O amigo, ex-colega e colaborador de ZH Gabriel Brust está em Paris e lá viu o aguardadíssimo e elogiado Meia-noite em Paris, o novo Woody Allen, que abriu o Festival de Cannes e já estreou na capital francesa (no Brasil ele chega dia 17, agora, clique aqui para ir até alguns posts abaixo e ver o trailer legendado em português). Dá uma olhada no texto que ele escreveu sobre o filme e que mandou para publicarmos com exclusividade aqui no blog. Aproveitando: logo a seguir, a gente publica também uma rápida pensata sobre a recente produção do diretor e roteirista na Europa (Meia-noite em Paris é o sexto longa que ele realiza no continente, e o sétimo já está em produção) a partir do lançamento de seu filme anterior, o bem menos inspirado Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos.
Marion Cotillard e Owen Wilson em Meia-noite em Paris
Minuit à Paris, por Gabriel Brust
Poucas vezes um filme entregou tanto diante do pouco que prometia em seu trailer e em sua divulgação como este Meia-noite em Paris, de Woody Allen. Foi com um ar cético que o público francês lotou os cinemas em busca de mais um possível clichê sobre sua capital. Mas clichê não é exatamente um problema para uma cidade que ainda se encanta diariamente por uma efêmera torre de ferro: lá se foram, portanto, 1 milhão de espectadores assistir a Minuit à Paris que, na semana passada, perdeu em bilheteria apenas para Piratas do Caribe 4 e Se Beber, Não Case! 2.
Sim, se você achava que a França era o último refúgio do cinema de arte se enganou. Ou acertou, se considerar que um filme de Woody Allen alcançou o terceiro lugar das paradas lutando bravamente contra os blockbusters. O caso de amor de Allen com a França é antigo. Em Dirigindo no Escuro, de 2002, o próprio diretor ironiza o fato de ser tão popular no país da baguete. Ao narrar a história de um cineasta que perde a visão durante as filmagens, ele ressalta que o único público do mundo que compreendeu aquele filme sem nenhum sentido, realizado por um cego, foi o francês.
Essa relação freudiana entre Allen e os franceses por si só explicaria o sucesso de Meia-noite em Paris, mas desta vez havia um risco, já que o que sempre despertou neles o fascínio pela obra do diretor foi o deslumbre pela atmosfera nova-iorquina. Franceses contemporâneos têm pavor ao clichê parisiense construído pelos estrangeiros e, ao mesmo tempo, cultivam um estranho fetiche pela cidade norte-americana e seus arranha-céus – uma espécie de antípoda da capital francesa. Paris hoje é uma cidade que vive dos cartões postais e que, paradoxalmente, está cada vez mais distante de seus velhos cartões postais. Allen foi generoso com a cidade ao retratar nada além daquilo que resta do seu passado nas cenas que se passam em 2010. A grande viagem do filme, no entanto, aporta nos anos 1920.
O que faz de Meia-noite em Paris um filme tão além do que ele promete é o fato de levar às telas parte da história da Lost Generation, a geração de escritores estrangeiros que foi viver na Paris dos anos 20 do século passado para produzir obras primas de literatura ocidental. O que está ali é, em parte, o célebre livro de memórias de Ernest Hemingway, Paris É uma Festa (A Moveable Feast, de 1951). Vários personagens (reais) do livro de Hemingway (vivido por Corey Stoll) estão lá: como o casal Zelda e Scott Fitzgerald (Alison Pill e Tom Hiddleston) e Gertude Stein (Kathy Bates). Além de outras figuras da época, como Picasso (Marcial di Fonzo Bo), Dali (na hilária interpretação de Adrien Brody), Matisse (Yves-Antoine Spoto) e Buñuel (Adrien de Van)... O grupo de artistas que fez da Paris da década de 1920 um dos lugares mais interessantes do mundo. A diferença é que o filme mostra Hemingway como realmente era, beberrão e mulherengo, e não o pai de família preocupado com sua então iniciante carreira literária que descreve em seu livro.
A maneira como Allen linka esse grupo ao casal de norte-americanos Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams), que em pleno 2010 vai a Paris viver uma pré-lua-de-mel, é a grande sacada do filme. Gil é um escritor aspirante e inseguro, em crise com a namorada, e que acaba indo parar no meio das noitadas da Lost Generation enquanto ela passa os dias fazendo compras com a mãe. Dos diálogos deste típico representante pós-moderno com aqueles típicos representantes da modernidade surgem estranhamentos, ótimas piadas e ainda duas questões que dão o que pensar – coisa que Allen havia banido de seu último filme, o apenas engraçado Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (2010).
O retorno aos anos 1920 é permeado pela reflexão sobre o que consideramos a “época de ouro” de uma sociedade. E ela é sempre relativa, como Gil vai descobrir em sua viagem. O perturbado personagem de Owen Wilson compartilha um sentimento saudosista comum nos dias de hoje, o de que se nasceu na época errada. Mas em suas idas e vindas no tempo, acaba concluindo que viver em uma época sem antibióticos pode ser terrível mesmo que você tenha a chance de conviver com artistas como Degas e Gauguin - caso da Belle Époque francesa. Em um momento que resume o filme, Owen Wilson saca do bolso um calmante Valium para evitar que Zelda Fitzgerald pule no rio Sena. “É a pílula do futuro”, explica ele, diante do espanto da escritora, que toma o remédio, se acalma, e nos faz pensar: teria Zelda Fitzgerald se tornado o fascinante personagem que se tornou caso os ansiolíticos fossem populares nos anos 1920?
E é nas conversas entre Gil e Hemingway que fica mais evidente a crítica – ou apenas a constatação conformada – de como a humanidade foi transformada pelo século 20: do falastrão, resolvido e confiante Ernest ao inseguro, frágil e problemático Gil. Hemingway, um ex-combatente de guerra, não entende por que Gil cultiva um constante medo da morte. Ou por que simplesmente não se autodenomina “o melhor escritor do mundo”, ao invés de ter vergonha até mesmo de mostrar seu livro para os outros. Em outras palavras, diante de Gil, Hemingway se pergunta: “O que fez você, o meu representante de 2010, deixar de ser um homem de verdade?” – homem na sua concepção dos anos 1920, é claro.
O longa que abriu o festival de Cannes deste ano é realmente o melhor filme do diretor desde Tudo Pode Dar Certo (2009). Meia-noite em Paris não é apenas retorno ao incrível passado de Paris, vai além disso. Mas tem a pavorosa atuação de Carla Bruni vivendo uma guia turística dos tempos atuais para lembrar que, sim e infelizmente, Paris é uma cidade que vive do passado.
Woody Allen e Carla Bruni no set de Meia-Noite em Paris
Você vai filmar no lugar dos seus sonhos, por Daniel Feix
Você já ouviu que Woody Allen é tão cultuado na Europa que por lá consegue financiar seus filmes com muito mais facilidade do que nos EUA. Tanto é verdade que ele praticamente se mudou, primeiro para Londres, depois para Barcelona e Paris, para realizar uma série que já alcança o sétimo longa-metragem.
O sétimo (The Wrong Picture), na verdade, está em pré-produção entre a Espanha e a Itália - já tem confirmados no elenco Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Ellen Page e Alec Baldwin. O sexto (Meia-noite em Paris) chega aos cinemas brasileiros em 17 de junho. O quinto (Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos) passou pelo circuito local no ano passado e acaba de sair em DVD por aqui. Com ele, a amostragem é suficiente para chegar a certas conclusões, sobre a obra de Allen em geral e especialmente sobre este momento tão particular de sua prolífica carreira.
Uma delas: Woody Allen pode não estar em sua melhor fase, como alguns gostam de propalar, mas é absolutamente incorreto falar que está por baixo - na Grã-Bretanha, produziu uma de suas obras-primas (Match Point), e, na Espanha e numa espécie de intervalo nos EUA em meio a esta grande viagem, assinou dois títulos muito distintos porém igualmente encantadores (respectivamente Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo).
Suas diferenças, aliás, levam a uma segunda conclusão: se em Nova York, cenário de quase todo o restante de seus longas, o diretor e roteirista já indicava ser influenciado pelo meio em que filma, a passagem pela Europa, até por permitir trabalhar em outros lugares, confirma esta impressão. Na nebulosa Londres, ele abordou temas como crimes, conspirações, culpa, vingança. Na solar Barcelona, relaxou por completo e visitou um lado, digamos, menos sombrio de homens e mulheres.
Não é lá muito difícil, desta maneira, imaginar o clima de Meia-noite em Paris, estrelado por, entre outros, Rachel McAdams, Owen Wilson, Marion Cotillard, Adrien Brody e Léa Seydoux. O que conta para diminuir a produção europeia de Allen é a dificuldade que o mestre por vezes tem para dar profundidade a um olhar que é "de fora" e, portanto, naturalmente leve e rarefeito - e nem sempre consistente - daquilo que vê, incluindo a construção dos personagens, das situações abordadas e, por consequência, de sua dramaturgia como um todo. Este é um problema de Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos.
O longa que acompanha o afastamento de dois casais (Anthony Hopkins e Gemma Jones, Naomy Watts e Josh Brolin) e seus flertes extraconjugais radicaliza algo bastante presente em toda a obra do cineasta: os clichês em torno dos relacionamentos amorosos. Se Allen tantas vezes tirou deles a base para uma dramaturgia densa, no entanto, aqui não consegue fazer o espectador ir além do riso fácil - aquele das piadas que a gente esquece rapidinho.
Dá uma olhada abaixo no mapa da produção do cineasta desde que ele migrou para a Europa para realizar seus filmes:
Na Grã-Bretanha:
Match Point (2005)
Scoop - O Grande Furo (2006)
O Sonho de Cassandra (2007)
Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (2010)
Na Espanha:
Vicky Cristina Barcelona (2008)
The Wrong Picture (coprodução com a Itália, previsto para 2012)
Na França:
Meia-noite em Paris (estreia em 17 de junho no Brasil)
E nos EUA, entre eles:
Tudo Pode Dar Certo (2009)



ok
Concordo com quase tudo, Match Point é uma obra-prima mesmo. Mas acho Vicky Cristina Barcelona também! E só acho Scoop ruinzinho desses filmes aí...
Até agora só vi filmes bons de Woody Allen, inclusive Scoop.