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Festival Lume: Brillante e a lavadeira

17 de julho de 2011 0

O encontro do filipino Brillante Mendoza com o público do Festival Lume já estava no fim quando uma voz fina levantou-se em meio à plateia de poucas dezenas de cinéfilos, críticos e curiosos. Era Cleonildes Bezerra de Magalhães, 49 anos. Ela não disse o nome – só o revelaria depois a ZH. Apenas identificou-se como lavadeira. Queria cobrar o cineasta pelo fato de ele ter dito, um pouco antes, que não cabia aos artistas julgarem seus personagens ou o poder estabelecido, e sim simplesmente apresentá-los e deixar que o espectador tirasse as suas próprias conclusões. Ao final de sua intervenção, Cleonildes ainda se permitiu fazer uma provocação: “E eu também queria saber como você vê Jesus e se tem fé em Deus”.

O cineasta no centro histórico de São Luís, ao lado do Teatro Alcione Nazaré, onde são as sessões do festival

Simpático e paciente, Brillante Mendoza contou ter sido criado numa família predominantemente feminina e muito religiosa – cabe ressaltar que ele vem de um dos raros países do sul da Ásia cuja religião majoritária é a católica. Disse que Lola, exibido no Festival Lume e que será seu primeiro filme a ganhar o circuito no Brasil, é uma homenagem às avós tão maltratadas nas Filipinas e, de resto, no mundo todo – a história acompanha duas “lolas” (“avós”, na língua filipina) cujos netos envolveram-se em um assalto seguido de assassinato; um é o criminoso, o outro, a vítima.

- O filme fala de justiça e põe em evidência uma parcela da população esquecida pelo governo – afirmou o cineasta. – Creio que meu papel, como artista, é captar os problemas e dar voz e espaço às pessoas para as quais devemos olhar. Só isso. Não me sinto bem julgando os seus atos. Gosto do naturalismo e rejeito o tom fantasioso em meus trabalhos porque sinto que me aproximando da realidade eu aproximo o espectador da história e de seus conflitos. Trago este espectador para o filme e o deixo formular a sua opinião sobre o que está sendo apresentado. Fazer mais do que isso não é do meu feitio. Rejeito muito fortemente a ideia de parecer doutrinário. Eu confio na inteligência do público, confio naquilo que as pessoas entendem a partir do que veem.

Mendoza tem 50 anos. Iniciou a carreira de diretor há menos de 10, após trabalhar por longos anos com publicidade e fazendo direção de arte em filmes que chamou de mainstream das Filipinas – a produção televisiva que nos anos 1970 chegou a somar 300 longas anuais, transformando o país no terceiro pólo cinematográfico mundial, atrás somente dos EUA e da Índia (hoje são apenas 20 longas por ano). Migrou para a direção, e logo a direção de produções autorais e socialmente contundentes, quando, segundo as suas palavras, percebeu que “nem financeiramente o mainstream compensava”.

- Já que não estava ganhando dinheiro, decidi fazer o que gosto.

Não demorou muito para que ele chamasse a atenção dos organizadores dos principais festivais europeus, com filmes como Serbis (2008) e Kinatay (2009), ambos, tanto quanto Lola, filmados em cerca de 10 dias, com muito improviso dos intérpretes a partir apenas de orientações prévias do diretor e sem um roteiro, por assim dizer, convencional.

- Gosto de trabalhar intuitivamente, por isso meus atores são geralmente experientes. A atriz principal de Lola (Anita Linda) tem mais de 200 filmes no currículo.

Seu próximo longa é Prey, para o qual conseguiu arrastar às Filipinas a francesa Isabelle Huppert – que se adaptou ao seu método com tranquilidade:

- Os dois primeiros dias de filmagens foram complicados, mas no terceiro ela já estava à vontade.

Em São Luís, o cineasta circula com dois jovens parceiros, que apresenta como o fotógrafo (Odyssey Flores) e o produtor (Didier Costet) de seus projetos. Eles passam o tempo todo filmando e fotografando o que veem, inicialmente para consumo pessoal mas, quem sabe, captando material que pode ser aproveitado em algum trabalho futuro – como conteúdo extra do DVD de Lola, que a Lume lançará após a passagem do filme pelos cinemas brasileiros. Lola estreia nesta sexta-feira (22) em São Paulo, e nas semanas seguintes nas demais capítais – Porto Alegre certamente incluída entre elas, garante Frederico Machado, o cara por trás da Lume Filmes.

O objetivo de Frederico é apresentar os filmes que ele ama ao maior número possível de pessoas. Quando, ao final do encontro com Mendoza, Cleonildes subiu ao palco para pedir um desconto no preço dos ingressos porque seu dinheiro não pagava nem a metade das sessões que ela se sentiu instigada a prestigiar – cada bilhete custa R$ 10 -, não deixou de atendê-la. Ainda se decepciona ao não ver se repetir no cinema o movimento intenso de todo o centro histórico de São Luís, onde se realiza o festival. Mas é um otimista. Como o diretor que trouxe das Filipinas para ser o astro maior da edição inaugural do evento, não consegue deixar de acreditar no público. Por mais que a realidade a sua volta o empurre para um caminho oposto.

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