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Posts de fevereiro 2011

Oscar 2011: um passo para trás

28 de fevereiro de 2011 27

A vitória de O Discurso do Rei é um pequeno retrocesso para o Oscar.

Pequeno porque não faz nenhuma grande injustiça, apesar de não premiar o melhor longa do ano – que é Toy Story 3, ou quem sabe Cisne Negro, se limitarmos a análise aos 10 indicados a melhor filme. E porque, afinal, o longa de Tom Hooper tem as suas qualidades: é um filme de ator perfeito sob todos os aspectos técnicos, com duas grandes performances de seus dois principais intérpretes (Colin Firth e Geoffrey Rush), sutil em sua abordagem do conflito de classes no tradicional regime monárquico britânico.

Mas é um retrocesso. Porque marca o retorno da premiação a um cinema clássico e acadêmico, que nos últimos anos vinha sendo sistematicamente derrotado por propostas mais autorais e menos caretas do ponto de vista formal.

Pior: a Academia de Hollywood não voltou a ter uma postura mais conservadora com o objetivo de premiar aquele que era de fato o melhor. Fosse O Discurso do Rei o grande filme entre os concorrentes, obviamente seria adequado premiá-lo – mesmo que o prêmio significasse um passo atrás em relação ao movimento percebido nas últimas temporadas. É possível ser o melhor sendo mais careta. A grande questão, aqui, é escolher o mais careta, é olhar para o passado, quando há filmes que alcançam resultado semelhante com muito mais arrojo da parte de seus realizadores.

Um Oscar diz muita coisa sobre o atual momento do cinema. Nos anos anteriores, ao aclamar verdadeiros autores como os irmãos Coen (de Onde os Fracos Não Têm Vez) e preterir projetos da indústria em detrimento de filmes de baixo orçamento (Avatar a Guerra ao Terror num ano, O Curioso Caso de Benjamin Button a Quem Quer Ser um Milionário? no outro), a Academia afirmou claramente estar olhando para o futuro. Não se pode considerar que fez o mesmo deixando de lado Toy Story 3 e Cisne Negro, ou ainda A Rede Social, para consagrar O Discurso do Rei.

Quanto aos outros prêmios, pode-se dizer que não houve nada completamente inadequado – apenas uma ou outra surpresa, casos de roteiro original para O Discurso do Rei e não para A Origem e de fotografia para A Origem e não para Cisne Negro ou Bravura Indômita.

Já a cerimônia em si, apesar de continuar se beneficiando do enxugamento do tempo dos discursos e da apresentação dos concorrentes a melhor filme e a melhor canção, segue clamando por bons apresentadores. Houve poucos momentos de humor inspirados, e a participação de Céline Dion na homenagem àqueles que morreram durante o ano representou o triunfo total da breguice – como poucas vezes se viu antes.

Mas o pior foi a ausência daquilo que também faltara aos cerca de 6 mil votantes na hora de escolher o vencedor do prêmio principal: ousadia.

Os maiores vencedores
O Discurso do Rei: quatro Oscar
A Origem: quatro
A Rede Social: três
O Vencedor: dois
Alice no País das Maravilhas: dois
Toy Story 3: dois
Cisne Negro: um
O Lobisomen: um

Todos os premiados
Melhor filme: O Discurso do Rei
Direção: Tom Hooper (O Discurso do Rei)
Ator: Colin Firth (O Discurso do Rei)
Atriz: Natalie Portman (Cisne Negro)
Ator coadjuvante: Christian Bale (O Vencedor)
Atriz coadjuvante: Melissa Leo (O Vencedor)
Roteiro original: O Discurso do Rei
Roteiro adaptado: A Rede Social
Montagem: A Rede Social
Fotografia: A Origem
Direção de arte: Alice no País das Maravilhas
Trilha sonora: A Rede Social
Canção: We Belong Togheter (Toy Story 3)
Som: A Origem
Efeitos sonoros: A Origem
Efeitos visuais: A Origem
Figurino: Alice no País das Maravilhas
Maquiagem: O Lobisomen
Animação: Toy Story 3
Documentário: Trabalho Interno, de Charles Ferguson
Filme estrangeiro: Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier (Dinamarca)
Curta-metragem de ficção: God of Love, de Luke Matheny
Curta documentário: Strangers no More, de Karen Goodman e Kirk Simon
Curta em animação: The Lost Thing, de Shaun Tan e Andrew Ruheman

E por que não Toy Story 3?

25 de fevereiro de 2011 14

Fazendo a tal “prancheta” com as escolhas dos melhores entre os indicados ao Oscar (que sai na ZH impressa deste sábado, véspera da premiação), voltei a pensar sobre algo que já vinha burilando antes: e por que não Toy Story 3?

Gosto muito de Cisne Negro, acho A Rede Social um filme bastante interessante, mas, como projeto cinematográfico, me parece que o longa da Pixar/Disney é imbatível. Para mim, Toy Story 3 encerra em altíssimo estilo a maior série de animações da história do cinema. Não sei se algum dia veremos algum desenho animado melhor.

Trata-se de uma aula de sensibilidade na contrução do roteiro e dos personagens, e no próprio desenvolvimento de sua dramaturgia, com humor, ironia, drama e melancolia nas medidas certas. Uma aula de cinema, em outras palavras, cujo poder de encanto é muito mais amplo do que qualquer outro entre os 10 indicados. Além disso, premiando o título que é assinado pelo diretor Lee Unkrich a Academia de Hollywood estaria em perfeita sintonia com a tendência apontada por suas escolhas anteriores. Seria a radicalização de um movimento de mudança, marcado pela consagração de uma produção de caráter mais autoral (Guerra ao Terror) na disputa contra um legítimo representante da indústria (Avatar) e de um conto de fadas global e contemporâneo (Quem Quer Ser um Milionário?) em detrimento de um dos mais escancarados representantes do que há de mais careta na produção dos EUA (O Curioso Caso de Benjamin Button). Quer ser jovem? Quer ousar? Valorizar quem olha para frente no que diz respeito à linguagem? Consagra Toy Story 3.

Aquilo que falei dois posts atrás sobre essa supervalorização do 3D, que tem a ver com uma certa videogamização dos filmes: a própria indústria dá pistas de que quer mais e mais projetos que apostam no aspecto mais lúdico do cinema, em produções infanto-juvenis e em desenhos animados. A hora de premiar um filme da Disney/Pixar, que afinal de contas é a responsável por uma das mais significativas revoluções vistas nos últimas décadas, é agora. O filme é este.

Por que não?

Os esquecidos do Oscar

24 de fevereiro de 2011 5

Não são muitos. Diferentemente de outras temporadas recentes – lembro de uma em que a lista dos longas não lembrados pela Academia continha O Lutador do Aronofsky e Gran Torino do Clint Eastwood -, este ano Hollywood não produziu títulos em quantidade suficiente para preencher as 10 vagas de indicados a melhor filme e ainda sobrar muita coisa boa.

Mas antes de falar dos esquecidos há também a serem lembrados os intérpretes que não tiveram suas performances reconhecidas com indicações. Robert Duvall e Bill Murray, respectivamente protagonista e coadjuvante em Get Low, comédia de Aaron Schneider ainda não lançada no Brasil sobre a história real de um homem que organizou o próprio funeral antes de morrer, foram ausências sentidas pela crítica norte-americana. Eu achei realmente incorreta a não indicação de Helena Bonham Carter como atriz coadjuvante por Alice no País das Maravilhas – se tivesse de escolher a sua intepretação no filme de Tim Burton ou a de O Discurso do Rei, pelo qual ela foi indicada, eu ficaria com a primeira.

Também achei muito interessante a atuação de Ben Stiller em Greenberg, de Noah Baumbach, que aqui no Brasil ganhou o infeliz título de O Solteirão. É provavelmente a melhor performance da carreira do ator, num registro dramático incomum para ele. Mas a injustiça, aqui, talvez esteja no fato de que o próprio filme não foi o “independente do ano” eleito pela Academia – ficou para trás na comparação com Minhas Mães e Meu Pai, que não me parece superior.

Se no entanto há filmes que realmente poderiam ter sido mais lembrados na corrida do Oscar são estes cinco abaixo:

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski (foto acima). Grande thriller que por suas qualidades cinematográficas e por sua coragem política lembra alguns dos melhores momentos da carreira de Polanski, provavelmente preterido em função de questões extra-filme (sua prisão na Suíça e o impedimento de entrar nos EUA, tão falados desde 2009).

Ilha do Medo, de Martin Scorsese. Até houve quem não gostou, mas a revista New Yorker o elegeu o filme do ano e, de minha parte, achei uma aula do mestre Scorsese sobre o poder e a legitimidade daquilo que vemos diante dos nossos olhos e sobre a crise do homem diante do contexto que o cerca.

Zona Verde, de Paul Greengrass. Talvez este longa do cineasta por trás da Trilogia Bourne causasse mais impacto se fosse lançado antes, no calor da Era Bush, mas sua contundência política e sua eficiência como libelo antimilitarista são inegáveis. Por este filme e pela participação no genial Trabalho Interno, pode-se dizer que o ano de Matt Damon foi dos melhores.

Wall Street, o Dinheiro Nunca Dorme, de Oliver Stone. O realizador de The Doors e Platoon conseguiu fazer uma continuação (quase) à altura do clássico Wall Street, Poder e Cobiça. Exceto pelo final, exageradamente confortante e otimista, é eficiente pela complexidade com que aborda a ganância no mundo da especulação financeira.

Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola (abaixo), O filme em que a filha de Francis Ford volta a falar do afeto a partir da relação entre uma jovem e um homem mais velho (aqui, pai e filha) é aquele que afirma seu estilo narrativo marcante, que incorpora na forma o vazio dos personagens. É imperdível e estreia nesta sexta (25) em Porto Alegre.

3D é uma grande bobagem

22 de fevereiro de 2011 5

Excesso de refilmagens, escassez de novas ideias, independentes caretas – são vários os sinais de crise criativa em Hollywood. Nenhum me parece mais significativo do que o alto investimento nesta grande bobagem chamada 3D.

Avatar foi um projeto muito peculiar, que incorporou o 3D, que afinal era um velho artifício do cinema, porque ele ajudaria a proporcionar ao espectador a imersão total no universo fantástico concebido pelo visionário James Cameron. Tratava-se de uma experiência estética diferenciada, assim como, por exemplo, se dá a fruição do Tio Boonmee de Apichatpong Weerasethakul. Algo único, sem parâmetro de comparação.

Incorporar a mesma técnica em diversos outros projetos jamais fez sentido para mim, a não ser por sua capacidade de incrementar o lucro dos filmes. Com o ingresso mais caro, algumas pessoas até deixam de ver determinado longa em detrimento de outro, mais barato, mas, apesar disso, não se pode negar que títulos como o Alice de Tim Burton só alcançaram números grandiosos de bilheteria porque o público pagou mais para vê-los.

Do ponto de vista do conteúdo propriamente dito, para não falar em expressão artística, no entanto, salvo raras exceções, o 3D é um embuste. Um exemplo bem claro é este Besouro Verde de Michel Gondry, filme que o seu protagonista, o ator Seth Rogen, teve a coragem de definir como “original”.

A videogamização do cinema

Neste e em vários outros casos, o 3D ajuda a trazer a sensação da falsa novidade, algo que parece novo mas do qual não nos lembraremos em poucos dias. À primeira vista ele pode até impressionar, mas apenas à primeira vista. Algo realmente significativo, que diga respeito à linguagem do cinema, isso o 3D não agrega. A riqueza de um filme não tem nada a ver com o fato de ele ser apresentado em três dimensões.

Outro exemplo, aproveitando a época de Oscar: Toy Story 3. Trata-se de um filmaço, que proporcionou rigorosamente a mesma experiência para o espectador que o assistiu em 3D ou na cópia convencional. O 3D foi, aqui e quase sempre, absolutamente dispensável, não fez a mínima diferença para tornar a fruição melhor ou mais rica.

Outra exceção, além de Avatar, é o curta Day and Night, que a Pixar fez e a Disney apresentou justamente antes das projeções de Toy Story 3. Aqui a terceira dimensão fez algum sentido, à medida que o projeto explorava a visão em profundidade através dos corpos dos personagens do desenho. Porém, isso é bom ressaltar, tratava-se de um exercício concebido justamente para testar o potencial do 3D.

O resultado ficou ótimo, como você pode ver, na íntegra, abaixo – Day and Night inclusive concorre ao Oscar na categoria melhor curta de animação. Mas daí a confirmar que o 3D é um artifício útil para um grande lançamento a cada uma ou duas semanas nos cinemas? Daí a ser levado a sério em festivais importantes como Berlim, em cuja edição recém-finalizada foram apresentados três filmes em três dimensões? Convenhamos: isso não faz sentido.

Antes do Urso de Ouro

20 de fevereiro de 2011 2

Premiado neste final de semana com o Urso de Ouro no Festival de Berlim por Nader and Simin, a Separation, Asghar Farhadi, 39 anos, é um cineasta iraniano de uma geração mais jovem do que aquelas mais festejadas de seu país – de Abbas Kiarostami, Jafar Panahy, Majid Majidi e Mohsen Makhmalbaf. Mas já é conhecido dos cinéfilos brasileiros mais atentos por conta de seu longa anterior, Procurando Elly.

Este filme deu a Fahadi o prêmio de melhor diretor na edição 2009 do mesmo festival e ganhou os cinemas brasileiros há menos de um ano. Pois Procurando Elly acaba de chegar ao DVD no Brasil. Dá uma olhada no trailer e vá até a locadora se você tiver interesse de tomar contato com a obra do grande vencedor da Berlinale 2011:

Godard, Truffaut, Nouvelle Vague, Clouzot

18 de fevereiro de 2011 1

Infelizmente O Inferno de Henri-Georges Clouzot não seguiu os passos de outro documentário francês que abordava o cinema do país nos anos 1960, Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, e não estreou nos cinemas de Porto Alegre.

Ao menos agora o filme que é assinado pela dupla Serge Bromberg e Ruxandra Medre saiu em DVD no país e está à disposição dos cinéfilos nas locadoras. O longa recupera o projeto mais pretensioso do diretor Clouzot, o traumaticamente inacabado L’Enfer (“o inferno”), apresentando pela primeira vez as suas imagens e inúmeras informações de bastidores, riquíssimas para se entender o contexto que cercou a produção – e o próprio contexto da produção francesa à época.

Dá uma olhada, abaixo, no trailer do filme (e também no trailer de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague), e confere o texto que escrevi sobre O Inferno de Henri-Georges Clouzot para a edição impressa de ZH. Depois, se você ainda não viu, vá atrás de ambos os filmes. Tratam-se de dois deleites para o público que é apaixonado pelas histórias dos bastidores do cinema.

* * *

As histórias dos bastidores do cinema, dos filmes inacabados e das lendas em torno de suas estrelas podem ser tão interessantes quanto aquelas vistas na tela. Conhecê-las, em certos casos, ajuda a entender passos fundamentais da carreira de grandes artistas e até mesmo a confabulação de movimentos estéticos que mudaram os rumos da linguagem cinematográfica.

Um exemplo foi proporcionado pelo ótimo documentário Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, longa dirigido por Emmanuel Laurent que foi exibido em Porto Alegre em 2010. Mais um: O Inferno de Henri-Georges Clouzot, outro longa não-ficcional sobre o cinema francês dos anos 1960. Este filme de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea chegou a ser exibido em outras cidades brasileiras, mas ficou inédito no Sul. Chega agora ao DVD, em lançamento da Imovision.

Trata, especificamente, da superprodução L’Enfer (“o inferno”), que consumiu quatro anos de trabalho de Clouzot, foi rodada durante três semanas de 1964 com os astros Serge Reggiani e Romy Schneider, mas acabou abandonada pelo realizador de O Salário do Medo. Por quê? Bromberg e Medrea não dão respostas definitivas, mas deixam claro que o problema, apesar de Reggiani ter abandonado o set, era o próprio cineasta.

Clouzot era um dos grandes diretores franceses pré-Nouvelle Vague. Em 1960, ano de afirmação do movimento liderado por Godard e Truffaut, lançou A Verdade, filme com Brigitte Bardot que chegou a concorrer ao Oscar de melhor longa estrangeiro. Estava em alta. Até ser – duramente – questionado pelos jovens críticos que passariam à realização arejando a engessada produção do país, até então predominantemente clássica, acadêmica.

L’Enfer seria um de seus projetos mais pretensiosos, espécie de resposta autoral às provocações da nova geração. Em ritmo de thriller psicológico, contaria a história de ciúmes do personagem de Reggiani pela sua namorada (Romy, uma das atrizes francesas da hora), alternando o preto e branco das cenas realistas com imagens coloridas cheias de filtros e efeitos de pós-produção para identificar os seus delírios.

Bromberg e Medrea reproduzem pela primeira vez essas sequências (sem áudio), além de contar como cada plano foi concebido, incluindo o estudo da arte cinética como referência visual para as composições mais ousadas. Também entrevistam quem esteve envolvido com a produção, como Costa Gavras, então assistente de direção de Clouzot. O próprio diretor aparece explicando seu filme em entrevistas de arquivo, que são apresentadas junto a diversas imagens de bastidores.

Perfeccionista, o Clouzot que surge na tela é alguém obcecado por resultados que nem ele parecia mais saber quais seriam, o que culminaria com um ataque cardíaco que determinou a interrupção do trabalho – para nunca mais ser retomado, a não ser num longa de Chabrol inspirado em seu roteiro, que foi lançado em 1994 com o título brasileiro Ciúme, o Inferno do Amor Possessivo. É como se o inferno da criatura se transformasse no inferno de seu criador. Menos mal que o projeto que gerou tanta expectativa, ainda que de um jeito torto e quase meio século depois, virou um filme digno de admiração para os cinéfilos.

Na foto abaixo, Clouzot e Romy no set de L’Enfer:

Obra-prima ignorada

12 de fevereiro de 2011 2

Como você bem sabe, há cada vez mais bons filmes lançados diretamente em DVD no Brasil. Em Porto Alegre, então, o número de produções que fazem a ponte direta sem passar pelas salas de cinema é ainda maior.

A novidade é o lançamento de um título que poderia muito bem ser classificado como um dos melhores dos últimos anos – e isso que não é assinado por um realizador oriental hermético ou obscuro, não pode ser enquadrado em rótulos afasta-espectador como “filme-ensaio” e ainda por cima conta em seu elenco com pelo menos dois nomes bem conhecidos do grande público, Jeff Goldblum e Willem Dafoe.

Falo de Adam Resurrected, filmaço lançado em 2008 no circuito de festivais e exibido no país, na Mostra Internacional de São Paulo de 2009, como A Ressurreição de Adam. Pois o longa dirigido por Paul Schrader não entrou em cartaz no circuito e chegou há pouco ao DVD no Brasil, em lançamento da Focus, com o título Adam, Memórias de uma Guerra.

O colega Marcelo Perrone escreveu sobre o filme na seção de lançamentos em DVD da ZH impressa, em texto que apresenta bem a trama e ainda dá a medida da grandeza da produção.

Antes de reproduzi-lo (está abaixo, logo após o trailer legendado), uma palavrinha rápida sobre Schrader. Trata-se de uma das revelações entre os roteiristas que surgiram com a geração que revolucionou Hollywood na virada dos anos 1960 para os 1970, história aliás muitíssimo bem contada no imperdível livro Easy Riders, Raging Bulls. Depois de assinar o roteiro de Operação Yakuza (de Sydney Pollack), Taxi Driver (Martin Scorsese) e Trágica Obsessão (Brian de Palma), todos entre 1974 e 1976, ele estreou na direção com Vivendo na Corda Bamba, de 1978.

Já àquela época era considerado um dos maiores doidões da geração, título aliás não muito fácil de ser conquistado, e que fazia sentido graças, além dos abusos de álcool e drogas, a uma tendência suicida e ao comportamento nem sempre, digamos, polido. Ainda assim, conseguiu se manter produtivo escrevendo (Touro Indomável, City Hall, A Última Tentação de Cristo) e também dirigindo (Gigolô Americano, A Marca da Pantera, Temporada de Caça). Seu filme anterior a Adam Resurrected, o irregular O Acompanhante (2007), estrelado por Woody Harrelson como um afetado gay-amigo-de-madame que circula pelos bastidores do poder em Washington, também já saíra direto em DVD no Brasil. Ele sucedera a sua fracassada tentativa de fazer reviver a franquia O Exorcista, em 2005.

Adam Resurrected – ou Adam, Memórias de uma Guerra – é a obra-prima de Paul Schrader. Absolutamente imperdível.

* * *

O homem é o bicho do homem

O desinteresse dos distribuidores nacionais por um dos mais impactantes filmes dos últimos anos foi reparado pelo selo Focus, que lançou em DVD Adam, Memórias de Uma Guerra (Adam Resurrected, EUA, 2008). Inédito nos cinemas – foi exibido no país apenas em mostras e festivais -, o longa tem a assinatura de Paul Schrader, expoente da turma que fez Hollywood ferver na década 1970 e que, hoje com 64 anos, mostra não ter arrefecido o ímpeto transgressor.

Na mão de Schrader, o recorrente potencial dramático das histórias relacionadas ao Holocausto ganha uma abordagem incomum. Talvez no melhor papel de sua carreira, Jeff Goldblum interpreta Adam Stein, judeu sobrevivente da perseguição nazista na II Guerra que, nos anos 1960, vive num sanatório no deserto de Israel criado para abrigar aqueles que escaparam do genocídio com danos irreversíveis. Dono de uma inteligência prodigiosa e um peculiar charme, Adam é uma figura magnética que harmoniza a convivência entre internos, psiquiatras e enfermeiros.

A chegada ao local de um garoto que se comporta como cachorro e é mantido confinado desperta em Adam os horrores do passado. Ele era um astro do vaudeville em Berlim quando foi capturado pelos alemães. No campo de concentração, o sádico comandante Klein (Willem Dafoe) lhe impôs uma indescritível rotina de humilhações e castigos físicos, fazendo de Adam literalmente seu cão de guarda.

Em um raro trabalho no qual não assina também o roteiro – de Noah Stollman, baseado em romance do escritor israelense Yoram Kaniuk -, Schrader faz de seu filme um libelo humanista a partir de uma representação alegórica e desconcertante em sua simplicidade e didatismo, que remete ao trabalho de Art Spiegelman no romance gráfico Maus: Klein, o tirano onipotente na sua bestialidade, e Adam, o homem reduzido ao estado bruto da fera acuada que conta com o instinto para sobreviver. O embate físico e psicológico que se estabelece nessa relação de poder e submissão – e seus efeitos residuais – atingem voltagem poucas vezes vista no cinema.

Schrader contrariou as previsões que indicavam a ele uma vida curta em Hollywood, física e artística, pela combinação do temperamento ciclotímico com excessos químicos e etílicos, tendência suicida e ambição desmedida. Depois da fama como roteirista, sobretudo na memorável parceria com Martin Scorsese, estreou como diretor – Gigolô Americano, A Marca da Pantera, Mishima e Temporada de Caça, entre outros.

Agora Schrader está na fase de fazer os filmes que lhe dão na telha ao lado dos amigos, como Dafoe, protagonista de seu próximo longa, The Jesuit, trama de vingança ambientada no Texas. Os fãs torcem para que ele continue trilhando à margem de Hollywood.

O crítico no espelho

09 de fevereiro de 2011 6

Cisne Negro vale mesmo cinco estrelas? E Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas?

Três não é pouco para Bravura Indômita, um filme dos irmãos Coen, e O Discurso do Rei, o campeão de indicações ao Oscar?

Poucas vezes desde que cheguei à redação de Zero Hora percebi o debate das cotações tão acirrado. Entre os leitores e entre nós, a equipe que cobre cinema no jornal. Antes de publicá-las aqui, as perguntas acima nós nos fizemos conforme os filmes foram chegando ao circuito.

Tio Boonmee pode ser o mais difícil entre os títulos citados. Mas é também o melhor. As diferenças de percepção diante de um filme como este são naturais e esperadas. Surpresa mesmo é a distância, cada vez maior, entre uma percepção e outra. Entre o que pensa o crítico e o que pensa aquela fatia do público que está fechada às produções que fogem do padrão. Inácio Araújo, da Folha de SP, aborda o assunto de um jeito muito interessante neste post de seu blog.

Hoje vi O Ritual, longa de terror no qual Anthony Hopkins interpreta um padre exorcista. O filme que entra em cartaz nesta sexta (11) em Porto Alegre é ruim e foi achincalhado pela crítica nos Estados Unidos. Mas estreou em primeiro lugar no ranking dos mais vistos naquele país. Não é estranho?

Sobre Cisne Negro. Gosto do filme do Aronofsky, mas, entre os quatro responsáveis pelas cotações publicadas em ZH, fui aquele que menos se empolgou com ele. Em outras palavras, aquele que não compactuou com a avaliação máxima atribuída a ele. Por mim, quatro estrelas seria uma cotação mais adequada.

Parece-me igualmente estranho, no entanto, desgostar do longa estrelado por Natalie Portman a ponto de sugerir que as cinco estrelas são absurdas. Por mais subjetiva que seja a apreciação de uma obra de arte, há parâmetros objetivos segundo os quais se pode determinar se seus autores foram bem-sucedidos. Mal Aronofsky não foi. Mesmo.

Algo a considerar: se os próprios críticos divergem sobre um filme, não seria este um sinal de que a distância entre uma percepção e outra é absolutamente normal, ainda que se trate de uma distância bastante grande, radical? A tal publicação de dois textos, um de alguém festejando determinada obra e outro de alguém contestando-a, ambos lado a lado numa página de jornal – exatamente como a Folha fez com relação a Cisne Negro -, ajudam a entender que, sim, a variedade de opiniões é muito usual mesmo quando se dá dentro de um mesmo, digamos, nicho de espectadores.

Pensando bem, há quanto tempo ZH não faz isso? Não, Cisne Negro não é o caso para se retomar esta prática por aqui.

Deixemos para quando as divergências forem mais significativas. Para quando nos colocarmos no espelho novamente e surgirem conclusões um tanto mais precisas.

Apichatpong Weerasethakul é o cara

08 de fevereiro de 2011 5

O tailandês Apichatpong Weerasethakul surgiu no circuito de festivais no início dos anos 2000 com filmes que aos olhos dos cinéfilos do Ocidente combinam com seu nome: difíceis, enigmáticos e, não é exagero, diferentes de tudo aquilo que a experiência do cinema já havia proporcionado anteriormente.

O impacto inicial se transformou em ampla admiração a partir de Mal dos Trópicos, sua primeira obra-prima, lançada em 2004. Mas o cineasta só conquistou definitivamente o reconhecimento geral com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o mais importante do planeta, concedida em 2010 para Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas.

O filme que está chegando a Porto Alegre é o primeiro de Weerasethakul a estrear no circuito no Brasil. Pela primeira vez, o público local pode tomar contato com seu cinema sensorial e hipnótico no único lugar onde ele pode ser apreciado adequadamente: a tela grande do cinema. A questão é que Tio Boonmee constitui uma sequência coerente na pesquisa da linguagem que o cineasta vem desenvolvendo nos últimos anos – o que significa dizer que a melhor fruição, ou o menor estranhamento, se dá a partir do conhecimento prévio ao menos de seus três principais filmes anteriores (leia abaixo).

O título esquisito é quase a sinopse do seu quarto longa a ganhar o circuito internacional, o sexto da sua carreira. Boonmee (o ator não-profissional Thanapat Saisaymar) vive nas florestas tailandesas. Ele tem um problema renal e acredita que morrerá em breve. Essa proximidade do fim o coloca numa condição espiritual que permite estabelecer contato com vidas passadas – suas ou de seus familiares que já morreram, como a mulher morta há 19 anos (Natthakarn Aphaiwonk) e o filho que está desaparecido há 13 (Geerasak Kulhong).

A imagem dela surge quando o protagonista, sua cunhada (Jenjira Pongpas) e seu assistente (Samud Kugasang, ator conhecido dos filmes anteriores do realizador) fazem uma refeição à mesa. Seu vulto se materializa aos poucos e de maneira rarefeita, deixando claro que não se trata de um corpo como os demais. Já o garoto reaparece transformado numa espécie de macaco de iluminados e penetrantes olhos vermelhos, figura que já foi comparada ao Chewbacca de Star Wars. Em seus delírios, Boonmee também se vê presente numa cena em que um peixe deflora uma princesa, outra sequência de notável virtuosismo técnico na conjugação entre os sons da mata e as suas imagens que, filtradas em fog, se entregam lentamente à compreensão do espectador.

Mal dos Trópicos já levava o público para dentro da floresta provocando seus sentidos – visuais e auditivos. Alguns dos principais trechos de Tio Boonmee são novamente elaborados de maneira brilhante nesse sentido – um dos melhores exemplos é o surgimento do exército de macacos em meio à escuridão, quando veem-se primeiro os seus olhos e depois o restante de seus corpos. A sequência final tem sua função dramática menos evidente numa leitura apressada, mas resume toda a transcendência do cinema de Weerasethakul: o homem é matéria, mas, muito mais do que isso, é energia inserida num sistema no qual coexistem, harmonicamente e num mesmo plano, os animais, os espíritos e toda a natureza.

Seria simplificador, para não dizer equivocado, dizer que Tio Boonmee é o representante budista de uma série de produções recentes que abordam a vida após a morte, sobretudo porque, diante da nova obra-prima do realizador tailandês, longas como Além da Vida e Chico Xavier (ambos de 2010) parecem exercícios de principiantes na linguagem cinematográfica. É provável que em todo o cinema ocidental contemporâneo nada se compare à proposta estética de Weerasethakul. Para entrar em sua viagem, justamente por isso, é necessário não ter medo de perder o chão.

Quem é:

Apichatpong Weerasethakul nasceu em Bangcoc, capital tailandesa, em 1970. Filho de médicos, morou durante muito tempo na cidade de Khon Kaen, uma das maiores do país. Passou a infância vivenciando de perto tanto a vida cosmopolita da classe média-alta das metrópoles quanto a existência rudimentar das pequenas comunidades que vivem em meio à natureza exuberante da Tailândia. Formou-se em Arquitetura antes de se mudar para Chicago (EUA), onde estudou cinema. É considerado um dos raros cineastas tailandeses a expandir suas atividades para além do restrito circuito de estúdios e filmes para a televisão estabelecido no país. No Ocidente, em resposta às dificuldades de compreensão e pronúncia de seu nome, adotou o pseudônimo Joe. Em tempo: a pronúncia correta é “Apichapong” (com o T mudo) “Uirasetakúl” (o W tem som de U e a sílaba tônica é a última).

Principais filmes:

Eternamente Sua (2002) – Depois de curtas experimentais e documentários exibidos em festivais europeus, Apichatpong Weerasethakul estreou no longa-metragem de ficção ganhando o prêmio Um Certo Olhar do Festival de Cannes. A história é a do romance entre uma jovem tailandesa (Min Oo) e um imigrante ilegal vindo da Burmânia (Kanokporn Tongaram) em um dia de piquenique. Além da proposta de comunhão homem-natureza e das imagens provocativas que seriam depuradas nos longas seguintes, chama a atenção o tempo rarefeito de cada sequência – que ressalta a sensorialidade da obra do autor.

Mal dos Trópicos (2004) – A primeira obra-prima do cineasta começa retratando o cotidiano banal de um jovem camponês (Sakda Kaewbuadee), incluindo o início de sua relação homossexual com um soldado (Banlop Lomnoi). A partir da metade do filme, quando o adolescente se perde na floresta e passa a ser procurado pelo militar, o clima muda por completo e a narrativa incorpora elementos fantásticos advindos de lendas populares do interior da Tailândia como aquela que indica que os homens, em contato com a natureza, transformam-se em animais selvagens. O clima hipnótico da história rendeu a aclamação ao diretor, aqui premiado em Cannes com o Grande Prêmio do Júri.

Síndromes e um Século (2006) – Ainda mais experimental que o longa anterior, foi realizado antes de uma nova série de curtas que Weerasethakul concebeu para serem apresentados em galerias e mostras de arte (alguns desses trabalhos estiveram na Bienal de Artes Visuais de São Paulo). De novo, o filme é dividido em dois. Agora, no entanto, tratam-se de duas narrativas espelhadas, em que situações se repetem, primeiro numa clínica rural tailandesa e, depois, num hospital moderno da capital Bangcoc. Além de provocar os sentidos do espectador, aqui o cineasta propõe uma reflexão sobre a passagem do tempo. Concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Maria Schneider e Didi Mocó

04 de fevereiro de 2011 1

Quando preparava o obituário da atriz Maria Schneider (reproduzido abaixo), ontem, eu lembrei de um antológico quadro dos Trapalhões que fazia referência à clássica “cena da manteiga” que marcou o filme Último Tango Paris na cultura (e no imaginário) popular.  Vasculhando com calma no YouTube, claro que  encontrei.

Não assisti a Último Tango Paris no cinema quando do tardio lançamento no Brasil, em 1979, proibidíssimo para menores.  Acompanhei curioso o frisson provocado na imprensa e na família. Lembro de minha mãe animada em poder ver, finalmente,  “aquele filme”. Tanto se falou na tal cena da manteiga que as muitas qualidades  cinematográficas  do clássico de Bertolucci ficaram restritas às criticas e às conversas entre cinéfilos.

Prova do impacto de Último Tango em Paris é o filme ter inspirado o atento e genial Renato Aragão. Que  programa popular  teria esse tipo de sacada hoje em dia? O público da TV aberta de hoje compreenderia? Duvido.


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Morre Maria Schneider, a atriz de “Último Tango em Paris”

Em quatro décadas de carreira como atriz, a francesa Maria Schneider ficou marcada como a parceira de Marlon Brando no polêmico Último Tango em Paris (1972), filme que ela renegava e dizia que, se pudesse voltar no tempo, jamais teria feito.
Maria morreu ontem, aos 58 anos, em Paris, em decorrência de um câncer. Mas é este justamente o filme que será mais citado em seu obituário. Por ser um clássico do cinema, um marco comportamental de seu tempo e também porque ela não conseguiu ter igual destaque em nenhum outro trabalho que fez depois.

Maria estrelou o drama erótico Último Tango em Paris aos 19 anos, desafiada a trabalhar com um diretor que despontava como grande autor, o italiano Bernardo Bertolucci, e um ator mito do cinema, o americano Marlon Brando, que recém havia feito a obra-prima O Poderoso Chefão. Na história, Brando interpreta um americano de meia-idade abalado pela morte da mulher. À procura um apartamento em Paris, cruza com uma jovem desinibida, personagem de Maria, a quem propõe um relacionamento sustentado apenas em encontros sexuais, sem que nenhum saiba nada da vida do outro.

O filme, já controverso por seu tema, ficou famoso pela “cena da manteiga”, referência à sequência de sexo anal que, segundo Maria, não estava prevista no roteiro. A atriz disse posteriormente que se sentiu traída e humilhada com a tal cena e chegou, inclusive, a compará-la a um estupro. As lágrimas da personagem, lembrava, eram as dela. Chamava Bertolucci de “gângster”.

Aclamado pela crítica como um filme transgressor e profundo em seu painel existencialista sobre temas como solidão e sexo, Último Tango em Paris foi também sucesso de público. O longa-metragem enfrentou problemas com a censura em alguns países. No Brasil, então sob a ditadura militar, só estreou em 1979 – antes disso, eram comum excursões de cinéfilos gaúchos rumo a Montevidéu, no Uruguai , onde mesmo após o golpe militar de 1973 a restrição a filmes era mais branda.

Maria, com menor destaque, participou logo depois de outro clássico do cinema, Profissão: Repórter (1975), do diretor italiano Michelangelo Antonioni, protagonizado por Jack Nicholson. Embora ela se dissesse estigmatizada por Último Tango em Paris, sua carreira foi de fato muito prejudicada por seu vício em heroína e por sua  instabilidade emocional – que amigos creditavam em parte à grande exposição que teve com Último Tango em Paris. A atriz ficaria nas décadas seguintes cada vez mais limitada a personagens secundários, como em Jane Eyre – Encontro com o Amor (1996), de Franco Zeffirelli. Seu último trabalho foi no drama romântico Cliente (2008), de Josiane Balasko.

Lixo Extraordinário: oficioso porém emocionante

04 de fevereiro de 2011 1

É de fato muitíssimo interessante o documentário Lixo Extraordinário, que estreia de maneira bastante restrita no circuito de cinemas em Porto Alegre (em apenas uma sala, o Unibanco Arteplex 8, em dois horários diários), apesar da indicação ao Oscar de melhor longa da categoria.

> Clique aqui para ir até alguns posts abaixo e conferir o trailer e algumas imagens dos trabalhos do artista plástico Vik Muniz que são destacados em Lixo Extraordinário.

Mas prepare-se: trata-se de um filme calcado em imagens fortes, com persongens maltratados pela vida – gente tão esquecida pela sociedade quanto o próprio aterro sanitário de Jardim Gramacho, como diz lá pelas tantas o protagonista Vik Muniz.

O filme começa com o artista plástico brasileiro radicado nos EUA tomando contato com o lixão, que fica na periferia do Rio de Janeiro e é apontado como o mais extenso e volumoso do planeta. Muniz é flagrado em conversas bastante pessoais com, por exemplo, a sua mulher, que não esconde a contrariedade ao ser informada do projeto do marido de passar os próximos tempos convivendo com catadores cariocas para tirar daí uma nova série de foto-instalações. São diálogos francos, que deixam claro a disposição do artista em se expor sem restrições diante do trio de documentaristas liderado pela britânica Lucy Walker.

Se há dúvidas quanto à “verdade” dessa postura de Muniz à frente das câmeras, ela logo se dissipa quando ele desembarca no Rio e toma contato com os trabalhadores do lixão: no filme que tem codireção dos brasileiros Karen Harley e João Jardim, nada parece encenado; por mais que a simples presença da equipe de filmagens mude o comportamento de quem está sendo documentado, é notável a capacidade do trio de realizadores de transpor essa barreira e alcançar a essência dos personagens.

Os problemas de Lixo Extraordinário são de ordem ética, mas não exatamente este. O primeiro é a exaltação em excesso à atitude de Vik Muniz, cuja figura que emana do filme é imaculada, quase a de um salvador em meio ao caos. Seu engrandecimento não combina com a postura que às vezes parece arrogante, sobretudo no início do longa – quando, apesar de dizer que não aprova “pessoas que se acham superiores a outras”, o artista não faz questão de se posicionar como alguém “diferente” no contexto de Gramacho. O segundo é um certo apelo emocional da produção como um todo: a trilha sonora não disfarça a intenção de sensibilizar o espectador, fazendo com que em certos momentos possa se questionar se Lucy, Karen e Jardim – e Muniz, que na verdade é um coautor do documentário – não tenham passado do ponto e exagerado na dose de sentimentalismo, principalmente se levarmos em conta que se trata de um ensaio sobre o real.

Mas não são muitos, esses momentos. São seis os catadores cooptados para serem fotografados e depois ajudarem na finalização de seus retratos com os objetos recolhidos do lixão. Todos têm uma personalidade tão marcante e sentimentos tão à flor da pele que depois de familiarizados com as câmeras parecem abrir o coração a cada instante diante dos olhos do espectador. Ressalte-se, nesse sentido, a sensibilidade dos autores do filme em seguir os seus passos e captar essa entrega, especialmente dos dois cineastas brasileiros, que fizeram a direção de cena de quase toda a parte brasileira do documentário.

Tião é o líder dos trabalhadores e quem mais aparece, mas seria injusto destacá-lo do grupo. Isis declarando sua desilusão amorosa e sua aversão ao lugar em que é obrigada a buscar o seu sustento pela simples falta de alternativas é candidata a protagonista de pelo menos um dos momentos mais marcantes do documentário brasileiro recente. Suelem, menina de 18 anos que já é mãe de duas crianças, razão pela qual tem de trabalhar ainda mais duro em Gramacho, é desde já presença obrigatória em qualquer galeria das personagens mais tristes da história do cinema nacional.

São muitos os momentos tocantes de Lixo Extraordinário. Em sua maioria eles estão localizados na segunda metade do longa, quando os catadores já estão à vontade no set e têm a sua rotina dissecada pelo trio Lucy, Karen e Jardim. Novo deslize: o redirecionamento da narrativa, logo depois de suas sequências mais inspiradas, para as origens humildes de Muniz, com o objetivo de colocá-lo numa posição de proximidade dos demais personagens do filme. A escolha dos autores faz sentido, à medida que o artista põe a própria consciência em xeque ao pensar o que será dos seis trabalhadores após a finalização do trabalho. Mas o resultado, pela forma com que se aproximam dessa crise, incorporando o discurso politicamente correto de seu protagonista, que propaga seu apego por valores “maiores” e seu desapego pelo que é “material” – enquanto discursa de sua casa superequipada em Nova York -, é o maior responsável pelo caráter oficioso do filme.

A quem esperava ver uma grande reflexão sobre o valor da arte, ou sobre o sistema que legitima e impõe cotações milionárias a obras construídas a partir de objetos recolhidos num aterro sanitário, Lixo Extraordinário também pode decepcionar. O que interessa aqui é o processo em si, e acima de tudo o seu impacto sobre a vida dos envolvidos – daí a impressão reforçada de “boa ação” por parte de Vik Muniz. Tudo aquilo que for além disso também está presente, é claro, mas de maneira sutil, tangente.

O certo é que o filme é tão complexo, tão rico no que propõe, e tão emocionante em seus melhores momentos, que parece impossível sair do cinema totalmente desapontado. Escorregadas e exageros à parte, Lixo Extraordinário é de fato o documento de uma boa, de uma ótima ação. Vê-lo de maneira fria e sem se deixar envolver é algo absolutamente fora de cogitação. Não deixa de ser – mais – um mérito de seus autores.

Alice Braga: Vou voltar a filmar no Sul

01 de fevereiro de 2011 5

Alice Braga está – cada vez mais – em alta em Hollywood. A atriz paulistana de 27 anos e filmes como Eu Sou a Lenda e Predadores contracena com Anthony Hopkins no longa de terror O Ritual (foto), que estreou sexta-feira (28) no primeiro lugar do ranking dos mais vistos dos EUA.

No Brasil o filme entra em cartaz na semana que vem. Para divulgá-lo, Alice veio ao país e nesta terça-feira conversou com jornalistas em São Paulo. ZH ela atendeu por telefone, em conversa que inicialmente seria cronometrada – “Você tem 10 minutos para falar com ela”, me disse seu assessor – mas que se estendeu quando a atriz foi avisada de que a ligação havia sido feita de Porto Alegre.

- Espera, tenho que te contar sobre um dos meus novos projetos – disse ela, ao fim da conversa. – É um filme que vou fazer no Brasil. Não posso falar muito sobre ele, apenas que será dirigido pelo Felipe Braga (roteirista de Cabeça a Prêmio e diretor de B1: Tenório em Pequim). É um drama de estrada. Terá uma parte rodada no Sul, com produção local da Casa de Cinema de Porto Alegre, sabia? Ainda não temos ideia de quando vamos filmar, mas espero que não demore muito.

A volta de Alice a um filme da Casa de Cinema remonta às suas origens mais remotas no cinema: o curta gaúcho Trampolim, dirigido por Fiapo Barth e lançado em 1998, foi o primeiro a contar com uma aparição da atriz. Ela tinha 15 anos quando foi chamada a integrar o elenco. Sua mãe, Ana Braga (Alice é sobrinha da também atriz Sônia Braga), integrava a equipe técnica do curta.

Além de O Ritual, em breve Alice Braga poderá ser vista no longa On The Road, adaptação do romance homônimo de Jack Kerouac dirigida por Walter Salles que foi filmada no ano passado e conta, no elenco, entre outros, com nomes como Sam Riley, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen e Amy Adams.

- Trabalhar com o Walter foi a concretização de um sonho – diz a atriz. – Ainda mais na adaptação desse livro, um dos meus preferidos desde a adolescência.

Se em O Ritual ela atua ao lado de Anthony Hopkins, antes já trabalhara com Harrison Ford (Território Restrito), Jude Law (Os Coletores), Mark Ruffalo (Ensaio sobre a Cegueira) e Will Smith (Eu Sou a Lenda), entre outros. Como se pode notar, em filmes tão diferentes que impedem, ao menos por enquanto, de associá-la a algum tipo de persona cinematográfica, tão comum em outros casos de intérpretes estrangeiros que se fixam em Hollywood.

- O que quero são novos desafios. Gosto muito de sair de um drama para uma ficção científica, de um filme pequeno brasileiro para um blockbuster norte-americano. Para mim é muito estimulante trabalhar coisas tão diferentes em sequência. Me desafia, e é isso que quero como atriz.

O Ritual é um terror sobre um padre que faz exorcismos. O filme, The Rite no original, é dirigido por Mikael Hafstrom (de 1408 e Fora de Rumo) e é baseado no livro homônimo do jornalista Matt Baglio, que conviveu com padres exorcistas.