Os norte-americanos tem fixação pelo bicho-papão. O tal bogeyman. Não vou dizer que morrem de medo, mas utilizaram seu cinema para fazer dele o maior assassino de jovens bonitos e bem nutridos ao longo de, sei lá, 30 anos. Frederico, que voltou agora pra assombrar a molecada da Rua Elm, é só mais um deles, embora seja o mais próximo que se tenha chegado de uma personificação, hã, real do bicho.
Mas Frederico, como todo bicho-papão, não existe. Ou só existe para quem quer. Ou para quem ele quer. E quem ele quer, ele não quer bem. Quer morto. E ele mata, no caso do Frederico, utilizando lâminas no lugar dos dedos. Tem um humor todo próprio, é afeito a gritos de desespero e quer mais é ver o sangue jorrar. Ah, sim, Frederico é imortal. Como todo bicho-papão.
Mas ele é apenas mais um. Jason Voorhees também é. Michael Myers, idem. O pescador de gancho e capa de chuva, lembra? E o Leatherface, não se esqueça. Também tem o cara do Pânico. Até casas malassombradas são bichos-papões, que vem para pegar pessoas que, de alguma forma, desafiam as normas e o politicamente correto. De preferência quando anoitece. Bicho-papão que se preza tem hábitos noturnos. E não gosta de gente bonita, não senhor.
É bonitinho? Your pretty face is going to hell, baby. Gosta de transar no meio do mato enquanto acampa? Olha a faca! Olha a faca! É rico, bem sucedido, dirige um carrão e não acredita em Deus? Vai ser feito em picadinho certo.
Interessante notar a predileção dos bichos-papões por armas brancas. Nenhum deles sabe puxar um gatilho. De repente, esfaquer é mais fácil do que empunhar uma AK-47, não sei. E gasta menos, tem que levar em conta isso. Afinal, esse povo aparentemente não trabalha, quer dizer, como vão comprar munição? Diferente de facas e motosserras, que estão por aí dando sopa em cozinhas e garagens, cartuchos sobressalente são artefatos mais complicados de arrumar.
E também tem o fator praticidade. Imagina fazer mira com um rifle ou uma pistola vestindo aquelas máscaras? Complicado. Ou apertar um gatilho tendo lâminas no lugar dos dedos? Desconfortável, para dizer o mínimo.
Só que armas de fogo não metem medo. E a função primordial de um bicho-papão é causar medo. Depois matar, certo, mas primeiro ele precisa arrepiar até os cabelos do cotovelo da vítima. E o que deixa alguém mais desesperado: saber que vai ser estripado ou levar chumbo? Claro que ninguém quer nada disso, estamos apenas divagando, ok? Relaxa, vem comigo, tá tudo bem. Se coloque no lugar de um desses bichos-papões e é fácil perceber que o reflexo de uma lâmina sob o luar, durante desabalada perseguição, é bem mais amendrotador. E estiloso.
Estilo, aliás, é o que esses caras não tem. Nunca tiveram. Ô gente pra se vestir mal ou sem criatividade alguma. Parece que pegaram a primeira roupa que estava no monte para passar e saíram pra rua. É falta de mãe isso. Coisa horrível.
Ah, sim, são feios. Salvo exceção, um bicho-papão precisa ser feio. Talvez por isso se incomode tanto com gente bonita. Tipo o Frederico. Bah, esse tem razão de sobra pra fazer o que faz, então. Se bem que razão nunca foi o forte deles, convenhamos. Esbarrou com um deles, dançou. Nem adianta pedir desculpas, ó as tripas voando, ó. A única lógica que parece nortear o sujeito é "vá e mate. Você pode não saber porque está matando, mas eles sabem porque estão morrendo". Nelson Rodrigues fellings, diz aí? "Ai, vim fumar um baseado no meio do mato e agora tem um maníaco com um facão atrás de mim, bem que minha mãe avisou para ficar longe das drogas" ou "bem feito, quem mandou transar antes do casamento. Agora como tiro essa lança do meu estômago?" ou "eu juro que não sujo mais a casa dos outros na noite de Halloween, eu juro, não decepa minha cabeça, não".
Bichos-papões, enfim.




