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Posts de julho 2011

Estreias da semana - 29/07/2011

29 de julho de 2011 4

Este é o primeiro dos vídeos que pretendemos fazer semanalmente sobre os filmes que estão entrando em cartaz em Porto Alegre. Em pauta, Capitão América: o Primeiro Vingador (1 estrela), dirigido por Joe Johnston e estrelado por Chris Evans, e Singularidades de uma Rapariga Loira (4 estrelas), do centenário cineasta português Manoel de Oliveira.

Festival Lume: os vencedores

24 de julho de 2011 0

Charlotte Ramping em O Moinho e a Cruz, filme sobre o pintor Pieter Bruegel

Terminou neste sábado, com a exibição de Estrada para o Nada (Road to Nowhere), mais recente filme do norte-americano Monte Hellman, o 1º Festival Internacional Lume de Cinema. Como voltei a Porto Alegre bem antes do fim do evento, não vi muitos dos filmes em competição. Por isso vou me abster de comentar os premiados. Antes da lista, prefiro chamar a atenção para dois aspectos: 1) na competição nacional, em vez de premiar títulos muitíssimo interessantes mas já bastante badalados e/ou debatidos como Os Residentes e Terra Deu, Terra Come, o júri preferiu laurear dois promissores estreantes em longa-metragem, o paulista Charly Braun, por Além da Estrada, e o gaúcho Fabiano de Souza, por A Última Estrada da Praia; 2) na competição internacional, o genial A Tentação de Santo Antônio (sobre ele leia mais no post abaixo, aqui) foi lembrado na categoria direção, mas o prêmio principal ficou com o polonês O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross), que não vi e cujo trailer você pode conferir ao fim deste post. O Moinho e a Cruz, tanto quanto A Tentação de Santo Antônio, foi muito elogiado no Sundance Festival. Trata-se de uma história sobre o pintor Pieter Bruegel (1525 - 1569) estrelada por Rutger Hauer, Michael York e Charlotte Rampling. Ó:

Competição internacional:
Melhor filme: O Moinho e a Cruz, de Lech Majewski (Polônia/Suécia)
Melhor diretor: Veiko Ounpuu, por A Tentação de Santo Antônio (Estônia)
Contribuição artística: Rio Dooman, de Lu Zhang (Coreia do Sul/China)
Menção honrosa: Abrigo de Dragomir Sholev (Bulgária)
Melhor curta: Rita, de Fábio Grassadonia e Antonio Piazza (Itália)
Contribuição artística em curtas: The Magus, de Jaimz Asundson (Canadá/Alemanha)
Menção honrosa em curtas: Fornos de Carvão, de Piotr Zlotorowicz (Polônia)

Competição nacional:
Melhor filme: Além da Estrada, de Charly Braun
Melhor direção: Fabiano de Souza, por A Última Estrada da Praia
Menção honrosa: Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira
Melhor curta: Caos, de Fábio Baldo
Menção Honrosa: O Som do Tempo, de Perus Cariry

Mostra olhar crítico:
Melhor filme: Totó, de Peter Schreiner (Áustria)

Repúdio à censura de A Serbian Film

22 de julho de 2011 2

A recém-fundada Associação Brasileira de Críticos de Cinema acaba de divulgar uma nota de repúdio à atitude da Caixa Federal, patrocinadora do Riofan, que decidiu proibir a exibição de A Serbian Film - Terror sem Limites no festival carioca (entenda o caso clicando aqui; saiba como foi a exibição deste mesmo longa no Fantaspoa clicando aqui; e veja o trailer do filme aqui). Assinamos embaixo:

Repúdio a um veto
A Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema repudia o veto à projeção do longa-metragem A Serbian Film - Terror sem Limites, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic, presente na programação do RioFan - Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro. O filme seria exibido pelo RioFan na sala Caixa Cultural. Porém, os organizadores do festival foram obrigados a retirá-lo da programação por decisão da Caixa Econômica Federal divulgada em nota, sob alegação de que a instituição "entende que a arte deve ter o limite da imaginação do artista, porém nem todo produto criativo cabe de forma irrestrita em qualquer suporte ou lugar". Em nota, a organização do RioFan se disse "contra qualquer forma de censura" e informou que todos os filmes selecionados para o festival foram avaliados por órgãos oficiais competentes e têm classificação etária de 18 anos. A Abraccine defende a liberdade de expressão cinematográfica e o direito de os espectadores interessados assistirem aos filmes que lhes convêm, acreditando não caber a instituições públicas ou privadas a definição sobre o que deve ou não ser visto. A responsabilidade sobre programação e observação à classificação etária de filmes apresentados num festival de cinema é da organização do evento, devendo a ela serem dirigidas eventuais questões controversas, sem, para isso, ser utilizado o ato de censura prévia (inexistente no país) a um determinado trabalho artístico. Registramos ainda que A Serbian Film já teve pelo menos outras duas exibições anteriores ao RioFan: no I Festival Internacional Lume de Cinema (São Luís, no Maranhão) e no VII Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico (Porto Alegre, no Rio Grande do Sul). Por esta nota, deixamos ainda claro que a Abraccine não está defendendo um trabalho ou um festival em específico, mas um princípio: o de um filme poder ser assistido e avaliado pelo espectador com liberdade.

Festival Lume: um favorito

21 de julho de 2011 3

As Tentações de Santo Antônio é uma produção vinda da Estônia, pequeno país báltico que fica entre a Rússia e a Finlândia. Tem na direção Veiko Õunpuu, cineasta jovem, de menos de 40 anos, que com este longa ganhou elogios no Sundance Festival de 2010 e, com Autumm Ball, que não tem tradução para o português e marcou a sua estreia no longa-metragem, venceu a mostra Horizontes em Veneza 2007. As Tentações de Santo Antônio (título internacional The Temptation of St. Tony) é o seu segundo longa. Narra de um jeito fragmentado, em preto e branco e com imagens delirantes representativas das visões do protagonista, o inferno vivido por um homem (Taavi Eelmaa) após a morte de seu pai. Tem participação especial do ator francês Denis Lavant e está repleto de citações - há um humor negro que lembra Kaurismaki e Jarmusch, embora as referências mais explícitas sejam ao surrealismo de Buñuel e à ambientação estranha de Lynch, e o argumento original se desenvolva a partir da lenda do título que antes inspirara Bosch, Dalí e Flaubert. Concorre na competição principal de longas-metragens, cujos premiados serão anunciados neste sábado (23).

É difícil, mas também é genial.

A linda música do clipe acima, How to Disappear Completely, é do Radiohead, está no disco Kid A e é perfeita para descrever o estado de espírito do personagem principal. A sequência acima está para As Tentações de Santo Antônio como o Clube Silêncio está para Mullholand Drive, ou Cidade dos Sonhos. Que a Lume dê um jeito de lançá-lo no circuito.

Festival Lume: os filmes que sonhamos

20 de julho de 2011 0

A Lume já lançou 128 títulos em DVD. Só clássicos ou raridades, do cinema marginal brasileiro aos filmes japoneses de Ishikawa e Misoguchi.

Quando o número começou a se aproximar de uma centena, no ano passado, Frederico Machado e equipe pensaram num livro reunindo textos de críticos de todo o Brasil sobre os cem longas. Fechou com cem nomes, cada um acertado para escrever sobre um dos lançamentos. Só que muitos não enviaram os textos. Então Fred reduziu o volume para 60, deixando os faltantes para um segundo livro, e depois um terceiro etc.

O primeiro se chama Os Filmes que Sonhamos - Vol.1. Será lançado nas principais capitais ainda este ano. Em São Luís, o lançamento rola neste 1º Festival Lume. As vendas nas livrarias iniciam nos próximos dias.

Os textos em si, se você for atrás vai perceber, são registros não muito aprofundados, apenas um pouco maiores do que aqueles que aparecem usualmente na imprensa diária. Em geral, no entanto, cumprem plenamente o propósito de destacar o valor de cada uma das preciosidades que a Lume disponibilizou no mercado nacional. ZH está triplamente representada: eu escrevo sobre Kafka (1991), de Steven Soderbergh; Perrone, sobre Antes da Chuva (1994), de Milcho Manchevski; e Lerina, sobre Paisagem na Meblina (1988), de Theo Angelopoulus.

Festival Lume: Fred e os filmes

19 de julho de 2011 1

Fredrido Machado (foto) tem 39 anos. Nasceu em São Luís. Depois de morar por mais de uma década no Rio, voltou ao Maranhão e fundou a Lume no final dos anos 1990. Com a produtora e distribuidora, lançou alguns curtas que ele mesmo dirigiu e passou a controlar a programação do Cine Praia Grande, a única das 17 salas de cinema da cidade de 1 milhão de habitantes localizada fora dos shoppings centers (para comparação: Porto Alegre tem pouco mais de 60 salas e pouco menos de 1,5 milhão de moradores, embora sua Região Metropolitana ultrapasse a marca dos 3 milhões). Antes, Fred já abrira uma videolocadora, dando vazão a uma vontade latente de compartilhar os filmes que ele ama e que por diferentes motivos permanecem pouco conhecidos no Brasil.

É esta vontade que explica a linha de lançamentos da Lume Filmes e também a curadoria deste 1º Festival Lume: as produções privilegiadas são aquelas que podem ser classificadas como raras, por virem de cinematografias remotas ou por terem algum outro tipo de dificuldade de penetração no país. Fred fala de seu empreendimento na terceira pessoa, mas bem poderia usar a primeira. Isso porque é ele próprio que seleciona os filmes - no festival foram incríveis 2 mil inscritos - e responde pela curadoria da distribuidora. A Lume é Fred, Fred é a Lume.

Algo muito interessante: embora tenham pouco público, as sessões do festival registram a presença de gente muito diferente entre si. Além da Cleonildes citada no post anterior, outra figura que circula com frequência pelo Teatro Alcione Nazaré - vizinho de porta do Cine Praia Grande - é um jovem empreendedor apaixonado por cinema: Raffaele Petrini. Fred nos apresentou. Trata-se de um novo distribuidor, que acaba de fundar a Petrini Filmes, que já estreou no mercado apresentando ao Brasil os mais recentes longas do italiano Silvio Soldini (Que Mais Posso Querer) e do turco Ferzan Ozpetek (O Primeiro que Disse). Títulos "seguros", como definiu Raffaele, mas "não será sempre assim". O próximo lançamento da Petrini, afirma, será o polêmico A Serbian Film - Terror sem Limites, que acaba de ser exibido no Fantaspoa e também no Festival Lume.

A fundação da Petrini Filmes é a prova de como o trabalho do Fred tem angariado admiradores, seguidores, e, consequentemente, de como ele tem rendido frutos no que diz respeito à circulação do cinema de autor no Brasil. Dê uma olhada no trailer de A Serbian Film, abaixo. Tem gente que o classifica como um dos mais repugnantes longas de horror dos últimos tempos. Tem gente, como o Frederico Petrini, irmão mais novo do Raffaele, que diz que "não passa de coisa pequena; é tipo Bob Esponja".

Um Filme de Terror integra a mostra não competitiva Novos Rumos do Cinema Mundial, que também tem o uruguaio Hiroshima, de Pablo Stoll (um dos dois realizadores de Whisky), o dinamarquês Submarino, de Thomas Vinterberg (de Festa de Família, filme do Dogma 95), e Triângulo Amoroso, de Tom Tikwer (de Corra, Lola, Corra). Há ainda uma mostra de curtas-metragens, outra apenas com trabalhos do alemão Werner Herzog e três mostras competitivas de longas-metragens.

Uma destas três tem apenas filmes nacionais, entre os quais Os Residentes (de Tiago Mata Machado), Terra Deu, Terra Come (de Rodrigo Siqueira) e o gaúcho A Última Estrada da Praia (de Fabiano de Souza). Outra é intitulada Olhar Crítico e tem filmes bem interessantes vindos da Áustria (Totó), da Romênia (Metrobranding) e da Argentina (El Ambulante). A mostra principal tem, entre outros, Norberto Apenas Tarde, que marca a estreia na direção do ator uruguaio Daniel Hendler (de O Abraço Partido), e títulos elogiados de países distantes como o vietnamita Não Tenha Medo, Bi (de Dang Di Phan) e o estoniano As Tentações de Santo Antônio (de Veiko Ounpuu).

O filme de encerramento será Caminho para o Nada (Road to Nowhere) do norte-americano Monte Hellman - que, assim como Brillante Mendoza, também foi convidado a comparecer a São Luís, mas declinou se dizendo "muito velho para viagens tão longas".

Shannyn Sossoman em Caminho para o Nada (Road to Nowhere), de Monte Hellman

Festival Lume: Brillante e a lavadeira

17 de julho de 2011 0

O encontro do filipino Brillante Mendoza com o público do Festival Lume já estava no fim quando uma voz fina levantou-se em meio à plateia de poucas dezenas de cinéfilos, críticos e curiosos. Era Cleonildes Bezerra de Magalhães, 49 anos. Ela não disse o nome - só o revelaria depois a ZH. Apenas identificou-se como lavadeira. Queria cobrar o cineasta pelo fato de ele ter dito, um pouco antes, que não cabia aos artistas julgarem seus personagens ou o poder estabelecido, e sim simplesmente apresentá-los e deixar que o espectador tirasse as suas próprias conclusões. Ao final de sua intervenção, Cleonildes ainda se permitiu fazer uma provocação: "E eu também queria saber como você vê Jesus e se tem fé em Deus".

O cineasta no centro histórico de São Luís, ao lado do Teatro Alcione Nazaré, onde são as sessões do festival

Simpático e paciente, Brillante Mendoza contou ter sido criado numa família predominantemente feminina e muito religiosa - cabe ressaltar que ele vem de um dos raros países do sul da Ásia cuja religião majoritária é a católica. Disse que Lola, exibido no Festival Lume e que será seu primeiro filme a ganhar o circuito no Brasil, é uma homenagem às avós tão maltratadas nas Filipinas e, de resto, no mundo todo - a história acompanha duas "lolas" ("avós", na língua filipina) cujos netos envolveram-se em um assalto seguido de assassinato; um é o criminoso, o outro, a vítima.

- O filme fala de justiça e põe em evidência uma parcela da população esquecida pelo governo - afirmou o cineasta. - Creio que meu papel, como artista, é captar os problemas e dar voz e espaço às pessoas para as quais devemos olhar. Só isso. Não me sinto bem julgando os seus atos. Gosto do naturalismo e rejeito o tom fantasioso em meus trabalhos porque sinto que me aproximando da realidade eu aproximo o espectador da história e de seus conflitos. Trago este espectador para o filme e o deixo formular a sua opinião sobre o que está sendo apresentado. Fazer mais do que isso não é do meu feitio. Rejeito muito fortemente a ideia de parecer doutrinário. Eu confio na inteligência do público, confio naquilo que as pessoas entendem a partir do que veem.

Mendoza tem 50 anos. Iniciou a carreira de diretor há menos de 10, após trabalhar por longos anos com publicidade e fazendo direção de arte em filmes que chamou de mainstream das Filipinas - a produção televisiva que nos anos 1970 chegou a somar 300 longas anuais, transformando o país no terceiro pólo cinematográfico mundial, atrás somente dos EUA e da Índia (hoje são apenas 20 longas por ano). Migrou para a direção, e logo a direção de produções autorais e socialmente contundentes, quando, segundo as suas palavras, percebeu que "nem financeiramente o mainstream compensava".

- Já que não estava ganhando dinheiro, decidi fazer o que gosto.

Não demorou muito para que ele chamasse a atenção dos organizadores dos principais festivais europeus, com filmes como Serbis (2008) e Kinatay (2009), ambos, tanto quanto Lola, filmados em cerca de 10 dias, com muito improviso dos intérpretes a partir apenas de orientações prévias do diretor e sem um roteiro, por assim dizer, convencional.

- Gosto de trabalhar intuitivamente, por isso meus atores são geralmente experientes. A atriz principal de Lola (Anita Linda) tem mais de 200 filmes no currículo.

Seu próximo longa é Prey, para o qual conseguiu arrastar às Filipinas a francesa Isabelle Huppert - que se adaptou ao seu método com tranquilidade:

- Os dois primeiros dias de filmagens foram complicados, mas no terceiro ela já estava à vontade.

Em São Luís, o cineasta circula com dois jovens parceiros, que apresenta como o fotógrafo (Odyssey Flores) e o produtor (Didier Costet) de seus projetos. Eles passam o tempo todo filmando e fotografando o que veem, inicialmente para consumo pessoal mas, quem sabe, captando material que pode ser aproveitado em algum trabalho futuro - como conteúdo extra do DVD de Lola, que a Lume lançará após a passagem do filme pelos cinemas brasileiros. Lola estreia nesta sexta-feira (22) em São Paulo, e nas semanas seguintes nas demais capítais - Porto Alegre certamente incluída entre elas, garante Frederico Machado, o cara por trás da Lume Filmes.

O objetivo de Frederico é apresentar os filmes que ele ama ao maior número possível de pessoas. Quando, ao final do encontro com Mendoza, Cleonildes subiu ao palco para pedir um desconto no preço dos ingressos porque seu dinheiro não pagava nem a metade das sessões que ela se sentiu instigada a prestigiar - cada bilhete custa R$ 10 -, não deixou de atendê-la. Ainda se decepciona ao não ver se repetir no cinema o movimento intenso de todo o centro histórico de São Luís, onde se realiza o festival. Mas é um otimista. Como o diretor que trouxe das Filipinas para ser o astro maior da edição inaugural do evento, não consegue deixar de acreditar no público. Por mais que a realidade a sua volta o empurre para um caminho oposto.

Festival Lume: Guaraná Jesus

16 de julho de 2011 9

O primeiro dia de mostras competitivas foi marcado pelos problemas técnicos. As primeiras sessões, ainda pela tarde, tiveram poucos espectadores. Quando o público começou a chegar, e parecia que compareceria em bom número para as duas últimas exibições (com os longas A Tentação de Santo Antônio, que vem da Estônia, foi exibido em Sundance e é dirigido por Veiko Ounpuu, e Submarino, do dinamarquês Thomas Vinterberg), o projetor pifou e as sessões tiveram de ser remarcadas para as próximas tardes.

O Frederico Machado, que é o grande responsável pelo festival, não podia conter sua decepção. Dizia que um terço do orçamento do evento foi gasto com a projeção. "Contratei a empresa que faz os grandes festivais brasileiros, queria gente com experiência pra justamente não acontecer isso", dizia. É comovente ver seu esforço, do Fred e de toda a equipe, tocando na raça a organização com apenas R$ 300 mil - para comparação, Gramado 2011 custará R$ 3,5 milhões e não trará um convidado do porte do filipino Brillante Mendoza.

É na raça mesmo: não há logomarcas no catálogo e nos demais materiais publicitários do Festival Lume, a não ser o da própria Lume. A produtora e agora distribuidora de cinema está bancando o evento com grana própria, na esperança de que, com toda a movimentação na cidade, o empresariado local se anime a então ajudar a tocar o projeto em suas próximas edições. Há uma lei estadual de incentivo à cultura no Maranhão, mas nem com a possibilidade de abater o investimento do seu imposto as empresas de São Luís investiram no festival. A imprensa local dá apoio, veicula uma chamada na televisão e publica matérias nos jornais (só em O Estado do Maranhão já foram duas capas do suplemento cultural diário), mas a reflexão também está em falta: não há críticos de cinema maranhenses acompanhando o festival; apenas aqueles que vieram de outras cidades brasileiras para acompanhá-lo.

Foi graças aos imprevistos de sexta-feira à noite, no entanto, que este grupo de críticos teve mais tempo para falar com Brillante Mendoza e, no meu caso, conhecer mais a história do Frederico e da própria Lume, que já tem mais de uma década de serviços prestados ao cinema brasileiro. As sessões do festival são no Teatro Alcione Nazaré, que fica junto à Sala Praia Grande, a única fora do circuito de shoppings de São Luís. Ambos os espaços estão localizados no início do centro histórico da cidade, para onde ontem me pareceu se deslocar toda a população da região Norte do país. No meio da multidão, conseguimos bater um bom papo, tomar uns bons drinques e experimentar o afamado Guaraná Jesus.

O Guaraná Jesus é um refrigerante cor-de-rosa produzido no Maranhão. Mas é tão popular por aqui, e desperta tanta curiosidade em quem vem de fora que foi motivo de disputa entre grandes empresários pelos direitos sobre a marca. Todos dizem aqui em São Luís que a Xuxa, ela mesma, esteve a um passo de comprá-lo. O boato é de que a Coca-Cola entrou no negócio e atropelou a apresentadora. Como você pode ver pela cor abaixo, não se trata de algo muito atrativo. O gosto, segundo uma menina de 11 anos que estava por perto ontem à noite, é o de um Bubbaloo Tutti-Frutti. Só tenho a dizer que concordo e que, mesmo não lembrando do gosto do Bubbaloo Tutti-Frutti, eu não poderia defini-lo melhor.

O que eu posso dizer é que tomei Guaraná Jesus com Brillante Mendoza.

Festival Lume: primeiras impressões

15 de julho de 2011 1

Lola, de Brillante Mendoza

Mal passou das 10h e já faz 30º em São Luís, capital do Maranhão, onde estou para acompanhar o primeiro Festival Lume de Cinema, uma das melhores novidades do calendário cinematográfico brasileiro. A primeira sessão foi ontem, no Teatro Arthur Azevedo, o segundo mais antigo do Brasil. Estava cheio em seus cerca de 1 mil lugares, dizem - cheguei atrasado e vou ter de me contentar em ver daqui a pouco, sem o devido glamour, o longa de abertura, Lola, do cultuado cineasta filipino Brillante Mendoza, que já foi premiado em Berlim e Cannes.

Vou falar mais ao longo dos próximos dias sobre a programação, os convidados e, sobretudo, o que é este festival internacional encravado nesta ilha de aproximadamente 1 milhão de habitantes localizada no extremo norte do Brasil. Adiantando: Lume é o nome de uma produtora (aqui o site) fundada por Frederico Machado, garoto de 30 e poucos anos, muitas ideias e vasta cultura cinéfila. Nos últimos anos, ela, a Lume, se tornou a principal distribuidora de DVDs do país no segmento clássicos e raridades. Com menos recursos, já superou de longe suas principais "concorrentes". E agora entra no mercado de distribuição de filmes para o cinema, dando a largada nesta atividade com um evento que será anual e que tem tudo para ser referência entre os festivais brasileiros.

Brillante Mendoza está em pessoa aqui. Marquei uma conversa reservada com ele para amanhã, o que por si só já valeria a viagem. Mas tem muito mais. Hoje, por exemplo, vou ver Submarino, do dinamarquês Thomas Vinterberg (o mesmo de Festa de Família, um dos principais títulos do Dogma 95, lembra?), que esteve na seleção oficial do Festival de Berlim - Lola esteve na do Festival de Veneza. Há também produções nacionais, entre as quais o longa gaúcho A Última Estrada da Praia, estreia em longa-metragem do diretor Fabiano de Souza. As sessões das mostras competitivas serão todas no Teatro Alcione Nazaré, outro templo sagrado da cultura local. O Arthur Azevedo volta a sediar apenas o encerramento do festival, no dia 23, sábado da semana que vem.

O Cavaleiro das Trevas está chegando

14 de julho de 2011 0

Falta exatamente um ano para que The Dark Knight Rises chegue aos cinemas de todo mundo. E pelo trailer que vazou esta semana, a luta pelo título de melhor filme do verão no hemisfério norte será disputada do segundo lugar para baixo, porque o topo já tem dono.

Filmado no cinema com uma câmera caseira - provavelmente um celular -, o trailer mostra exatamente o que uma descrição, que havia vazado dias atrás, anunciava: a jornada de Batman (Christian Bale) sendo relembrada por um comissário Gordon (Gary Oldman) agonizante num leito de hospital, contando para um misterioso interlocutor que o mal assola Gotham City e o Homem-Morcego precisa retornar.

Imagens do oficial moribundo se misturam a cenas dos filmes anteriores e a uma sequência em que edifícios desabam formando o símbolo do herói - sem nenhuma coincidência, o primeiro pôster oficial do filme.

Na sequência, é possível vislumbrar Bane (Tom Hardy) fazendo flexões em sua cela, um close de seu rosto com a máscara e um Batman visivelmente amendrontado pela figura imponente do vilão. O tom é ainda mais sombrio e épico que os longas anteriores, prometendo um final avassalador.

A Warner Bros., estúdio responsável pela franquia, se apressou em pedir que os sites que hospedam o vídeo retirem o conteúdo do ar - o que foi feito prontamente. Logo, quem viu, viu. Quem não viu, vai precisar esperar até o início da próxima semana, quando ele deverá ser lançado oficialmente e em boa qualidade.

Ou então ir aos cinemas neste final de semana assistir a Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2, que deverá trazer o aperitivo da última parte da saga do herói dirigida por Christopher Nolan.

Noite de terror

13 de julho de 2011 3

Cinéfilo, estudante de jornalismo e nosso bruxo, Pedro Henrique Gomes conta abaixo como foi a sessão do controvertido A Serbian Film - Terror sem Limites no Fantaspoa, nesta terça-feira (12). Segundo ele, teve gente fechando os olhos e se contorcendo na poltrona. Pedro, que representou Zero Hora no Júri Popular do Festival de Gramado de 2010 - integrado por leitores dos principais jornais do país -, é autor do site Tudo É Crítica e tem colocado lá suas impressões sobre a programação do Fantaspoa e sobre tantos outros filmes.

Por Pedro Henrique Gomes

Um dos filmes mais aguardados pelo público do Fantaspoa neste ano, A Serbian Film - Terror Sem Limites, polêmica produção sérvia, teve sua primeira exibição na última terça-feira, na sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana. Com bom número de espectadores, o longa do diretor Srdjan Spasojevic efetivamente mexeu com a plateia presente na sessão.

A Serbian Film conta a história de Milos, um ator pornô aposentado (e frustrado) que, ao aceitar um convite para um novo e misterioso trabalho, acaba descobrindo um mundo muito diferente daquele ao qual estava habituado. O novo filme, que promete lhe render dinheiro suficiente para garantir o sustento de sua família por muitos anos, envolve sadomasoquismo e pedofilia. Quando ele tenta abandonar o projeto, se vê preso no desejo insano de um magnata da indústria pornográfica.

O diretor Srdjan Spasojevic aposta em um clima obscuro desde o início (amplificado pela fotografia quase monocromática), mas não abre mão de um humor negro pontual para servir de alívio cômico. Durante as cenas mais fortes, principalmente na parte final, foi notável o desconforto de alguns espectadores, que alternaram entre risos nervosos e suspiros de agonia, além de se remexerem nas poltronas diversas vezes e levarem as mãos aos olhos.

Narrativamente, o filme nunca se decide entre o horror e a comédia, e a junção dos gêneros jamais encontra, de fato, uma força que o sustente. A bem dizer, ao abordar um tema tão delicado como a violência sexual, faltou um poder maior de confrontamento, de discussão. O filme instaura o humor pelo humor, o choque pelo choque sem questionar suas próprias essências. Mas se o objetivo é mexer com os sentidos dos espectadores, então A Serbian Film efetivamente cumpre o que promete. Para o bem ou para o mal.

Dois espantos

12 de julho de 2011 15

Cilada.com é o mais novo fenômeno de público do cinema brasileiro. Apesar de ter sido desancado por boa parte da crítica nacional, o filme adaptado da série televisiva com Bruno Mazzeo (na foto, ao lado da atriz Fernanda Paes Leme) arrastou nada menos que 441 mil espectadores às salas brasileiras em seu primeiro fim de semana em cartaz. Desde a chamada retomada da produção nacional, em meados dos anos 1990, apenas outros cinco títulos tiveram números superiores - entre eles as sequências, bastante barulhentas, de Tropa de Elite e Se Eu Fosse Você. Cilada.com custou R$ 4 milhões, dinheiro já recuperado em três dias de exibições. Um espanto.

Outra notícia a respeito de bilheterias no país: Qualquer Gato Vira-Lata ultrapassou neste mesmo fim de semana a marca de 1 milhão de ingressos vendidos. Trata-se de outro espanto, tendo em vista que a comédia romântica estrelada por Cléo Pires e Malvino Salvador é notavelmente ruim e foi unanimemente rejeitada pela crítica e por quem quer que tenha se disposto a escrever sobre ela. É incrível, mas aquele velho preconceito do público para com o cinema brasileiro está cada vez mais ficando para trás - graças em grande parte a produções que estão longe de representar o que este cinema tem de melhor.

Novo trailer de Tintin

12 de julho de 2011 0

Foi divulgado um novo trailer de As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne (por que razão não traduziram licorne para unicórnio?).  Apesar da assinatura (ou justamente por isso, diriam alguns)  de Steven Spielberg (diretor) e Peter Jackson (produtor) no projeto, prefiro, como fã dos quadrinhos originais de Hergé,  não guardar muita expectativa. Melhor a surpresa positiva do que a decepção.

Acho muito esquisito esse efeito de combinar atores com computação gráfica, que cria um universo híbrido e tremendamente artificial que não parece nem animação nem live action - como em Beowulf e O Expresso Polar, entre outros filmes que fizeram uso dessa técnica. Tintin, turbinado com efeitos  3D,  parece ser muito fiel ao universo de Hergé. É esperar para ver. O longa estreia no Brasil em 11 de novembro. O jovem detetive foi modelado no ator Jamie Bell.

(Update: a razão pela qual não traduziram o título é óbvia, tanto que nem me dei conta: é para ficar igual ao título nacional da da HQ, reeditada pela Companhia das Letras.)

(Update 2: clique aqui e vá até um post antigo do blog para ver o primeiro trailer do filme, bem como as primeiras imagens do projeto levadas a público).

Os concorrentes ao Kikito

11 de julho de 2011 3

O Carteiro, de Reginaldo Faria, única produção gaúcha selecionada entre os longas

Foram anunciados hoje (11) os filmes que disputarão as mostras competitivas do 39º Festival de Gramado, que será realizado de 5 a 13 de agosto. São sete longas-metragens brasileiros e outros sete latino-americanos, selecionados num universo de 180 inscritos - 75 estrangeiros e 105 nacionais (dos quais 57 documentários, 48 ficções e 11 produções gaúchas). Os homenageados do evento serão divulgados nos próximos dias, informa a organização do festival. Abaixo, a lista completa destes longas e as relações dos 20 curtas selecionados para a mostra nacional e dos 16 selecionados para a mostra gaúcha. E, na ZH de amanhã (12), mais sobre o anúncio em si, que foi marcado pela ausência dos curadores do evento, os cariocas José Carlos Avellar e Sérgio Sanz.

(Atualização: clique aqui para ver alguns trailers selecionados e ler sobre o anúncio.)

Mostra competitiva de longas nacionais
O Carteiro, ficção de Reginaldo Faria (RS)
As Hiper Mulheres, documentário de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikiro (PE)
Olha pra Mim de Novo
, documentário de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman (SP)
País do Desejo, ficção de Paulo Caldas (RJ)
Ponto Final, ficção de Marcelo Taranto (RJ)
Riscado, ficção de Gustavo Pizzi  (RJ)
Uma Longa Viagem, documentário de Lúcia Murat (RJ)

Mostra competitiva de longas estrangeiros
A Tiro de Pedra
, ficção de Sebastian Hiriat  (México)
El Casamiento, documentário de Aldo Garay (Uruguai)
Garcia, ficção de José Luis Rugeles (Colômbia)
Jean Gentil, ficção de Laura Guzmán e Israel Cardena (República Dominicana)
La Lección de Pintura, ficção de Pablo Terelman ( Chile)
Las Malas Intenciones, ficção de Rosario Garcia Montero (Peru)
Medianera, ficção de Gustavo Tarato (Argentina)

Mostra competitiva de curtas nacionais
A Melhor Idade, de Angelo Defanti (RJ)
A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Helio Villela Nunes (SP)
A Musa da Minha Rua, de Adolfo Lachtermacher (RJ)
A Verdadeira História da Bailarina de Vermelho, de Alessandra Colasanti e Samir Abujamra (RJ)
Calma Monga, Calma!, de Petrônio de Lorena (RJ)
Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John (RS)
Insustentável, de Luisa Pereira (SP)
Julie, Agosto, Setembro, de Jarleo Barbosa (GO)
O Cão, de Abel Roland e Emiliano Cunha (RS)
Orquestra do Som Cego, de Lucas Gervilla (SP)
Perfidia, de Ramon Navarro (DF)
Polaroid Circus, de Jacques Dequeker (SP)
Qual Queijo Você Quer?, de Bittar (SC)
Ribeirinhos do Asfalto, de Jorane Castro (PA)
Rivellino, de Marcos Fábio Katudjian (SP)
Um Outro Ensaio, de Natara Ney (RJ)

Mostra competitiva de curtas gaúchos
A Conquista do Espaço, de Chico Deniz
A Noite do Artista, de Rafael Rodrigues
Antônia, de Tyrell Spencer e Ligia Tiemi
Boia, de Alice Castiel e Paula Martins
Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John
Corneteiro Não Se Mata, de Pablo Müller
De Lá Pra Cá, de Frederico Pinto
Especulativo Móvel, de James Zortéa
Eu To Cansado, de Henrique Lahude
Gaveta, de Richard Tavares
Kopeck, de Jaime Lerner
Madre Sal, de Maria Elisa Dantas
Marcovaldo, de Cíntia Langie e Rafael Andreazza
Melhor que Aqui, de Eduardo Wannmacher
Nico, de Filipe Matzembacher
O Cão, de Abel Roland e Emiliano Cunha
Telefone de Gelo, de Fabiano de Souza
Três Vezes por Semana, de Cris Reque
Tricô e Pitangas, de Iuli Gerbase e Marília Garske
Um Dia Daqueles, de José Rodolfo Masiero e Caio Pereira

A intrusa

06 de julho de 2011 1

Diretora de filmes inesquecíveis como O Intruso (2004) e Sexta-feira à Noite (2002), a francesa Claire Denis (foto acima) deu uma aula de cinema na noite de terça-feira (5), na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro. Apareceu vestindo um pala de lã uruguaia recém-comprado, clamando por meias mais quentes e - diria depois - espantada com a falta de calefação nos locais que visitou em Porto Alegre.

Falou praticamente sobre todos os aspectos de sua obra, dos improvisos a que sempre é submetida pela falta de dinheiro – as cenas noturnas de Bom Trabalho (1999) foram feitas com iluminação dos faróis dos carros da equipe - à importância da montagem precisa quando se trabalha com roteiros como os seus, que dispensam diálogos mais explicativos e apostam na intuição do espectador.

- O medo, a alegria, a tensão, tudo tem de estar na cara no ator, não naquilo que ele diz - afirmou.

Eu tietei. Após o debate que abriu oficialmente a mostra Um Olhar em Deslocamento, fiz algumas questões reservadamente à madame Denis. O texto sobre toda a sessão e o encontro com a diretora, além desta entrevista exclusiva, você poderá ler nas páginas de Zero Hora desta quinta (7). A seguir, uma das perguntas que fiz e a respectiva resposta da diretora:

ZH - Seus filmes são feitos de personagens em deslocamento, não raramente estrangeiros, sempre com o comportamento afetado pelo lugar em que vivem ou estão. O quanto o espaço em que estamos determina o que somos?
Claire Denis -
A mim interessam os conflitos determinados pelas relações entre as pessoas e o espaço em que habitam. A busca da felicidade de cada sempre tem a ver com a escolha de um lugar para ficar, se estabelecer e, como dizemos, construir a própria vida. No mundo com o qual sonho e pelo qual batalho, pode-se escolher qualquer lugar; não precisa ser necessariamente o lugar de nossas origens. Não consigo entender porque determinadas pessoas reagem de maneira tão hostil a quem vem de fora, ao que é estrangeiro. Não falo apenas da realidade da França, mas de todo o mundo contemporâneo. No fim do século passado, movimentos de luta por cidadania e direitos humanos apontavam um futuro um pouco melhor do que aquele que acabou se configurando. Hoje a tolerância para com o diferente me parece menor. E isso é um problema grave com o qual precisamos lidar. Meus personagens são geralmente intrusos em determinadas locais? É porque é o intruso que me fascina. E é o intruso que precisa ser descoberto por nós, para que possamos lidar melhor com ele.

(Atualização: o texto principal pode ser lido aqui; a entrevista, apenas no jornal impresso.)