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CineEsquemaNovo 2011: considerações finais

30 de abril de 2011 6

>>> Leia os outros posts sobre o CineEsquemaNovo: Sganzerla vive; Teorizar o novo; O melhor e o pior; Frases sobre Ex Isto; A ética em Pacific; Primeiros favoritos; Apresentação; Os filmes do CEN 2011

Foi a maior e melhor edição do CEN desde o seu início, em 2003. O principal motivo está no crescimento do festival e da oferta de filmes: nunca antes houve tantos longas, e com a capacidade de despertar a curiosidade nos cinéfilos mais antenados à novíssima produção brasileira, esta que vem sendo descrita como “pós-industrial”. Mas há mais a dizer sobre o evento, e não exclusivamente elogios, embora estes sejam cada vez mais maioria, na comparação com as críticas negativas. Dividi a análise geral desta sétima edição em tópicos, para facilitar a organização das ideias. Ó:

Os filmes
O Céu sobre os Ombros e Ex Isto foram os grandes longas em competição no CEN 2011. São projetos mais consistentes e realizações mais maduras, na comparação com todos os outros 10 concorrentes, inclusive com o badalado A Alegria, exibido em Cannes. A polêmica em torno de Pacific só existe porque o filme tem algo a dizer, o que justifica a sua valorização por parte do festival. Embora haja outros títulos muito pertinentes naquilo que têm a dizer sobre o futuro da linguagem do cinema e todas as suas possibilidades de produção (sobretudo Os Monstros), os demais competidores apresentam problemas mais evidentes, alguns mais acentuados, casos por exemplo de Baptista Virou Máquina e Luzeiro Volante. A seleção de Luz nas Trevas e a apresentação fora de concurso de Os Residentes encorparam a seleção, mas não esconderam a sua irregularidade. Esta irregularidade é reveladora de uma certa idiossincrasia de curadoria, que por um lado faz bem ao festival (a escolha de filmes que incorporam os princípios defendidos pelo CEN, sem concessões, reforça a sua identidade), mas, por outro, deixa-o engessado e limitado (a jovem produção nacional carrega alguns vícios, que são vistos repetidamente nos piores filmes do evento). Não olhar tão torto para filmes de narrativa mais convencional talvez fizesse o festival ter mais regularidade e, consequentemente, mais consistência. É possível fazer isso sem perder o DNA da inventividade.

O público
Uma das consequências diretas da irregularidade dos filmes é a frequência de público das sessões. Esta talvez seja a questão mais delicada com a qual o CineEsquemaNovo precisa lidar. Há menos gente do que deveria nas exibições dos filmes do CEN, e isso se deve em parte a um certo olhar torto de muitos cinéfilos para com determinados títulos selecionados. Algumas produções de fato exigem muito dos espectadores, e seu resultado estético não compensa – o que acaba afastando-os do festival. É verdade que a Usina do Gasômetro não é o lugar ideal para se ficar até a meia-noite, e que não é apenas o CEN que leva menos gente do que poderia ao cinema: os cinéfilos porto-alegrenses, incluindo os mais jovens, alunos das escolas superiores de cinema locais, estão devendo presença nas mostras especiais realizadas na cidade, e isso não é de hoje. Mas há saída, como provou a sessão lotada de Luz nas Trevas: filmes com mais apelo, desejados pelo público, atraem sim os espectadores. O CEN já é desejado pelos jovens cineastas, que vêm de outros Estados, apresentam seus filmes e participam ativamente de todo o evento. Precisa ser mais desejado também no seu Estado.

Alguns acertos
Promover debates na sequência das sessões noturnas foi um grande acerto da organização. Discutir e ouvir os autores de um filme logo após a sua exibição, quando todos estão com o filme fresquinho na cabeça, é algo fundamental diante de projetos que se propõem a refletir sobre a linguagem – pena que a distância entre as sessões foi tão longa, fazendo, por vezes, com que os espectadores do primeiro filme da noite se dispersassem antes do início do segundo. Outra decisão que rendeu ótimos frutos foi o estabelecimento de premiação em dinheiro para os concorrentes. Ela permite sonhar com esta competição encorpada de que falei acima, que foi uma marca desta sétima edição. Precisa persistir para a oitava edição, até para ajudar o CEN a continuar se expandindo e, como consequência disso, quem sabe, atraindo mais público.

Identidade reforçada
Muitíssimo boa a projeção da Sala P.F. Gastal (aliás, espetacular em época em que as salas de shopping que cobram ingressos caros veem o triunfo das péssimas projeções digitais da Rain), lindo o lounge no terceiro andar da Usina do Gasômetro, excelentes tanto a vinheta de abertura quanto as produções do Minuto CineEsquemaNovo (com notícias do evento antes das sessões de filmes), muito bom o site do festival em termos de conteúdo e melhor ainda toda a programação visual do CEN 2011. Tudo o que levou a marca do CineEsquemaNovo, nesta sétima edição, o fez de maneira mais do que satisfatória – o fez de maneira a reforçar a imagem de profissionalismo do evento e, tão importante quanto isso, ressaltar aquelas que são as proposições do festival, ou seja, a valorização das propostas que fazem pensar o futuro da linguagem do cinema.

Os júris e os seminários
É válido aproveitar a presença de realizadores, críticos e artistas das mais variadas atuações para realizar seminários durante o festival. Isso, que vem sendo implantado não é de hoje, exemplifica bem a opção, acertadíssima, por discutir os filmes e pensá-los – e não apenas exibi-los. Mas é preciso encorpar sobretudo o júri de longas-metragens. Ele foi composto por apenas três pessoas em 2011, ano em que foram exibidos 12 longas em competição. Quando fui jurado, anos atrás, éramos cinco analisando e premiando os curtas – que eram, no total, cerca de 20. Uma proporção, parece-me, mais adequada.

No mais, longa vida ao CEN, hoje o festival de cinema do Sul do Brasil que mais tem algo a dizer.

O debate de Luz nas Trevas, com Ícaro Martins e Helena Ignez (D). Mais sobre esta conversa no post abaixo

CineEsquemaNovo 2011: Sganzerla vive

30 de abril de 2011 1

Cheguei só ao fim da projeção de Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, pois já tinha visto antes o longa que Helena Ignez dirigiu a partir do roteiro deixado por Rogério Sganzerla. Mas deu para pegar o melhor momento de toda a sétima edição do CEN, justamente aquele que encerrava a mostra competitiva do festival: a ovação do público que superlotou a Sala P.F. Gastal na noite desta sexta-feira (29).

Foi provavelmente a sessão mais concorrida que o CineEsquemaNovo já teve, com gente sentada no corredor, em pé atrás da última fileira de cadeiras e, mais importante, tão entusiasmada nos aplausos ao final quanto estivera em poucas sessões ao longo de todas as edições do festival. No debate, Helena Ignez, que é ex-mulher de Sganzerla, eterna musa do cinema marginal brasileiro e uma figuraça, simpática e querida mas ao mesmo tempo firme, enérgica em suas posições, fez valer a presença de quem ficou no cinema da Usina do Gasômetro até quase a meia-noite de sábado.

“Este projeto é uma grande homenagem. Fizemos com o mais puro amor”, afirmou. “Amor ao Rogério, amor à obra dele, amor ao cinema. Se tivesse de beijar a boca do diabo para realizar Luz nas Trevas, eu a beijaria”.

Helena Ignez tem 68 anos e a energia de uma jovem realizadora. Atriz de inúmeros clássicos como O Padre e a Moça e a obra-prima A Mulher de Todos, de Sganzerla, revelou-se boa diretora ao assinar Canção de Baal, longa lançado em 2009. No CEN, disse estar atenta à novíssima produção nacional, que pôde acompanhar em Porto Alegre. “Adorei A Alegria, chorei assistindo-o hoje, que filmaço! E fiquei triste de não conseguir chegar a tempo para ver Os Monstros. Este vou acompanhar a reprise, amanhã”.

Luz nas Trevas surgiu de um esforço coletivo para levar a cabo um projeto retomado por Sganzerla pouco antes da sua morte, em 2004, que marcaria a volta do protagonista de O Bandido da Luz Vermelha (1968), filme fundamental da cinematografia brasileira. Foi realizado, além de Helena, pelas duas filhas do casal (Djin, atriz, e Sinai, produtora) e André Guerreiro Lopes, marido de Djin. Ícaro Martins, também presente ao debate, é o codiretor, e o cantor e compositor Ney Matogrosso interpreta o célebre bandido, que literalmente volta das trevas – ele morre no final do filme original, mas aqui reaparece preso, observando da cadeia a ascensão de seu filho (Lopes, na foto abaixo com Djin) no mundo dos assaltos à grã-finagem paulistana.

O novo criminoso mantém as extravagâncias do pai, assim como Luz nas Trevas conserva o espírito anárquico e repleto de ironias do primeiro longa – a narração ao estilo dos policiais radiofônicos, os letreiros representativos do caos visual das ruas, tudo reaparece como fora pensado pelo cineasta catarinense. “Tivemos, naturalmente, de retrabalhar algumas coisas, mas não há uma palavra no roteiro que não seja de Rogério”, contou a cineasta. “É uma honra para a gente apresentá-lo no CineEsquemaNovo. Estivemos aqui em 2003, quando Rogério foi o homenageado, e pudemos constatar o quanto se trata de um festival pertinente. O cinema às vezes é muito asfixiante, ele tem um sistema que se basta por si próprio, quando na verdade deveria incorporar mais elementos, por exemplo, das artes visuais, coisa que o CEN mostra muito bem”.

Tudo o que saiu na ZH de quinta-feira (28) sobre o filme está correto, mas há algo que ficou desatualizado com uma notícia dada por Helena Ignez ao fim do debate: Luz nas Trevas ganhou um edital de distribuição da Petrobras e já tem uma perspectiva de lançamento no circuito, embora ainda não tenha nada definido quanto a datas. Ótima notícia, para o final dos sonhos da mostra competitiva do CineEsquemaNovo 2011.

CineEsquemaNovo 2011: teorizar o novo

29 de abril de 2011 1

O intervalo entre as sessões dos longas em competição nesta sexta-feira (29/04), no lounge do CineEsquemaNovo na Sala P.F. Gastal, terá o lançamento de dois livros cujos conteúdos têm íntima relação com as proposições do CEN: Ensaios no Real – O Documentário Brasileiro Hoje e Cinema de Garagem – Um Inventário Afetivo sobre o Jovem Cinema Brasileiro do Século 21. O primeiro é organizado pelo ensaísta e professor da Universidade Federal Fluminense Cezar Migliorin e reúne 12 artigos de pesquisadores brasileiros sobre o cinema não ficcional contemporâneo no país, entre eles Ismail Xavier, Ivana Bentes e André Brasil. O segundo, do cineasta Dellani Lima (já premiado no CEN)  do pesquisador Marcelo Ikeda (professor  da Universidade Federal do Ceará e curador da Mostra do Filme Livre), apresenta um panorama do cinema independente brasileiro da última década.

Uma rápida relação sobre o autor de Ensaios no Real e o conteúdo de Cinema de Garagem: foi Migliorin, autor do primeiro, quem melhor teorizou, até aqui, sobre a produção abordada no segundo. Seu artigo Por um Cinema Pós-Industrial – Notas para um Debate é bastante pertinente à medida que organiza e sistematiza as questões que envolvem o assim chamado jovem cinema brasileiro do século 21 – prova disso é a série de discussões que ele originou, que incluem o diálogo do diretor Felipe Bragança e do crítico Carlos Alberto Mattos em artigos publicados em O Globo que tiveram desdobramento nos mais diversos sites e blogs.

Este cinema “pós-industrial” tem nos filmes que o mesmo Bragança realizou ao lado de Marina Meliande alguns de seus mais representativos exemplares. Isso porque eles incorporam de maneira muito clara o desejo pela criação de uma obra autoral, que fale sobre o lugar em que vivemos a partir de uma abordagem que envolve conceitos artísticos conteporâneos, atuais. Talvez o melhor do CineEsquemaNovo é dar aos cinéfilos porto-alegrenses o acesso a esta produção – só no CEN estão A Alegria e Desassossego, dois dos quatro longas da dupla.

Gostei mais de A Alegria do que de Desassossego, mas confesso que esperava ver menos problemas no filme exibido na quinta-feira (28). A Alegria tem excessos semelhantes aos de Desassossego, porque eles são advindos de uma pretensão maior do que aquilo que às vezes conseguem oferecer. É correto dizer que o longa fala dos desejos e das aspirações de uma juventude sufocada por um contexto de violência – tem uma proposta libertadora neste sentido. Mas o quanto, de fato, faz o espectador pensar sobre este contexto, e sobre violência especificamente? A Alegria é um ótimo exemplo de uma produção cheia de vitalidade que constitui uma das melhores notícias do cinema brasileiro recente. Ela tem enorme significação, e por isso se presta à teorização. É preciso refletir sobre ela, como faz Migliorin. Porque ela tem de evoluir.

Ela deve evoluir.

Tainá Medina em A Alegria

CineEsquemaNovo 2011: o melhor e o pior

28 de abril de 2011 1

Os longas em competição exibidos entre terça e quarta-feira (27) no CineEsquemaNovo evidenciam a irregularidade característica dos filmes selecionados pelo festival porto-alegrense. Em todas as edições o CEN apresenta pequenas preciosidades, sejam curtas ou longas, e também filmes que até têm propostas interessantes, mas cujo resultado final deixa a desejar. É em grande parte por isso, parece-me, que o evento enfrenta certa resistência da audiência – e suas sessões contam com menos espectadores do que poderiam ou deveriam ter. “Vou ao cinema para ver longas como Mulher à Tarde ou Desassossego? Não me parece um bom programa”, deve pensar grande parte do público. Aí acaba perdendo uma experiência estética fascinante como aquela proporcionada por O Céu sobre os Ombros.

>>> Leia outros posts sobre o CEN aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

Mulher à Tarde e Desassossego são projetos bem diferentes, o primeiro um título absolutamente contemplativo sobre o vazio do dia a dia de três mulheres, o segundo um longa coletivo constituído da junção de fragmentos criados livremente como resposta a uma carta enviada pelos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande. Um sufocado pelo exagero de silêncios, o outro asfixiado pelos próprios excessos. Porém, são dois trabalhos igualmente autoindulgentes, que exaltam a própria forma e veem o espectador como um objeto ignorável. Não há prazer possível ao assisti-los. As proposições de seus realizadores são pertinentes, mas naufragam na incapacidade de transformá-las em filmes com dramaturgias minimamente consistentes ou com algum outro tipo de atrativo que não apenas certas composições visuais, no caso de Mulher à Tarde, ou simples sacadas de montagem e efeitos de pós-produção, no caso de Desassossego.

O Céu sobre os Ombros (foto) é o oposto. Vai conquistando o espectador aos poucos, à medida que literalmente invade a vida de três mineiros, digamos, sui generis – uma transexual que trabalha fazendo programas e dá aulas em que fala de Freud e Foucauld, um atendente de telemarketing que é Hare Krishna e integra uma torcida organizada e um escritor mimado e incompreendido que vive num mundo todo próprio sendo sustentado pela mãe. Além de primoroso em sua construção narrativa, faz pensar sobre a verdade desses sujeitos que se abrem tão despudoradamente para a câmera: como é que o diretor Sérgio Borges consegue capturar momentos tão marcantes como, para ficar apenas no exemplo mais notável, a cena em que a transexual transa no carro com um cliente? Trata-se de uma performance a sequência na qual o escritor frustrado confessa pensar em suicídio sabendo que está sendo filmado? E o quanto o fato de se tratarem de encenações é importante para determinar essa verdade do filme?

Uma das mais interessantes vertentes da cinematografia nacional atual é aquela que busca a ficção no registro documental, a que mimetiza a realidade para construir a sua ficção. O Céu sobre os Ombros traz elementos que podem não ser os mais novos sobre o assunto, mas os aprofunda de uma maneira rara de se ver. Desponta como o grande favorito a vencer o troféu de melhor longa do CineEsquemaNovo 2011 – a não ser que o júri oficial entenda ser melhor chamar a atenção para um título que ainda não foi reconhecido (O Céu sobre os Ombros já venceu o Festival de Brasília) e que tenha um espírito inventivo mais aguçado, como é o caso, por exemplo, de Ex Isto.

CineEsquemaNovo 2011: frases sobre Ex Isto

27 de abril de 2011 2

O debate que reuniu João Miguel e Cao Guimarães (foto), um dos principais atores e um dos principais diretores do cinema brasileiro atual, foi talvez o melhor do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre 2011. Além de contar detalhes da produção, como o fato de que foram a campo numa equipe de apenas seis pessoas sem roteiro pré-estabelecido para imaginar uma suposta visita do filósofo francês René Descartes ao Brasil – e o consequente colapso de seu racionalismo diante da cultura sincrética do país -, a dupla soltou algumas frases interessantíssimas sobre a forma com que Ex Isto foi pensado e realizado.

Uma das grandes lições do CEN é apresentar filmes surgidos a partir das mais variadas formas de produção, sobretudo aquelas que quebram o paradigma do filme que custa uma fortuna, depende de uma equipe gigantesca e de inúmeros esforços que depois não se veem compensados no resultado final. O filme dirigido por Cao Guimarães e protagonizado por João Miguel tem muito a dizer neste sentido. As frases abaixo anotei na mesa-redonda realizada na Sala P.F. Gastal ou então na rápida entrevista que fiz com o ator logo após o debate:

“O filme surgiu após um convite do Itaú Cultural para rodar algo sobre Leminski, mas só aceitei com a condição de que não precisasse fazer uma cinebiografia tradicional do escritor e poeta. Li muito Leminski nos anos 1980, mas não conhecia Catatau. Quando o conheci, achei que dali poderia sair algo. Mas o livro é só Descartes e uma lupa embaixo de uma árvore, viajando. Apenas esta imagem não seria suificiente para uma construção dramática. Quer dizer, eu não conseguiria fazer. Talvez Beckett conseguisse… Então resolvemos fazer um filme de viagem. (…) Não gosto de filmar com roteiro, acho aliás que este foi o primeiro filme que o João (Miguel) fez sem um roteiro, assim como foi o primeiro que fiz com atores. Apenas lemos e relemos o livro e muitas outras coisas mais sobre Leminski e Descartes e fomos aos locais que apareciam ou eram sugeridos no livro sem nada assim muito pré-estabelecido, a não ser os trechos que são narrados pelo protagonista. Éramos seis pessoas pensando juntas o projeto. Só depois dessas viagens, com todo o material captado, é que parei para elaborar o roteiro. (…) Os textos narrados a gente gravou em estúdio, depois, na pós-produção. Mas não ficou bom. Para o trecho narrado quando o personagem está em Brasília nós usamos integralmente o que gravamos no quarto do hotel durante as filmagens. Ali estávamos contaminados pelo clima do filme, ali conseguimos alcançar algo realmente bom, só ali. Foram 13 dias de viagens, e tudo o que vemos na tela surgiu desse período, inclusive muitas das próprias ideias daquilo que iríamos apresentar. Um exemplo é o plano em que o gelo derrete no mar, para mim uma boa síntese de todo o filme, porque representa a frieza do racionalismo sucumbindo à cultura tropical. Aquilo ali surgiu de algo que pensei na hora” – Cao Guimarães

“Dos filmes que fiz, Ex Isto é o que mais gosto de rever. Porque sempre descubro coisas novas quando o revejo. No processo de filmagens, a gente não ensaiou nada. Tratei de ‘limpar’ minha mente para incorporar plenamente o personagem (referindo-se à afirmação de Cao sobre o fato de ele, Miguel, conseguir ‘levar o filme apenas com o olhar’). Esse processo é muito revigorante. Ajudou a me redescobrir como ator, a ver minhas possibilidades de expressar detalhes às vezes menos perceptíveis. (…) (Respondendo sobre por que escolheu fazer Ex Isto, um projeto experimental, depois de protagonizar produções maiores que chegaram a fazer carreira internacional, como Estômago e Cinema, Aspirinas e Urubus) Estes dois filmes também eram produções pequenas, feitas com recursos limitados, ambas por diretores estreantes. Elas cres­ce­ram depois de lançadas. Mas assim: sou movido por desafios. Senti que Ex Isto me levaria a um caminho que eu ainda não havia percorrido. (…) É meu trabalho mais visceral, que, leva minha carreira a um outro patamar. Para mim, representa uma revolução pessoal como a de Cinema, Aspirina e Urubus: aquele filme foi a minha ponte do teatro para o cinema; este é a ponte que me leva de um nível para outro. É difícil definir, mas sinto isso, que ele me conduziu a algo que eu ainda não havia vivenciado como ator” – João Miguel

CineEsquemaNovo 2011: a ética em Pacific

26 de abril de 2011 4

O longa-metragem pernambucano Pacific chegou ao CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre depois de uma série de exibições, incluindo a da 29ª edição da Bienal de Artes Visuais de São Paulo. Aliás, a quantidade de filmes que participaram de outros festivais anteriormente é grande (dos 12 longas da mostra competitiva, só quatro são absolutamente inéditos), mas isso não invalida a sua seleção para o CEN: em sua maioria, tratam-se de produções de circulação restrita que têm a oportunidade de chamar a atenção da crítica, incitar o debate e até mesmo encontrar ao menos uma parte de seu público justamente no circuito de festivais de cinema.

É justo constatar, no entanto, que as discussões em torno do filme já iam longe antes de sua exibição no Sul. É ética a postura de seu diretor, Marcelo Pedroso, que compôs o filme de fragmentos de vídeos caseiros de participantes de um cruzeiro entre Recife e Fernando de Noronha? Minha opinião eu dei, ainda que de maneira muito rápida, no post abaixo sobre o CEN, que você pode acessar clicando aqui. Melhor, muito melhor, fala o decano da crítica brasileira Jean-Claude Bernardet, com quem concordo integralmente, numa troca de e-mails com o próprio diretor. Dê uma olhada clicando aqui e acessando o blog de Jean-Claude. (Infelizmente não há links isolados, é preciso ir na home do blog e arrastar o cursor lá para baixo para ler as correspondências. Mas os posts estão divididos de maneira bem clara, como “Pacific 1″, “Pacific 2″, 3 e 4.)

Ó o trailer:

Falcão no céu do Rio

26 de abril de 2011 0

Como a internet é de borracha, aqui vai a íntegra da entrevista com Renato Falcão, diretor de fotografia do desenho animado Rio, publicada na Zero Hora desta terça-feira (26/04).

Renato Falcão é um nome em evidência, mas não apenas por resumir nele a enorme rivalidade que cinde o Rio Grande do Sul na semana de Gre-Nal decisivo. O gaúcho nascido em Passo Fundo há 48 anos figura com destaque nos créditos da animação Rio, por ser ele um dos responsáveis pela exuberância visual do sucesso dirigido pelo carioca Carlos Saldanha. Radicado nos EUA há 18 anos, Falcão fez carreira no cinema como diretor de fotografia.  Rio é o projeto mais ambicioso em que já trabalhou, e o resultado foi tão bom que lhe valeu o convite para continuar a parceria com Saldanha no quarto título da franquia A Era do Gelo, previsto para 2012.  Na entrevista a ZH, por e-mail, Falcão fala sobre os bastidores de Rio e explica por que não voltou a dirigir um longa-metragem depois da estreia aclamada à frente de A Festa de Margarette (2003), filme mudo e em preto e branco que realizou em Porto Alegre.

Zero Hora -  Muitas pessoas têm dúvidas sobre a função do diretor de fotografia em um projeto com personagens e cenários virtuais. Como se dá esse trabalho na animação ?
Renato Falcão - A direção de fotografia em animação, apesar de parecer muito diferente, é muito semelhante ao processo de live action (com atores). A grande diferença é o tempo que se leva para chegar ao mesmo resultado e a quantidade de pessoas envolvidas no processo. Em animação, o período de filmagem pode levar até três anos, enquanto que em live action pode durar apenas oito ou 10 semanas. Em animação, todos os cenários, adereços, roupas e personagens têm de ser modelados no computador. Após tudo ser modelado, começa a filmagem. O diretor de fotografia, ao lado de uma equipe que pode chegar a 40 pessoas, tem que tomar as mesmas decisões de tomaria num set de filmagem: onde colocar a câmera, qual lente usar, usar uma grua ou dolly, filmar como se fosse uma câmera na mão, tudo isso tem que ser decidido e executado, levando semanas para se fazer o que se faria em algumas horas com uma câmera num set real. Outra diferença é que a luz será feita muito mais tarde, apenas após a animação ter sido concluída, o que pode acontecer meses após os planos terem sido feitos. O meu trabalho no Rio foi mais focado nas câmeras e numa consultoria na parte de luz. São dois departamentos separados.

ZH – Como você conheceu o Carlos Saldanha e como se deu o convite para trabalhar em Rio?
Falcão –
Conheci o Carlos em Hoboken, cidade onde moro nos EUA. Nos conhecemos através de amigos em comum, por sermos ambos brasileiros e trabalharmos em cinema. Minha filha Julia estudava na mesma escola destes amigos. Desta amizade vieram ideias de talvez um dia trabalharmos juntos. Mas falávamos mais em ele fazer um filme live action. Eu sempre achei que ele seria um ótimo diretor neste formato também. Eu, nesta época, estava fazendo direção de fotografia em outros projetos. Com a aprovação pela Fox do projeto Rio, ele acabou me convidando. Fui com o Carlos e outros integrantes da equipe para o Rio, para filmarmos algumas referências da cidade, como o Carnaval, o vôo de asa delta, a Lapa, as praias, etc. Este material foi depois usado como inspiração para todos os departamentos recriarem o Rio de forma fiel.

ZH – Rio está sendo muito elogiado pela fidelidade com que reproduz imagens referenciais da cidade. Essa fidelidade lhe trouxe alguma dificuldade extra?
Falcão -
A viagem em que  filmamos o material de referência foi muito importante para as equipes entenderem e recriarem o Rio. A equipe técnica da Blue Sky (braço de animação da Fox), com mais de 400 profissionais, é extremamente competente. Eles têm anos de desenvolvimento de programas e técnicas de CG, e alguns dos cientistas por traz destes programas são pioneiros nessa área desde Tron, considerado o filme que iniciou toda esta fase de CG no cinema. Juntando esta capacidade técnica com o nosso olhar de brasileiros, acho que conseguimos um resultado muito bom. Eu até hoje me surpreendo com o nível de detalhes alcançado.

ZH – Que tipo de retorno você esta tendo de colegas e do pessoal da indústria?
Falcão - Eu acho que Rio elevou o trabalho da Blue Sky a um patamar ainda maior. Além do sucesso de bilheteria, tivemos críticas excelentes, o que nos deixa muito satisfeitos. Muitas pessoas têm comentado sobres as cores, a dimensão que conseguimos alcançar e também a emoção que o filme passa.

ZH -  Você acredita que o desenho possa ter um impacto positivo na imagem do Brasil no Exterior?
Falcão –
Com certeza. O filme mostra um lado que o Rio tem e que estava sendo esquecido. Nós já estávamos com o filme e andamento mesmo antes das decisões da Copa e da Olimpíada. O Rio esta vivendo um momento de renascimento com um esforço real de integração das comunidades carentes, a primeira sessão mundial do filme para o público foi no Complexo do Alemão, área em que um evento destes seria impossível alguns anos atrás. É muito legal saber que o filme vai ajudar a mostrar este lado para o mundo, temos que ter orgulho das nossas belezas naturais e da nossa alegria de ser, representada muito bem pelos personagens secundários do filme e pelo próprio Blu, que se redescobre como brasileiro.

ZH – Vocês já estão trabalhando no próximo título da franquia A Era do Gelo?
Falcão -
O novo A Era do Gelo se chama Ice Age – Continental Drift, e já temos um pequeno curta-metragem no iTunes com uma ideia do que acontecerá durante o filme. Os personagens principais, claro, terão novas aventuras, mas no momento não posso adiantar mais que isso. Com certeza os fãs do Scrat não se decepcionarão com suas novas tentativas de conquistar sua noz.

ZH – O sistema 3D traz alguma dificuldade extra na elaboração da fotografia?
Falcão –
Não uma dificuldade. Temos um departamento especializado em 3D e apenas temos que ter alguns cuidados na hora de executar os movimentos das câmeras. Na verdade, é muito legal compor os planos para 3D, é uma nova forma de pensar em como contar uma história. Gostei de adicionar o 3D ao processo.

ZH – Falando em 3D, você vê a volta do sistema com o mesmo entusiasmo que alguns executivos de Hollywood, que chegaram a dizer que o novo 3D era a salvação do cinema industrial?
Falcão  -
Não acho que 3D seja a salvação do cinema porque acho que o cinema está muito vivo e saudável. O público sempre vai estar aberto para conhecer novas histórias e mesmo para rever as velhas histórias. O cinema hoje é a grande vitrina das emoções e projeções humanas, as pessoas gostam de ver isso na tela e acho que por muitos anos ainda vão querer ver isso. Acho que a maior crise é a criativa. Rio foi um filme relativamente fácil de ser aprovado e executado, o que é um pouco raro em Hollywood. Acho que justamente foi aprovado por ser criativo e mostrar algo ainda não mostrado. Às vezes, é mais fácil pensar em repetir uma fórmula para ter sucesso, mas aí sim você corre o risco de o público não ser seduzido pelo filme.

ZH – Existe o risco de o 3D, no caso de uso excessivo e desnecessário, em especial nos filmes posterioremente convertidos, ser apenas um modismo? Como está essa discussão aí nos EUA?
Falcão -
Com certeza. Acho a pós-conversão algo muito perigoso. Um projeto que é concebido e executado em 3D, como Avatar, tem o grande mérito de usar muito bem uma nova técnica que adiciona ao processo. Fazer uma conversão póstuma apenas para garantir uma bilheteria maior pode acabar alienando o público, que vai ter uma experiência menos satisfatória.

ZH – E como anda nos EUA o processo de digitalização do cinema, da captação da imagem  à distribuição e à exibição? Para quando se prevê o fim da película 35mm?
Falcão -
A exibição aqui nos EUA dificilmente ainda será em película depois de 2013 ou 2014. É um fato e está acontecendo rapidamente. Quanto a captação, acho que ainda termos mais alguns anos com alguns projetos ainda sendo filmados em 35mm. Isso falando de filmes comercias de Hollywood. Quanto a projetos independentes, provavelmente alguns diretores vão querem filmar em película por mais tempo.

ZH – A Festa de Margarette foi muito bem recebido pela crítica, tanto no Brasil quanto no Exterior. Depois de uma estreia tão elogiada, por que razão você não realizou mais nenhum longa como diretor?
Falcão -
Foi muito gratificante ver a recepção que o Festa teve no Brasil e no mundo. Mesmo sendo um filme tão diferente e fora do padrão esperado, tocou as pessoas de muitos lugares, participamos de alguns dos maiores festivais de cinema do mundo e estamos hoje no arquivo permanente de filmes do MoMA, em Nova York. Apesar deste sucesso todo, o filme nunca teve um retorno financeiro. Na verdade, deu um considerável prejuízo. Foi feito sem recursos públicos. Não fomos sequer aprovados para poder captar recursos no Rio Grande do Sul, por exemplo. Acabou sendo um peso grande pessoal para mim e para as pessoas que ajudaram financeiramente o projeto. Por outro lado, acho que pode servir de lição para aqueles que têm seus projetos parados no emaranhado de leis de incentivo e favores de empresas. Se eu tivesse esperado pela aprovação e captação, provavelmente nunca teria feito o filme. Isso tudo dificultou muito fazer outro projeto e acabei me concentrando em direção de fotografia, que me dá tanto prazer quanto dirigir.

ZH – Recentemente você voltou ao Rio Grande do Sul para filmar o longa Enquanto a Noite não Chega, do Beto Souza, anunciado como o primeiro longa no suporte 4k no Brasil. Como foi a experiência? Você tem novos projetos em vista no país?
Falcão -
Foi muito legal filmar com o Beto Souza. O filme realmente é o primeiro longa-metragem a ser filmado em 4K no Brasil. Eu propus ao Beto fazer neste formato e trouxe o equipamento dos EUA. Acho que o maior mérito do filme é a simplicidade e a profundidade estética que alcançamos. Assim como Festa, também é um filme fora do padrão, acho que tem uma beleza escondida que, se percebida, pode tocar as pessoas. Tenho projetos no Brasil, mas agora é uma questão de quando fazer. Estou filmando, além de A Era do Gelo, o próximo filme da Blue Sky, que se chama The Leaf Man.

ZH – Estamos numa semana de Gre-Nal decisivo e seu nome representa a cisão que apaixona os gaúchos. Para qual time você torce? Costuma acompanhar os jogos?
Falcão –
Com estes dois nomes eu tinha que jogar um bolão, né? Mas o pior é que não jogo nada. Quer dizer, só um pouquinho, mas nada que faça jus a estes dois nomes. Quando eu morava no RS, estes eram dois dos grandes jogadores da época e ver eles como treinadores agora é muito legal. Quanto ao time, claro que sou colorado. Tem uma pequena história interessante. Meu pai foi presidente do 14 de Julho, um dos times de Passo Fundo, quando havia a grande rivalidade com o Gaúcho. O 14 de Julho era vermelho também, e meu pai, colorado. Então, para mim, era tudo vermelho quando eu era criança. Eu acompanho ainda, sim, na ZH online, mas não tão de perto quanto deveria.

CineEsquemaNovo 2011: primeiros favoritos

26 de abril de 2011 9

Baptista Virou Máquina e Álbum de Família são muito interessantes naquilo que propõem, mas nem tanto se olharmos o seu resultado final na tela. Ex Isto e Pacific, em compensação, são tão bons que desde já podem ser considerados pontos altos desta sétima edição do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre.

>>> Confira, aqui e aqui, outros posts sobre o CEN 2011

João Miguel, o protagonista de Ex Isto, confidenciou a mim em entrevista realizada logo após o debate do filme (e que estará na ZH impressa de quinta-feira, 28) que considera esta a sua atuação mais visceral. E isso que o grande ator protagonizou, entre outros, os ótimos Estômago, de Marcos Jorge, e Cinema, Aspirina e Urubus, de Marcelo Gomes. Gomes, aliás, é o próximo parceiro de Cao Guimarães, o diretor de Ex Isto (e dos igualmente ótimos Andarilho e A Alma do Osso) em seu próximo longa-metragem, que Cao classifica como seu projeto mais grandioso.

Mas, bem, Ex Isto (foto acima). É uma tradução visual possível do livro Catatau, de Paulo Leminski, que imagina o que aconteceria se o filósofo francês René Descartes desembarcasse no Brasil como membro da comitiva do holandês Maurício de Nassau. O que Cao narra é o colapso do pensador racionalista diante da cultura sincrética brasileira, em imagens ao mesmo tempo delicadas e intensas à medida que reveladoras de características fundamentais da identidade nacional desde alguns de seus pequenos detalhes. A performance de Miguel é impactante porque consegue incorporar toda a complexidade do sentimento do filósofo diante do país que se descortina diante de si.

“Trata-se de um filme de viagem, da experiência da viagem”, disse Cao, no debate logo após a exibição do filme. “Não gosto de filmar com roteiro, acho aliás que este foi o primeiro filme que o João (Miguel) fez sem roteiro, assim como foi o primeiro que fiz com atores. Apenas lemos e relemos o livro e muitas outras coisas mais sobre Leminski e Descartes e fomos aos locais que apareciam ou eram sugeridos no livro sem nada assim muito pré-estabelecido, a não ser os trechos que são narrados pelo protagonista. Éramos seis pessoas pensando juntas o projeto. Só depois dessas viagens, com todo o material captado, é que parei para elaborar o roteiro”.

No debate sobre Pacific, chamou particularmente a atenção uma frase dita por seu diretor, o pernambucano Marcelo Pedroso: “Acho que a classe média brasileira aparece pouco nos documentários produzidos no país. Fiz este filme pensando nisso”. Foi algo muito parecido com o que foi dito pelo decano do documentário brasileiro Eduardo Coutinho quando ele lançou Edifício Master, em 2002 – quase uma década atrás. Outro rápido paralelo: o filme com o qual Pacific mais intimamente dialoga no cinema nacional, parece-me, é Um Dia na Vida, o longa que o mesmo Coutinho apresentou em exibição única na última edição da Mostra de SP. Ambos são retratos bastante distintos, mas ao mesmo tempo com revelações bastante próximas da relação do brasileiro médio, por assim dizer, com o audiovisual. Com a produção de imagens.

Pacific (foto acima) é “apenas” a junção de fragmentos dos celulares e das câmeras particulares de pessoas a bordo de um cruzeiro marítimo em direção a Fernando de Noronha. Nada mais, nada menos – embora muitíssimo bem estruturado no que diz respeito à construção narrativa. A plateia morre de rir quando um casal filma a si próprio sonhando entre o piano do salão de festas e a janela com visão para o paraíso. Diverte-se junto com o homem que vira uma margarita atrás da outra enquanto interage num portunhol medonho com a sua câmera – e, um pouco menos, com a sua namorada – durante uma madrugada de festa.

Há um quê de ridículo em tudo aquilo, o que faz pensar sobre questões éticas – como será que aquelas pessoas, que são os personagens de Pacific, se veem no filme? Ainda que se achem o máximo, o diretor não estaria explorando as suas imagens? E, se estiver, o resultado, estética e politicamente falando, vale a pena? A mim é evidente que Pacific diz muito sobre o país, o que torna válida e muito pertinente a proposta de Marcelo Pedroso.

E que o faz um candidato aos troféus do festival, quase tanto quanto o desde já favorito ao pêmio de melhor filme Ex Isto.

Kubrick, Napoleão e o maior filme do mundo

24 de abril de 2011 1

Chegou ao mercado um – ao que tudo indica – livro histórico da editora alemã Taschen, craque nas publicações chamadas “de arte”: Napoleon: The Best Movie Never Made (“Napoleon: o melhor filme jamais realizado”, em tradução literal). Antes, o livro (capa à esquerda) saíra em uma edição restrita com 1 mil exemplares numerados que, apesar do preço de 450 euros, esgotaram-se em menos de um mês de vendas. Agora, está à disposição do público em geral em uma edição um tantinho mais simples – importada, somente com textos em inglês, ao preço de 49,90 euros (cerca de R$ 108, na www.amazon.com ou na www.taschen.com).

Napoleon é o mítico filme que o grande cineasta nova-iorquino que morou a maior parte da vida na Grã-Bretanha Stanley Kubrick (1928-1999) planejou fazer logo depois de concluir 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968). Mítico porque Kubrick imaginava que esta seria a sua obra-prima – superior, portanto, a Dr. Fantástico (1964), a Laranja Mecânica (1971) e a Glória Feita de Sangue (1961), entre tantos outros – e porque o projeto nunca saiu do papel. Ao menos ali, no papel, no entanto, ele foi muitíssimo bem desenvolvido, como deixa bem evidente o livro-álbum da Taschen, espécie de objeto de fetiche, mesmo, como você pode conferir se acessar as imagens disponibilizadas no site oficial da editora.

Kubrick foi perfeccionista ao extremo, razão pela qual, por exemplo, só assinou 13 longas-metragens durante os quase 50 anos em que se manteve ativo e porque, outro exemplo, renegou até a morte o primeiro deles, Fear and Desire (1953), a ponto de pôr fogo nas cópias às quais teve alcance. Quando não tinha plena convicção do que fazia, o mestre não levava nada adiante. Só rodou as sequências de Barry Lindon (1975) iluminadas apenas por luz de velas quando conseguiu recuperar certas lentes antigas supersensíveis que não eram mais fabricadas, assim como só levou a cabo as cenas em que o moleque de O Iluminado (1980) corre pelos corredores do hotel assombrado quando literalmente conseguiu inventar a steadycam. Sem aquilo que considerava ideal, não filmava. Napoleon não saiu do papel porque Kubrick nunca esteve plenamente satisfeito com determinadas condições de produção que lhe eram proporcionadas.

Naturalmente, ao longo dos anos, foram surgindo histórias a respeito do projeto – e o mito em torno dele não parou de crescer. O causo contado pelo ator Malcom McDowell foi um dos mais célebres. Dizia o protagonista de Laranja Mecânica que Kubrick era obcecado também pela própria figura de Napoleão Bonaparte. Certa vez, no set do filme, o diretor comia ao mesmo tempo um sorvete e um pedaço de carne. “Por que esta excentricidade?”, teria perguntado McDowell. “Porque era assim que Napoleão comia”, teria respondido Kubrick.

O que certamente não é conversa fiada é que o diretor de 2001 considerava o imperador francês o homem de personalidade mais fascinante que já pisou sobre a Terra. Consta que ele queria Jack Nicholson, com quem trabalharia depois em O Iluminado, para encarná-lo na tela. Ou seria David Hemmings? – ambas as informações foram divulgadas ao longo dos anos. Centenas de livros foram devorados por Kubrick durante o trabalho de pesquisa. 15 mil fotografias foram produzidas sobre possíveis locações, em países como a Itália e a França (acima). 17 mil imagens de Napoleão foram estudadas para se chegar às composições visuais que seriam usadas no mais monumental filme nunca realizado (abaixo). 50 mil soldados reais dos exércitos da Iugoslávia e da Romênia teriam sido liberados pelos seus respectivos governos para que se pudessem recriar as cenas de batalha do mais promissor longa-metragem do qual os cinéfilos do mundo todo ouviram falar.

“O maior filme jamais realizado” foi como o próprio Kubrick se referiu a Napoleon, em outubro de 1971, num bilhete destinado a executivos da MGM. Era uma tentativa desesperada de realizar o longa que, ali, já se arrastava há quatro anos.

Para terminar, um rápido exercício motivado pela expressão “a obra-prima de Kubrick”. Entre os filmes que o cineasta de fato conseguiu realizar, qual seria digno desta frase? Ok, mais de um. Vários. Mas qual(quais) o(s) melhor(es)? Fiz uma listinha que é minha, pessoal e intransferível, começando com que mais gosto e terminando com o que acho menos interessante. Não tenho lá grandes convicções com relação à ordem dos nove primeiros, considero todos excelentes (o meu nono colocado é simplesmente o melhor filme do mundo na opinião de outro mestre, o carioca Domingos Oliveira), mas os três últimos são definitivamente os piores entre os seus 12 filmes, na minha opinião (Fear and Desire, por suposto, eu nunca vi). Voilà:

1. Dr. Fantástico (Dr. Strangelove)
2. 2001, uma Odisseia no Espaço (2001, a Space Odissey)
3. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
4. Glória Feita de Sangue (Paths of Glory)
5. O Grande Golpe (The Killing)
6. Spartacus (idem)
7. O Iluminado (The Shinning)
8. Nascido para Matar (Full Metal Jacket)
9. Barry Lindon (idem)
10. Lolita (idem)
11. De Olhos bem Fechados (Eyes Wide Shut)
12. A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss)

Stankey Kubrick e Jack Nicholson no set de O Iluminado, no final dos anos 1970

CineEsquemaNovo 2011: apresentação

22 de abril de 2011 5

As gerações de jovens cineastas que aprenderam a filmar com o vídeo digital ao mesmo tempo em que descobriam todas as possibilidades das novas tecnologias começaram fazendo curtas, mas hoje já são responsáveis por grande parte do que há de mais vital na produção brasileira de longas-metragens. É por isso que o CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre, antes voltado prioritariamente aos curtas, inicia neste sábado (23/04) a sua sétima edição apostando nos longas.

>>> Leia a lista completa dos filmes em competição em outro post, clicando aqui

>>> Acompanhe, neste blog, nos próximos dias, textos sobre estes filmes

>>> Visite o site do CEN e veja a grade de programação

São 39 filmes em competição, 12 deles de longa-metragem – na sexta edição foram apenas cinco. O décimo terceiro é o grande vencedor do Festival de Tiradentes, o polêmico Os Residentes, de Tiago Mata Machado, que será apresentado sábado (23), às 19h, fora de concurso, na sessão de abertura do evento porto-alegrense. Nem é preciso saber o décimo quarto, filme-surpresa igualmente hors-concours que encerrará a programação no outro sábado (30/04), para concluir: trata-se de um panorama consistente e significativo não apenas daquilo que essas gerações têm apresentado, mas da própria produção nacional como um todo.

De Minas Gerais vem O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges, melhor filme do Festival de Brasília – o mais antigo e um dos mais tradicionais do país. Do Rio, A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, exibido em Cannes e Roterdã. Cao Guimarães, um dos principais cineastas brasileiros revelados nos anos 2000, compete com Ex Isto, filme inspirado em Paulo Leminski e estrelado por João Miguel (Estômago). Helena Ignez, a eterna musa do cinema marginal, vem com uma bela homenagem a Rogério Sganzerla (1946 – 2004): Luz nas Trevas, projeto iniciado pelo grande diretor que marca a volta do protagonista de seu clássico O Bandido da Luz Vermelha (1968), agora encarnado por Ney Matogrosso.

Há ainda propostas inusitadas, como a do pernambucano Marcelo Pedroso, que em Pacific narra um cruzeiro marítimo exclusivamente a partir das imagens captadas por seus participantes em seus celulares e câmeras particulares. Ou como a do baiano Wallace Nogueira, que documenta em Álbum de Família o reencontro com seu próprio pai, após oito anos de separação. Autoficção, novos suportes de captação, o lugar e o fomento do chamado cinema pós-industrial – grande parte das discussões mais interessantes que dizem respeito à cinematografia brasileira atual estão no CineEsquemaNovo 2011.

“Os mais de 900 filmes que pleitearam vaga no CEN deste ano (827 curtas ou médias e 82 longas, número superior a Brasília e Gramado), cerca de 20% foram inscritos e vistos pela comissão de seleção via internet – diz Ramiro Azevedo, que responde pela organização ao lado de Alisson Avila, Jaqueline Beltrame, Morgana Rissinger e Gustavo Spolidoro.

O CEN rompe fronteiras em todos os sentidos. Apresentará, em paralelo às competições, uma mostra com curtas exibidos em festivais europeus que têm propostas semelhantes às suas (no Cine Santander), e também duas exposições que trazem reflexões sobre o diálogo entre as linguagens do cinema e das artes visuais (na Usina do Gasômetro e no Atelier Subterrânea). Outra novidade: todos os filmes das mostras competitivas serão seguidos de mesas-redondas, algumas com a presença de seus diretores, logo após suas exibições nas sessões noturnas – o espaço nobre do festival (os curtas no CineBancários e os longas na Sala P.F. Gastal, todos os dias entre domingo e sexta-feira, a partir das 18h).

Além de vitrine, o CineEsquemaNovo também é um palco de debates. Pelo conteúdo daquilo que discute, o mais relevante entre os festivais gaúchos e, cada vez mais, um dos mais relevantes entre os seus pares no país.


Como arruinar um filme, por Mel Gibson

19 de abril de 2011 13

Se você entrou no link dos trailers de Cannes, este que está no post abaixo, deparou com The Beaver. Pois o filme dirigido por Jodie Foster terá sua première na Croisette, fora de concurso, após uma longa espera determinada pelas estripulias de seu ator principal, Mel Gibson. Ele estrela a trama sobre um homem em depressão que encontra uma razão para continuar vivendo quando coloca um fantoche de um castor em sua mão esquerda. Está bem no papel, segundo os críticos que viram as primeiras exibições para a imprensa e convidados da Summit Entertainment, no ano passado.

Gibson falou tanta bobagem após as filmagens, incluindo ofensas racitas a judeus e homossexuais, que forçou a distribuidora a segurar o seu lançamento por um tempo – sob pena de ser rejeitado massivamente pelo público. E assim ficaram na expectativa de retorno, indefinidamente, pelo menos US$ 19 milhões investidos na produção, que ainda tem no elenco a própria Jodie Foster e a jovem e talentosa Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar por Inverno da Alma.

O ator e diretor de Coração Valente e A Paixão de Cristo teve contratos profissionais rompidos e, ainda pior, foi rejeitado pelos próprios colegas de trabalho, que se negaram a atuar ao lado de Gibson depois que seu nome havia sido confirmado no elenco de Se Beber Não Case 2. Distribuído no Brasil pela Paris Filmes, The Beaver ganhou o título nacional Um Novo Despertar e tem estreia por aqui marcada para 12 de agosto. Nos EUA deve ganhar o circuito em 20 de maio, na mesma semana da exibição em Cannes. Segue o trailer legendado:

Outros trailers de Cannes. Terrence Malick

19 de abril de 2011 0

A Árvore da Vida, estrelado por Brad Pitt e dirigido por Malick

Já postamos anteriormente os trailers dos novos Woody Allen, Gus Van Sant e Lars Von Trier, três filmes que terão suas premières em Cannes 2011, entre 11 e 22 de maio. Quer ver os de alguns outros concorrentes à Palma de Ouro, ao troféu paralelo Un Certain Regard ou programados para serem exibidos em sessões hors-concours? Clique aqui e acesse a seção do site oficial desta edição do maior festival do mundo dedicada exclusivamente aos trailers dos seus longas.

Destaque para os novos Nanni Moretti e Jean-Pierre e Luc Dardenne, diretores premiados em outras edições da Croisette. E ainda, e principalmente, para a volta de Terrence Malick, diretor bissexto que até hoje não errou em absolutamente nada do que fez, desde seus dois clássicos setentistas Terra de Ninguém e Cinzas do Paraíso até o mais recente O Novo Mundo, passando por Além da Linha Vermelha. O trailer de seu quinto longa, A Árvore da Vida, estrelado por Brad Pitt e Sean Penn e desde já uma promessa na mostra competitiva de Cannes 2011, é bem impressionante. Dê uma olhada abaixo, já com legendas em português. A estreia nacional, no Brasil, está marcada para 3 de junho.

I travel because I have to

18 de abril de 2011 0

Não sei ao certo em que condições, mas sei que há coisa de duas ou três semanas estreou nos Estados Unidos (e também na Espanha) o filmaço de Karim Aïnouz (Madame Satã) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) que possui um dos títulos mais belos de toda a cinematografia brasileira – e que é uma das pérolas produzidas no país nos últimos anos: Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009). Ou I Travel Because I Have to, I Come Back Because I Love You, como o longa foi apresentado nos EUA.

Logo que o vi, fiquei pensando como seria a recepção de um filme como este em outros lugares do planeta. Viajo é inventivo em seus procedimentos de produção – trata-se de uma ficção composta de imagens documentais – e é visualmente muito distinto do que se pode chamar de “padrão”, graças aos seus inúmeros planos captados em suportes como, por exemplo, o Super-8. Além de tudo, por ser uma espécie de diário de viagem ao sertão profundo, estrutura-se essencialmente a partir do texto que é lido por seu protagonista (Irandhir Santos) – em português, uma língua exótica para as plateias norte-americanas.

Não que ser bem-recebido fosse necessário para confirmar a sua universalidade – os documentários de Eduardo Coutinho, incluindo as suas obras-primas, não viajam para fora do Brasil, embora se tratem de obras-primas -, mas cabia a pergunta: a sua extraordinária capacidade de emocionar o público se manteria em outros contextos?

A resposta vai em dois trechinhos, livremente traduzidos por mim, das resenhas que o longa ganhou na Variety, a bíblia do cinema de Hollywood, e na Time Out, reconhecida revista nova-iorquina. As cotações que ambas as publicações atribuíram a Viajo foram máximas – equivalentes às nossas 5 estrelas.

Ó:

“Estruturalmente perfeito e esteticamente transcendental, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo é um road movie em sua forma mais pura, à medida que registra e ao mesmo tempo afaga todo o processo de uma perda e a sua chegada a um ‘outro lado’. (…) É absolutamente despretensioso e profundamente tocante, ideal para os cinemas do circuito de arte, onde deve chegar amparado pela recepção elogiosa da crítica. (…) A mistura de formatos, incluindo Super-8 e vídeo digital, dá ao longa a sensação de um relato cinematográfico de viagem, o que ele de fato é, porém, convém dizer que nunca um filme desse tipo, ‘caseiro’, foi editado de maneira tão hábil. É como se os diretores tivessem posto um caderno de anotações em sua mente, com imagens e pensamentos se movendo em sintonia e acompanhados de uma seleção de músicas cujo estilo e cujas letras estão completamente de acordo com esse movimento” – Jay Weissberg, Variety.

“Karim Aïnouz e Marcelo Gomes retrabalham de maneira herzogiana seu velho material documental, unindo-o a um novo manancial de imagens, tudo narrativamente arranjado de acordo com a tortuosidade do caminho percorrido pelo protagonista. Trata-se de um atordoante, deslumbrante diário pessoal de viagem impossível de ser datado, dada a sua harmoniosa mistura de imagens captadas em Super-8, vídeo digital e até câmera fotográfica. Ele literalmente e figurativamente vai do foco exato ao borrado e obscuro, para logo depois voltar, ir de novo e voltar. Seu brilhantismo vem dessa composição, da forma com que retrata como o mundo gira em torno das nossas dores – cada música no rádio, cada rosto que se vê, cada história que se ouve reflete apenas aquilo que se perdeu” – Alison Willmore, Time Out.

O fantasma de Gus Van Sant

14 de abril de 2011 0

Gus Van Sant vai lançar seu novo filme, Restless, na mostra paralela do Festival de Cannes Um Certo Olhar.  O diretor americano, autor de obras marcantes em torno do universo juvenil, como Elefante e Paranoid Park,  apresenta agora uma trama romântica que aproxima uma garota com doença terminal (Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton)  e um rapaz  (o novato Henry Hopper) que tem o hábito mórbido de assistir a funerais alheios e acredita se comunicar com o fantasma de um piloto camicase japonês. Segue o trailer.

Godard e os outros

14 de abril de 2011 0

Revi esses dias Bande à Part (1964). A ideia não é falar do filme, que é um dos mais marcantes da nouvelle vague, símbolo da enorme força criativa de Jean-Luc Godard à época. Com essa produção, rodada em poucos dias, ele retomou a simplicidade, o frescor, os cenários, as transgressões e a homenagem aos policiais B americanos da estreia com Acossado - antes de Bande à Part, Godard havia realizado O Desejo, produção mais formal e ambiciosa rodada em cores na Itália.

Bande à Part tem tantos momentos inventivos e marcantes que vale lembrar dois deles, que ganharam homenagens em outros filmes. Um das citações mais evidentes,  assim como a  influência de Godard no cinema de Hal Hartley, já foi assunto tempos atrás, como você pode ver AQUI.  Trata-se da cena da dança replicada por Hartley em Simples Desejo (1992).

BANDE À PART

SIMPLES DESEJO

Depois, a cena da visita ao Museu do Louvre, homenageada por Bertolucci em Os Sonhadores (2003).  Mas antes disso, em 1986, Curtindo a Vida Adoidado apresentou uma sequência com o mesmo espírito, no Instituto de Arte de Chicago, embora eu nunca tenha lido nada respeito de o saudoso John Hughes ter a cena original, ou mesmo Godard, como referência.

BANDE À PART

OS SONHADORES

CURTINDO A VIDA A ADOIDADO

Agora, essa, força a barra. Mas azar, é  pretexto para colocar uma outra foto de Anna Karina.

BANDE À PART


GUERRA NAS ESTRELAS