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O sexo como arma de transgressão

21 de junho de 2010 1

Violência e sexo eram, naquele começo dos anos 1970, combustíveis autorais para cineastas de diferentes nacionalidades que emergiam no caldeirão da contracultura. Quando estreou, em 1974, o anárquico Corações Loucos (Les Valseuses) provocou tanta polêmica que chegou a ser chamado de versão francesa para Laranja Mecânica (1971), o clássico de Stanley Kubrick. Um exagero, sem dúvida.

Mas ao se assistir, 36 anos depois, ao filme que fez despontar as carreiras do diretor Bertrand Blier e dos atores Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou, pode- se imaginar o impacto por ele provocado à época. Proibido pela censura no Brasil, Corações Loucos só chegaria por aqui no final daquela década. Agora está nas locadoras, em DVD da Lume.

Depardieu e Dewaere vivem os jovens marginais Jean-Claude e Pierrot, que vagam pela França cometendo pequenos roubos e submetendo mulheres a constrangimentos e humilhações sexuais. São tipos mais grosseiros que violentos, já que as vítimas que seduzem e subjugam, para eles, pouca resistência oferecem ao assédio. Após um de seus atrapalhados golpes, os amigos fazem refém Marie-Ange (Miou-Miou). A  garota passa a acompanhá-los na jornada sem destino e topa ser reles objeto sexual, mas também exerce nesse ménage à trois um controle psicológico que desafia os brios machistas dos bárbaros bufões.

Não existe propriamente um enredo, mas um ordenamento de episódios que buscam ilustrar o clima libertário da época em tom de farsa cômica, sob uma visão niilista e inconsequente. Diante do vazio existencial em que parte da juventude francesa mergulhou na ressaca do Maio de 68, peitar a sociedade tendo como armas a depravação e a amoralidade parecia ser, para Blier, um caminho viável. Esse contexto, digamos, intelectualizado da transgressão fez com que Corações Loucos não cruzasse a linha entre o filme de arte e o soft pornô em voga à época.

Essa tresloucada gincana é guiada pela trilha original de Stéphane Grappelli e traz duas participações especiais pelo caminho: Jeanne Moreau e então novata Isabelle Hupert, no papel de uma adolescente que vê em Jean, Pierrot e Marie a chance de romper as amarras da repressão familiar. A descontração e intimidade que Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou mostram em cena vinha da convivência deles desde os palcos parisineses, nos quais deram os primeiros passos na carreira. À época, Dewaere e Miou eram namorados – dono de um temperamento instável, ele se matou em 1982, aos 35 anos.

Comentários (1)

  • Edu diz: 22 de junho de 2010

    Perrone, suas dicas tem sido muito bem vindas, no q diz respeito a esses lançamentos de filmes que tem acontecido cá por essas bandas.
    Graças a um texto seu anterior pude conhecer o excelente Eva de Joseph Losey, agora vou correndo atrás dessa outra pérola.

    Só por ter merecido o apelido de Laranja Mecânica francês já é motivo de interesse, mesmo q esse apelido não caiba tanto. Sem contar q onde houver transgressão na receita, o bolo sempre sai bom.

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