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CineEsquemaNovo 2011: considerações finais

30 de abril de 2011 6

>>> Leia os outros posts sobre o CineEsquemaNovo: Sganzerla vive; Teorizar o novo; O melhor e o pior; Frases sobre Ex Isto; A ética em Pacific; Primeiros favoritos; Apresentação; Os filmes do CEN 2011

Foi a maior e melhor edição do CEN desde o seu início, em 2003. O principal motivo está no crescimento do festival e da oferta de filmes: nunca antes houve tantos longas, e com a capacidade de despertar a curiosidade nos cinéfilos mais antenados à novíssima produção brasileira, esta que vem sendo descrita como “pós-industrial”. Mas há mais a dizer sobre o evento, e não exclusivamente elogios, embora estes sejam cada vez mais maioria, na comparação com as críticas negativas. Dividi a análise geral desta sétima edição em tópicos, para facilitar a organização das ideias. Ó:

Os filmes
O Céu sobre os Ombros e Ex Isto foram os grandes longas em competição no CEN 2011. São projetos mais consistentes e realizações mais maduras, na comparação com todos os outros 10 concorrentes, inclusive com o badalado A Alegria, exibido em Cannes. A polêmica em torno de Pacific só existe porque o filme tem algo a dizer, o que justifica a sua valorização por parte do festival. Embora haja outros títulos muito pertinentes naquilo que têm a dizer sobre o futuro da linguagem do cinema e todas as suas possibilidades de produção (sobretudo Os Monstros), os demais competidores apresentam problemas mais evidentes, alguns mais acentuados, casos por exemplo de Baptista Virou Máquina e Luzeiro Volante. A seleção de Luz nas Trevas e a apresentação fora de concurso de Os Residentes encorparam a seleção, mas não esconderam a sua irregularidade. Esta irregularidade é reveladora de uma certa idiossincrasia de curadoria, que por um lado faz bem ao festival (a escolha de filmes que incorporam os princípios defendidos pelo CEN, sem concessões, reforça a sua identidade), mas, por outro, deixa-o engessado e limitado (a jovem produção nacional carrega alguns vícios, que são vistos repetidamente nos piores filmes do evento). Não olhar tão torto para filmes de narrativa mais convencional talvez fizesse o festival ter mais regularidade e, consequentemente, mais consistência. É possível fazer isso sem perder o DNA da inventividade.

O público
Uma das consequências diretas da irregularidade dos filmes é a frequência de público das sessões. Esta talvez seja a questão mais delicada com a qual o CineEsquemaNovo precisa lidar. Há menos gente do que deveria nas exibições dos filmes do CEN, e isso se deve em parte a um certo olhar torto de muitos cinéfilos para com determinados títulos selecionados. Algumas produções de fato exigem muito dos espectadores, e seu resultado estético não compensa – o que acaba afastando-os do festival. É verdade que a Usina do Gasômetro não é o lugar ideal para se ficar até a meia-noite, e que não é apenas o CEN que leva menos gente do que poderia ao cinema: os cinéfilos porto-alegrenses, incluindo os mais jovens, alunos das escolas superiores de cinema locais, estão devendo presença nas mostras especiais realizadas na cidade, e isso não é de hoje. Mas há saída, como provou a sessão lotada de Luz nas Trevas: filmes com mais apelo, desejados pelo público, atraem sim os espectadores. O CEN já é desejado pelos jovens cineastas, que vêm de outros Estados, apresentam seus filmes e participam ativamente de todo o evento. Precisa ser mais desejado também no seu Estado.

Alguns acertos
Promover debates na sequência das sessões noturnas foi um grande acerto da organização. Discutir e ouvir os autores de um filme logo após a sua exibição, quando todos estão com o filme fresquinho na cabeça, é algo fundamental diante de projetos que se propõem a refletir sobre a linguagem – pena que a distância entre as sessões foi tão longa, fazendo, por vezes, com que os espectadores do primeiro filme da noite se dispersassem antes do início do segundo. Outra decisão que rendeu ótimos frutos foi o estabelecimento de premiação em dinheiro para os concorrentes. Ela permite sonhar com esta competição encorpada de que falei acima, que foi uma marca desta sétima edição. Precisa persistir para a oitava edição, até para ajudar o CEN a continuar se expandindo e, como consequência disso, quem sabe, atraindo mais público.

Identidade reforçada
Muitíssimo boa a projeção da Sala P.F. Gastal (aliás, espetacular em época em que as salas de shopping que cobram ingressos caros veem o triunfo das péssimas projeções digitais da Rain), lindo o lounge no terceiro andar da Usina do Gasômetro, excelentes tanto a vinheta de abertura quanto as produções do Minuto CineEsquemaNovo (com notícias do evento antes das sessões de filmes), muito bom o site do festival em termos de conteúdo e melhor ainda toda a programação visual do CEN 2011. Tudo o que levou a marca do CineEsquemaNovo, nesta sétima edição, o fez de maneira mais do que satisfatória – o fez de maneira a reforçar a imagem de profissionalismo do evento e, tão importante quanto isso, ressaltar aquelas que são as proposições do festival, ou seja, a valorização das propostas que fazem pensar o futuro da linguagem do cinema.

Os júris e os seminários
É válido aproveitar a presença de realizadores, críticos e artistas das mais variadas atuações para realizar seminários durante o festival. Isso, que vem sendo implantado não é de hoje, exemplifica bem a opção, acertadíssima, por discutir os filmes e pensá-los – e não apenas exibi-los. Mas é preciso encorpar sobretudo o júri de longas-metragens. Ele foi composto por apenas três pessoas em 2011, ano em que foram exibidos 12 longas em competição. Quando fui jurado, anos atrás, éramos cinco analisando e premiando os curtas – que eram, no total, cerca de 20. Uma proporção, parece-me, mais adequada.

No mais, longa vida ao CEN, hoje o festival de cinema do Sul do Brasil que mais tem algo a dizer.

O debate de Luz nas Trevas, com Ícaro Martins e Helena Ignez (D). Mais sobre esta conversa no post abaixo

Comentários (6)

  • Rafa diz: 1 de maio de 2011

    Como tu falou, foi mesmo emocionante assistir a Luz nas Trevas na sexta. Parabéns pelos textos, a cobertura foi ótima!

  • CineEsquemaNovo 2011: os premiados | Cineclube diz: 1 de maio de 2011

    [...] atual de longas-metragens. Uma análise mais detalhada do evento você pode ler no post abaixo, ou clicando aqui. Segue a lista completa dos vencedores, lembrando que os dois júris oficiais, de curtas e longas, [...]

  • edi diz: 1 de maio de 2011

    Tua análise é perfeita! Tocaste nos pontos certos e teus textos são muito bons. Parabéns!!!! Quanto ao CEN, é um presente pra todos nós. E por último e não menos importante: o Gustavo Spolidoro é um fofo!!!!

  • Rafael Trombetta diz: 2 de maio de 2011

    Isso mesmo, concordo contigo, são muitos os acertos, quase a totalidade, enfim, num mundo onde a perfeição é a divina*, o CEN esta bem pra caramba.

  • Taidje diz: 2 de maio de 2011

    Adoraria ter ido ver muitas coisas, mas para quem não trabalha com cinema e não pode se dedicar exclusivamente a acompanhar a programação, fica difícil mesmo, beirando o impossível – foram só 2 dias das mostras em finais de semana. E esse é um problema de outros festivais de Poa: tudo bem escolhido e de ótima qualidade, mas com pouquíssimo tempo… Sei que a minha presença fico devendo, mas divido a culpa com as organizações dos festivais, hehe.

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