Alice Através do Espelho (1872) foi achatar a trama e seus personagens, dando a eles definições tão simplórias quanto vilão e mocinho – algo que não combina em nada com o universo de Carroll e que só faria sentido em histórias mais infantis ou menos imaginativas.

Alice, que aqui tem 19 anos e não mais os 10 da obra original, não é mais a criança cuja presença fez suscitar suspeitas de pedofilia da parte do escritor, e sim uma garota que se recusa a seguir certas tradições e reivindica a própria liberdade de escolha na sociedade britânica do século 19 – ela foge para a toca do Coelho Branco num momento de dúvida, em que se recusa a fazer parte de um casamento de cartas marcadas.

Lá pelas tantas, no entanto, transforma-se numa justiceira do underground, espécie de salvadora de um povo oprimido por uma líder má (a Rainha Vermelha) e ansioso pelo retorno da líder boa (a Rainha Branca interpretada por Anne Hathaway). O final, claro, não podia reservar algo diferente de uma grande batalha, às vezes amedrontadora, em todo o tempo cansativa. Essa concepção contestável da personagem, tanto quanto a sua própria trajetória, deixam claro como a coragem e a falta dela andam juntas no filme.

É claro que você, que esperou tanto por Alice, não pode deixar de assistir. Mas também pode ser que se decepcione um pouquinho.

O mundo entre a utopia e a barbárie

21 de abril de 2010 0

Silvio Tendler no Vietnã com o general Giap.               Crédito: Caliban

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Marcelo Perrone

Mais bem-sucedido documentarista do Brasil – no resultado comercial de suas produções -, o carioca Silvio Tendler mantém firme seu foco no cinema político, que nos tempos de democracia consolidada ele vê não despertar mais tanto interesse do público em assistir e dos colegas em realizar.
Autor de sucessos impensáveis no cenário atual do cinema nacional, como Os Anos JK (1980) e Jango (1984), Tendler apresenta agora Utopia e Barbárie, em cartaz a partir desta sexta-efeira. Na última segunda-feira,  Tendler lançou o filme em Porto Alegre, em uma sessão seguida em debate, no CineBancários.

Utopia e Barbárie é o resultado de uma jornada de 19 anos na qual Tendler, 60, foi costurando imagens e depoimentos para fazer um inventário histórico sob o ponto de vista dos sonhos e desilusões de sua geração – jovens dos anos 1960 e 1970 que pregaram paz e amor mas conviveram com guerras e ditaduras, que imaginavam a justiça social pelo comunismo mas despertaram dentro da bolha de consumo da sociedade globalizada.
O documentário faz um recorte entre o final da II Guerra, em 1945, e a crise mundial de 2009, quando Tendler sublinha com ironia o  fato de o capitalismo e a economia de mercado terem sido salvos pela intervenção do Estado. Em formato de road movie, o filme mostra a viagem do diretor por 15 países, nos quais falou com dezenas de protagonistas e testemunhas de fatos emblemáticos do século 20.
Embora siga um ordenamento cronológico, o ritmo do filme é ditado pelas lembranças de Tendler, que guia o espectador em primeira pessoa – o que justificaria seus entusiasmo diante de determinadas passagens e personagens polêmicos, que dão margem ao debate político e ideológico, risco assumido pelo autor (leia entrevista ao lado).

Utopia e Barbárie tem a ambição de compor um painel global. Seu eixo são personagens que, como diz Tendler, “fizeram a cabeça” de jovens brasileiros como ele. Do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, do guerrilheiro argentino Che Guevara ao general vietnamita Giap, o estrategista que derrotou os Estados Unidos no Vietnã.  Uma parte significativa desse inventário – que se equilibra sobre os tons emotivo, panfletário e crítico, em dosagem variável conforme as convicções do espectador –, Tendler dedica ao contraste entre a efervescência política e comportamental que o mundo viveu no fim dos anos 1960 e a repressão da ditadura militar no Brasil.

– Documentário não é um trabalho jornalístico, não tem o compromisso de ser objetivo, pode ser subjetivo – diz o diretor. – Mas também pode ser objetivo e parcial ao mesmo tempo. Cada um que assiste ao filme faz seu próprio filme na cabeça. Já fui cobrado por não mencionar a luta de Mandela na África do Sul ou a Revolução do Cravos em Portugal. Gostaria de voltar ao tema,  acrescentando a utopia anarquista e a atual utopia fundamentalista. Mas no momento me dedico ao documentário sobre Tancredo Neves, que devo lançar no segundo semestre, com foco nos bastidores da sua eleição no Colégio Eleitoral.

Tendler assina os três documentários mais vistos do cinema nacional. Jango teve 1 milhão de espectadores, Os Anos JK somou 800 mil e O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981) alcançou 1,7 milhão de espectadores, mas Tendler credita esse sucesso à popularidade de Renato Aragão e sua trupe. Ele reconhece que os documentaristas estão hoje mais voltados para temas sociais e ambientais, que não deixam de ser políticos a seu modo,  e para trabalhos de experimentação de linguagem:
– Sempre trabalhei no cinema como forma de debater ideias. Tenho pena dos outros que abandonaram o barco. É uma viagem proveitosa.

Veja trechos da entrevista do diretor.

Zero Hora –  Seu filme parte de um painel histórico do século 20 e assume o formato de um diário pessoal, com muitas referências autobiográficas. Qual era sua intenção inicial no projeto? 
Silvio Tendler –
O documentário foi ficando pessoal pelo caminho. Meu primeiro movimento foi o de resgate histórico. O filme teria como título Utopia ou Barbárie, como dois conceitos antagônicos. Mas percebi que são complementares, que andam juntos em alternância. Delimitei o recorte histórico a partir do fim da  II Guerra Mundial. A utopia da paz, de estar vivo após um conflito que matou 60 milhões de pessoas, veio junto com os horrores revelados nos campos de concentração do Holocausto e nas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

ZH – Quando exatamente o senhor decidiu realizar o documentário?
Tendler –
O filme começou a tomar forma em 1990, quando eu morava na França. A motivação veio um ano antes, em 1989, quando na mesma semana o Collor foi eleito presidente no Brasil e o Muro de Berlim caiu na Alemanha. No caso da queda do muro, minha decepção não foi com o fato si, pois eu o via como um símbolo negativo, mas por representar o fim da utopia socialista. Esses dois episódios provocaram em mim uma forte indignação diante da pergunta: “Será que eu joguei fora minha juventude e tudo pelo que lutei?”. Passei a aproveitar viagens e realização de outros filmes para fazer entrevistas e pesquisar imagens. O ponto final foi dado em 2009. Foi um trabalho penoso nesses 19 anos, como juntar caquinhos.

ZH – O senhor é reconhecido pela militância esquerdista. Mas colocar entre os entrevistados com maior destaque Dilma Rousseff (candidata do PT à presidência) não abre margem para considerar seu filme uma peça de campanha eleitoral?
Tendler –
Achar que a Dilma tem destaque no filme é como um golpe de vista. Se você perceber bem, ela tem o mesmo espaço do (poeta) Ferreira Gullar, que é contrário à luta armada, fala que via a guerrilha como maluquice e lembra o racha que existiu na esquerda por conta disso. Dilma é uma mulher corajosa. Ela podia, como outros, dizer “Esqueçam tudo que fiz”. Tem gente que gosta de passar um sabão na história. Eu decidi incluir o depoimento muito antes de a Dilma ser candidata, por conta daquele episódio em que ela foi criticada ao dizer que já havia mentido para salvar a vida de companheiros. Não tenho culpa de o Ferreira Gullar vestir cinza e a Dilma vestir vermelho, que chama mais atenção. (Risos.) Eles têm o mesmo espaço. Não estou fazendo campanha.

ZH – Também tem o depoimento do jornalista Franklin Martins (ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva).
Tendler –
Franklin teve presença em momentos importantes da luta contra a ditadura e é meu amigo. Não teria por que não ouvi-lo. Eu assumo que é um filme de esquerda. Sou honesto. É o meu ponto de vista que está ali. Se você não concorda, podemos discutir. Não sou lulista nem petista. Respeito muito o Lula, mas nos oito anos de seu governo estive uma única vez no Palácio do Planalto, em uma cerimônia pública.

ZH – Entre os filmes citados no documentário, o senhor dedica atenção especial a dois, Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, e As Invasões Bárbaras (2003), de Denys Arcand. Eles representariam esse recorte histórico de início e fim das utopias?
Tendler –
Minha geração teve a cabeça feita pelo mito do guerrilheiro heroico, que nasceu muito antes do Che Guevara. Eles estava representado nos partisans franceses e italianos que lutaram contra os nazistas, na figura do marechal Tito nas montanhas da Iugoslávia. Roma, Cidade Aberta é símbolo da utopia que uniu católicos e socialistas na luta contra o fascismo. Aqueles meninos que assistem ao fuzilamento do padre são os futuros revolucionários dos anos 1960.  Já As Invasões Bárbaras representa o fim daquela utopia. Aquelas pessoas que seguiram os “ismos” quando jovens (comunismo, socialismo, existencialismo, anarquismo, entre outros movimentos) são na maturidade o retrato do desencanto. Fiz questão de ir ao Canadá entrevistar o Denys Arcand para dizer a ele: “Rémy sou eu”. (Rémy é o personagem principal do filme.)

ZH – Entre em dezenas de depoimentos registrados nestes 19 anos em diferentes países, qual  foi o mais difícil de conseguir?
Tendler –
Foi o do general Giap (Vo Nguyen Giap), no Vietnã, em 2003. Ele é uma grande figura histórica para a minha geração. Era um professor sem formação militar, virou general por força das circunstâncias e foi o estrategista que derrotou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A entrevista foi longamente negociada, busquei apoio do Itamaraty. Foi designado um intérprete vietnamita que falava espanhol para me acompanhar e me deram só 15 minutos com ele. Mas o Giap falava francês, como eu, e os 15 minutos viraram uma hora. O intérprete ficou louco. (Risos.)

ZH – O general Giap aparece numa foto segurando a bandeira do MST.  Por que razão? 
Tendler –
Eu dei de presente a ele, junto com meu filme sobre o Marighella (Carlos Marighella, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil). Sou simpático, sim, à causa do MST, mas é uma foto de 2003, não tem por que discuti-la sobre o contexto atual.

ZH – O senhor menciona que uma de suas utopias como jovem judeu foi viver o socialismo sionista em um kibutz (fazenda coletiva) de Israel. Qual sua utopia hoje?
Tendler –
É a luta pela paz, ver palestinos e israelenses conviverem no mesmo espaço.  Isso não é impossível. Existe gente tolerante e aberta ao diálogo dos dois lados. Mostro isso no filme.

ZH – A vida numa democracia arrefeceu a juventude, no caso a brasileira?
Tendler –
Está cada dia mais difícil a luta pública coletiva. Estamos organizando uma manifestação contra o governo do Irã, pela libertação do cineasta Jafar Panahi. Está difícil reunir as pessoas até para uma foto. É mais fácil conseguir 1 milhão e meio de assinaturas pela internet.

Pérolas cinéfilas

20 de abril de 2010 0

É impressionante o catálogo que a Lume Filmes, distribuidora de DVDs com sede em São Luís, no Maranhão, está formando. Depois de lançamentos recentes do porte de A Conversação, de Francis Ford Coppola (ver resenha aqui), Alice, de Claude Chabrol, Antes da Chuva, de Milcho Mancheviski (ver resenha aqui), e A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, o selo acaba de colocar no mercado Clamor do Sexo, de Elia Kazan, e Eva, de Joseph Losey, entre outras joias. O próximo pacote da Lume vai trazer Crash, de David Cronemberg, O Castelo, de Michael Haneke, e O Marido da Cabeleireira, de Patrice Leconte.

Quebrando tudo em junho

20 de abril de 2010 0

Com referência ao post abaixo, sobre o batduelo entre Nicolas Cage e Adam West no programa de Jay Leno, um adendo. Kick-Ass (que chega em 11 de junho ao Brasil, com o título Quebrando Tudo) estreou como campeão de bilheteria do final de semana nos EUA (e Canadá). Faturou US$ 19,8 milhões, que somados aos US$ 17,4 milhões nas bilheterias internacionais já superam o orçamento de US$ 30 milhões. Sucesso? Tudo indica que sim e os números vão aumentar, mas alguns sites especializados no mercado cinematográfico avaliam que o filme não foi assim tão bem diante da agressiva campanha de marketing que tomou conta do mundo virtual nos últimos meses.

Pudera, Quebrando Tudo tem a cara da geração nerd que passa o dia ou em frente ao computador ou lendo gibi.  A trama, que, aliás, é inspirada numa HQ homônima, acompanha uma turma de garotos que decide combater o crime vestidos como super-herois, mas sem poderes especiais, contando apenas com o muque, a habilidade ninja e a astúcia – o protagonista, o tal Kick-Ass, assume que tem o poder de ficar invisível… para as garotas que o ignoram. Além da boa bilheteria, Quebrando Tudo ganhou resenhas bastantes positivas de importante veículos, como New York Times, Premiere, Rolling Stone, Los Angeles Times, Variety e Time – que não costumam ter muita paciência com tramas adolescentes descerebradas.

Talvez explique essa recepção positiva o fato de o diretor ser o inglês Matthew Vaughn, amigo e parceiro de Guy Ritchie que deixou a função de produtor para comandar Nem Tudo é o que Parece, com Daniel Craig antes da fama, e mais recentemente assinou o bem bacana filme infanto-juvenil Stardust, com Michelle Pfeiffer. A praia de  Vaughn também é combinar o bom e sarcástico humor britânico com muita violência.

Dá um conferida no trailer. Repare na particiapção especial de Nicolas Cage, um grande aficionado pelo universo das HQs de super-heróis, como Big Daddy, um clone grosseiro do Batman.

Batman game show

17 de abril de 2010 0

O apresentador Jay Leno promoveu esses dias em seu programa um curioso encontro entre o ator Nicolas Cage, fã de super-heróis e colecionador de histórias em quadrinhos, e Adam West, imortalizado na cultura pop como o Batman do divertido seriado de TV dos anos 60. Cage estava lá promovendo a comédia de ação Kick-Ass, que tira onda do universo dos sujeitos que vestem malha, máscara e capa para salvar o mundo, na qual vive o personagem Big Daddy.  West vive até hoje da fama como o mais impagável registro do Homem-Morcego – dá uma pontinha de tristeza ver que um dos ídolos da minha infância ficou tão marcado pelo personagem que não fez mais nada de relevante na carreira, mas Adam West deve viver muito bem, fazer bons bicos e se divertir com essa sina, que é o que importa, afinal.

West foi convocado para disputar com Cage um quiz sobre Batman, com perguntas como qual o nome completo do mordomo Alfred e que vilão apareceu mais vezes no seriado. Confiram quem venceu o batduelo:

Scorsese em 3D

14 de abril de 2010 1

Notícia que chega via twitter do The Guardian. O próximo projeto de Martin Scorsese traz dupla novidade. É o primeiro trabalho do mestre voltado para o público infanto-juvenil e sua estreia no formato 3D. Trata-se da adapatação do livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, que traz as aventuras de um garoto de 12 anos na Paris dos anos 1930.

Para ver o texto completo clique aqui.

Faltou a graça da TV

12 de abril de 2010 1

Tina Fey e Steve Carell em Uma Noite Fora de Série

Colocar lado a lado no cinema os protagonistas de dois dos seriados mais divertidos e premiados da televisão poderia ser o caminho certo para um programa de rachar o bico. Tina Fey, a produtora estressada de 30 Rock, e Steve Carell, o chefe sem noção em The Office, fazem o que podem e parecem ter se divertido trabalhando juntos, mas Uma Noite Fora de Série, em cartaz nos cinemas, é como um avião que acelera as turbinas pela pista sem conseguir levantar voo.
Tina e Carell são dois nomes do primeiro time da comédia norte-americana, tanto na frente das câmeras quanto nos bastidores, assinando seus projetos também como produtores e roteiristas – Tina ainda participa com brilho da atual fase do longevo humorístico Saturday Night Live, programa no qual despontou.

Em Uma Noite Fora de Série, porém, eles encaram o desafio de driblar o roteiro pouco inspirado (de John Klausner, colaborador no texto de Shrek Terceiro) e a direção frouxa de Shawn Levy (dos dois filmes da série Uma Noite no Museu). A experiência destes dois com as plateias infanto-juvenis talvez explique a falta de tato para explorar o potencial da dupla de atores excepcionais que nos acostumamos a ver nas séries da TV, nas quais estão ancorados pela finesse do texto e pelo timing perfeito das piadas.

Os primeiros momentos de Uma Noite Fora de Série bem que prometem algo animador pela frente. Tina e Carell são Claire e Phil Foster, casal com dois filhos pequenos que leva uma vida feliz, confortável e modorrenta num subúrbio de Nova Jersey. Estão naquela fase do contato físico quase zero e das conversas banais sobre como foi o dia enquanto planejam o próximo que será exatamente igual. Enxergam amigos se separando, mas acreditam que ainda podem assoprar as brasas da paixão adolescente.

Essa crônica ora amarga, ora saborosa da vida conjugal funciona muito bem e arranca sorrisos sinceros até o momento em que Phil decide romper a bolha levando Claire para jantar num restaurante chique de Manhattan, na vizinha Nova York. Eles não têm reserva, acreditam na sorte e no jeitinho, que é dado quando fingem se passar por um casal que tem mesa marcada mas não está presente quando chamado. Ocorre que esse outro casal está metido com gente da pesada. Uns capangas acham que Claire e Phil são a dupla que devem caçar, e tem início uma grande e aborrecida correria, com as perseguições, os tiroteios e os vilões caricatos de praxe, bem ao gosto das ruidosas plateias adolescentes – mas um tanto frustrante para os que conhecem o potencial de Tina e Carell.Bons que são, eles deixam sua marca em algumas passagens iluminadas e francamente hilárias na narrativa – que não por acaso parecem criadas na capacidade de improviso de ambos justamente para driblar as limitações do roteiro -, que não bastam para dar liga no projeto por inteiro.

As muitas vidas de Ana

09 de abril de 2010 1

Cultuado pelo inesquecível Os Amantes do Círculo Polar (1998), o espanhol Julio Medem já demonstrara ser um dos mais interessantes cineastas contemporâneos desde o lançamento de filmes como Vacas (1992) e Terra (1996).

Mas suas histórias de amores impossíveis com pano de fundo político centradas em mulheres fortes porém vulneráveis haviam desaparecido depois de Lucía e o Sexo (2001). Após a depressão que se seguiu à trágica morte de sua irmã, em acidente de carro, e à péssima repercussão de seu documentário La Pelota Basca (2003), pelo qual chegou a ser acusado de defensor do grupo extremista ETA, Medem voltou com um de seus trabalhos mais radicais.

Incompreendido, Caótica Ana (2007) praticamente passou em branco por vários festivais e sequer ganhou o circuito das salas de cinema no Brasil. Chegou com bastante atraso ao DVD, em lançamento da pequena Visual Filmes. É uma palavra de fã, mas direcionada não apenas aos admiradores do realizador de 51 anos nascido em San Sebastián, no País Basco: a recompensa ao garimpá-lo por aí pode render uma boa surpresa.

No longa, uma garota de 18 anos (Manuela Vellés), pele delicada e olhos imensos, hipnóticos, vive isolada com o pai (Matthias Habich) na ilha de Ibiza. Visual meio hippie, personalidade borderline, ela se dedica à pintura – suas telas são  na verdade as da irmã morta do cineasta, cujo nome também é Ana. Ainda no início do filme, chama a atenção de uma mecenas (Charlotte Rampling), que resolve levá-la até Madri. Na cidade grande, instalada numa espécie de república em que vivem diversos artistas, descobre o amor ao se apaixonar pelo personagem misterioso de Nicolas Cazalé e consolida uma amizade de irmã com a performer interpretada por Bebe Rebolledo. Tudo contado em 10 capítulos curtos, em muitos aspectos fechados e independentes entre si, que aos poucos vão revelando o caos interno da protagonista.

Ana tem seguidos ataques de pânico, que a levam a ter visões sobre vidas passadas, sempre de mulheres cujo destino é trágico. É um anjo como o de Asas do Desejo (1987), mas um anjo torto, contrário àquele visto no filme de Wim Wenders – tem o poder de vivenciar o que outras pessoas vivenciam, no entanto, o rejeita. Não quer ser todas as mulheres, mas uma única, como diz a certa altura. Não quer viver a eternidade, quer apenas o agora.

Medem é pretensioso: pontua a narrativa com diversas metáforas, a maior parte relacionadas à natureza, não se permite ser convencional em nenhum plano, apostando em muitas viradas e surpresas, e também em composições visuais – além de deslumbrantes – diferentes a cada delírio de Ana, como se incorporassem a desordem de sua personalidade.

A insistência com as sessões de hipnose a que ela se submete e, ao final, a guinada política, anti-americanista do longa, atordoam quem não entrou em sua viagem. Teria o diretor, aqui também roteirista e montador, exagerado em suas obsessões pelas histórias complexas, labirínticas, e perdido a mão? Melhor tirar a prova vendo o filme. Medem tem crédito.

Abaixo, o trailer e um clipe de Tiempo y Silencio, linda canção de Pedro Guerra cantada por ele e Cesária Évora que está na trilha do longa (as imagens são todas de Caótica Ana).

John Lennon no palanque

07 de abril de 2010 0

Não se consegue imaginar hoje um artista com cacife para colocar sob ameaça os pilares de um governo, ainda mais um dos graúdos, como o dos Estados Unidos. Quando muito, os que não não têm sua imagem pública ligada a escândalos e modismos comportamentais emprestam carisma e prestígio para reforçar campanhas sociais. Em outros tempos era diferente. John Lennon era um artista diferente. Por isso o governo de Richard Nixon, nos EUA dos anos 1970 convulsionado pelos protestos contra a Guerra do Vietnã, achou que o então ex-beatle era uma grande ameaça e pôs seus cães guarda em alerta. Essa história está contada no documentário Os Estados Unidos contra John Lennon, em cartaz na Capital.

O filme produzido em 2006 lembra um capítulo da trajetória de Lennon que é bem conhecido pelos fãs dos Beatles. O que os diretores David Leaf e John Scheinfeld fazem com competência é amarrar estas passagens manjadas com o contexto histórico e político da época em que Lennon foi considerado inimigo público pelo governo americano. Visão que mostrou-se exagerada, viu-se logo depois, em 1974, quando Nixon foi varrido do cargo pela própria incompetência à frente do escândalo Watergate.

A queda de braço havia começado em 1972, quando Lennon e sua mulher, Yoko Ono – a artista plástica performática japonesa que o motivou a se radicar em Nova York –, aceitaram participar de um show coletivo a favor a libertação do ativista político John Sinclair, preso por porte de drogas. O evento teve transmissão pela TV, e Sinclair ganhou até música em homenagem assinada por Lennon. Se o governo americano já não via com simpatia as constantes manifestações de Lennon contra a Guerra do Vietnã, argumentando que o inglês não podia se enxerir em assuntos internos, ver o artista fazer do palco um palanque foi a gota d’água. O republicano Nixon estava em plena campanha pela reeleição e buscava votos entre os jovens que tinham Lennon como ídolo. Incomodava a Casa Branca sobretudo o fato de Lennon ser, além de famoso, um milionário que não se furtava de bancar pessoas e organizações dos mais diferentes perfis, de esquerdistas radicais a malucos anarquistas.

A aproximação de Lennon de militantes do porte de Bobby Seale, líder dos Panteras Negras, grupo que pregava a resistência armada contra a “América Branca”, acendeu o alerta vermelho. O FBI entrou em campo. Lennon passou a temer, além dos telefonemas grampeados e estranhos rondando a casa, que sua vida estivesse em risco – ironicamente, foi pelas mãos de um fã perturbado que ele morreria baleado, em 1980.

O documentário traz preciosas imagens de arquivos e depoimentos atuais que ajudam a enxergar aquele momento sob outra perspectiva, menos apaixonada: Yoko Ono, amigos dos casal, ex-agentes do FBI, integrantes do governo Nixon, ex-ativistas, jornalistas e intelectuais do porte de Gore Vidal, entre outros. Algumas conclusões: Nixon superestimou a influência de Lennon – tanto que venceu a eleição de 1972; Lennon foi um tanto ingênuo ao se deixar levar por alguns ativistas que queriam pegar carona na sua fama e, especialmente, na sua grana; Lennon não fez nada de ilegal, apenas sentiu-se na obrigação de não ficar omisso em um momento conturbado da história (bom lembrar que ele sempre foi o beatle mais articulado e atento às questões políticas de seu tempo) – tanto que a única providência legal tomada contra ele, já que o direito à livre expressão é uma garantia constitucional nos EUA, foi a tentativa de deportação por seu visto estar vencido.

O documentário também especula que a origem da “rebeldia” de Lennon contra o sistema e as autoridades está na sua infância problemática no meio da classa trabalhadora inglesa. Mas o que talvez o filme traga de mais revelador é desfazer a imagem negativa que muitos fãs dos Beatles construíram de Yoko Ono, sempre vista como a bruxa má responsável pelas separação da banda. Mas o que se vê é que ao lado dela  Lennon foi sereno e feliz como nunca havia sido. Encontrou em Yoko a parceira para viver não apenas como mito, mas como homem.

Dois olhares sobre Chico Xavier, o filme

05 de abril de 2010 21

Um forte indicativo para se medir o potencial de público total de um filme é o seu desempenho no primeiro final de semana em cartaz. E como era esperado, Chico Xavier largou muito bem, com 590 mil espectadores. Marca que fez o diretor Daniel Filho superar a si, pois o filme nacional de maior sucesso nos primeiros três dias de exibição desde a retomada da produção nacional, no começo dos anos 1990 é  Se Eu Fosse Você 2, com 570 mil espectadores nos três primeiros dias de exibição – com um 6 milhões de espectadores, a comédia é o título campeão de público da retomada.

A cinebiografia do médium espírita brasileiro tem a seu favor o interesse de um público-alvo considerável – a ver que o modesto, em orçamento e qualidade da dramaturgia, Bezerra de Menezes, sobre outra figura simbólica do espiritismo nacional, atingiu um público superior a 500 mil.

Confira abaixo duas impressões sobre o filme entre a equipe do Segundo Caderno:


Mas antes um aviso importante.

Caros leitores: vamos limitar a discussão ao que é pertinente em um blog de cinema: ao filme Chico Xavier. Não cabe aqui debatermos o indivíduo Chico Xavier ou os preceitos do espiritismo, nem transformar esse espaço de comentários em uma guerra religiosa.
Comentários ofensivos não vão ser liberados – como de regra na casa.

A missão do homem e a missão do filme

Tatiana Tavares

Já tinha lido o livro do jornalista Marcel Souto Maior (As Vidas de Chico Xavier, editora Planeta) quando fiquei sabendo que o diretor Daniel Filho faria um filme sobre Chico Xavier baseado nessa obra. Como seguidora do espiritismo, sabia que o filme não me contaria nada que eu ainda não soubesse sobre a vida do médium mineiro, mas acreditava que poderia fazer um bom panorama sobre a vida de Chico, contribuindo assim para a que foi sabidamente sua maior missão, a divulgação da religião (ou doutrina, como queiram) espírita.
Seria impossível, em pouco mais de duas horas, narrar uma vida inteira de solidariedade e de caridade, mas o roteirista Marcos Bernstein (de Central do Brasil) e o diretor Daniel Filho (de Se Eu Fosse Você) conseguiram fazer belos recortes da vida de Chico como homem e como médium, evitando transformá-lo em herói.
Se quisesse, o diretor poderia ter feito um filme para chorar. Bastaria ter se aprofundado nas precárias condições em que vivia Chico, nas dificuldades da infância – que foram muito maiores do que as mostradas pelo longa – e nas caminhadas que fazia para levar comida a pessoas ainda mais pobres do que ele. Mas Daniel Filho escolheu o caminho do relato e contou passagens importantes da vida do médium – pecou apenas ao não ter se detido em polêmicas que rondaram a vida de Chico, como a que envolveu o escritor Humberto de Campos, psicografado no livro Crônicas de Além Túmulo (Ed. Federação Espírita do Brasil).
Mesmo misturando fatos que ocorreram em momentos diferentes – os pais que buscam respostas sobre a morte do filho, na verdade, nada tinham a ver com o diretor do programa Pinga Fogo, da TV Tupi, que serviu de base para contar a história -, o filme foi fiel ao mostrar um Chico consolador, que recebia mães e pais em busca de notícias dos filhos mortos (desencarnados, segundo a doutrina espírita). O livro Jovens no Além (Grupo Espírita Emmanuel), por exemplo, traz uma série de cartas de jovens a seus pais psicografadas pelo médium. Para quem não conhece a história do espírita, parece evidente claro que ele não era um curandeiro ou alguém que fazia milagres. O objetivo do homem de Pedro Leopoldo (MG) era, por meio do espiritismo, acolher quem estivesse a procura de conforto.
Vendo as salas de cinema lotadas no primeiro fim de semana de exibição de Chico Xavier, fica claro que a missão de Chico Xavier de divulgar o espiritismo continua mesmo depois de sua morte – a doutrina, agora, leva milhares de pessoas ao cinema. Talvez essas pessoas também busquem o consolo da palavra espírita. E então Chico Xavier terá tido ainda mais sucesso. Afinal, se a missão de Allan Kardec foi codificar a doutrina espírita, a de Chico Xavier foi levar essa mensagem para o mundo inteiro.

Quando o mito é maior do que a vida

Roger Lerina

Um problema crucial em cinebiografias de grandes personalidades é separar o personagem do filme – uma coisa é a figura perfilada, outra é a obra que narra sua trajetória. Confundir um com outro, permitindo que o filme seja contaminado pelas qualidades do filmado, é um erro comum, que muitas vezes poupa uma produção de um julgamento mais crítico,
blindada que está pela empatia de seu biografado.
Chico Xavier certamente vai tirar partido da enorme popularidade do mito para garantir um público na casa das centenas de milhares de espectadores, a despeito de sua eficácia como narrativa cinematográfica. O longa do diretor Daniel Filho foi talhado para emocionar as massas, buscando por um lado destacar as capacidades mediúnicas de Chico Xavier e suas visões de espíritos, por outro humanizar o protagonista, confrontando–o com céticos e ressaltando seus sofrimentos pessoais e seu bom humor.

O roteiro de Marcos Bernstein – o mesmo de Central do Brasil (1998) – acerta ao fornecer um eixo para a história: os episódios da vida de Chico Xavier se sucedem entremeados à recriação de uma célebre entrevista concedida pelo médium. Outro achado dramático é o destaque ao casal interpretado por Tony Ramos e Christiane Torloni, cujo filho morreu de maneira estúpida – a mãe acredita na capacidade de Xavier de falar com o rapaz morto, o pai duvida.

Estabelecida a forma como Chico Xavier vai contar a trajetória de seu protagonista, resta definir o tom dessa narrativa. E é aí que o longa de Daniel Filho carrega nas tintas e afasta o público que não é entusiasta a priori do médium e de sua obra. A fim de priorizar os aspectos sentimentais dos episódios da vida de Chico Xavier, o filme não desenvolve a psicologia dos personagens ou os conflitos que eventualmente são colocados em cena – o que vale é a sensação imediata, a identificação automática do público com imagens de solidariedade, sofrimento, superação, perda, devoção, bonomia.

Se o roteiro é eficiente do ponto de vista de estrutura, é falho quanto aos diálogos, excessivamente óbvios ou artificiais – o apelo ao coração é sublinhado pela trilha sonora grandiloquente de Egberto Gismonti.

Competente diretor de atores, Daniel Filho arranca uma interpretação na medida certa de Nelson Xavier – espantosamente parecido com Chico Xavier em seus últimos anos e especialmente eficaz nas cenas de humor. O mesmo não se pode dizer de Ângelo Antônio, preso à representação física um tanto caricata do médium quando mais novo, e do ator André Dias, involuntariamente risível encarnando o espírito Emmanuel. As boas atuações de Tony Ramos e Christiane Torloni também são vítimas desse compromisso com a sedução pela emoção: o interessante conflito do casal descamba para uma catarse que afoga em lágrimas qualquer reflexão sobre o filme.