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Posts de setembro 2010

Tony Curtis (1925 - 2010)

30 de setembro de 2010 2


À sombra do tirano

27 de setembro de 2010 0

 

Em sua nova viagem ao passado da Itália, revelando um capítulo nebuloso da trajetória de uma figura emblemática da história de seu país, o diretor Marco Bellocchio faz com a obra-prima que é Vincere um painel que se ajusta  também a uma leitura contemporânea. Por isso a reação ao filme na Itália foi tremendamente passional, elevando o tom da discussão para além do campo artístico.

 

Em cartaz na Capital, Vincere (a distribuidora optou pela grafia original de “Vencer”, nome de uma popular canção fascista) cutuca feridas que ardem – e que volta e meia são assopradas – na sociedade italiana: o passado sob o tacão de Benito Mussolini (1883 – 1945), quando o ditador vestiu seus seguidores com camisas pretas e encantou corações e mentes com a utopia fascista, e o presente, diante do poder político, econômico e midiático do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

 

Bellocchio, numa possível leitura do filme, sugere que a trágica saga de Ida Dalser – a amante renegada por Mussolini e por ele literalmente varrida para o esquecimento – pode ser a mesma de quem hoje rema contra a maré do governo Berlusconi. O fascismo de agora embora não faça uso de violência, repressão e vigilância, tenta manter seus opositores no cabresto com armas tão intimidatórias quanto.

 

Vincere conta a história da apaixonada e obsessiva Ida (Giovanna Mezzogiorno) sob o registro de uma grande ópera de Verdi ou Puccini. Da exuberância visual às viscerais interpretações, esta opção se mostra adequada quando se tem em cena um personagem tão caricatural como Mussolini. O Duce, primeiramente apresentado numa imagem que destoa daquela consagrada no imaginário popular – o fanfarrão gordo e careca -, é um personagem pronto para uma ópera burlesca.

 

 

Mussolini (Filippo Timi) surge em cena em sua juventude, no começo do século 20. Inflamado militante socialista, é alçado à liderança política por sua presença cênica imponente, voz de barítono e ideias nacionalistas que propaga em publicações esquerdistas. Encanta e seduz Ida, com quem vem a ter um filho. A jovem financia a ascensão política do amante, mas descobre que ele é casado. Ser a outra lhe garantiria sossego e conforto na nova Itália que nascia, mas Ida, movida pelo desejo de serem ela e o filho reconhecidos oficialmente, se torna uma presença incômoda. A máquina fascista garante o diagnóstico de insana e o confinamento sem fim num manicômio.

 

Desvendar a trágica saga desta personagem, jogada à sombra da luz que envolve Mussolini, é o real ponto de interesse de Bellochio. Nas belíssimas cenas dos primeiros encontros dos amantes, o diretor ilustra justamente com um espetacular jogo de claro e escuro a personalidade contraditória e vulcânica do tirano. Representado com um olhar demoníaco que por vezes emerge diante da câmera, em contraponto à entrega ingênua e apaixonada de Ida, o ambicioso e dissimulado Mussolini flagrado em Vincere em seus primeiros passos é um tipo mais assustador que o figuraça histriônico que ficou consagrado.

 

Enumerar os momentos cenicamente magistrais que Vincere agrupa em sua vigorosa narativa ocuparia ainda mais espaço, mas ficam presentes por muito tempo após a sessão sequências como a da “conversão” do ateu Mussolini em católico diante de projeção da Paixão de Cristo no hospital de campanha, quando ele foi ferido na I Guerra; ou a sessão de O Garoto, de Chaplin, para a internas do sanatório; ou o filho já tomado pela insanidade imitando os trejeitos do pai famoso.

 


Ainda no campo da encenação, é primoroso o uso que o diretor faz das imagens do arquivo que o vaidoso Duce deixou para a posteridade. Mais que complementos visuais, os registros de época são perfeitamente integrados à narrativa e dão a ela ainda mais ressonância. Em determinado momento, o Mussolini real assume o lugar do ficcional, como a demonstrar que o homem que Ida perseguia já não estava mais ao seu alcance, se transformou em um ícone inatingível pertencente à história.

 

Cabe ressaltar que o requinte visual de Vincere só será plenamente observado por quem optar pela projeção em película 35mm (no Guion Center), pois a projeção digital, como visto nas sessões de pré-estreia, prejudica essa percepção.

 

Aos 70 anos, Bellocchio vive nesta década uma fase das mais criativas – como se viu em Bom Dia, Noite (2003), no qual seu alvo foram as contradições e métodos de atuação da esquerda italiana mais extremista. É um diretor que revigora não apenas a tradição do cinema italiano, mas sua própria trajetória como um grande autor.