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Descubra "A Mãe e a Puta"

11 de março de 2011 2

Diante das tantas bombas que o dever do ofício nos obriga a ver diariamente, encarar e digerir as quase três horas e meia de duração de A Mãe e a Puta é uma experiência rara e revigorante. Eu conhecia esse clássico de muito ouvir falar (um título desses ajuda, sem dúvida) e pude agora, finalmente, conhecê-lo – o DVD foi lançado em fevereiro pela Lume Filmes. Na Zero Hora desta sexta-feira (11/03)  falo sobre o filme, mais propriamente uma apresentação do que uma resenha crítica. Por limitação do espaço, o texto no jornal foi bastante editado. Segue abaixo a versão integral, na qual resisti (não tanto) a colocar novas impressões e informações.

* * *

O título, o tema, a excessiva duração, o tom cínico e amargo com que faz o balanço existencial de uma geração que sonhou alto, a força arrebatadora de suas imagens e diálogos, tudo isso levou A Mãe e a Puta (La Maman et la Putain, França, 1973) a ser um filme pouco visto, por anos restrito ao culto em cinematecas. Seu diretor, Jean Eustache, matou-se com um tiro no coração em Paris, dias antes de completar 43 anos, em 1981, sem ver esta obra-prima emergir como título referencial para novas gerações de cinéfilos e cineastas – Jim Jarmush, por exemplo, dedicou a Eustache seus Flores Partidas (2005), e Richard Linklater  listou A Mãe e a Puta como um de seus 10 filmes favoritos. Graças à distribuidora Lume Filmes, essa joia rara ganha lançamento em DVD no Brasil.

A Mãe e a Puta foi lançado com escândalo no Festival de Cannes de 1973, do qual saiu com o Grande Prêmio do Júri, o segundo mais importante do evento, e o troféu da crítica. Mesmo para o liberais padrões de comportamento da época, Eustache, nesse que é seu primeiro longa-metragem de ficção, foi demasiado ousado na encenação de um triângulo amoroso que deságua num ménage à trois e numa profunda catarse emocional de seus personagens.

Embora o personagem central seja o bon vivant Alexandre (Jean-Pierre Léaud), a tensão dramática do filme está sobre duas mulheres que personificam as representações femininas do título:  Marie (Bernadette Lafont), a que lhe garante abrigo, sustento e uma relação aberta, e a enfermeira Veronika (Françoise Lebrun), jovem sexualmente promíscua que ele conhece cumprindo sua rotina diária, que é flanar pelos cafés de Paris para ler e exercitar seu poder de sedução.

Eustache precisou de quase três horas e meia para dar conta de um inventário geracional que traz muito de sua própria vida e, dizem,  da sua relação com a atriz Françoise Lebrun. Caçula na turma da nouvelle vague, o diretor orbitou o movimento realizando curtas e documentários – também militou na crítica dos Cahiers do Cinéma.  Intelectual autodidata, ficou conhecido como artista que impunha sua autonomia autoral sem fazer qualquer tipo de concessão.

A Mãe e a Puta pode ser visto como uma incursão temporã de Eustache nos dogmas da nouvelle vague, uma década após o auge do movimento. A presença do amigo Jean-Pierre Léaud, ator alter ego de François Truffaut, e a câmara 16mm na mão captando imagens em preto e branco nas ruas são elementos visuais que reforçam essa retomada. Mas o que coloca o filme em outro patamar é ele revisitar a nouvelle vague com os filtros do Maio de 1968 e da revolução sexual. No balanço que se faz desses marcos comportamentais, em contraponto com evervescente idealismo que despertaram na juventude anos antes, o sabor é amargo. Em vez de ruptura, impera a resignação, a inércia, o vazio.

Fale-se o tempo todo e sobre tudo, de alta cultura e de obscenidades – como no impressionante e longo monólogo no qual  Veronika detalha a compulsão por sexo que lhe traz tanto prazer quanto amargura. Na cena, que muito desconforto provocou nas platéias por sua sua dramaticidade e falta de pudor, Eustache enquadra Françoise como a Joana D’Arc de Carl Dreyer. Sobram ironias para a esquerda – o choro dos estudantes nos cafés em 68 não era efeito da emoção, mas do gás lacrimogêneo – e para intelectuais como Jean Paul Sartre, discute-se a criação artística, exalta-se o cinema de mestres como Murnau, Bresson e Leone e a música de Piaf e Offenbach, comenta-se o noticiário dos jornais. A trilha sonora do filme  é composta pelas músicas que os personagens escutam em cena, de Marlene Dietrich a Deep Purple, quase sempre na íntegra.

A longa duração de A Mãe e a Puta resulta da decisão de Eustache em impregnar seu filme com a vida real. As cenas duram o tempo que precisam durar. Para crítico e pesquisador francês Georges Sadoul, A Mãe e a Puta foi o último estágio da metamorfose do cinema-verdade. Eustache, lembra Sadoul,  buscava descrever o curso natural dos acontecimentos na dramatização cinematográfica.  Nenhum silêncio, nenhuma pausa, nenhum plano esticado ao limite é falta do que dizer. Pelo contrário,  soam retumbantes. Interessante notar ainda o contraste que Eustache na representação de personagens  que se expõem na intimidade, física e verbal,  mas quase sempre são fotografados em zonas de sombra. Como diz Alexandre em uma cena, o cinema ensina a viver. É justo supor que a vida ensinou Eustache a fazer filmes.

Comentários (2)

  • Pedro Henrique diz: 13 de março de 2011

    Mas que notícia, Marcelo! Filmaço logo com Jean-Pierre Léaud, fetiche da nouvelle vague – mesmo que Eustache não tenha participado diretamente do movimento. Tô tentando encontrar uma entrevista que ele concedeu à Positif lá nos anos 70, mas tá difícil – é linda, a entrevista.

  • Marcelo Cruz diz: 17 de março de 2014

    Ótimo filme, uma nouvelle Vague atrasada, que fechou com chave de ouro essa fase creio que Eustache não conseguiu realizar esse filme por anos, fazendo qdo tinha condições por isso tem tanto da Nouvelle Vague após a Nouvelle Vague, os acontecimentos de Maio de 68 só acrescentaram o vazio ao filme, vazio que a juventude sentia.

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