Frederic Boyer, que selecionou o longa-metragem A Alegria para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, classificou-o como "um bem-vindo óvni brasileiro". Faz todo o sentido, mas no fundo o filme não está sozinho: trata-se de um dos mais representativos exemplares de uma novíssima produção nacional, que, apesar de seus naturais defeitos, está conectando o país ao que há de mais contemporâneo no cinema mundial.
A Alegria (2010) está em cartaz desde sexta-feira no Unibanco Arteplex, em Porto Alegre. Já havia sido exibido no CineEsquemaNovo, depois de passagens pelos festivais de Tiradentes, Brasília e Roterdã - além de Cannes. É um dos três longas que Marina Meliande dirigiu ao lado de Felipe Bragança, ex-assistente de Karim Aïnouz e corroteirista de O Céu de Suely (2006). Ambos, Marina e Felipe, são cariocas, têm exatos 30 anos e estudaram juntos na Universidade Federal Fluminense. Seus outros dois filmes, Desassossego (2010) e A Fuga da Mulher Gorila (2009), completam a trilogia Coração de Fogo, sobre a juventude brasileira atual.
Não que você vá ver ritos de passagem, iniciações amorosas e aqueles outros clichês dos títulos sobre a adolescência. A Alegria usa elementos fantásticos - e referências que vêm do anime e do cinema asiático - para construir o imaginário de Luíza (Tainá Medina), uma garota de 16 anos que cresce no Rio de Janeiro oprimida pela violência e pelo medo constante das tragédias sociais. Ela se desloca entre a zona sul da cidade e as florestas que a circundam, num clima de interação com o ambiente natural que remete automaticamente ao cineasta Apichatpong Weerasethakul, embora numa chave diferente: enquanto o tailandês explora a harmonia budista entre homem e natureza, a dupla brasileira trabalha esta dialética sob o signo da repressiva educação católica.
"A consagração do Apichatpong como um dos maiores cineastas do mundo nos ajuda: se a obra dele não tivesse aberto o caminho, seríamos menos compreendidos", afirma Bragança a ZH, por telefone. "Quando viu A Fuga da Mulher Gorila, ele próprio me disse, por e-mail, que temia ser acusado de plágio".
De fato há semelhanças de A Fuga, e também A Alegria, com a obra-prima Mal dos Trópicos (2004) e Tio Boonmee (2010), que Weerasethakul lançaria na sequência e com o qual venceria a Palma de Ouro em Cannes. Em A Alegria, a protagonista não está sozinha. Luiza aparece junto a um grupo de amigos que vive permanentemente na defensiva diante do contexto de hostilidade que o cerca. Em algum momento a turma pensa em combatê-lo com uma espécie "política da alegria" - que inspira o título do filme e toda a trilha sonora, composta a partir da Ode à Alegria de Beethoven. É quase uma missão de super-herói, o que funciona como a deixa para a incorporação dos elementos fantásticos que turbinam a história e dão fôlego ao longa em sua parte final.
A Alegria seria ainda melhor se tivesse uma direção de atores mais eficaz e conseguisse encontrar um tom intermediário entre a reverência às citações e a construção de um estilo próprio. Não se pode negar, no entanto, a sua força de renovação. Ela é maior, por exemplo, que a de títulos como Os Residentes (2010) à medida que busca inspiração no universo contemporêneo e manipula a linguagem do cinema pensando mais no futuro do que no passado. E isso que o filme de Tiago Mata Machado é excelente.
Três perguntas para Felipe Bragança, codiretor de A Alegria com Marina Meliande:
Por que a opção pelo não realismo e as referências asiáticas (Apichatpong Weerasethakul, Jia Zhang-ke) para falar da juventude no Brasil?
Felipe Bragança - Nossa intenção sempre foi a de criar um imaginário de terror que refletisse o sentimento de quem vive no Brasil, mas que pensasse a linguagem do cinema para frente, que não ficasse estagnado no que já conhecemos. O tema é bem comum, mas há de se considerar que a violência é um assunto muito mais amplo do que a simples crônica policial. É possível falar dela de outros jeitos que não aqueles que já foram falados. Especialmente os jovens que moram no Rio crescem marcados por uma opressão que vem do contato com o mundo exterior. Os fantasmas estão muito presentes no imaginário das novas gerações. Quisemos mostrar isso de uma forma conectada com o cinema contemporâneo, e não datada, passadista.
ZH - Você esteve no centro do debate sobre o novíssimo cinema nacional quando ele foi batizado pelo crítico Cezar Migliorin de “pós-industrial” (em artigo na revista Cinética respondido por Carlos Alberto Mattos). Isso porque, logo depois, você escreveu um artigo no jornal O Globo intitulado Meu Último Texto sobre Cinema. O que houve?
Bragança - O que acontece é que, quando comecei a escrever sobre cinema, uns 10 anos atrás, senti que havia uma necessidade de reflexão mais profunda sobre a produção nacional. Não sobre os filmes isoladamente, mas sobre a produção como um todo. Hoje isso mudou. A própria constatação do Migliorin de que há uma novíssima geração em busca de algo diferente evidencia que isso mudou. Estamos em outra fase. E eu preciso me posicionar de maneira definida. Cheguei a ser contestado por outros cineastas, em discussões de classe, por assim dizer, por falar também pelo “outro lado”. Agora estou em um só lado. Só falo como diretor.
ZH - Que tipo de mercado vocês almejam atingir e que tipo de espectador esperam encontrar com A Alegria? Salas do circuito alternativo, cinemas de shopping, novas gerações?
Bragança - O público jovem, de uns 16 até uns 30 e poucos anos, onde quer que ele for ver o filme. Essa geração está superconectada, tem muitas referências, ouve música e vê vídeos o tempo todo na internet, está permanentemente em contato com experimentações sonoras e também visuais. Que cinema vai conquistar essas pessoas? Não pode ser um cinema passadista. A gente, ao menos no Brasil, ainda não fez o cinema participar da vida dessa geração como, por exemplo, já fizeram os músicos. Estamos tentando, festivais como Tiradentes e o CineEsquemaNovo revelam que há uma busca. Mas as opções no mercado ainda são os trabalhos mais velhos. Filme de adolescente no Brasil, hoje, são filmes que dialogam muito mais com os pais do que com os seus filhos. Acredito que é porque a linguagem desses filmes é pouco contemporânea e está em conflito com a arte que esses filhos anseiam por consumir.





















