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Posts de junho 2010

Em busca da felicidade

26 de junho de 2010 0

O diretor Todd Solondz deixou muita gente desconcertada com Felicidade (1998), filme que dissecava as relações familiares e sociais à luz de temas como solidão e perversões sexuais. O longa, impregnado por um tom de desencanto e por um humor peculiar na sua amargura, consolidou o nome de Solondz entre os grandes nomes do cinema independente americano – ele já havia realizado o bom Bem-Vindo à Casa das Bonecas (1995). É um autor sem meio termo, seus filmes atraem ou provocam repulsa naqueles que nada veem além de manifestos depressivos e amorais sobre a banda podre do ser humano.

Bom, tudo isso pra dizer que tem um filme novo de Solonz a caminho, Life During Wartime, ainda sem previsão de estreia no Brasil, mas com distribuição já assegurada pela Imagem Filmes. E para seus fãs a notícia fica ainda melhor com a informação de que Life During Wartime é uma continuação de Felicidade. Continuação à maneira de Solondz, que fique claro, já que ele retoma personagens com um outro elenco e novas situações, nem todas relacionadas às vistas em Felicidade. A trama mostra o psiquiatra pedófilo Bill (agora vivido por Ciarán Hinds) saindo da cadeia – após cumprir pena de 10 anos por abusar sexualmente de um amiguinho do filho – e vendo o que restou de sua família, estilhaçada pelo escândalo.

Uma curiosidade no elenco de Life During Wartime é a presença de Paul Reubens (na foto acima), ator que ficou famoso nos EUA encarnando o personagem infantil Pee Wee Herman num popular programa de TV e no cinema (dirigido por Tim Burton), até cair em desgraça e ir em cana em 1991, acusado de praticar atos obcenos em local público – em 2002, ele foi acusado de envolvimento com pornografia infantil. Confira o trailer de Life During Wartime (sem legendas).

O sexo como arma de transgressão

21 de junho de 2010 1

Violência e sexo eram, naquele começo dos anos 1970, combustíveis autorais para cineastas de diferentes nacionalidades que emergiam no caldeirão da contracultura. Quando estreou, em 1974, o anárquico Corações Loucos (Les Valseuses) provocou tanta polêmica que chegou a ser chamado de versão francesa para Laranja Mecânica (1971), o clássico de Stanley Kubrick. Um exagero, sem dúvida.

Mas ao se assistir, 36 anos depois, ao filme que fez despontar as carreiras do diretor Bertrand Blier e dos atores Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou, pode- se imaginar o impacto por ele provocado à época. Proibido pela censura no Brasil, Corações Loucos só chegaria por aqui no final daquela década. Agora está nas locadoras, em DVD da Lume.

Depardieu e Dewaere vivem os jovens marginais Jean-Claude e Pierrot, que vagam pela França cometendo pequenos roubos e submetendo mulheres a constrangimentos e humilhações sexuais. São tipos mais grosseiros que violentos, já que as vítimas que seduzem e subjugam, para eles, pouca resistência oferecem ao assédio. Após um de seus atrapalhados golpes, os amigos fazem refém Marie-Ange (Miou-Miou). A  garota passa a acompanhá-los na jornada sem destino e topa ser reles objeto sexual, mas também exerce nesse ménage à trois um controle psicológico que desafia os brios machistas dos bárbaros bufões.

Não existe propriamente um enredo, mas um ordenamento de episódios que buscam ilustrar o clima libertário da época em tom de farsa cômica, sob uma visão niilista e inconsequente. Diante do vazio existencial em que parte da juventude francesa mergulhou na ressaca do Maio de 68, peitar a sociedade tendo como armas a depravação e a amoralidade parecia ser, para Blier, um caminho viável. Esse contexto, digamos, intelectualizado da transgressão fez com que Corações Loucos não cruzasse a linha entre o filme de arte e o soft pornô em voga à época.

Essa tresloucada gincana é guiada pela trilha original de Stéphane Grappelli e traz duas participações especiais pelo caminho: Jeanne Moreau e então novata Isabelle Hupert, no papel de uma adolescente que vê em Jean, Pierrot e Marie a chance de romper as amarras da repressão familiar. A descontração e intimidade que Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou mostram em cena vinha da convivência deles desde os palcos parisineses, nos quais deram os primeiros passos na carreira. À época, Dewaere e Miou eram namorados – dono de um temperamento instável, ele se matou em 1982, aos 35 anos.

Fatih Akin no Cine Santander

13 de junho de 2010 1

Fatih Akin tem apenas 36 anos, mas a obra que construiu até aqui é sólida como a de poucos cineastas contemporâneos. A mostra em cartaz no Cine Santander representa a chance de conhecê-la na íntegra, para além dos aclamados Contra a Parede (2004) e Do Outro Lado (2007): todos os seus sete longas, alguns nunca lançados no circuito no Brasil, serão exibidos até 27 de junho na sala do centro de Porto Alegre.

Do Outro Lado

Um dos mais de 2,3 milhões de descendentes de turcos que vivem na Alemanha, Akin foi criado em Hamburgo e fez da cidade portuária, a segunda mais populosa do país, um cenário marcante em praticamente todos os seus filmes. É por seus subúrbios, colônias de imigrantes, pubs baratos e despretensiosos negócios familiares que circula a maior parte de seus personagens. Em comum, além de identidades perdidas e um desajuste que é fruto sobretudo da sua inadaptação, eles têm um desejo de liberdade invariavelmente manifestado de maneira extrema.

Soul Kitchen

Mesmo em títulos diferenciados como Soul Kitchen (2009), incursão – não tão bem sucedida – pela comédia que fora exibida este ano nos cinemas em Porto Alegre, seus atores frequentemente extrapolam o registro naturalista, tão à flor da pele estão os sentidos dos homens e mulheres que eles representam. O casal protagonista de Contra a Parede (leia as sinopses abaixo), sua obra-prima, funciona como uma súmula de seu trabalho: a infelicidade dos dois está relacionada ao fato de eles não encontrarem seu lugar no mundo, e a simples perspectiva de vislumbrar uma saída os estimula a ponto de ambos perderem completamente o controle sobre seus atos.

Contra a Parede

Akin escreve e produz os seus longas, incorporando na íntegra a ideia de autoria no cinema. Também faz da trilha sonora elemento fundamental de seus filmes, reunindo da música eletrônica à de caráter folclórico, o que reforça seu caráter global. Junto a realizadores como o franco-argelino Tony Gatliff (de Exílios e Transylvania) e o norte-americano de origem iraniana Ramin Bahrani (Goodbye Solo e Chop Shop), é o cineasta da globalização – na Alemanha, o principal representante de uma onda batizada de Migrantenkino (“cinema de imigração”).

Em Julho - O Outro Lado das Férias

Exercita ele próprio a liberdade, indo do thriller policial (Rápido e Indolor, de 1998) ao documentário musical (Atravessando a Ponte – O Som de Istambul, 2005), da aventura romântica (Em Julho – O Outro Lado das Férias, 2000) ao chamado filme-coral, ou seja, aquele que possui diversos núcleos de personagens de importância equivalente na trama, o que configura uma espécie de painel (Do Outro Lado). Nos últimos seis anos obteve reconhecimento nos três grandes festivais europeus (Cannes, Berlim e Veneza), e agora prepara um título não ficcional sobre a remoção de habitantes de um vilarejo na costa da Turquia que será transformado num lixão, além da última produção da trilogia intitulada Amor, Morte e Demônio, que fora aberta com Contra a Parede e Do Outro Lado.

Dos sete títulos da mostra do Santander, os quatro mais recentes serão projetados em película, e os três mais antigos, a partir de uma matriz em DVD.

OS FILMES

Soul Kitchen (2009, 99min).
Comédia, com Adam Bousdoukos. Jovem dono de restaurante em crise vê seu negócio se reerguer mas segue em crise pessoal desde que sua ex-namorada o abandonou. Prêmio especial do júri no Festival de Veneza. (trailer abaixo)

Do Outro Lado (2007, 120min).
Drama, com Nurgül Yesilçay, Baki Davrak e Hanna Schygulla. Um mosaico de personagens que se cruzam de forma inesperada entre a Alemanha e a Turquia. Melhor roteiro no Festival de Cannes e no European Film Award. (trailer abaixo)

Atravessando a Ponte – O Som de Istambul (2005, 90min).
Documentário. Alexander Hacke, integrante da banda alemã Einstürzende Neubauten, passeia pelas ruas da capital turca em busca da diversidade da música local.

Contra a Parede (2004, 123min).
Drama, com Birol Ünel e Sibel Kekilli. Jovem que quer fugir de sua família conservadora envolve-se com homem impulsivo 20 anos mais velho na Hamburgo contemporânea. Urso de Ouro no Festival de Berlim, entre outros prêmios. (trailer abaixo)

Solino (2002, 124min).
Drama, com Christian Tasche e Antonella Attili. A trajetória de imigrantes italianos na Alemanha desde a sua chegada, nos anos 1960, até a ruptura familiar, décadas depois, passando pelos tempos de sucesso nos negócios e felicidade.

Em Julho – O Outro Lado das Férias (2000, 100min).
Aventura/Romance, com Moritz Blebtreu. Professor se apaixona por jovem e decide segui-la de Hamburgo a Istambul, levando consigo garota que é apaixonada por ele.

Rápido e Indolor (1998, 100min).
Suspense, com Mehmet Kurtulus, Aleksandar Jovanovic e Adam Bousdoukos. Três imigrantes vindos da Sérvia, da Grécia e da Turquia e com aspirações muito diversas entre si se envolvem com o submundo do crime organizado na Alemanha.



Quando Kusturica encontra Maradona

13 de junho de 2010 1

A primeira cena de Maradona por Kusturica (2008) não mostra o craque argentino. Mostra o realizador bósnio fazendo um show em Buenos Aires com sua banda No Smoking e sendo chamado, no palco, de “Maradona do cinema” – o que, para aquela plateia, significa dizer “o maior cineasta do mundo”.

Em seguida, o diretor-narrador apresenta o jogador comparando-o com personagens de seus filmes, como o garoto marginal de Você se Lembra de Dolly Bell (1981) e o atrapalhado cigano protagonista de Gato Preto, Gato Branco (1998), que é ele próprio “o maior inimigo de si mesmo”. Essa sequência sintetiza com precisão o filme que acaba de chegar às locadoras do país – sem ter passado pelas salas de cinema: muito mais que um documentário sobre Diego Maradona, trata-se de um documentário sobre o encontro do craque com Emir Kusturica.

Vencedor de duas Palmas de Ouro no Festival de Cannes – em 1985, por Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e em 1995, por Underground, Mentiras de Guerra -, o cineasta bate bola com Maradonna, transforma entrevistas em conversas informais nas quais aparece tanto quanto o jogador e, em meio às filmagens, não se constrange em dizer que este será o maior dos filmes sobre ele. Exibe poucos gols e, quando apela a imagens de arquivo, concentra-se em episódios bastante precisos, como o flagra do doping na Copa de 1994 e, sobretudo, o histórico jogo pós-Malvinas em que a Argentina bateu a Inglaterra na Copa de 1986 com dois tentos do craque, um de mão e o outro o chamado “gol do século” – apresentados com a trilha God Save the Queen, dos Sex Pistols, e intercalados com uma animação em que se vê a rainha britânica sendo decapitada.

Há uma certa ironia – em Kusturica, sempre há – nesse egocentrismo escancarado do diretor. Não é só por isso, no entanto, que ele faz bem ao filme. Os bate-papos entre documentarista e documentado são inspirados, e revelam opiniões exaltadas e confissões – “que jogador eu teria sido sem cocaína, já imaginou?”, pergunta o craque ao diretor. Também o são as viagens que fazem juntos a Belgrado (Sérvia), na qual se vê o jogador testando sua fama num país distante, e a Mar del Plata (Argentina), para se integrar a um protesto contra a presença de George W. Bush na cidade. O Maradona esquerdista, falastrão e exagerado que se revela ali é muito mais rico do que qualquer um que se poderia apresentar num documentário objetivo, tradicional, jornalístico.

Outros pontos altos de Maradona por Kusturica são as imagens de rituais da Igreja Maradoniana – monoteísta -, que existe e é levada a sério por alguns fãs em Buenos Aires, e a visita de Diego à casa onde passou a infância, em Lanús, na periferia da cidade. A conversa com um dono de bordel que integra a seita rende outra das sequências que resumem o filme: enquanto o espectador vê garotas seminuas dançando para o cineasta, ouve uma voz em off citar Jung e Freud numa tese sobre o comportamento das pessoas, suas paixões e obsessões, que obviamente incluem o maior futebolista argentino de todos os tempos.

Kusturica pode até passar dos limites, expandindo demais o foco, forçando relações dele próprio com o jogador – e, paradoxalmente, levando demais a sério as opiniões políticas estreitas do jogador. Mas o filme não deixa de valer a pena. O lançamento é da Europa Filmes.

Futebol arte

08 de junho de 2010 2

Inventores do futebol e zelosos com a paixão dos súditos da rainha pelo nobre esporte bretão, os ingleses batem um bolão quando o esporte vira assunto no cinema – sabe bem quem viu o recente À Procura de Eric, de Ken Loach. Já o cinema brasileiro, por incrível que pareça, segue sendo um perna-de-pau nesse campo. Maldito Futebol Clube é um novo bom exemplo de como explorar o potencial de drama, ação, tensão e comédia que o futebol oferece como enredo dentro e fora das quatro linhas.

Inédito nos cinemas brasileiros, Maldito Futebol Clube (The Damned United, 2009) está agora disponível em DVD nas locadoras. O filme conta a história real de Brian Clough (vivido pelo ótimo ator Michael Sheen, de A Rainha e Frost/Nixon), até hoje reverenciado como um dos melhores técnicos de futebol da história do futebol inglês e um dos pioneiros na transformação da imagem do treinador em figura tão popular e valorizada quanto os craques do time. Ele capitaneou a transição do tipo sargentão de abrigo enclausurado na casamata para o papel do “professor” na linha executivo, de terno e gravata, marqueteiro, vaidoso e hábil no uso dos microfones e holofotes.

Clough, ex-jogador com passagem pelo English Team nos anos 1950, despontou como treinador em meados dos anos 1960 e entrou nos 1970 consagrado por uma façanha: levou o Derby County, time inexpressivo da segunda divisão, a uma série de conquistas históricas, que culminaram no título do campeonato inglês de 1972. Parte do longa mostra os bastidores dessa trajetória, em que Clough fez de um bando de brucutus um time competitivo que até jogava bonito, para os padrões ingleses. Mas o eixo dramático de Maldito Futebol Clube – daí seu título original – é a curta e conturbada passagem de Clough pelo Leeds United, em 1974. Ele chegou ao então poderoso clube como a grande contratação da temporada. Mas bateu de frente com os astros do time, fiéis ao antigo treinador, seu desafeto, um precursor da escola Dunga de futebol força e raça, que havia assumido a seleção inglesa. Sem comando do vestiário, Clough passou o diabo nas mãos dos marrentos gladiadores do Leeds, até ser demitido, apenas 44 dias depois.

Prova do quanto Clough (1935 – 2004) era bom no ofício é que logo depois ele pegou outro time pequeno, o Nottingham Forest, e o levou a dois títulos consecutivos da Liga dos Campeões da Europa, em 1979 e 1980 – ficou no clube por 18 anos. Quem dirige Maldito Futebol Clube é Tom Hooper, inglês conhecido por assinar premiadas produções para a TV, como Elizabeth I, estrelada por Helen Mirren.

Godard e Truffaut em perspectiva

02 de junho de 2010 0

Em 1959, o jovem crítico da Cahiers du Cinéma François Truffaut apresenta Os Incompreendidos, seu primeiro longa, no Festival de Cannes. O impacto causado pelo despojamento com que aquela história autobiográfica fora contada é tão grande que o cinema de autor, por assim dizer, nunca mais seria o mesmo.

Em alguns meses, um boom de outros filmes de realizadores da mesma geração deflagraria a Nouvelle Vague, e particularmente Acossado, de Jean-Luc Godard, também resenhista da bíblia francesa do cinema, dava a segurança de que, mais que uma simples onda, o que estava configurado era um movimento de renovação da própria linguagem, tão impactante quando o neorrealismo italiano surgido pouco antes.

A história de como esse movimento foi formatado e, a seguir, corrompido com a histórica briga de seus dois maiores nomes, não é lá grande novidade, especialmente para os cinéfilos. Mas vê-la recuperada em suas imagens mais raras e em seus detalhes mais surpreendentes, num documentário com depoimentos desencavados das profundezas e uma narrativa excepcionalmente bem construída, é algo que pode ser experimentado com a chegada ao país de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague. O filme, que teve sessão de pré-estreia semana passada em Porto Alegre, com a presença do diretor, o francês Emmanuel Laurent, entra em cartaz a partir desta sexta-feira (04/06) no Instituto NT da Capital.

Laurent se cercou de quem tem experiência no assunto: o roteiro do longa é assinado pelo historiador Antoine de Baecque, biógrafo de Truffaut e autor da primeira biografia francesa de Godard, que saiu há pouco naquele país. Centrou-se no período em que a relação dos dois de fato interessa, ou seja, entre os anos 1950, quando eles uniram forças buscando renovar o envelhecido cinema francês, primeiro por meio da crítica, depois se lançando à realização, até precisamente 1973, quando A Noite Americana, do diretor de Beijos Roubados e Jules e Jim sobre os bastidores de um set, fora violentamente rejeitado pelo cineasta responsável por Bande à Part e O Demônio das Onze Horas.

Em Truffaut, uma Biografia (Ed. Record, escrito em parceria com Serge Toubiana), Baecque já apresentara tanto a carta com comentários sobre o filme enviada por Godard quanto a resposta longa e não menos agressiva usada por Truffaut para romper definitivamente as relações entre os dois – até a sua morte, em 1984. Agora, com as biografias de ambos postas em perspectiva, o assunto parece aprofundado. Vendo Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, ficam ainda mais evidentes as suas diferenças, não apenas aquelas amplamente difundidas, que contrapõem o intelectual burguês eternamente irrequieto (Godard) e o menino pobre que cresceu e deixou as inquietações sociais e de linguagem de lado (Truffaut), mas também as que os levaram a tomar as posições que tomaram e a seguir os caminhos que seguiram ao longo dos anos imediatamente posteriores ao estouro da Nouvelle Vague.

Numa das melhores sequências do filme, a dupla aparece em destaque nos debates que determinaram a paralisação do Festival de Cannes de 1968, realizado em maio daquele ano, portanto, simultaneamente ao verão de protestos dos estudantes em Paris. Noutra, tomando a frente nas pressões para a reintegração à Cinemateca Francesa de seu diretor, Henri Langlois, demitido pelo ministro da Cultura André Malraux no final daquela mesma década. Em dois tempos, Godard e Truffaut parecem lutar a mesma luta – mas a atenção dispensada por Laurent e Baecque para com os detalhes dessa história, que é a própria história do cinema da segunda metade do século 20, faz pensar se suas inquietações realmente são semelhantes. Por tabela, faz pensar na força de um movimento que, além de duas figuras tão díspares, ainda reuniu sob os mesmos ideais cineastas tão distintos como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Jacques Demy e Agnès Varda.

O longa de Emmanuel Laurent foi concebido em homenagem aos 50 anos da Nouvelle Vague e lançado no Festival de Cannes de 2009. Além dele e do livro de Antoine de Baecque, o movimento também será homenageado em caixa de DVDs que a distribuidora Imovision promete para julho deste 2010 no Brasil e que deve conter os primeiros curtas dos velhos jovens rebeldes do cinema francês.

A seguir, o trailer no Brasil, que é simples e tem apenas 30 segundos, e o original, em francês, com legendas em inglês – mais completo e interessante. Dê uma olhada nos depoimentos dos dois cineastas e no público que acompanhou as primeiras sessões de Acossado, em 1959: trata-se de um documento maravilhoso sobre o movimento. Lembrando que Laurent não apresenta nenhuma entrevista nova, feita especialmente para o filme – tudo o que se vê é imagem de arquivo, fruto da pesquisa organizada por ele e Baecque. Imperdível.