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Quando Kusturica encontra Maradona

13 de junho de 2010 1

A primeira cena de Maradona por Kusturica (2008) não mostra o craque argentino. Mostra o realizador bósnio fazendo um show em Buenos Aires com sua banda No Smoking e sendo chamado, no palco, de “Maradona do cinema” – o que, para aquela plateia, significa dizer “o maior cineasta do mundo”.

Em seguida, o diretor-narrador apresenta o jogador comparando-o com personagens de seus filmes, como o garoto marginal de Você se Lembra de Dolly Bell (1981) e o atrapalhado cigano protagonista de Gato Preto, Gato Branco (1998), que é ele próprio “o maior inimigo de si mesmo”. Essa sequência sintetiza com precisão o filme que acaba de chegar às locadoras do país – sem ter passado pelas salas de cinema: muito mais que um documentário sobre Diego Maradona, trata-se de um documentário sobre o encontro do craque com Emir Kusturica.

Vencedor de duas Palmas de Ouro no Festival de Cannes – em 1985, por Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e em 1995, por Underground, Mentiras de Guerra -, o cineasta bate bola com Maradonna, transforma entrevistas em conversas informais nas quais aparece tanto quanto o jogador e, em meio às filmagens, não se constrange em dizer que este será o maior dos filmes sobre ele. Exibe poucos gols e, quando apela a imagens de arquivo, concentra-se em episódios bastante precisos, como o flagra do doping na Copa de 1994 e, sobretudo, o histórico jogo pós-Malvinas em que a Argentina bateu a Inglaterra na Copa de 1986 com dois tentos do craque, um de mão e o outro o chamado “gol do século” – apresentados com a trilha God Save the Queen, dos Sex Pistols, e intercalados com uma animação em que se vê a rainha britânica sendo decapitada.

Há uma certa ironia – em Kusturica, sempre há – nesse egocentrismo escancarado do diretor. Não é só por isso, no entanto, que ele faz bem ao filme. Os bate-papos entre documentarista e documentado são inspirados, e revelam opiniões exaltadas e confissões – “que jogador eu teria sido sem cocaína, já imaginou?”, pergunta o craque ao diretor. Também o são as viagens que fazem juntos a Belgrado (Sérvia), na qual se vê o jogador testando sua fama num país distante, e a Mar del Plata (Argentina), para se integrar a um protesto contra a presença de George W. Bush na cidade. O Maradona esquerdista, falastrão e exagerado que se revela ali é muito mais rico do que qualquer um que se poderia apresentar num documentário objetivo, tradicional, jornalístico.

Outros pontos altos de Maradona por Kusturica são as imagens de rituais da Igreja Maradoniana – monoteísta -, que existe e é levada a sério por alguns fãs em Buenos Aires, e a visita de Diego à casa onde passou a infância, em Lanús, na periferia da cidade. A conversa com um dono de bordel que integra a seita rende outra das sequências que resumem o filme: enquanto o espectador vê garotas seminuas dançando para o cineasta, ouve uma voz em off citar Jung e Freud numa tese sobre o comportamento das pessoas, suas paixões e obsessões, que obviamente incluem o maior futebolista argentino de todos os tempos.

Kusturica pode até passar dos limites, expandindo demais o foco, forçando relações dele próprio com o jogador – e, paradoxalmente, levando demais a sério as opiniões políticas estreitas do jogador. Mas o filme não deixa de valer a pena. O lançamento é da Europa Filmes.

Comentários (1)

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