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Posts de junho 2011

Spielberg e J.J. Abrams juntos em Super 8

24 de junho de 2011 2

Esta colaboração é da queridíssima colega Marianne Scholze, que acaba de voltar de uma viagem aos EUA, onde acompanhou o bafafá em torno da estreia de Super 8. Estreia por lá, porque no Brasil o filme só chega em 12 de agosto. Ó:

Steven Spilberg e J.J. Abrams no set de filmagens de Super 8

Desde que me conheço como amante de cinema (não me chamem de cinéfila, pelamordedeus), já fui apaixonada por muitos diretores com obras tão diferentes entre si como Woody Allen e Pedro Almodóvar. Mas, no fundo, um deles sempre ganhou meu coração com suas versões para a telona dos romances de formação que eu também sempre gostei de ler. Ver um filme de Steven Spielberg, pra mim, sempre traz de volta aquela sensação que eu tive ao ver E.T. pela primeira vez no Ritz, levada pela professora Flávia junto com todas as turmas de 2ª série do vizinho Santa Inês, meu colégio.

Spielberg é mestre na arte de colocar aventura, ação, romance, emoção e aquela pitada de humor às vezes meio americano demais numa embalagem estilisticamente impecável e que traz sua assinatura em absolutamente tudo o que se vê em cena, dos enquadramentos calculados em cada milímetro à luz sempre perfeita. Admito que, desde a faculdade, sofri um certo bullying todas as vezes que assumi meu amor pelo cineasta – pois sempre há um francês ou um alemão ou um russo ou um coreano mais cult do que um típico produto de Hollywood. Mas fazer o que se um dos maiores representantes da fábrica de sonhos incrustada no coração de Los Angeles me pegou de jeito desde sempre?

Enfim, tudo isso é pra explicar minha faceirice de guria desde que ouvi falar pela primeira vez de Super 8, novo filme de J.J. Abrams que presta homenagem descarada e desbragada ao meu Spielberg (que, de quebra, é produtor do longa). Publicado na capa da edição impressa do Segundo Caderno desta quinta-feira, o texto aí abaixo resume a expectativa em torno do filme – principalmente a minha.

Superfilme

Não é por acaso que os nomes de J.J. Abrams (roteirista e diretor) e Steven Spielberg (produtor) aparecem no cartaz de Super 8 com quase tanto destaque quanto o título do filme. O encontro do Midas da TV dos anos 2000 com o Midas do cinema dos anos 1980 e 1990 é a maior atração de um dos longas mais aguardados da temporada norte-americana de verão, lançado há duas semanas nos Estados Unidos e com previsão de estreia no Brasil para 12 de agosto.

O tradicional gosto de ambos por um bom mistério contribui: com uma campanha de marketing baseada na quase completa falta de informações sobre o filme, os comerciais que irrompem o dia todo na TV americana conseguem a façanha de aguçar a curiosidade sobre Super 8 sem revelar sobre o que ele trata. Sem estragar a surpresa, o máximo que se pode dizer é: um grupo de pré-adolescentes grava um filme de zumbis com uma câmera Super-8 quando um acidente de trem faz com que estranhos eventos tomem conta de uma pacata cidade no interior de Ohio.

Referências e homenagens movem o filme já desde o resumo acima – óbvia menção à famosa declaração de Francis Ford Coppola sobre o futuro do cinema (“Algum dia, uma garotinha gordinha de Ohio vai ser o novo Mozart e fazer um lindo filme com a câmera caseira do pai dela”). No caso de Super 8, o garotinho gordinho de Ohio é Charles (Riley Griffiths), que, inspirado no clássico cinema de terror B de George Romero, reúne os amigos no verão de 1979 com a câmera do pai na mão. É a deixa para uma série de citações spielberguianas baseadas na obsessão do cineasta por levar às telas roteiros em que a inocência infantil é posta à prova pelos acontecimentos (muitas vezes, inexplicáveis) ao seu redor, como em E.T. (1982), Império do Sol (1987), Jurassic Park (1993) e A.I.: Inteligência Artificial (2001).

A presença da ameaça invisível na forma de um “monstro” lembra ainda Tubarão (1975), e as referências a alienígenas sugerem Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) e Guerra dos Mundos (2005). Se o clima de nostalgia foi o que conquistou parte da crítica americana, alguns traços comuns a outros trabalhos de Abrams comprometem o filme. Como na cultuada série Lost, a mente fértil de Abrams abre um leque tão grande de possibilidades e bifurcações da história que, para fechá-lo, respostas são deixadas de fora, e o desfecho dificilmente corresponde à expectativa criada - característica, aliás, que já havia aparecido até mesmo em obras menos pretensiosas do roteirista e produtor, como o seriado mulherzinha Felicity.

Juntos, Abrams, 45 anos no próximo dia 27 e diretor de Missão Impossível 3 (2006) e Star Trek (2009), e Spielberg, duas décadas mais velho, apostam em uma história moderna com toques clássicos de suspense e terror para fazer frente aos super-heróis da temporada – depois de estrear em primeiro lugar, esta semana Super 8 ficou atrás apenas de Lanterna Verde nas bilheterias americanas. Em uma época em que a TV é cada vez mais responsável por trazer à tela inovações criativas e dramáticas e em que o cinema parece mais preocupado em inovações tecnológicas e digitais, é a perspectiva de uma possível volta do cinemão hollywoodiano feito para toda a família o grande trunfo de Super 8.

O jovem elenco do filme, que inclui Elle Fanning (à direita), de Um Lugar Qualquer

Freud, Jung e Cronenberg

21 de junho de 2011 0

Saiu o primeiro trailer de um dos longas-metragens mais aguardados da temporada. A Dangerous Method é o terceiro título em sequência em que o grande realizador canadense David Cronenberg dirige Viggo Mortensen – os outros foram Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), dois dos melhores filmes da última década. Aqui Mortensen interpreta Sigmund Freud numa trama que explora a relação do pai da psicanálise com Carl Jung (vivido por Michael Fassbender). Vincent Cassel e Keira Knightley também estão no elenco, e o roteiro é de Christopher Hampton, a partir de uma peça que ele próprio escrevera para o teatro – além de dramaturgo, Hampton é roteirista de Desejo e Reparação (2007), O Americano Tranquilo (2002) e Ligações Perigosas (1988), entre vários outros.

Veja abaixo – o trailer é tão promissor quanto se podia imaginar. Ainda sem título em português, A Dangerous Method tem estreia no Brasil marcada inicialmente para 18 de novembro.

Próxima parada, Roma

20 de junho de 2011 0

Depois de Londres, Barcelona e Paris, Woody Allen desembarca em Roma. Esse novo destino do diretor americano em cenário europeu já era sabido. A novidade anunciada nesta segunda-feira é a data de início das filmagens do longa-metragem The Bop Decameron, dia 11 de julho próximo, e o elenco, divulgado em ordem alfabética, como nos créditos dos filmes de Allen: Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Judy Davis, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig e Ellen Page. Também marcam presença atores italianos, como a veterana musa Ornella Muti e Riccardo Scamarcio (de filmes como Meu Irmão é Filho Único e O Primeiro que Disse).

The Bop Decameron chegou a ser anunciado, pelo próprio Allen, com o título The Wrong Picture. O que se sabe da trama é que são quatro histórias independentes livremente inspiradas no Decameron, conjunto de cem novelas escritas no século 14 pelo italiano Giovanni Boccaccio – que já foram adaptadas para o cinema por, entre outros, Pier Paolo Pasolini, entre outras.

Meia-Noite em Paris é imperdível

16 de junho de 2011 3

Primeira coisa a se dizer sobre Meia-Noite em Paris (2011), que estreia nesta sexta-feira (17): não perca. É um dos mais inteligentes e espirituosos filmes de Woody Allen desde Match Point (2005), a sua mais recente obra-prima. A história do escritor frustrado que viaja acompanhando a noiva e os sogros à capital francesa e lá começa a sonhar e a se teletransportar para seu efervescente passado, mais precisamente os anos 1920 descritos por Hemingway no livro Paris É uma Festa, é um deleite desde a primeira piada – a escolha de Owen Wilson para o papel principal.

O ator de Marley & Eu (2008) interpreta um roteirista de Hollywood que odeia as comédias comerciais que escreve – que são exatamente como as que Wilson interpreta na vida real, de Dois É Bom, Três É Demais (2006) a Passe Livre (2010) – e que só se realizará se conseguir publicar um romance. Segunda piada de Allen: o protagonista, logo um protagonista vivido por um rosto marcante destas comédias comerciais, é um de seus personagens mais parecidos com o próprio diretor. É um dos mais próximos àquele alter ego visto, entre tantos outros longas, em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977).

Wilson, logo ele, é muito mais Woody Allen do que Larry David em Tudo Pode Dar Certo (2009) e Josh Brolin em Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (2010), para ficar em dois títulos bem recentes. Meia-Noite em Paris encanta por sua capacidade de rir de tudo, inclusive do seu próprio autor.

É verdade que o filme contém uma mensagem, ou lição, bem banal sobre a valorização do presente, e que seus demais personagens se encerram em estereótipos ou carecem de maiores nuanças, o que limita a sua construção dramatúrgica. Convém lembrar, no entanto, que foi justamente explorando as possibilidades oferecidas por homens e mulheres estereotipados que Allen construiu alguns de seus melhores trabalhos na última década – notadamente, Vicky Cristina Barcelona (2008) e Tudo Pode Dar Certo (2009). Aqui, como nestes dois filmes, a diversão está em rir também do exagero.

Não que isso atrapalhe a fruição, mas algumas de suas piadas só serão compreendidas com conhecimento prévio da obra ou dos personagens históricos que “aparecem” para Owen Wilson – Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Salvador Dalí etc. Um exemplo é quando, em uma de suas viagens à década de 1920, o protagonista “dá a ideia” a Luis Buñuel de fazer o que seria um de seus maiores clássicos, O Anjo Exterminador (1962). Quem o viu entende o que ele diz; quem não o viu, vai rir apenas na piada seguinte – mestre da comédia, Allen sabe que as boas produções do gênero se constroem a partir da justaposição de camadas que não deixam nenhum espectador desprestigiado.

O fantástico aparece com a naturalidade que os filmes de humor exigem – da mesma forma que já aparecera em Simplesmente Alice (1990) e A Rosa Púrpura do Cairo (1985) – e a Paris filmada por Allen é aquela conhecida por todos os seus cartões postais, embora com diferenças bem claras na comparação com a Barcelona e a Londres que ele filmou nesta fase europeia. Sua paixão pela cidade fica evidente desde os primeiros planos – referências óbvias a Manhattan (1979) –, que nos apresentam exatamente a Paris que conhecemos ou no mínimo imaginamos, mas vista com um afeto e uma reverência que antes ele só demonstrara para com Nova York.

Por fim, mas não menos importante: aqui Woody Allen está lúbrico como poucas vezes esteve antes. Deslumbrante no papel de uma musa da Belle Époque, Marion Cotillard é filmada com verdadeira paixão pelo diretor. Rachel McAdams, a noiva do protagonista, também tem sua beleza valorizada – às vezes em demasia, caso do plano em que se agacha por duas vezes diante da câmera voyeurística do cineasta. Carla Bruni e Léa Seydoux, especialmente esta última, na sequência final, são a própria materialização de um fetiche que envolve a mulher francesa. Se por ventura há quem desaprove, Allen parece se importar cada vez menos. Seu desprendimento, da mesma forma que se viu em Vicky Cristina Barcelona, só ajuda. Só faz de Meia-Noite em Paris um filme melhor.

Yes, nós estamos em crise

15 de junho de 2011 1

A Academia de Hollywood anunciou hoje que o número de indicados ao Oscar de melhor filme vai mudar novamente. Se nos últimos dois anos foram 10 os concorrentes, e nos anteriores, cinco, a partir de 2012 este número será variável a cada temporada. Assim: todos os anos, membros da Academia são designados a fazer uma eleição interna que aponta os indicados. Cada um desses membros faz a sua lista de filmes preferidos, e os mais votados entram na listagem final. Pois de agora em diante não serão necessariamente os cinco ou os 10 mais votados que entrarão nesta listagem, mas sim os cinco primeiros e mais aqueles que obtiverem os primeiros lugares nas listas individuais de pelo menos 5% dos membros. O que significa que esta listagem final poderá ter seis, sete, oito, nove ou, bem menos provavelmente, 10 longas.

Esta medida deixa claro: Hollywood admite que errou ao alterar para 10 o número de indicados, dois anos atrás. A indicação de filmes medíocres como Um Sonho Possível (em 2010) não fazia sentido nenhum, a não ser do ponto de vista político – tratava-se de uma manobra para conseguir contemplar produções de todos os grandes estúdios. Como nem todos os grandes estúdios conseguem emplacar um filme bom por temporada, como os EUA não conseguem mais nos oferecer 10 filmes realmente bons por temporada, a medida acabou se tornando um tiro no pé. Só fez escancarar a crise criativa que Hollywood vem atravessando nos últimos tempos. Voltar atrás significa autocrítica. Significa que os homens da indústria têm consciência de que é preciso melhorar a qualidade do produto que oferecem antes de simplesmente exaltá-lo.

Pensando bem, a indústria não acredita que Guerra ao Terror e O Discurso do Rei (foto), para ficar apenas nos vencedores destes dois últimos anos, evidenciam uma grande fase de Hollywood, acredita?

Jeunet, Chomet e Jacques Tati para ver em casa

13 de junho de 2011 0

Diretores de dois filmes marcantes da cinematografia francesa do início deste século 21 (respectivamente O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e As Bicicletas de Belleville), Jean-Pierre Jeunet e o animador Sylvain Chomet são adeptos de um certo tipo de fantasia que parece não combinar com o mundo contemporâneo. É esta a sensação que se tem diante dos mais recentes filmes de ambos, que acabaram de sair em DVD no Brasil. Não que isso seja ruim, ao contrário: o estranhamento provocado por Micmacs (de Jeunet) e O Mágico (de Chomet) é bom, faz parte do encanto de cada um. A seu modo, os dois lembram os grandes mestres das comédias fabulares Charles Chaplin (1889-1977) e Jacques Tati (1907-1982).

Micmacs

Uma fábula pelo desarmamento

Lançado em DVD sem passar pelo circuito no Brasil, Micmacs – Um Plano Complicado (Micmacs à Tire-larigot, 2009) é o sexto longa de Jeunet. O protagonista é Bazil (Dany Boon, de A Riviera Não É Aqui), um atendente de videolocadora duplamente traumatizado. Na primeira sequência do filme, vê-se a morte de um soldado francês em ação no Marrocos que, se saberá depois, é seu pai. Em seguida, ele próprio é atingido na testa por uma bala perdida de um tiro que foi disparado acidentalmente. Mesmo que desconheça o histórico do criador de Amélie Poulain o espectador percebe de cara que se trata de uma fábula: os fatos se sucedem de maneira improvável e a máscara usada por todos os atores e personagens que aparecem em cena passa longe do que minimamente se entende por realismo.

Visionário, Jeunet cria em Micmacs imagens deslumbrantes e transforma paisagens inóspitas como a de um ferro-velho que mais parece um lixão em um mundo fantástico repleto de possibilidades. É lá que Bazil vai parar após sair de um longo período de recuperação no hospital e perceber que o posto atrás do balcão da locadora já não são mais seus. E é lá que ele encontra um grupo de excêntricos amigos que vivem no local e que vão ajudá-lo numa pouco provável vingança contra os gigantes da indústria armamentista – os fabricantes das armas que vitimaram ele e seu pai.

O tema não podia ser mais atual, mas para entrar na história quem precisa estar desarmado – de qualquer preconceito diante do irrealismo das situações vislumbradas – é o espectador. Colabora para a aproximação do público o encantantamento de seu protagonista, um vagabundo chapliniano quase literal que carrega no olhar uma mistura de inocência com tristeza e vontade de transformação social. Da mesma forma, Micmacs se vê iluminado por um imenso apanhado de referências, que vai muito além da obra do realizador de Luzes da Cidade: passa por Táxi Driver e Casablanca, Rimbaud e Rambo - cujas pronúncias, em francês, rendem um trocadilho que é uma das muitas boas piadas do filme. Micmacs é daquelas comédias tristes que fazem ao mesmo tempo rir e chorar – desde que se permita embarcar na imaginação de seu autor.

O Mágico

O ilusionista triste de Tati

Foi num roteiro deixado por Jacques Tati que Chomet, o diretor da animação As Bicicletas de Belleville, buscou inspiração para fazer o seu segundo longa. O Mágico (L’Illusionistte, 2010) é – quase – tão comovente quanto a sua estreia no cinema. Ganhou indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor animação e elogios de toda a crítica internacional. Tem um requinte visual incomum, pela qualidade com que manipula a luz e a profundidade de campo de suas imagens, que jamais se encerram nas informações dispostas no primeiro plano. Em época de investimentos pesados no 3D, só não conseguiu se impor no mercado. Nem poderia: as escolhas do diretor – desenho mais manual do que computadorizado, ritmo lento, ausência quase completa de diálogos – fazem dele um projeto notável em todos os sentidos, porém, nem um pouco competitivo. Parece que o espectador está literalmente diante de algo de outro tempo.

Diz Chomet que Tati escreveu o roteiro do longa, batizado originalmente de O Ilusionista – que é diferente de “o mágico”, como fica claro no próprio filme -, como uma carta endereçada à filha que ele teve com uma dançarina de music-hall e da qual se afastou por pressões familiares. Faz sentido: a história é a do encontro de um ilusionista triste chamado Tatischeff (nome de batismo de Tati) com uma garota que vive abandonada num music-hall até ser adotada por ele.

Adotada, inicialmente, à força. Antes um sucesso popular, as performances do protagonista sucumbem diante da concorrência com as novas ofertas de entretenimento, mais precisamente as bandas do emergente rock’n'roll – a trama é localizada na virada dos anos 1950 para os 1960 -, e ele passa a se apresentar em locais mais remotos, como o interior da Escócia. É lá que depara com a garota. Ela se encanta com seus truques e retorna ao lado dele, escondida. Quando se revela, ele não pode mais voltar atrás.

O encanto de O Mágico está sobretudo na maneira como a presença de um sensibiliza o outro. Também é algo que lembra Chaplin – particularmente seu filme O Garoto, de 1921 -, mas, mais essencialmente, é impossível não associá-lo de imediato a Jacques Tati: os traços e os trejeitos de Tatischeff são muito semelhantes aos do Monsieur Hulot, o personagem clássico dos trabalhos mais conhecidos do mestre da comédia europeia. Um filme-homenagem completo.

Sobre Tati e Hulot (foto à esquerda), para ver em casa: Jacques Tati dirigiu seis longas-metragens, mas quem quiser aprofundar o contato com realizador que escreveu mas jamais filmou O Mágico tem à disposição em DVD, além de cinco destes seis filmes, uma compilação de outros trabalhos menores, ou simplesmente mais curtos – reunidos no disco Curtindo Jacques Tati. Os cinco longas lançados em DVD no Brasil são As Férias do Sr. Hulot (1953), Meu Tio (1958), Playtime: Tempo de Diversão (1967), Traffic (1971) e Parade (1974). Todos, exceto este último, são protagonizados pelo Monsieur Hulot referenciado por Chomet em O Mágico.

A desconstrução do amor

12 de junho de 2011 1

Não se deixe enganar pela picaretagem comercial que fez Blue Valentine virar, no Brasil, Namorados para Sempre. Quem pretende fazer deste excelente filme um programa romântico deve saber que irá deparar com um choque de realidade acerca dos relacionamentos amorosos e afetivos  que contrasta com o painel edulcorado sugerido pelo equivocado título nacional.

No drama dirigido por Derek Cianfrance, o tom romântico é amortecido na dolorida catarse emocional que marca o fim de um relacionamento, ponto de vista realista – pessimista, dirão alguns – que já produziu obras memoráveis como Cenas de um Casamento (1974), de Ingmar Bergman. Os protagonistas aqui são Cindy e Dean, vividos com impressionante entrega por Ryan Gosling e Michele Williams – ela foi indicada ao Oscar. Por meio de uma inventiva estrutura narrativa, executada de forma envolvente do roteiro à montagem, o espectador logo percebe que a história deles é contada embaralhando diferentes momentos no decorrer de alguns anos.

Entre os corações acelerados dos primeiros encontros e a melancólica ruptura que se mostra iminente alguns acontecimentos colocaram a vida a dois sob nova perspectiva: chegou uma filhinha não planejada, o sonho de Cindy em ser médica e dar o fora da cidadezinha próxima a Nova York virou a dura rotina com enfermeira no hospital local, e Dean se acomodou em só sair de casa para fazer pequenos bico braçais, pois felicidade, para ele, é estar em casa para dedicar-se integralmente à família – mesmo ciente de que pode não ser o pai biológico da garotinha. Essas diferentes aspirações dentro do casamento refletem históricos de vidas conturbadas. Cindy, racional, olha para eles e se assusta ao ver um futuro como o de sua mãe, figura opaca e passiva que viva à sombra do marido agressivo. Já o infantil e impulsivo Dean se agarra no conforto de uma vida doméstica que ele, separado da mãe quando criança, jamais teve.

Namorados para Sempre – que, assim como Taxi Driver e Blade Runner – deverá emplacar na memória com seu título original – segue na clave de outras incursões recentes sobre o tema da separação: Amor em Cinco Tempos (2004), em que François Ozon contou de forma episódica a história de um casal do divórcio ao primeiro encontro, e 500 Dias com Ela (2009), divertida subversão ao gênero das comédias românticas assinada por Mark Webb. Mas o paralelo que mais se aproxima da proposta naturalista de Derek Cianfrance, em especial nos segmentos em que a crise conjugal aflora, é com John Cassavetes, o pioneiro do moderno cinema independente americano.

Como Cassavetes, Cianfrance encontra na parceria de atores em performances excepcionais – Michelle e Ryan são os produtores executivos do filme – a segurança para explorar as profundas fissuras emocionais de um casal em crise, trabalhando sobre intensidade e nuanças hiper-realistas. Seu longa é repleto de sequências memoráveis, como aquela em que se passa no quarto de um motel, na tentativa derradeira de Dean recolocar o casamento nos trilhos. A suíte escolhida tem uma extravagante decoração futurista. Pare ele, um estímulo juvenil. Para ela, um lugar tão frio e impessoal que apenas reflete nas paredes metalizadas dois espectros já desprovidos de energia e paixão.

Este é apenas o segundo longa de Cianfrance, que após o elogiado e pouco visto Brother Tied (1998) sai de cena e dedicou-se a produções para a TV e aos curtas-metragens. A excelente repercussão de sua volta ao cinema lhe estimulou a seguir adiante. Mas antes do próximo longa de fiçcão, The Place Beyond the Pines, com Ryan Gosling e Bradley Cooper, ele lança dois documentário com temas peculiares: Cagefighter, sobre o violento universo dos torneios de vale-tudo, e Metalhead, sobre um baterista de heavy metal que estourou os tímpanos e agora convive com o mundo do silêncio. É um cineasta a se prestar atenção.

Feliz Dia dos Namorados

12 de junho de 2011 2

Antes do Amanhecer (Before Sunrise, de Richard Linklater, EUA/Áustria, 1995)

Nós que amamos tanto os teus filmes II

09 de junho de 2011 0

Marcello & Sophia

Este post tem o II no título porque faz um adendo a este aqui, sobre os 80 anos de Ettore Scola, completados no último dia 10 de maio. É o seguinte: o CineBancários começa a exibir, a partir da próxima terça-feira (14/06), uma das obras-primas de Scola, justamente Um Dia Muito Especial (1977), estrelada por Sophia Loren e Marcello Mastroianni e citada neste post anterior de mesmo título. Em projeção a partir de uma matriz 35mm. Serão três sessões diárias, às 15h, às 17h e às 19h, de terças a domingos, até o dia 30. Se você nunca viu, não perca. Se já viu, não sei em que condições está a cópia (eu vi uma na Cinemateca Paulo Amorim há aproximadamente 10 anos e estava ok), mas a chance de revê-lo no cinema, em 35mm, é rara. O CineBancários fica na General Câmara, a Rua da Ladeira, nº 424, no centro de Porto Alegre.

Novidades na vitrine

08 de junho de 2011 1

Estrada para Ythaca, filme do coletivo Alumbramento

Quase cem longas-metragens são finalizados anualmente no Brasil. Grande parte destes filmes acaba não conquistando espaço no circuito, ou porque se enquadram na classificação “difícil demais” para o público, ou porque simplesmente são feitos num sistema de produção alternativo ao esquema privilegiado pelos distribuidores e exibidores.

São os casos do cearense Estrada para Ythaca e do pernambucano Um Lugar ao Sol. Ambos deram início, há 10 dias, ao projeto Vitrine, voltado para a exibição de alguns desses filmes em espaços determinados de algumas das principais capitais brasileiras – no caso de Porto Alegre, a Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro.

Cada longa seria exibido inicialmente apenas no horário das 19h, mas Ythaca já ganhou dois horários extras – sinal da pertinência da programação, que, vale ressaltar, apesar de incluir produções excluídas das salas comerciais, chama a atenção para um novíssimo cinema nacional que cada vez mais vem se firmando no país. A seguir, dois breves comentários sobre Estrada para Ythaca e Um Lugar ao Sol.

Odisseia pós-industrial, por Daniel Feix

Estrada para Ythaca (2009) é um pequeno grande marco do novíssimo cinema brasileiro, este que vem sendo chamado pós-industrial. Não que seja uma obra-prima, não se trata disso, mas o filme escrito, dirigido, produzido e interpretado pelos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e pelos primos Guto Parente e Pedro Diógenes – do coletivo cearense Alumbramento, o mesmo de Sábado à Noite (2007) e Os Monstros (2010), este selecionado para o CineEsquemaNovo 2011 – contém em si uma espécie de carta de princípios, ou intenções.

Trata-se de um road movie brejeiro que acompanha o jovem quarteto numa viagem de carro rumo a Ythaca. Homero e Kaváfis são referências ao mesmo tempo eruditas e espirituosas: eles estão de porre quando resolvem partir, em homenagem a um amigo que teriam perdido e que por isso não pode compartilhar daquela celebração, mas o que importa, no fundo, não é o objetivo final, e sim o que a experiência de percorrer aquele caminho vai proporcionar.

Estrada para Ythaca se constrói sobre o inesperado, mas firma sua base dramatúrgica sobre citações. A mais interessante delas vem da fala de Glauber Rocha no longa de Godard Vento do Leste. Diante de uma bifurcação, que simboliza a escolha ou pelos filmes de aventura e ação, ou pelo cinema de Terceiro Mundo, “perigoso, divino e maravilhoso”, como a música de Caetano (Divino Maravilhoso), os personagens/atores/autores tomam a direção desta última.

Não é apenas por isso que Ythaca tem jeito de manifesto: celebração da amizade e da criação coletiva, o filme faz a noção de autoria se diluir – ou se fortalecer, depende do ponto de vista – à mesma medida que convida o espectador a compartilhar as alegrias, as dores e as angústias mais íntimas de seus realizadores. Não seria o cinema uma arte menor justamente porque envolve uma complexidade de produção que acaba afastando o público do imaginário do artista? De seu jeito, Estrada para Ythaca vem provar que as coisas não precisam ser necessariamente assim. Numa cinematografia que repete à exaustão um sistema de produção envelhecido e nem sempre eficaz porque emula a indústria de Hollywood mesmo que não consiga repeti-la, trata-se de algo muito pertinente.

A vida como ela deveria ser, por Marcelo Perrone

Muitas obras relevantes do documentário nacional radiografam o abismo social do Brasil pelo ponto de vista daqueles que sofrem com a fome, a miséria, a violência e as carências extremas de saúde, educação e moradia. O raro é ver nessa abordagem tão recorrente o ponto de vista de quem literalmente enxerga o abismo do alto, no conforto e na segurança de uma cobertura com vista para o mar. Em Um Lugar ao Sol, o diretor pernambucano Gabriel Mascaro mostra o que os muito ricos têm a dizer, também em temas que afligem os muito pobres, da segurança às mais vãs questões existenciais. Ele procurou mais de cem milionários donos de luxuosas coberturas catalogadas em uma publicação. Apenas nove, moradores de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, toparam se expor.

E se expor, no caso, podia implicar do risco à integridade física ao risco de pagar mico caso existisse uma pré-disposição marxista – ou má fé – do documentário em tomar partido numa, digamos, oposição acintosa de classes. Felizmente não é esse o caminho tomado por Mascaro. Aos moldes de um Edifício Master do jet set, o diretor segue a cartilha de Eduardo Coutinho, o grande mestre do documentário nacional, e se põe a perguntar e a ouvir. E encontra depoimentos que, se não rendem histórias espetaculares – uma vez que o objeto de interesse  é menos a intimidade dessas pessoas e mais a percepção que elas têm da vida ao redor, ou abaixo delas -, trazem uma peculiar diversidade.

Um casal gay, uma francesa radicada no Brasil, pai, mãe e filho adolescente, um empresário, um jovem estudante de Direito e uma senhora que vive com seu filho adulto, entre outros, são os protagonistas dos depoimentos. Como em qualquer classe social, são exemplos de gente boçal e pobre de espírito e também de gente que traduz em conforto e sinal de status um histórico, seu ou familiar, de muito trabalho, com plena consciência da sua condição privilegiada.

Se a mãe e o filho bem crescido parecem tipos exóticos e pedantes – guiados por um misticismo enviesado, associam o fato de estarem “mais próximos de Deus” à preferência divina na hora de ter preces atendidas -, tem aquela que se sente compelida a retribuir a fartura prestando trabalho social voluntário.  O fato de uma família carioca referir-se aos tiroteios com balas tracejantes que assiste nos morros vizinhos como um espetáculo pirotécnico causa estranheza, mas não torna menor seu temor diante da violência que, afinal, está apenas um pouco mais distante daquela vivida nas calçadas.

Prevalece em Um Lugar ao Sol o tom respeitoso em torno daqueles que têm noção do lugar privilegiado que ocupam e não veem razão para se sentir “culpados” numa sociedade habituada à dicotomia rasteira que opõe o pobre honesto ao rico safado. Para uns, pode parecer uma afronta a figura imponente do dono de uma boate paulista que, destacando os empregos que gera e os impostos que paga, espana o “coitadismo” com que se costuma encarar a diferença de classes no Brasil: “Todo mundo merece um prato de comida, todo mudo merece dirigir um Jaguar”. Para outros, o sujeito está correto em sua particular utopia socialista “para cima”, pois ninguém deveria ter vergonha em desfrutar, ou buscar ter, os bons prazeres materiais da vida alcançados de forma digna e honesta.

Um Lugar ao Sol evita  fazer juízo sobre o que mostra. O espectador que julgue o quanto o filme lhe indigna ou estimula.

O novo Woody Allen, direto de Paris

07 de junho de 2011 3

O amigo, ex-colega e colaborador de ZH Gabriel Brust está em Paris e lá viu o aguardadíssimo e elogiado Meia-noite em Paris, o novo Woody Allen, que abriu o Festival de Cannes e já estreou na capital francesa (no Brasil ele chega dia 17, agora, clique aqui para ir até alguns posts abaixo e ver o trailer legendado em português). Dá uma olhada no texto que ele escreveu sobre o filme e que mandou para publicarmos com exclusividade aqui no blog. Aproveitando: logo a seguir, a gente publica também uma rápida pensata sobre a recente produção do diretor e roteirista na Europa (Meia-noite em Paris é o sexto longa que ele realiza no continente, e o sétimo já está em produção) a partir do lançamento de seu filme anterior, o bem menos inspirado Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos.

Marion Cotillard e Owen Wilson em Meia-noite em Paris

Minuit à Paris, por Gabriel Brust

Poucas vezes um filme entregou tanto diante do pouco que prometia em seu trailer e em sua divulgação como este Meia-noite em Paris, de Woody Allen. Foi com um ar cético que o público francês lotou os cinemas em busca de mais um possível clichê sobre sua capital. Mas clichê não é exatamente um problema para uma cidade que ainda se encanta diariamente por uma efêmera torre de ferro: lá se foram, portanto, 1 milhão de espectadores assistir a Minuit à Paris que, na semana passada, perdeu em bilheteria apenas para Piratas do Caribe 4 e Se Beber, Não Case! 2.

Sim, se você achava que a França era o último refúgio do cinema de arte se enganou. Ou acertou, se considerar que um filme de Woody Allen alcançou o terceiro lugar das paradas lutando bravamente contra os blockbusters. O caso de amor de Allen com a França é antigo. Em Dirigindo no Escuro, de 2002, o próprio diretor ironiza o fato de ser tão popular no país da baguete. Ao narrar a história de um cineasta que perde a visão durante as filmagens, ele ressalta que o único público do mundo que compreendeu aquele filme sem nenhum sentido, realizado por um cego, foi o francês.

Essa relação freudiana entre Allen e os franceses por si só explicaria o sucesso de Meia-noite em Paris, mas desta vez havia um risco, já que o que sempre despertou neles o fascínio pela obra do diretor foi o deslumbre pela atmosfera nova-iorquina. Franceses contemporâneos têm pavor ao clichê parisiense construído pelos estrangeiros e, ao mesmo tempo, cultivam um estranho fetiche pela cidade norte-americana e seus arranha-céus – uma espécie de antípoda da capital francesa. Paris hoje é uma cidade que vive dos cartões postais e que, paradoxalmente, está cada vez mais distante de seus velhos cartões postais. Allen foi generoso com a cidade ao retratar nada além daquilo que resta do seu passado nas cenas que se passam em 2010. A grande viagem do filme, no entanto, aporta nos anos 1920.

O que faz de Meia-noite em Paris um filme tão além do que ele promete é o fato de levar às telas parte da história da Lost Generation, a geração de escritores estrangeiros que foi viver na Paris dos anos 20 do século passado para produzir obras primas de literatura ocidental. O que está ali é, em parte, o célebre livro de memórias de Ernest Hemingway, Paris É uma Festa (A Moveable Feast, de 1951). Vários personagens (reais) do livro de Hemingway (vivido por Corey Stoll) estão lá: como o casal Zelda e Scott Fitzgerald (Alison Pill e Tom Hiddleston) e Gertude Stein (Kathy Bates). Além de outras figuras da época, como Picasso (Marcial di Fonzo Bo), Dali (na hilária interpretação de Adrien Brody), Matisse (Yves-Antoine Spoto) e Buñuel (Adrien de Van)…  O grupo de artistas que fez da Paris da década de 1920 um dos lugares mais interessantes do mundo. A diferença é que o filme mostra Hemingway como realmente era, beberrão e mulherengo, e não o pai de família preocupado com sua então iniciante carreira literária que descreve em seu livro.

A maneira como Allen linka esse grupo ao casal de norte-americanos Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams), que em pleno 2010 vai a Paris viver uma pré-lua-de-mel, é a grande sacada do filme. Gil é um escritor aspirante e inseguro, em crise com a namorada, e que acaba indo parar no meio das noitadas da Lost Generation enquanto ela passa os dias fazendo compras com a mãe. Dos diálogos deste típico representante pós-moderno com aqueles típicos representantes da modernidade surgem estranhamentos, ótimas piadas e ainda duas questões que dão o que pensar – coisa que Allen havia banido de seu último filme, o apenas engraçado Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (2010).

O retorno aos anos 1920 é permeado pela reflexão sobre o que consideramos a “época de ouro” de uma sociedade. E ela é sempre relativa, como Gil vai descobrir em sua viagem. O perturbado personagem de Owen Wilson compartilha um sentimento saudosista comum nos dias de hoje, o de que se nasceu na época errada. Mas em suas idas e vindas no tempo, acaba concluindo que viver em uma época sem antibióticos pode ser terrível mesmo que você tenha a chance de conviver com artistas como Degas e Gauguin – caso da Belle Époque francesa. Em um momento que resume o filme, Owen Wilson saca do bolso um calmante Valium para evitar que Zelda Fitzgerald pule no rio Sena. “É a pílula do futuro”, explica ele, diante do espanto da escritora, que toma o remédio, se acalma, e nos faz pensar: teria Zelda Fitzgerald se tornado o fascinante personagem que se tornou caso os ansiolíticos fossem populares nos anos 1920?

E é nas conversas entre Gil e Hemingway que fica mais evidente a crítica – ou apenas a constatação conformada – de como a humanidade foi transformada pelo século 20: do falastrão, resolvido e confiante Ernest ao inseguro, frágil e problemático Gil. Hemingway, um ex-combatente de guerra, não entende por que Gil cultiva um constante medo da morte. Ou por que simplesmente não se autodenomina “o melhor escritor do mundo”, ao invés de ter vergonha até mesmo de mostrar seu livro para os outros. Em outras palavras, diante de Gil, Hemingway se pergunta: “O que fez você, o meu representante de 2010, deixar de ser um homem de verdade?” – homem na sua concepção dos anos 1920, é claro.

O longa que abriu o festival de Cannes deste ano é realmente o melhor filme do diretor desde Tudo Pode Dar Certo (2009). Meia-noite em Paris não é apenas retorno ao incrível passado de Paris, vai além disso. Mas tem a pavorosa atuação de Carla Bruni vivendo uma guia turística dos tempos atuais para lembrar que, sim e infelizmente, Paris é uma cidade que vive do passado.

Woody Allen e Carla Bruni no set de Meia-Noite em Paris

Você vai filmar no lugar dos seus sonhos, por Daniel Feix

Você já ouviu que Woody Allen é tão cultuado na Europa que por lá consegue financiar seus filmes com muito mais facilidade do que nos EUA. Tanto é verdade que ele praticamente se mudou, primeiro para Londres, depois para Barcelona e Paris, para realizar uma série que já alcança o sétimo longa-metragem.

O sétimo (The Wrong Picture), na verdade, está em pré-produção entre a Espanha e a Itália – já tem confirmados no elenco Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Ellen Page e Alec Baldwin. O sexto (Meia-noite em Paris) chega aos cinemas brasileiros em 17 de junho. O quinto (Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos) passou pelo circuito local no ano passado e acaba de sair em DVD por aqui. Com ele, a amostragem é suficiente para chegar a certas conclusões, sobre a obra de Allen em geral e especialmente sobre este momento tão particular de sua prolífica carreira.

Uma delas: Woody Allen pode não estar em sua melhor fase, como alguns gostam de propalar, mas é absolutamente incorreto falar que está por baixo – na Grã-Bretanha, produziu uma de suas obras-primas (Match Point), e, na Espanha e numa espécie de intervalo nos EUA em meio a esta grande viagem, assinou dois títulos muito distintos porém igualmente encantadores (respectivamente Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo).

Suas diferenças, aliás, levam a uma segunda conclusão: se em Nova York, cenário de quase todo o restante de seus longas, o diretor e roteirista já indicava ser influenciado pelo meio em que filma, a passagem pela Europa, até por permitir trabalhar em outros lugares, confirma esta impressão. Na nebulosa Londres, ele abordou temas como crimes, conspirações, culpa, vingança. Na solar Barcelona, relaxou por completo e visitou um lado, digamos, menos sombrio de homens e mulheres.

Não é lá muito difícil, desta maneira, imaginar o clima de Meia-noite em Paris, estrelado por, entre outros, Rachel McAdams, Owen Wilson, Marion Cotillard, Adrien Brody e Léa Seydoux. O que conta para diminuir a produção europeia de Allen é a dificuldade que o mestre por vezes tem para dar profundidade a um olhar que é “de fora” e, portanto, naturalmente leve e rarefeito – e nem sempre consistente – daquilo que vê, incluindo a construção dos personagens, das situações abordadas e, por consequência, de sua dramaturgia como um todo. Este é um problema de Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos.

O longa que acompanha o afastamento de dois casais (Anthony Hopkins e Gemma Jones, Naomy Watts e Josh Brolin) e seus flertes extraconjugais radicaliza algo bastante presente em toda a obra do cineasta: os clichês em torno dos relacionamentos amorosos. Se Allen tantas vezes tirou deles a base para uma dramaturgia densa, no entanto, aqui não consegue fazer o espectador ir além do riso fácil – aquele das piadas que a gente esquece rapidinho.

Dá uma olhada abaixo no mapa da produção do cineasta desde que ele migrou para a Europa para realizar seus filmes:

Na Grã-Bretanha:
Match Point (2005)
Scoop – O Grande Furo (2006)
O Sonho de Cassandra (2007)
Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (2010)

Na Espanha:
Vicky Cristina Barcelona (2008)
The Wrong Picture (coprodução com a Itália, previsto para 2012)

Na França:
Meia-noite em Paris (estreia em 17 de junho no Brasil)

E nos EUA, entre eles:
Tudo Pode Dar Certo (2009)

A ambição de Dois Coelhos

06 de junho de 2011 4

Quem foi ao cinema nos últimos dias pode ter deparado com um trailer no mínimo inusitado. O filme se chama Dois Coelhos e é apresentado como um thriller de ação como o Brasil nunca viu antes. É o primeiro longa de Afonso Poyart, tem Alessandra Negrini (foto), Caco Ciocler e Fernando Alves Pinto no elenco, este último (o mesmo de Terra Estrangeira) como um homem que segundo a sinopse está “espremido entre a criminalidade e o poder político corrupto e resolve fazer justiça com as próprias mãos, elaborando um plano que colocará os criminosos em rota de colisão com políticos gananciosos”.

Bom, o que interessa é o trailer propriamente dito, veiculado muito antes da estreia (que será em janeiro de 2012) justamente para instigar o espectador. Aparentemente se trata, de fato (veja abaixo), de um thriller de ação com trucagens e efeitos de pós-produção que o Brasil nunca produziu antes. Para além de comparações pontuais, como os derivados da super câmera lenta popularizada por Matrix, parece um filme de Tony Scott – sem Denzel Washington, com atores brasileiros e diálogos em português. Se será isso mesmo, e se isso significa um bom filme, é coisa para se ver.

@cineclubeZH

06 de junho de 2011 1

Cineclube ZH agora é @CineclubeZH, ou seja, está no Twitter. Isso quer dizer que aqueles que seguirem o perfil do blog serão informados automaticamente dos novos posts. Como diria Elem Klimov, Vá e Veja.

Se beber, faça o terceiro filme

03 de junho de 2011 4

Muita gente já falou que se trata da mesma piada contada pela segunda vez, mas para mim não há definição melhor do que esta para Se Beber, Não Case! 2. Isso é bem ruim, por mais que o filme em cartaz nos cinemas faça rir, e algumas vezes faça rir muito. Na boa: só vale a pena ir ao cinema para se ver algo que já se tenha visto antes quando se trata exatamente daquilo que se viu antes. Se não, é plágio. Ainda que de si próprio.

Em meio à grande crise criativa em Hollywood, Se Beber, Não Case! certamente será explorado ao longo de muito tempo como convém às franquias mais lucrativas do cinema – por ser a comédia classificada como “adulta” mais rentável da história, trata-se de um exemplo clássico de fonte aparentemente inesgotável de lucro aos olhos de seus produtores. Em outras palavras, Se Beber, Não Case! 3 é inevitável, e talvez também o seja um quarto filme, e um quinto – só não o seriam se houvesse gente disposta a rasgar dinheiro. Assim sendo, como fã do primeiro, torço para que, daqui para frente, tudo seja ao menos um pouco diferente. O segundo título da série não podia ser mais decepcionante.

Aproveitando: à época do lançamento de Se Beber, Não Case! (o primeiro), falou-se que o filme era tão bom porque fugia de fórmulas convencionais das comédias norte-americanas. Isso só é verdade em parte: o que o longa de Todd Phillips tinha de original era o politicamente incorreto, que chegou a um ponto raramente visto numa produção tão grandiosa, e justamente numa época em que a incorreção política parece ser um dos mais mortais entre os pecados. Em termos formais, ele jamais apresentou algo inovador. O que é irônico é que Se Beber, Não Case! 2 não só não foge de fórmulas já usadas anteriormente como não tem qualquer pudor em ser, essencialmente, uma simples repetição.

Antes que me acusem de mal humorado, repito: sou fã do primeiro filme, o que indica que sou fã da fórmula. Só acho que ela pode ter variações – que é o que exatamente faz falta em Se Beber, Não Case! 2. O terceiro longa pode ser em Amsterdã, Holanda, conforme apontam as primeiras declarações dos responsáveis pela franquia. Craig Mazin já teria assinado contrato para ser o roteirista, o que não me parece a mais animadora das notícias, visto que ele não participou do primeiro (o roteiro daquele é de Jon Lucas e Scott Moore) e é responsável pelo segundo (ao lado de Scott Armstrong). O ator Ken Jeong também informou que não interpretará novamente o Mr. Chow, com medo de ficar excessivamente marcado por este personagem. De resto, nem o diretor Todd Phillips nem o trio de atores principais (Zach Galifianakis, Bradley Cooper e Justin Bartha) estão confirmados oficialmente numa nova sequência. De cá, vou torcer para que acertem desta vez.

Natimorto e as pietàs do cinema

03 de junho de 2011 0

Em cartaz em Porto Alegre, Natimorto é o segundo entre os filmes brasileiros exibidos na cidade este ano a recorrer a uma das imagens icônicas mais marcantes da história da arte ocidental – a pietà eternizada por, entre outros, Michelangelo (acima). O primeiro, citado na crítica do filme abaixo, publicada na versão impressa de ZH desta quinta-feira (02/06), foi Ex Isto, longa de Cao Guimarães premiado no CineEsquemaNovo.

A imagem de Maria com Jesus morto em seus braços, após a crucificação, se entranhou de tal modo no imaginário artístico universal que chegou a ser reproduzida sistematicamente por criadores das mais diversas áreas, sempre em momentos-chave de suas narrativas porém variando, naturalmente, os seus personagens. Um desses criadores é Hitchcock, que a usou em Topázio, Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, entre vários outros filmes. Outro é Bergman, em antológica sequência de uma de suas máximas obras-primas – Gritos e Sussurros.

A pietà mais famosa do cinema brasileiro é aquela em que a prostituta interpretada por Marília Pêra acolhe em seu colo o menino Fernando Ramos da Silva em Pixote, a Lei do Mais Fraco (ao lado). Embora originalmente seja a própria imagem da desilusão da figura feminina, em praticamente todos os casos citados o colo da mulher significa um porto seguro para o homem perdido. Em Ex Isto, é o europeu sendo confortado pela negra brasileira após o atordoamento provocado pelo choque com a cultura dos trópicos. Em Natimorto, é a esperança derradeira para o protagonista socialmente desajustado criado por Lourenço Mutarelli.

A pietà de Mutarelli e Simone Spoladore ao final do filme é o ponto culminante de Natimorto, como você pode ler a seguir:

Lourenço Mutarelli e Simone Spoladore no set de Natimorto

A balada do louco

Se você gostou de O Cheiro do Ralo, é provável que goste de Natimorto. Pelas mesmas razões, se você não aprovou o longa de Heitor Dhalia lançado em 2006, não deverá aprovar este do estreante Paulo Machline, que está em cartaz em Porto Alegre. Em comum, as duas adaptações dos livros homônimos de Lourenço Mutarelli têm uma afetação – que está no visual, no texto e nas interpretações – mas também uma capacidade de humanizar e sensibilizar o espectador para aquilo que, à primeira vista, é observado com o distanciamento que geralmente reserva-se ao que é inusual, extravagante, bizarro.

Este processo de aproximação é perfeito para descrever a maneira como Natimorto é fruído pelo público. Não se pode dizer que ele conquista assim, de imediato. A trama é estranha, o texto, literário demais, e as primeiras aparições da dupla de protagonistas vivida pelo próprio Mutarelli e por Simone Spoladore são carregadas de uma teatralidade difícil de engolir. Quando engrena, no entanto, a encenação recria de maneira tão rica o original que é capaz de comover mesmo quem já desistira – precipitadamente – do filme.

Nenhum dos dois personagens têm nome. Ela é uma cantora de ópera recém-chegada de uma cidade pequena, e ele, um agenciador que vai apresentá-la a um influente maestro. Nunca a ouvimos: quando ela canta, o silêncio toma conta da cena, como se sua voz fosse de uma beleza inatingível – o subtítulo do livro é Um Musical Silencioso. De fato, é assim que ela o é aos olhos dele. Franzino, inseguro, hipersensível, o homem se diz assexuado, e logo sabemos que está desconfortável ao lado da esposa (Betty Gofman). É então que ele propõe um trato à cantora, trato este que tinha tudo para ser a porta do precipício para o filme mas que se torna uma tábua de onde se busca o impulso para a salvação.

A ideia dele é largar tudo e viver com a garota num quarto de hotel, trancafiado, “distante de todo o mal lá de fora”, lendo a sorte nas fotografias que vêm estampadas nos maços de cigarro que eles consomem compulsivamente e que, segundo o agenciador, contêm uma secreta relação com as imagens das cartas de tarô. O exotérico entra na história apenas como um dos elementos da loucura do homem, algo que como todas as demais coisas ao seu alcance ele usa para se defender – antecipar o que pode acontecer facilita a própria proteção, acredita. Sua sensibilidade culta seduz a cantora, que aceita a proposta. Por óbvio, no entanto, com a convivência e o apetite da mulher por liberdade, aquela relação se torna doentia. E o “anormal”, aqui, faz sentido com a mise en scène exagerada – que se inicialmente parecia cheia de tiques dos filmes publicitários agora faz todo o sentido em meio ao universo fantasioso vislumbrado por Mutarelli.

Como em Pixote, a Lei do Mais Fraco (de Hector Babenco, 1981), como no recente Ex Isto (de Cao Guimarães, 2010) e a exemplo do que fizeram Hitchcock e Bergman, entre outros cineastas que recorreram a esta imagem, uma pietà com o macho fragilizado sendo acolhido pela fêmea em seu colo surge ao final para simbolizar a queda completa e, ao mesmo tempo, a chegada a um porto seguro. Muito da consistência de Natimorto está no campo simbólico – aquele casal que se encontra e se afasta sem propriamente se entregar diz algo sobre relacionamentos e sobre a própria sociabilização do homem contemporâneo. O melhor do filme, no entanto, é a forma tocante e generosa como ele mergulha numa alma perturbada e profundamente ferida – simples e acessível como convém a qualquer história que se pretende universal.