Caiu um pouco o nível da competição na segunda noite de Gramado - o que quer dizer que, vistos em conjunto, Bróder! e Enquanto a Noite Não Chega oferecem mais ao espectador do que 180° e Ojos Bien Abiertos: Viaje por la Sudamérica de Hoy.
Este último, vindo do Uruguai, alinha-se aos documentários políticos que marcam a fase mais recente da produção do argentino Fernando Solanas, que aliás apresentou La Última Estación na mostra competitiva de Gramado no ano passado. O diretor Gonzalo Arijón até tem habilidade narrativa para um encadeamento lógico de sua linha de raciocínio, no entanto, não chega perto do requinte do mestre do país vizinho no que diz respeito à forma de estruturação de seus planos e sequências.
Ojos Bien Abiertos é o documento de, como diz o subtítulo do filme, uma viagem do documentarista pela América do Sul reconfigurada após a chegada ao poder de uma nova geração de líderes esquerdistas - de Lula a Evo Morales. Traz registros de passagens por diversos países intercalados com depoimentos do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano, cuja iluminação faz o filme crescer, mas, em contrapartida, direciona o raciocínio do espectador, comprometendo sua liberdade para imaginar e fruir aquilo que vê na tela.
Arijón parece registrar a realidade como quem apenas quer comprovar teses pré-concebidas, a exemplo do uso que faz das imagens de protestos contra o presidente brasileiro para dizer que Lula é contestado pelo povo, o que contraria todas as pesquisas de popularidade divulgadas no país. Esse procedimento configura aquele que é o maior dos problemas de seu filme. 180º, enquanto isso, sofre de algo oposto: o longa de estreia do carioca Eduardo Vaisman é uma espécie de brincadeira de gato e rato com o espectador, que oferece armadilhas e esconde o jogo sempre que o público se "aproxima" da história.
A trama, contada com diversas idas e vindas no tempo, é a de um triângulo amoroso (Malu Galli, Eduardo Moscovis e Felipe Abib) que envolve três jornalistas. Um deles (Abib, o mais jovem) publicou um romance de grande sucesso tendo como inspiração uma enigmática caderneta que vai parar em suas mãos por acaso. Se não parece inverossímil que tal objeto é capaz de justificar a criação de um best-seller, e não parece, é no mínimo contestável o fato de que seu simples conteúdo, que inclui uma lista de supermercado e outras ideias esparsas que vão se revelar apenas na parte final do filme, desencadeie todo o enrosco que se verá durante os 85 minutos do longa.
A roteirista Claudia Mattos criou uma trama indiscutivelmente bem amarrada e o jovem Vaisman tirou de seu trio protagonista, especialmente de Malu Galli, atuações satisfatórias. Mas, se o objetivo é fazer o público se emocionar com o drama sentimental dos três, como o diretor indicou em seu discurso de apresentação do longa, no Palácio dos Festivais, não se pode dizer que é bem-sucedido. 180º é cerebral demais - e envolvente de menos. As comparações com algumas histórias dos escritores Paul Auster e Julio Cortázar, sobretudo com a obra-prima deste último, O Jogo da Amarelinha, citados no debate acerca do filme, justamente por isso, não procedem.



