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Posts de dezembro 2010

Os melhores filmes do ano

27 de dezembro de 2010 3






O Segundo Caderno de Zero Hora traz nesta segunda-feira um balanço sobre a temporada 2010 do cinema. Em destaque, não apenas os bons filmes que passaram pela Capital. Também lembramos fenômenos de público,  fracassos,  frustrações, joias que quase ninguém viu e outros fatos relevantes. Como prometido no papel, aqui seguem as listas individuais com os 10 mais da editoria de cinema.

Importante lembrar: a escolha foi feita apenas entre os filmes que foram exibidos no circuito comercial de Porto Alegre. Não levamos em conta os títulos que assistimos em mostras, festivais ou que foram lançados em outras capitais - e que ficaram inéditos por aqui, mesmo que tenham saído posteriormente em DVD. Esse critério deixou alguns bons filmes de fora, mas entendemos que é o mais justo para compartilhar nossas escolhas com as dos leitores, que podem assim discordar, concordar, acrescentar, enfim, toda aquela saudável troca de ideias que listas como essas estimulam. Leia as nossas e mande a sua.


Daniel Feix

1. Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil)

Drama potencializado pela força documental de suas imagens, a maioria de beleza plástica inusual, toca direto na emoção do espectador ao falar sobre uma história de desamor e desassistência no sertão nordestino.


2. Vincere (Marco Bellocchio, Itália/França)

Ópera trágica e inventiva sobre o abuso de poder na Itália fascista, é o ponto mais alto da carreira de um dos grandes autores do tradicional cinema político daquele país.


3. O Profeta (Jacques Audiard, França/Itália)

A obra-prima da gênese do crime organizado na Europa multiétnica atual - com algumas das sequências de violência mais impressionantes produzidas nas últimas décadas.


4. A Fita Branca (Michael Haneke, Alemanha/Áustria/França)

Perturbadora história de repressão infantil que é, ao mesmo tempo, um estudo sobre a fundação do nazismo e um ensaio sobre as origens mais remotas do mal institucionalizado.


5. À Prova de Morte (Quentin Tarantino, EUA)

O melhor pior filme do mundo. Tarantino trabalha apenas sobre fetiches e clichês do cinema dito menor, mas o que oferece ao espectador é um deleite cinematográfico digno de ser chamado de grande arte.


6. Um Homem que Grita (Mahamat-Saleh Haroun, Chade/França/Bélgica)

Um dos melhores e mais surpreendentes exemplares, em toda a cinematografia contemporânea, de abordagem dos grandes problemas sociais com as controversas inquietações pessoais de quem é tocado por eles.


7. Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA)

A sensibilidade e a excelência técnica (não apenas visual) dos dois primeiros filmes da série acrescidos de um tom melancólico na medida certa, que emociona espectadores de todas as idades e vivências as mais diversas.


8. Mary & Max (Adam Elliot, Austrália)

Tratado tocante da solidão e do isolamento no mundo contemporâneo, em que a técnica da animação moldada em três dimensões está a serviço da expressividade e do próprio desajuste social de seus personagens.


9. Abutres (Pablo Trapero, Argentina)

Trapero embaralha o bem e o mal de maneira engenhosa neste que é um de seus melhores longas, em exibição em sessões de pré-estreia desde novembro em Porto Alegre.


10. Tropa de Elite 2 (José Padilha, Brasil)

O barulho em torno do filme, assim como a sua incrível aceitação popular, estão à altura de suas qualidades narrativas, de seu virtuosismo técnico e de seu corajoso engajamento - que só o engrandece dramaticamente.


Marcelo Perrone


Vincere, de Marco Bellocchio (Itália)

Ao tirar de cena o ator dar lugar ao Mussolini real dos cinejornais, um gigante bufo que inibe sua representação na ficção, Bellocchio faz uma de suas tantas jogadas de mestre neste vigoroso filme.


O Profeta, de Jacques Audiard (França)

Hábil costura de filme de gângster, drama prisional e painel do preconceito étnico que tensiona a Europa contemporânea.


Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes (Brasil)

Ao estimular os olhos, com a beleza de suas imagens impuras, os ouvidos, na sensibilidade da narração de sua dolorida história de amor, e o coração, na lembrança dos encontros, perdas e desvios que temos no caminho da vida, proporciona uma experiência sensorial rara.


À Prova de Morte, de Quentin Tarantino (EUA)

Tarantino é como um melhor amigo que sabe traduzir em grandes filmes os bons papos cinematográficos que varam noites na mesa do bar. A cada obra sabemos o que esperar, mas ele nunca decepciona ao surpreender e nos deixar de queixo caído.


Tropa de Elite 2, de José Padilha (Brasil)

Falam muito dos  recordes, do retrato do Brasil real, desfiam teses políticas e sociológicas, mas parecem esquecer o fundamental: o filme é bom. Ação de primeira, thriller político com estofo, grande desempenho do elenco e excelência técnica coroam o excelente trabalho de José Padilha e equipe, bem-sucedido das filmagens à estratégia de lançamento.


Mary & Max, de Adam Elliot (Austrália)

Extrema competência ao realizar uma animação que consegue ser ao mesmo tempo sombria, no tom depressivo com que que aborda temas como solidão, preconceito, doença e morte, e iluminada, por seu humor peculiar e sua celebração à amizade como antídoto aos inevitáveis males da vida. Como mais ou mesmo diz a epígrafe: se deus nos dá a família que temos, os amigos nós podemos escolher.


Toy Story 3, de Lee Unkrich (EUA)

Tornar irrelevante ser visto ou não em 3D atesta a competência da Pixar/Disney em deixar a excelência técnica sempre à sombra da qualidade de suas histórias. Quem já teve um brinquedo favorito ou quem já separou de alguém que ama, ou seja, toda criança e todo adulto, vai encontrar razões para se divertir e se emocionar.


O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella (Argentina)

Melodrama, policial, suspense, thriller político. Vários gêneros costurados com habilidade de ourives em uma narrativa que a cada instante surpreende ao tomar um caminho inesperado. O tão falado plano sequência é uma saborosa cereja no bolo.


Os Famosos e Os Duendes da Morte, de Esmir Filho (Brasil)

A aguardada estréia em longa-metragem do jovem diretor que mostrava ter olhar diferenciado sobre o universo adolescente confirmou um talento emergente do cinema nacional. Os possíveis riscos da narrativa não-linear e do elenco amador se traduziram numa  obra esteticamente ousada e cheia de frescor sobre as dores e angústias que convivem com o prazer de ser jovem.


A Fita Branca, de Michael Haneke (Alemanha)

A ilação com a origem do nazismo é pertinente e estimulada pela ambientação e pelo contexto histórico, mas reduz o objetivo maior de Haneke: mostrar que o mal está sempre presente e na iminência de mostrar sua  força, em qualquer tempo e lugar, basta a sociedade baixar a guarda.



Roger Lerina


1) A Fita Branca (Michael Haneke, Alemanha/Áustria/França)

A gênese do nazismo em uma perturbadora parábola perversa, rodada em preto e branco e ambientada em uma pequena comunidade alemã às vésperas da I Guerra.


2) Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil)

Embaralhando ficção e documentário, o filme comove tanto como diário íntimo de um homem de coração partido quanto como retrato do desassistido povão nordestino.


3) Vincere (Marco Bellocchio, Itália/França)

A paixão da amante de Mussolini narrada com exuberância em tom de ópera trágica.


4) Um Doce Olhar (Semih Kaplanoglu, Turquia)

Belo poema pastoral sobre a perda da inocência pelos olhos de um garoto no interior da Turquia.


5) O Profeta (Jacques Audiard, França/Itália)

A impressionante educação marginal de um jovem de origem árabe em uma prisão francesa, de pequeno meliante a chefão do crime.


6) Tropa de Elite 2 (José Padilha, Brasil)

Nessa segunda parte, a trama aprofunda as implicações político-sociais da questão da segurança no país e joga o policial anti-herói Nascimento em uma rede de corrupção mafiosa que remete ao filme italiano Gomorra.


7) O Escritor Fantasma (Roman Polanski)

Como já fizera antes em filmes como Chinatown (1974), o cineasta polonês demonstra mais uma vez maestria dirigindo um filme de gênero nesse thriller político-policial.


8) Os Famosos e os Duendes da Morte (Esmir Filho, Brasil)

Os questionamentos e impasses da adolescência narrados com uma sensibilidade e uma inventividade raras no cinema brasileiro.


9) Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA)

A Pixar segue provando que, mais importante do que a técnica, o que faz a diferença em um desenho animado é a inteligência do roteiro, seja qual for a dimensão do filme.


10) O Segredo dos seus Olhos (Juan José Campanella, Argentina)

Mais uma expressão da competência narrativa do cinema argentino contemporâneo, acrescida desta vez de um plano-sequência virtuoso de tirar o fôlego.


Ticiano Osório


Em ordem de preferência:


1) O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella

Tudo o que faz do cinema argentino motivo de inveja para os brasileiros. De brinde, um dos mais embasbacantes planos-sequência da história.


2) A Estrada, de John Hillcoat

Nunca a angústia foi tão prazerosa quanto nesta adaptação do romance apocalíptico de Cormac McCarthy.


3) Vincere, de Marco Bellocchio

A loucura e a volúpia do poder retratadas em um tom operístico na medida certa.


4) Mary & Max, de Adam Elliot

Trabalho de ourivesaria, tanto na animação com massinha quanto na afiada mistura de humor e melancolia.


5) A Origem, de Christopher Nolan

Outra vez, Nolan consegue fazer um suspense de entretenimento que também convida a refletir sobre temas nem um pouco rasteiros, como a construção da memória.


6) Toy Story 3, de Lee Unkrich

Tudo o que faz da Pixar motivo de inveja para outros estúdios de animação.


7) Tropa de Elite 2, de José Padilha

Não é um policial, mas sim um dos mais contundentes filmes políticos do Brasil.


8) O Profeta, de Jacques Audiard

O longa francês é digno dos melhores filmes de prisão que os americanos já fizeram (a saber, Fuga de Alcatraz, Brubaker e Um Sonho de Liberdade).


9) A Fita Branca, de Michael Haneke

A gênese do mal em um sublime preto e branco.


10) O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, e Zona Verde, de Paul Greengrass

Dois eletrizantes thrillers políticos sobre assuntos do nosso tempo.





1. Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil)

Drama potencializado pela força documental de suas imagens, a maioria de beleza plástica inusual, toca direto na emoção do espectador ao falar sobre uma história de desamor e desassistência no sertão nordestino.

2. Vincere (Marco Bellocchio, Itália/França)

Ópera trágica e inventiva sobre o abuso de poder na Itália fascista, é o ponto mais alto da carreira de um dos grandes autores do tradicional cinema político daquele país.

3. O Profeta (Jacques Audiard, França/Itália)

A obra-prima da gênese do crime organizado na Europa multiétnica atual - com algumas das sequências de violência mais impressionantes produzidas nas últimas décadas.

4. A Fita Branca (Michael Haneke, Alemanha/Áustria/França)

Perturbadora história de repressão infantil que é, ao mesmo tempo, um estudo sobre a fundação do nazismo e um ensaio sobre as origens mais remotas do mal institucionalizado.

5. À Prova de Morte (Quentin Tarantino, EUA)

O melhor pior filme do mundo. Tarantino trabalha apenas sobre fetiches e clichês do cinema dito menor, mas o que oferece ao espectador é um deleite cinematográfico digno de ser chamado de grande arte.

6. Um Homem que Grita (Mahamat-Saleh Haroun, Chade/França/Bélgica)

Um dos melhores e mais surpreendentes exemplares, em toda a cinematografia contemporânea, de abordagem dos grandes problemas sociais com as controversas inquietações pessoais de quem é tocado por eles.

7. Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA)

A sensibilidade e a excelência técnica (não apenas visual) dos dois primeiros filmes da série acrescidos de um tom melancólico na medida certa, que emociona espectadores de todas as idades e vivências as mais diversas.

8. Mary & Max (Adam Eliott, Austrália)

Tratado tocante da solidão e do isolamento no mundo contemporâneo, em que a técnica da animação moldada em três dimensões está a serviço da expressividade e do próprio desajuste social de seus personagens.

9. Abutres (Pablo Trapero, Argentina)

Trapero embaralha o bem e o mal de maneira engenhosa neste que é um de seus melhores longas, em exibição em sessões de pré-estreia desde novembro em Porto Alegre.

10. Tropa de Elite 2 (José Padilha, Brasil)

O barulho em torno do filme, assim como a sua incrível aceitação popular, estão à altura de suas qualidades narrativas, de seu virtuosismo técnico e de seu corajoso engajamento - que só o engrandece dramaticamente.

Marcelo Perrone

1) Vincere, de Marco Bellocchio

Fazer o ator sair de cena para dar lugar ao Mussolini real dos cinejornais, personagem bufo que inibe sua representação na ficção, é uma das tantas jogadas de mestre de Bellochio neste vigoroso filme.

2) O Profeta, de Jacques Audiard

Hábil costura de filme de gângster, drama prisional e painel do preconceito étnico que tensiona a Europa contemporânea.

3) Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes

Filme que ao estimular os olhos, com a beleza de suas imagens impuras, os ouvidos, na sensibilidade da narração de sua dolorida história de amor, e o coração, na lembrança dos encontros, perdas e desvios que temos no caminho da vida, proporciona uma experiência sensorial rara.

4) À Prova de Morte, de Quentin Tarantino

Tarantino é como um melhor amigo que sabe traduzir em grandes filmes os bons papos cinematográficos que varam noites na mesa do bar. A cada obra sabemos o que esperar, mas ele nunca decepciona ao surpreender e nos deixar de queixo caído.

5) Tropa de Elite 2, de José Padilha

Se fala tanto em recordes, em retrato do Brasil real, desfiam-se teses políticas e sociológicas, mas parecem esquecer o fundamental: o filme é bom mesmo. Ação de primeira, thriller político com estofo, grande desempenho do elenco e excelência técnica coroam o excelente trabalho de José Padilha e equipe, bem-sucedido das filmagens à estratégia de lançamento.

6) Mary & Max, de Adam Eliott

Extrema competência ao realizar uma animação que consegue ser ao mesmo tempo sombria, no tom depressivo com que que aborda temas como solidão, preconceito, doença e morte, e iluminada, por seu humor peculiar e sua celebração à amizade como antídoto aos inevitáveis males da vida. Como mais ou mesmo diz a epígrafe, se deus nos dá a família que temos, os amigos nós podemos escolher.

7) A Fita Branca, de Michael Haneke

A ilação com a origem do nazismo é pertinente e estimulada pelo contexto histórico do filme, mas reduz o objetivo maior de Haneke: mostrar que o mal está sempre na iminência de germinar, em qualquer tempo e lugar, basta a sociedade baixar a guarda.

8) Toy Story 3, de Lee Unkrich

Tornar irrelevante ser visto ou não em 3D atesta a competência da Pixar/Disney em deixar a excelência técnica sempre à sombra da qualidade de suas histórias. Quem já teve um brinquedo favorito ou quem já separou de alguém que ama, ou seja, toda criança e todo adulto, vai encontrar razões para se divertir e se emocionar.

9) O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella

Melodrama, policial, suspense, thriller político. Vários gêneros costurados com habilidade de ourives em uma narrativa que a cada instante surpreende ao tomar um caminho inesperado. O tão falado plano sequência é uma saborosa cereja no bolo.

10) Os Famosos e Os Duendes da Morte, de Esmir Filho

A aguardada estréia em longa-metragem do jovem diretor que mostrava ter olhar diferenciado sobre o universo adolescente confirmou um talento emergente do cinema nacional. Os possíveis riscos da narrativa não-linear e do elenco amador se traduziram numa narrativa esteticamente ousada e cheio de frescor sobre as dores e angústias que convivem com o prazer de ser jovem.

Roger Lerina

1) "A Fita Branca" (Michael Haneke, Alemanha/Áustria/França) - A gênese do nazismo em uma perturbadora parábola perversa, rodada em preto e branco e ambientada em uma pequena comunidade alemã às vésperas da I Guerra.

2) "Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo" (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil) - Embaralhando ficção e documentário, o filme comove tanto como diário íntimo de um homem de coração partido quanto como retrato do desassistido povão nordestino.

3) "Vincere" (Marco Bellocchio, Itália/França) - A paixão da amante de Mussolini narrada com exuberância em tom de ópera trágica.

4) "Um Doce Olhar" (Semih Kaplanoglu, Turquia) – Belo poema pastoral sobre a perda da inocência pelos olhos de um garoto no interior da Turquia.

5) “O Profeta” (Jacques Audiard, França/Itália) – A impressionante educação marginal de um jovem de origem árabe em uma prisão francesa, de pequeno meliante a chefão do crime.

6) “Tropa de Elite 2” (José Padilha, Brasil) – Nessa segunda parte, a trama aprofunda as implicações político-sociais da questão da segurança no país e joga o policial anti-herói Nascimento em uma rede de corrupção mafiosa que remete ao filme italiano “Gomorra”.

7) “O Escritor Fantasma” (Roman Polanski) – Como já fizera antes em filmes como “Chinatown” (1974), o cineasta polonês demonstra mais uma vez maestria dirigindo um filme de gênero nesse thriller político-policial.

8) “Os Famosos e os Duendes da Morte” (Esmir Filho, Brasil) – Os questionamentos e impasses da adolescência narrados com uma sensibilidade e uma inventividade raras no cinema brasileiro.

9) “Toy Story 3” (Lee Unkrich, EUA) – A Pixar segue provando que, mais importante do que a técnica, o que faz a diferença em um desenho animado é a inteligência do roteiro, seja qual for a dimensão do filme.

10) “O Segredo dos seus Olhos” (Juan José Campanella, Argentina) – Mais uma expressão da competência narrativa do cinema argentino contemporâneo, acrescida desta vez de um plano-sequência virtuoso de tirar o fôlego.

Ticiano Osório

Em ordem de preferência:

1) O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella _ Tudo o que faz do cinema argentino motivo de inveja para os brasileiros. De brinde, um dos mais embasbacantes planos-sequência da história.

2) A Estrada, de John Hillcoat _ Nunca a angústia foi tão prazerosa quanto nesta adaptação do romance apocalíptico de Cormac McCarthy.

3) Vincere, de Marco Bellocchio _ A loucura e a volúpia do poder retratadas em um tom operístico na medida certa.

4) Mary & Max, de Adam Elliott _ Trabalho de ourivesaria, tanto na animação com massinha quanto na afiada mistura de humor e melancolia.

5) A Origem, de Christopher Nolan _ Outra vez, Nolan consegue fazer um suspense de entretenimento que também convida a refletir sobre temas nem um pouco rasteiros, como a construção da memória.

6) Toy Story 3, de Lee Unkrich _ Tudo o que faz da Pixar motivo de inveja para outros estúdios de animação.

7) Tropa de Elite 2, de José Padilha _ Não é um policial, mas sim um dos mais contundentes filmes políticos do Brasil.

8) O Profeta, de Jacques Audiard _ O longa francês é digno dos melhores filmes de prisão que os americanos já fizeram (a saber, Fugindo de Alcatraz, Brubaker e Um Sonho de Liberdade).

9) A Fita Branca, de Michael Haneke _ A gênese do mal em um sublime preto e branco.

10) O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, e Zona Verde, de Paul Greengrass _ Dois eletrizantes thrillers políticos sobre assuntos do nosso tempo.

Tetro, finalmente

09 de dezembro de 2010 1

A distribuidora Imovision demorou para lançar Tetro no Brasil. Queria trazer seu diretor, Francis Ford Coppola, ao país, para um lançamento digno de seu prestígio.

ZH, inclusive, entrevistaria Coppola. Seria na semana passada, em São Paulo. Mas, devido a atrasos de última hora do próprio cineasta, que chegou dois dias depois do previsto ao Brasil, e problemas com a companhia aérea, não conseguimos nos deslocar para conversar com ele.

O que importa, ao final das contas, é que Tetro chegou.

Nós, que escrevemos sobre cinema aqui no jornal, ficamos um tantinho decepcionados com o filme. Até porque, no início, ele parece tão promissor... Mesmo que seu projeto anterior, Velha Juventude (2007), não o recomendasse, assim como tantos outros de seus trabalhos mais recentes, o fã sempre fica na expectativa de que Coppola volte à velha boa forma.


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Tetro é muito irregular. Inclusive por isso, neste momento em que Coppola faz um filme na Argentina e propaga a recuperação de sua "independência financeira e artística", talvez seja mais interessante do que pensar o filme em si olhar para o próprio cineasta e vislumbrar a sua errática trajetória até este momento que ele mesmo classifica como especial.

Dá uma olhada numa cronologia de seus altos (alguns muito altos) e baixos (alguns muito baixos) que saíram de maneira resumida (menos completa do que esta aqui abaixo) no jornal desta quinta-feira (09/12):

Rápida ascensão
Natural de Detroit mas criado no subúrbio de Nova York em meio a uma família de artistas, Coppola tinha 32 anos quando ganhou seu primeiro Oscar, em 1971, pelo roteiro de Patton – Rebelde ou Herói?, de Franklin J. Schaffner. Antes, ele já dirigira outros filmes, a maioria curtas-metragens, mas chamara a atenção mesmo com Caminhos Mal Traçados (1969).

O auge no início
Em meio à renovação de Hollywood no início dos anos 1970, Coppola fundou com George Lucas a produtora American Zoetrope e garantiu seu lugar na galeria dos maiores diretores de todos os tempos ao lançar, entre 1972 e 1974, O Poderoso Chefão I, A Conversação e O Poderoso Chefão II. Aqui ele já escrevia, dirigia e produzia parte de seus filmes.

O esplendor, o esplendor
Após filmagens longas e conturbadas (contadas no excelente documentário O Apocalipse de um Cineasta), em 1979 lançou uma nova obra-prima: o épico de guerra Apocalypse Now, Palma de Ouro no Festival de Cannes. Contando as lembranças como diretor, roteirista e produtor, em 1980, aos 42 anos, ele já acumulava 12 indicações pessoais ao Oscar.

Um fracasso retumbante
Esperava-se muito de seu filme seguinte, por isso a má recepção de O Fundo do Coração (1982). O longa custou cerca de US$ 27 milhões, bem caro para um drama romântico à época, e arrecadou, nos Estados Unidos, apenas US$ 636 mil.

O ensaio de uma volta
Dois pequenos ótimos filmes focados na juventude e lançados em 1983 ajudaram a recuperar o rombo financeiro da American Zoetrope e o prestígio de Coppola: Vidas Sem Rumo (The Outsiders) e, principalmente, O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish). À temática familiar de O Poderoso Chefão, ele incorporou outro tema de interesse (a juventude), buscando referências invariavelmente em sua vida pessoal - sobretudo nas relações com o pai músico e o irmão mais velho.

Nova queda
Ainda mais caro que O Fundo do Coração, Cotton Club (1984) foi outra decepção, para a crítica e para o público. O prejuízo do drama musical sobre um bar de jazz de Nova York foi da ordem de US$ 23 milhões.

Falência
O curta-metragem Captain EO (1986), dirigido por Coppola e George Lucas e estrelado por Michael Jackson, feito para os parques temáticos da Disney, foi apontado à época como o filme mais caro por minuto já feito. Foi uma tentativa desesperada de recuperação financeira.

O Chefão reconduz
Nos anos 1980 ainda houve Peggy Sue: Seu Passado a Espera e Tucker: Um Homem e seu Sonho, mas Coppola só voltou à velha forma quando fechou a trilogia O Poderoso Chefão. O filme de 1990 saiu bem depois dos dois anteriores, mas acumulou elogios da crítica, boa bilheteria e sete indicações ao Oscar.

Um sucesso e dois fracassos
Drácula de Bram Stoker (1992) ganhou três prêmios técnicos no Oscar e faturou US$ 82 milhões só nos Estados Unidos, mas Jack (1996) e O Homem que Fazia Chover (1997) cumpriram o papel de recolocar lá embaixo o prestígio do cineasta.

De Hollywood a Buenos Aires
Investindo na produção de vinhos, o cineasta finalmente reconquistou a independência econômica e expandiu sua atuação. Velha Juventude (2007), sobre o envelhecimento, lançado pouco antes de ele completar 70 anos, e Tetro (2009), sobre um irmão caçula que venera o mais velho e vai ao encontro dele em Buenos Aires, foram rodados respectivamente na Romênia e na Argentina - países ideiais, segundo o cineasta, muito em função da desvalorização das moedas locais, que barateiam os custos e facilitam a produção.