Um complemento ao texto que o Daniel Feix escreveu semanas atrás em Zero Hora, sobre o lançamento em DVD de 30 Anos Esta Noite, reproduzido logo abaixo. Ainda sob impacto do tocante e belo filme de Louis Malle, lembrei como ele tem paralelos com outro clássico, A Doce Vida, de Frederico Fellini. Em ambos, o protagonista cumpre um espécie de rito do desencanto, faz um balanço existencial medido pela régua da maturidade, das conquistas e perdas, dos sonhos deixados para trás, passa a estranhar o ambiente e as pessoas que o cercam, não mais se reconhece na figura que enxerga no espelho.
O crítico americano Roger Ebert certa vez escreveu como sua percepção de A Doce Vida foi mudando à medida que foi envelhecendo e compreendendo as aflições do personagem de Marcello Mastroiaanni. É o mesmo caso de 30 Anos Esta Noite. As qualidades do filme se impõem de imediato, mas ter uma empatia geracional com a inquietação que consome a trágica figura vivida por Maurice Ronet ampliam o impacto. Ok que os 30 anos podem não significar hoje a etapa emblemática da vida que representou para gerações passadas. Não é esse, literamente, o ponto em questão nesse filme imperdível.
Contemporâneo de Godard e Truffaut, Louis Malle não fazia parte da turma da nouvelle vague – era visto como representante da "velha" escola acadêmica –, mas 30 Anos Esta Noite parece muito mais fiel aos princípios dogmáticos e estéticos do movimento que muitos filmes produzidos sob a bandeira daquele então novo cinema francês.
Balada da desilusão
Daniel Feix
O francês Louis Malle filmou diversos temas polêmicos - o incesto em O Sopro no Coração, a prostituição infantil em Pretty Baby -, porém, foi um ensaio sobre o suicídio que se tornou a sua obra-prima. Lançado em 1963, ainda sob os resquícios do impacto causado pela explosão da Nouvelle Vague, 30 Anos Esta Noite é considerada uma das experiências cinematográficas que melhor sintetizaram as ideias dos pensadores existencialistas do pós-Guerra europeu - Jean-Paul Sartre, sobretudo.
É isso,mas não"só" isso. Le Feu Follet ("o fogo fátuo") no original, o filme faz da crise existencial de seu protagonista não exatamente a imagem de determinada geração, mas o retrato das dificuldades de amadurecimento do homem, em qualquer tempo e lugar, diante das estruturas sociais como elas se apresentam. É um tratado sobre a perda completa da fé - não necessariamente a religiosa, mas aquela que se faz necessária para viver: fé no amor, fé na arte, fé na política.
Alain Leroy, interpretado pelo ator Maurice Ronet, deixa uma clínica de Versalhes onde faz tratamento contra o alcoolismo. Busca se reencontrar em Paris, por isso vai atrás de velhos amigos,bares e lugares que costumava frequentar. O que vê - o parceiro de boêmia agora convertido em pai de família, a ex-namorada mergulhada numa vida de futilidades - só
reforça seu sentimento de derrota. Malle incorpora o discurso de seu protagonista. Com o uso de recursos como narração em off e uma música sentimental - absolutamente genial, composta por Erik Satie -, faz o espectador mergulhar na sua dor. Mantém, no entanto, distância segura do melodrama. Sua estética é quase minimalista: o conflito dramático às vezes se conflagra apenas a partir de detalhes, de pequenas impressões do cotidiano do anti-herói.
30 Anos Esta Noite é uma adaptação da obra ficcional do escritor e ensaísta Pierre Drieu la Rochelle. Também um suicida, para escrever o romance o autor se inspirou na vida do poeta dadaísta Jacques Rigaut, que se matou no dia de seu trigésimo aniversário. É um filme forte, como se pode presumir, mas imperdível. Pela primeira vez disponível em DVD no Brasil, está em pré-venda em algumas lojas e tem chegada ao mercado prevista para esta semana. O lançamento é da Lume Filmes.
(texto publicado em 15/10/2010)





