A vitória de O Discurso do Rei é um pequeno retrocesso para o Oscar.
Pequeno porque não faz nenhuma grande injustiça, apesar de não premiar o melhor longa do ano – que é Toy Story 3, ou quem sabe Cisne Negro, se limitarmos a análise aos 10 indicados a melhor filme. E porque, afinal, o longa de Tom Hooper tem as suas qualidades: é um filme de ator perfeito sob todos os aspectos técnicos, com duas grandes performances de seus dois principais intérpretes (Colin Firth e Geoffrey Rush), sutil em sua abordagem do conflito de classes no tradicional regime monárquico britânico.
Mas é um retrocesso. Porque marca o retorno da premiação a um cinema clássico e acadêmico, que nos últimos anos vinha sendo sistematicamente derrotado por propostas mais autorais e menos caretas do ponto de vista formal.
Pior: a Academia de Hollywood não voltou a ter uma postura mais conservadora com o objetivo de premiar aquele que era de fato o melhor. Fosse O Discurso do Rei o grande filme entre os concorrentes, obviamente seria adequado premiá-lo – mesmo que o prêmio significasse um passo atrás em relação ao movimento percebido nas últimas temporadas. É possível ser o melhor sendo mais careta. A grande questão, aqui, é escolher o mais careta, é olhar para o passado, quando há filmes que alcançam resultado semelhante com muito mais arrojo da parte de seus realizadores.
Um Oscar diz muita coisa sobre o atual momento do cinema. Nos anos anteriores, ao aclamar verdadeiros autores como os irmãos Coen (de Onde os Fracos Não Têm Vez) e preterir projetos da indústria em detrimento de filmes de baixo orçamento (Avatar a Guerra ao Terror num ano, O Curioso Caso de Benjamin Button a Quem Quer Ser um Milionário? no outro), a Academia afirmou claramente estar olhando para o futuro. Não se pode considerar que fez o mesmo deixando de lado Toy Story 3 e Cisne Negro, ou ainda A Rede Social, para consagrar O Discurso do Rei.
Quanto aos outros prêmios, pode-se dizer que não houve nada completamente inadequado – apenas uma ou outra surpresa, casos de roteiro original para O Discurso do Rei e não para A Origem e de fotografia para A Origem e não para Cisne Negro ou Bravura Indômita.
Já a cerimônia em si, apesar de continuar se beneficiando do enxugamento do tempo dos discursos e da apresentação dos concorrentes a melhor filme e a melhor canção, segue clamando por bons apresentadores. Houve poucos momentos de humor inspirados, e a participação de Céline Dion na homenagem àqueles que morreram durante o ano representou o triunfo total da breguice - como poucas vezes se viu antes.
Mas o pior foi a ausência daquilo que também faltara aos cerca de 6 mil votantes na hora de escolher o vencedor do prêmio principal: ousadia.
Os maiores vencedores
O Discurso do Rei: quatro Oscar
A Origem: quatro
A Rede Social: três
O Vencedor: dois
Alice no País das Maravilhas: dois
Toy Story 3: dois
Cisne Negro: um
O Lobisomen: um
Todos os premiados
Melhor filme: O Discurso do Rei
Direção: Tom Hooper (O Discurso do Rei)
Ator: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Atriz: Natalie Portman (Cisne Negro)
Ator coadjuvante: Christian Bale (O Vencedor)
Atriz coadjuvante: Melissa Leo (O Vencedor)
Roteiro original: O Discurso do Rei
Roteiro adaptado: A Rede Social
Montagem: A Rede Social
Fotografia: A Origem
Direção de arte: Alice no País das Maravilhas
Trilha sonora: A Rede Social
Canção: We Belong Togheter (Toy Story 3)
Som: A Origem
Efeitos sonoros: A Origem
Efeitos visuais: A Origem
Figurino: Alice no País das Maravilhas
Maquiagem: O Lobisomen
Animação: Toy Story 3
Documentário: Trabalho Interno, de Charles Ferguson
Filme estrangeiro: Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier (Dinamarca)
Curta-metragem de ficção: God of Love, de Luke Matheny
Curta documentário: Strangers no More, de Karen Goodman e Kirk Simon
Curta em animação: The Lost Thing, de Shaun Tan e Andrew Ruheman
















