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Godard e Truffaut em perspectiva

02 de junho de 2010 0

Em 1959, o jovem crítico da Cahiers du Cinéma François Truffaut apresenta Os Incompreendidos, seu primeiro longa, no Festival de Cannes. O impacto causado pelo despojamento com que aquela história autobiográfica fora contada é tão grande que o cinema de autor, por assim dizer, nunca mais seria o mesmo.

Em alguns meses, um boom de outros filmes de realizadores da mesma geração deflagraria a Nouvelle Vague, e particularmente Acossado, de Jean-Luc Godard, também resenhista da bíblia francesa do cinema, dava a segurança de que, mais que uma simples onda, o que estava configurado era um movimento de renovação da própria linguagem, tão impactante quando o neorrealismo italiano surgido pouco antes.

A história de como esse movimento foi formatado e, a seguir, corrompido com a histórica briga de seus dois maiores nomes, não é lá grande novidade, especialmente para os cinéfilos. Mas vê-la recuperada em suas imagens mais raras e em seus detalhes mais surpreendentes, num documentário com depoimentos desencavados das profundezas e uma narrativa excepcionalmente bem construída, é algo que pode ser experimentado com a chegada ao país de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague. O filme, que teve sessão de pré-estreia semana passada em Porto Alegre, com a presença do diretor, o francês Emmanuel Laurent, entra em cartaz a partir desta sexta-feira (04/06) no Instituto NT da Capital.

Laurent se cercou de quem tem experiência no assunto: o roteiro do longa é assinado pelo historiador Antoine de Baecque, biógrafo de Truffaut e autor da primeira biografia francesa de Godard, que saiu há pouco naquele país. Centrou-se no período em que a relação dos dois de fato interessa, ou seja, entre os anos 1950, quando eles uniram forças buscando renovar o envelhecido cinema francês, primeiro por meio da crítica, depois se lançando à realização, até precisamente 1973, quando A Noite Americana, do diretor de Beijos Roubados e Jules e Jim sobre os bastidores de um set, fora violentamente rejeitado pelo cineasta responsável por Bande à Part e O Demônio das Onze Horas.

Em Truffaut, uma Biografia (Ed. Record, escrito em parceria com Serge Toubiana), Baecque já apresentara tanto a carta com comentários sobre o filme enviada por Godard quanto a resposta longa e não menos agressiva usada por Truffaut para romper definitivamente as relações entre os dois – até a sua morte, em 1984. Agora, com as biografias de ambos postas em perspectiva, o assunto parece aprofundado. Vendo Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, ficam ainda mais evidentes as suas diferenças, não apenas aquelas amplamente difundidas, que contrapõem o intelectual burguês eternamente irrequieto (Godard) e o menino pobre que cresceu e deixou as inquietações sociais e de linguagem de lado (Truffaut), mas também as que os levaram a tomar as posições que tomaram e a seguir os caminhos que seguiram ao longo dos anos imediatamente posteriores ao estouro da Nouvelle Vague.

Numa das melhores sequências do filme, a dupla aparece em destaque nos debates que determinaram a paralisação do Festival de Cannes de 1968, realizado em maio daquele ano, portanto, simultaneamente ao verão de protestos dos estudantes em Paris. Noutra, tomando a frente nas pressões para a reintegração à Cinemateca Francesa de seu diretor, Henri Langlois, demitido pelo ministro da Cultura André Malraux no final daquela mesma década. Em dois tempos, Godard e Truffaut parecem lutar a mesma luta – mas a atenção dispensada por Laurent e Baecque para com os detalhes dessa história, que é a própria história do cinema da segunda metade do século 20, faz pensar se suas inquietações realmente são semelhantes. Por tabela, faz pensar na força de um movimento que, além de duas figuras tão díspares, ainda reuniu sob os mesmos ideais cineastas tão distintos como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Jacques Demy e Agnès Varda.

O longa de Emmanuel Laurent foi concebido em homenagem aos 50 anos da Nouvelle Vague e lançado no Festival de Cannes de 2009. Além dele e do livro de Antoine de Baecque, o movimento também será homenageado em caixa de DVDs que a distribuidora Imovision promete para julho deste 2010 no Brasil e que deve conter os primeiros curtas dos velhos jovens rebeldes do cinema francês.

A seguir, o trailer no Brasil, que é simples e tem apenas 30 segundos, e o original, em francês, com legendas em inglês – mais completo e interessante. Dê uma olhada nos depoimentos dos dois cineastas e no público que acompanhou as primeiras sessões de Acossado, em 1959: trata-se de um documento maravilhoso sobre o movimento. Lembrando que Laurent não apresenta nenhuma entrevista nova, feita especialmente para o filme – tudo o que se vê é imagem de arquivo, fruto da pesquisa organizada por ele e Baecque. Imperdível.

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