Esta colaboração é da queridíssima colega Marianne Scholze, que acaba de voltar de uma viagem aos EUA, onde acompanhou o bafafá em torno da estreia de Super 8. Estreia por lá, porque no Brasil o filme só chega em 12 de agosto. Ó:
Steven Spilberg e J.J. Abrams no set de filmagens de Super 8
Desde que me conheço como amante de cinema (não me chamem de cinéfila, pelamordedeus), já fui apaixonada por muitos diretores com obras tão diferentes entre si como Woody Allen e Pedro Almodóvar. Mas, no fundo, um deles sempre ganhou meu coração com suas versões para a telona dos romances de formação que eu também sempre gostei de ler. Ver um filme de Steven Spielberg, pra mim, sempre traz de volta aquela sensação que eu tive ao ver E.T. pela primeira vez no Ritz, levada pela professora Flávia junto com todas as turmas de 2ª série do vizinho Santa Inês, meu colégio.
Spielberg é mestre na arte de colocar aventura, ação, romance, emoção e aquela pitada de humor às vezes meio americano demais numa embalagem estilisticamente impecável e que traz sua assinatura em absolutamente tudo o que se vê em cena, dos enquadramentos calculados em cada milímetro à luz sempre perfeita. Admito que, desde a faculdade, sofri um certo bullying todas as vezes que assumi meu amor pelo cineasta - pois sempre há um francês ou um alemão ou um russo ou um coreano mais cult do que um típico produto de Hollywood. Mas fazer o que se um dos maiores representantes da fábrica de sonhos incrustada no coração de Los Angeles me pegou de jeito desde sempre?
Enfim, tudo isso é pra explicar minha faceirice de guria desde que ouvi falar pela primeira vez de Super 8, novo filme de J.J. Abrams que presta homenagem descarada e desbragada ao meu Spielberg (que, de quebra, é produtor do longa). Publicado na capa da edição impressa do Segundo Caderno desta quinta-feira, o texto aí abaixo resume a expectativa em torno do filme - principalmente a minha.
Superfilme
Não é por acaso que os nomes de J.J. Abrams (roteirista e diretor) e Steven Spielberg (produtor) aparecem no cartaz de Super 8 com quase tanto destaque quanto o título do filme. O encontro do Midas da TV dos anos 2000 com o Midas do cinema dos anos 1980 e 1990 é a maior atração de um dos longas mais aguardados da temporada norte-americana de verão, lançado há duas semanas nos Estados Unidos e com previsão de estreia no Brasil para 12 de agosto.
O tradicional gosto de ambos por um bom mistério contribui: com uma campanha de marketing baseada na quase completa falta de informações sobre o filme, os comerciais que irrompem o dia todo na TV americana conseguem a façanha de aguçar a curiosidade sobre Super 8 sem revelar sobre o que ele trata. Sem estragar a surpresa, o máximo que se pode dizer é: um grupo de pré-adolescentes grava um filme de zumbis com uma câmera Super-8 quando um acidente de trem faz com que estranhos eventos tomem conta de uma pacata cidade no interior de Ohio.
Referências e homenagens movem o filme já desde o resumo acima - óbvia menção à famosa declaração de Francis Ford Coppola sobre o futuro do cinema ("Algum dia, uma garotinha gordinha de Ohio vai ser o novo Mozart e fazer um lindo filme com a câmera caseira do pai dela"). No caso de Super 8, o garotinho gordinho de Ohio é Charles (Riley Griffiths), que, inspirado no clássico cinema de terror B de George Romero, reúne os amigos no verão de 1979 com a câmera do pai na mão. É a deixa para uma série de citações spielberguianas baseadas na obsessão do cineasta por levar às telas roteiros em que a inocência infantil é posta à prova pelos acontecimentos (muitas vezes, inexplicáveis) ao seu redor, como em E.T. (1982), Império do Sol (1987), Jurassic Park (1993) e A.I.: Inteligência Artificial (2001).
A presença da ameaça invisível na forma de um "monstro" lembra ainda Tubarão (1975), e as referências a alienígenas sugerem Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) e Guerra dos Mundos (2005). Se o clima de nostalgia foi o que conquistou parte da crítica americana, alguns traços comuns a outros trabalhos de Abrams comprometem o filme. Como na cultuada série Lost, a mente fértil de Abrams abre um leque tão grande de possibilidades e bifurcações da história que, para fechá-lo, respostas são deixadas de fora, e o desfecho dificilmente corresponde à expectativa criada - característica, aliás, que já havia aparecido até mesmo em obras menos pretensiosas do roteirista e produtor, como o seriado mulherzinha Felicity.
Juntos, Abrams, 45 anos no próximo dia 27 e diretor de Missão Impossível 3 (2006) e Star Trek (2009), e Spielberg, duas décadas mais velho, apostam em uma história moderna com toques clássicos de suspense e terror para fazer frente aos super-heróis da temporada - depois de estrear em primeiro lugar, esta semana Super 8 ficou atrás apenas de Lanterna Verde nas bilheterias americanas. Em uma época em que a TV é cada vez mais responsável por trazer à tela inovações criativas e dramáticas e em que o cinema parece mais preocupado em inovações tecnológicas e digitais, é a perspectiva de uma possível volta do cinemão hollywoodiano feito para toda a família o grande trunfo de Super 8.
O jovem elenco do filme, que inclui Elle Fanning (à direita), de Um Lugar Qualquer


















