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A intrusa

06 de julho de 2011 1

Diretora de filmes inesquecíveis como O Intruso (2004) e Sexta-feira à Noite (2002), a francesa Claire Denis (foto acima) deu uma aula de cinema na noite de terça-feira (5), na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro. Apareceu vestindo um pala de lã uruguaia recém-comprado, clamando por meias mais quentes e – diria depois – espantada com a falta de calefação nos locais que visitou em Porto Alegre.

Falou praticamente sobre todos os aspectos de sua obra, dos improvisos a que sempre é submetida pela falta de dinheiro – as cenas noturnas de Bom Trabalho (1999) foram feitas com iluminação dos faróis dos carros da equipe – à importância da montagem precisa quando se trabalha com roteiros como os seus, que dispensam diálogos mais explicativos e apostam na intuição do espectador.

- O medo, a alegria, a tensão, tudo tem de estar na cara no ator, não naquilo que ele diz – afirmou.

Eu tietei. Após o debate que abriu oficialmente a mostra Um Olhar em Deslocamento, fiz algumas questões reservadamente à madame Denis. O texto sobre toda a sessão e o encontro com a diretora, além desta entrevista exclusiva, você poderá ler nas páginas de Zero Hora desta quinta (7). A seguir, uma das perguntas que fiz e a respectiva resposta da diretora:

ZH – Seus filmes são feitos de personagens em deslocamento, não raramente estrangeiros, sempre com o comportamento afetado pelo lugar em que vivem ou estão. O quanto o espaço em que estamos determina o que somos?
Claire Denis –
A mim interessam os conflitos determinados pelas relações entre as pessoas e o espaço em que habitam. A busca da felicidade de cada sempre tem a ver com a escolha de um lugar para ficar, se estabelecer e, como dizemos, construir a própria vida. No mundo com o qual sonho e pelo qual batalho, pode-se escolher qualquer lugar; não precisa ser necessariamente o lugar de nossas origens. Não consigo entender porque determinadas pessoas reagem de maneira tão hostil a quem vem de fora, ao que é estrangeiro. Não falo apenas da realidade da França, mas de todo o mundo contemporâneo. No fim do século passado, movimentos de luta por cidadania e direitos humanos apontavam um futuro um pouco melhor do que aquele que acabou se configurando. Hoje a tolerância para com o diferente me parece menor. E isso é um problema grave com o qual precisamos lidar. Meus personagens são geralmente intrusos em determinadas locais? É porque é o intruso que me fascina. E é o intruso que precisa ser descoberto por nós, para que possamos lidar melhor com ele.

(Atualização: o texto principal pode ser lido aqui; a entrevista, apenas no jornal impresso.)

Comentários (1)

  • Rafa diz: 6 de julho de 2011

    Lembrei do filme nacional com a Maria Zilda, baseado em Borges: “A Intrusa”. A resposta dela é ótima, parece que perdi mesmo…

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