Em dezembro passado, escrevi no jornal um comentário sobre livro Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll Salvou Hollywood, que havia sido lançado no Brasil, com 10 anos de atraso (leia aqui). O autor, Peter Biskind, ex-editor da revista Premiere e um dos mais respeitados jornalistas culturais dos Estados Unidos, dedicou ótimos capítulos à figura de Dennis Hopper e a Sem Destino, filme que marcou a entrada da contracultura em Hollywood.
Complementando os dois posts abaixo, de ontem, em tributo a Dennis Hopper, relembro aqui, com alguns acréscimos, o trecho da resenha referente à realização de Sem Destino, a loucura que deu certo.
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Ninguém em Hollywood parecia louco o suficiente para colocar um dólar que fosse na mão de Peter Fonda e de Dennis Hopper, dois atores que representavam em tempo integral a geração sexo, drogas, encrenca e rock’n’roll. Ambos eram vistos como párias e motivo de chacota, maconheiros e bebuns condenados aos filmes B que protagonizavam. Peter era só o filho desengonçado do grande Henry Fonda e irmão da musa em ascensão Jane. Hopper, que se achava o herdeiro natural e legítimo de James Dean (trabalharam juntos em Juventude Transviada), dava pinta de que em breve estaria morto, preso ou internado num
manicômio. Além da grande amizade, eles tinham um vago laço de parentesco – a companheira de Hopper à época era filha de uma ex-mulher de Henry Fonda.
Foi Peter Fonda, apaixonado por motos, quem bolou o vago argumento do que seria algo tipo um faroste sobre duas rodas, com dois motoqueiros cruzando os Estados Unidos. Assim nasceu o marco da contracultura Sem Destino (1969). Diante da insegurança do amigo em atuar e dirigir ao mesmo tempo – e pela falta de quem encarasse a bronca –, Hopper estreou com o diretor e colocou seu nome na história do cinema.
O produtor Bert Schneider foi o louco visionário – e endinheirado – que a dupla precisava encontrar. Certo de que era a hora de ver a efervescência da cultura paz e amor representada nas telas dos cinemas, e vendo que o risco de fracasso traria prejuízo mais à vaidade que ao bolso, Schneider, um entusiasta do cinema de autor europeu e defensor da ideia do diretor com poder total, bancou Sem Destino. Os US$ 340 mil investidos viraram milhões e fizeram do produtor o midas da Nova Hollywood.
O filme determinou o rompimento entre Peter e Hopper. A briga, que começou no caótico set, diante das diferentes concepções que tinham da história, prosseguiu pela paternidade autoral de Sem Destino. Fonda, que assinou com produtor, acusava Hopper de ter se apropriado e ficado com os louros da criação “artística” de um projeto seu. Hopper, por sua vez, dizia que, das concepções narrativas e estéticas - em que barbeiragens e erros técnicos viraram “marcas autorais” - à espetacular trilha sonora, é tudo foi ideia dele.
Os dois estavam sempre doidões e viviam aos tapas e abraços, mas foi Fonda quem acusou o golpe, ainda no set, quando Hopper o dirigiu numa cena emblmática de Sem Destino. Em um cemitério, Hopper, para estimular o amigo a improvisar um monólogo, fez ele lembrar a mãe, que havia se matado, tragédia que a família Fonda tratava como tabu mesmo na intimidade. A cena foi feita a muito custo, com ambos aos prantos, mas Fonda nunca perdoou Hopper pela baixaria.
Na verdade, Sem Destino deve muito à interferência de Terry Southern, que divide com eles os créditos pelo roteiro. Foi Southern deu liga às ideias descabeçadas e fragmentadas da dupla – e acrescentou outras fundamentais, como o sombrio desfecho com os cabeludos mortos a tiros por caipiras - Fonda e Hopper queriam um final épico, com os motoqueiros sumindo na estrada rumo ao poente. O filme deve muito também a Schneider, que - ao perceber que sua defesa do diretor-autor não funcionaria com um maluco paranoico - tirou Sem Destino de Hopper na montagem, quando este empacou numa versão com mais de três horas de duração e não tinha a menor ideia de quando finalizaria o longa-metragem.
Quem se deu bem nessa saborosa história foi o coadjuvante Jack Nicholson, então um ator com reconhecido potencial, mas futuro incerto, que era companheiro dos excessos etílicos e químicos da turma. Grande amigo de Schneider, Nicholson iria acompanhar a produção como uma espécie de olheiro, com a missão principal de impedir que os protagonistas matassem um ao outro. Entrou no elenco em cima do laço, substituindo um ator que pulou fora após ser ameaçado com uma faca por Hopper, e saiu daquela roda de baseado em torno da fogueira consagrado para um longo reinado em Hollywood
Veja dois clipes de Sem Destino que relembram o astral de liberdade que o filme representou para uma geração, no embalo de uma das melhores trilhas sonoras da história do cinema.












