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Posts de agosto 2011

Estreias da semana - 26/08/2011

26 de agosto de 2011 0

Principal estreia da semana e um destaque entre os blockbusters produzidos recentemente em Hollywood, Planeta dos Macacos: a Origem é a pauta do vídeo desta semana. Aperte no play.

Uma ode à renovação

22 de agosto de 2011 0

Frederic Boyer, que selecionou o longa-metragem A Alegria para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, classificou-o como "um bem-vindo óvni brasileiro". Faz todo o sentido, mas no fundo o filme não está sozinho: trata-se de um dos mais representativos exemplares de uma novíssima produção nacional, que, apesar de seus naturais defeitos, está conectando o país ao que há de mais contemporâneo no cinema mundial.

A Alegria (2010) está em cartaz desde sexta-feira no Unibanco Arteplex, em Porto Alegre. Já havia sido exibido no CineEsquemaNovo, depois de passagens pelos festivais de Tiradentes, Brasília e Roterdã - além de Cannes. É um dos três longas que Marina Meliande dirigiu ao lado de Felipe Bragança, ex-assistente de Karim Aïnouz e corroteirista de O Céu de Suely (2006). Ambos, Marina e Felipe, são cariocas, têm exatos 30 anos e estudaram juntos na Universidade Federal Fluminense. Seus outros dois filmes, Desassossego (2010) e A Fuga da Mulher Gorila (2009), completam a trilogia Coração de Fogo, sobre a juventude brasileira atual.

Não que você vá ver ritos de passagem, iniciações amorosas e aqueles outros clichês dos títulos sobre a adolescência. A Alegria usa elementos fantásticos - e referências que vêm do anime e do cinema asiático - para construir o imaginário de Luíza (Tainá Medina), uma garota de 16 anos que cresce no Rio de Janeiro oprimida pela violência e pelo medo constante das tragédias sociais. Ela se desloca entre a zona sul da cidade e as florestas que a circundam, num clima de interação com o ambiente natural que remete automaticamente ao cineasta Apichatpong Weerasethakul, embora numa chave diferente: enquanto o tailandês explora a harmonia budista entre homem e natureza, a dupla brasileira trabalha esta dialética sob o signo da repressiva educação católica.

"A consagração do Apichatpong como um dos maiores cineastas do mundo nos ajuda: se a obra dele não tivesse aberto o caminho, seríamos menos compreendidos", afirma Bragança a ZH, por telefone. "Quando viu A Fuga da Mulher Gorila, ele próprio me disse, por e-mail, que temia ser acusado de plágio".

De fato há semelhanças de A Fuga, e também A Alegria, com a obra-prima Mal dos Trópicos (2004) e Tio Boonmee (2010), que Weerasethakul lançaria na sequência e com o qual venceria a Palma de Ouro em Cannes. Em A Alegria, a protagonista não está sozinha. Luiza aparece junto a um grupo de amigos que vive permanentemente na defensiva diante do contexto de hostilidade que o cerca. Em algum momento a turma pensa em combatê-lo com uma espécie "política da alegria" - que inspira o título do filme e toda a trilha sonora, composta a partir da Ode à Alegria de Beethoven. É quase uma missão de super-herói, o que funciona como a deixa para a incorporação dos elementos fantásticos que turbinam a história e dão fôlego ao longa em sua parte final.

A Alegria seria ainda melhor se tivesse uma direção de atores mais eficaz e conseguisse encontrar um tom intermediário entre a reverência às citações e a construção de um estilo próprio. Não se pode negar, no entanto, a sua força de renovação. Ela é maior, por exemplo, que a de títulos como Os Residentes (2010) à medida que busca inspiração no universo contemporêneo e manipula a linguagem do cinema pensando mais no futuro do que no passado. E isso que o filme de Tiago Mata Machado é excelente.

Três perguntas para Felipe  Bragança, codiretor de A Alegria com Marina Meliande:

Por que a opção pelo não rea­lismo e as referências asiáticas (Apichatpong Weerasethakul, Jia Zhang-ke) para falar da juventude no Brasil?
Felipe Bragança -
Nossa intenção sempre foi a de criar um imaginário de terror que refletisse o sentimento de quem vive no Brasil, mas que pensasse a linguagem do cinema para frente, que não ficasse estagnado no que já conhecemos. O tema é bem comum, mas há de se considerar que a violência é um assunto muito mais amplo do que a simples crônica policial. É possível falar dela de outros jeitos que não aqueles que já foram falados. Especialmente os jovens que moram no Rio crescem marcados por uma opressão que vem do contato com o mundo exterior. Os fantasmas estão muito presentes no imaginário das novas gerações. Quisemos mostrar isso de uma forma conectada com o cinema contemporâneo, e não datada, passadista.

ZH - Você esteve no centro do debate sobre o novíssimo cinema nacional quando ele foi batizado pelo crítico Cezar Migliorin de “pós-industrial” (em artigo na revista Cinética respondido por Carlos Alberto Mattos). Isso porque, logo depois, você escreveu um artigo no jornal O Globo intitulado Meu Último Texto sobre Cinema. O que houve?
Bragança -
O que acontece é que, quando comecei a escrever sobre cinema, uns 10 anos atrás, senti que havia uma necessidade de reflexão mais profunda sobre a produção nacional. Não sobre os filmes isoladamente, mas sobre a produção como um todo. Hoje isso mudou. A própria constatação do Migliorin de que há uma novíssima geração em busca de algo diferente evidencia que isso mudou. Estamos em outra fase. E eu preciso me posicionar de maneira definida. Cheguei a ser contestado por outros cineastas, em discussões de classe, por assim dizer, por falar também pelo “outro lado”. Agora estou em um só lado. Só falo como diretor.

ZH - Que tipo de mercado vocês almejam atingir e que tipo de espectador esperam encontrar com A Alegria? Salas do circuito alternativo, cinemas de shopping, novas gerações?
Bragança -
O público jovem, de uns 16 até uns 30 e poucos anos, onde quer que ele for ver o filme. Essa geração está superconectada, tem muitas referências, ouve música e vê vídeos o tempo todo na internet, está permanentemente em contato com experimentações sonoras e também visuais. Que cinema vai conquistar essas pessoas? Não pode ser um cinema passadista. A gente, ao menos no Brasil, ainda não fez o cinema participar da vida dessa geração como, por exemplo, já fizeram os músicos. Estamos tentando, festivais como Tiradentes e o CineEsquemaNovo revelam que há uma busca. Mas as opções no mercado ainda são os trabalhos mais velhos. Filme de adolescente no Brasil, hoje, são filmes que dialogam muito mais com os pais do que com os seus filhos. Acredito que é porque a linguagem desses filmes é pouco contemporânea e está em conflito com a arte que esses filhos anseiam por consumir.

Obra-prima derradeira

19 de agosto de 2011 0

A morte do chileno Raúl Ruiz (1941 - 2011), anunciada nesta sexta, tira de cena um cineasta histórico, autor de filmes como a trilogia As três Coroas do Marinheiro (1983), A Cidade dos Piratas (1983) e A Ilha do Tesouro (1985) e a produção francesa adaptada de Proust O Tempo Redescoberto (1999), mas também interrompe a carreira de um artista que, se não estava no auge, foi capaz de nos entregar uma das obras-primas dos últimos tempos. Falo de Mistérios de Lisboa (2010), romance folhetinesco de época (se passa no século 19) que cruza diversas histórias entre Portugal, Itália, França e o Brasil a partir da vida de um menino órfão que cresce e começa a descobrir detalhes da vida de sua família e das pessoas à sua volta - são casos de ciúmes, traição, abandono e todos os melhores ingredientes dos grandes folhetins sobre a burguesia europeia daquele tempo. O filme é na verdade uma série de TV dividida em seis capítulos de uma hora cada. A versão para o cinema tem quatro horas e meia e é dividida em duas partes - foi assim que o longa foi exibido na Mostra de São Paulo, onde o vi e onde ele venceu o Prêmio Fipresci. Que seja lançado por aqui, nos cinemas ou na TV.

Um adendo:

neste link aqui, o crítico chileno Leopoldo Muñoz comenta a obra de seu conterrâneo Ruiz no canal CNN daquele país. Muñoz, ou "Polo", como é chamado, esteve no recém-finalizado Festival de Gramado integrando o júri da crítica do evento. Passou todos os 10 dias do evento conosco na Serra. Entende muito de cinema. E considera Ruiz o maior cineasta chileno de todos os tempos. É de se prestar atenção no que ele diz.

Estreias da semana - 19/08/2011

19 de agosto de 2011 0

Neste fim de semana escolhemos para comentar um filme ruim, o blockbuster Lanterna Verde, e outro bom, a produção espanhola do diretor Álex de la Iglesia Balada do Amor e do Ódio. No fim do vídeo ainda recomendamos um longa brasileiro que também está chegando aos cinemas de Porto Alegre: A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande. Veja:

Falando em Lanterna Verde: aproveitando a estreia do filme e pensando nas muitas adaptações dos heróis dos quadrinhos (sobretudo as que vêm por aí), as equipes do Segundo Caderno e da Arte de ZH, sob o comando (antenado!) da Bruna Amaral, prepararam o site especial Super-heróis no Cinema. O que tem de informação ali não é pouca coisa. Clique no link e visite: é coisa fina.

E aproveitando para falar também do outro filme mencionado no vídeo: segue uma versão um pouquinho maior do texto que escrevi para a ZH impressa sobre Balada do Amor e do Ódio e que foi publicado na quinta-feira:

*  *  *

O universo de fantasia, humor negro e violência gráfica do diretor espanhol de origem basca Álex de la Iglesia (O Dia da Besta, Perdita Durango, Crime Ferpeito) já é bem conhecido dos cinéfilos. Poucos de seus filmes, no entanto, chegam tão recomendados quanto Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta, 2010). O longa que estreia nesta sexta-feira em Porto Alegre venceu os Leões de Prata de direção e roteiro do Festival de Veneza do ano passado - prêmios conquistados não sem uma boa dose de polêmica, já que consagram um tipo de cinema fantástico que agrada a um público geralmente restrito, no qual se inclui o então presidente do júri, Quentin Tarantino.

Alegoria do franquismo, Balada começa no final dos anos 1930, época de ascensão do general Francisco Franco, e termina em meados da década de 1970, quando o ditador fascista morreu, dando lugar no topo do poder da Espanha ao Rei Juan Carlos I. Narra a vida de um palhaço triste - que atua com uma lágrima negra pintada sobre o rosto branco - desde a traumática perda de seu pai, também palhaço, perseguido pelo regime. Na verdade, a morte do velho é uma espécie de prólogo para a ação, que se desenvolve praticamente toda nos últimos anos da ditadura.

O protagonista, Javier, é interpretado por Carlos Areces. Ele tem um antagonista, Sergio (Antonio de la Torre), também palhaço, porém violento em vez de melancólico. Ambos vivem em um circo cheio de figuras extraordinárias, entre as quais Natalia (Carolina Bang), a namorada de Sergio, de quem Javier se sente mais próximo a cada vez em que ela é espancada pelo vilão. As caracterizações são de fato estereotipadas, assim como os atos de cada personagem são com frequência extremos, porque o que interessa a Álex de la Iglesia são os simbolismos - há despotismo e opressão, e a história é permeada por fatos históricos reais vistos de maneira satírica, o que faz o espectador pensar de forma mais abrangente sobre aquelas relações pessoais e sociais.

A mise en scène é competente, os atores brilham num registro surrealista e a construção visual pode ser definida como primorosa: a fotografia de Kiko de la Rica (de Lucía e o Sexo) satura determinadas cores, mas mantém muitas sombras, como se quisesse apresentar a angústia de um circo com alguma pompa e nenhum brilho. A estilização da violência tem uma sutil diferença na comparação com Park Chan-wook (Oldboy) e o próprio Tarantino (Kill Bill): sua carga política é mais direcionada, o que às vezes pode até aumentar o seu impacto, porém, trazendo certa limitação à fruição.

O filme, no fim das contas, é bom. Um dos melhores de toda a trajetória de seu diretor.

A fúria do palhaço triste: Carlos Areces em Balada do Amor e do Ódio

Gramado 2011: desafios

15 de agosto de 2011 2

Está aqui o texto que saiu na edição impressa de ZH sobre os desafios que Gramado deve enfrentar para o seu aniversário de 40 anos, a ser completado na festiva edição que se anuncia para 2012. Aqui ficou a lista dos premiados de 2011. Mais sobre o 39º festival, incluindo o texto de anúncio dos vencedores na ZH desta segunda-feira, no site especial mantido pelo jornal ao longo de todo o evento.

Gramado 2011: cotações

13 de agosto de 2011 0

A escala é a do jornal: de 1 a 5, entre ruim e excelente.

O Palhaço, de Selton Mello (BRA):  * * * *
Riscado, de Gustavo Pizzi (BRA):  * * * *
Medianeras, de Gustavo Taretto (ARG):  * * *
Ponto Final, de Marcelo Taranto (BRA):  *
A Tiro de Piedra, de Sebastián Hiriart (MEX):  * * *
Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat (BRA):  * *
Las Malas Intenciónes, de Rosário Garcia Moreno (PER):  * * *
País do Desejo, de Paulo Caldas (BRA):  *
La Lección de Pintura, de Pablo Perelman (CHI):  * * *
As Hiper Mulheres, de L.Sette, C.Fausto e T.Kuikuro (BRA):  * * *
El Casamiento, de Aldo Garay (URU):  * *
Olhe para Mim de Novo, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla (BRA):  * *
Garcia, de Jose Luis Rugeles (COL):  * *
O Carteiro, de Reginaldo Faria (BRA):  *
Jean Gentil, de Laura Guzmán e Israel Cárdenas (DOM):  * * * *
Sudoeste, de Eduardo Nunes (BRA):  * * * *

Jean Gentil

Gramado 2011: melhor noite

13 de agosto de 2011 0

E o dominicano Jean Gentil foi mesmo a grande surpresa do festival. É inocente e tem um ritmo contemplativo que exige muito do espectador, mas suas imagens são tão belas que é impossível não se deixar comover com a história do personagem-título. Ele é um professor de francês e inglês vindo do Haiti que aos poucos vai sendo engolido pela hostilidade e pela falta de oportunidades que encontra na República Dominicana. Quanto mais se sente deslocado e intimidado, mais apela para a religiosidade e se afasta da cidade (de Santo Domingo), caminhando ao encontro da natureza. Quando parece que os diretores Laura Guzmán e Israel Cárdenas (ambos de 30 anos, ela dominicana, ele mexicano) tomarão a estrada rumo a uma transcendência apichatponguiana, apelam para um viés trágico e político que tornam seu desfecho, além de tudo, muito impactante. O próprio Jean Gentry, nome verdadeiro do protagonista, que está em Gramado, entregava, após a exibição do filme no Palácio dos Festivais, um cartão em que se vende como... professor de francês e inglês. Trata-se de uma ficção, mas amparada de maneira muito significativa no real. Se não sair premiado, será uma enorme injustiça.

Sudoeste, que encerrou o evento após a exibição do último longa latino-americano em competição, é igualmente difícil e recompensador. Trata-se de uma história fabular sobre o tempo e o isolamento que acompanha toda a vida de uma mulher do seu nascimento, no amanhecer, até a sua morte, à noite - durante o Dia de Reis numa pequena comunidade de pescadores. Dirigido pelo premiado realizador de curtas Eduardo Nunes (Terral, Reminiscência, Duas da Manhã) e fotografado em preto e branco por Mauro Pinheiro Jr., o filme foi rodado numa janela pouco comum (3:66), achatada mesmo, que acentua a horizontalidade das paisagens do lugar. Há na trama fantástica uma tragédia familiar, mas a associação da personagem a ela quem tem de fazer é o espectador. Emula Tarkovski e Mário Peixoto, com alguns planos lentos e sons que referenciam Sergio Leone, entre outras citações. Não se pode dizer, no entanto, que o diretor carioca não demonstre, mesmo que em seu primeiro longa, um estilo próprio marcante. A mim parece arrebatador. Só não levará vários Kikitos porque foi exibido fora de competição, guardando-se para o Festival do Rio - foi a primeira exibição pública de Sudoeste, filme que, pode anotar, você ainda vai ouvir falar muito.

Simone Spoladore em Sudoeste. Atriz vive uma das fases da protagonista

Gramado 2011: os favoritos

12 de agosto de 2011 1

Quando escrevo este post, entre os longas das mostras competitivas brasileira e latino-americana, só falta ver o dominicano Jean Gentil. A não ser que ele surpreenda, já se pode tirar conclusões de fato conclusivas, por assim dizer, sobre o que se viu em Gramado 2011. Foi algo na linha dos anos anteriores: mostra latina no geral um tantinho mais interessante do que a brasileira, porém, sem nenhum filme despontando como melhor do que os demais; e mostra nacional muito irregular, com grandes decepções e pelo menos dois títulos pequenos que se revelaram melhores do que aqueles que chegaram botando banca de produções maiores, ou com mais recursos.

Os dois melhores títulos da competição brasileira são Riscado e As Hiper Mulheres. O melhor filme é aquele que será apresentado logo mais, na sessão de encerramento do festival, fora da competição - porque está se guardando para concorrer no Festival do Rio: Sudoeste, de Eduardo Nunes. Completa a lista do que houve de mais interessante no festival o seu longa de abertura, O Palhaço. A premiação só não ficará entre Riscado e As Hiper Mulheres se o júri - o que é aliás provável - se encantar com Uma Longa Viagem. Aliás, tendo em vista a reação de todos no Palácio dos Festivais, talvez o documentário de Lúcia Murat seja o favorito para a premiação deste sábado. Eu daria o Kikito mais importante do evento a Riscado.

Os documentários Olhe pra Mim de NovoO Casamento, apresentados na mesma noite por conta de suas semelhanças - notadamente o protagonismo de dois transexuais - de uma forma geral não agradaram, embora o primeiro, uma produção brasileira dirigida por Kiko Goifman e Claudia Priscila, tenha nos apresentado o personagem do festival, Sillvyo Luccio (na foto do filme, acima, ele está de chapéu), e também tenha chances de ser premiado, se o júri ignorar seus problemas de distanciamento entre autor e objeto documentado e, sobretudo, de encadeamento das situações e escolha dos personagens apresentados ao espectador pelo protagonista.

O problema de O Carteiro, o concorrente gaúcho da mostra competitiva, também diz respeito à linguagem, mas é de outra natureza: trata-se de uma comédia popular folhetinesca pautada pelos exageros diversos - de música e de interpretações, entre outros - que o aproximam do pastelão e fazem perguntar por que um filme tão notadamente feito para o mercado faz numa competição com títulos tão empenhados em sua forma como As Hiper Mulheres e Riscado.

Este último só perde o Kikito de melhor atriz brasileira (para Karine Teles) se o júri errar feio. No caso do Kikito de melhor ator nacional, o furo é mais embaixo. Candé Faria, de O Carteiro, pode receber o troféu sem ter concorrentes minimamente à altura - a não ser que os jurados inovem e encontrem alguma interpretação secundária ou até mesmo alguém de algum longa documental para premiar - já pensou? Entre os latinos, ao contrário, as opções são várias: Gabino Rodrigues (do mexicano A Tiro de Piedra), Daniel Jiménez Cacho (do chileno La Lección de Pintura) e Damián Alcazár, protagonista do colombiano Garcia (foto abaixo), que está muito bem, embora o grande desempenho do filme - espécie de comédia de erros a la irmãos Coen na periferia de uma grande cidade colombiana não identificada - seja para o seu colega de elenco, o coadjuvante Fábio Restrepo.

Isso entre os homens. Entre as mulheres, há Pilar López de Ayala (do argentino Medianeras), a menina Fátima Buntix (do peruano Las Malas Intenciónes), Margarida Rosa de Francisco (de Garcia) e Verónica Sánchez, que para mim tem em La Lección de Pintura a atuação feminina mais vigorosa da mostra latina. Entre os filmes, não me surpreenderia se Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Digital, comédia romântica querida e candidata a fazer muito sucesso nos cinemas de Porto Alegre, ganhasse o prêmio principal. Mas eu prefiro A Tiro de Piedra e principalmente La Lección de Pintura.

Pensando bem, os jurados da mostra nacional devem estar com um certo ciúme do júri latino-americano.

Estreias da Semana - 12/08/2011

12 de agosto de 2011 0

Super 8, parceria de Steven Spielberg e J. J. Abrams, e o novo filme do diretor Terrence Malick, A Árvore da Vida, são as principais estreias deste fim de semana:

Gramado 2011: algumas notas

10 de agosto de 2011 1

Os debates
A maioria deles é morna, embora os pontos mais importantes de cada um dos filmes exibidos sejam todos levantados por jornalistas e cinéfilos presentes. No de Uma longa Viagem, de Lúcia Murat, predominaram os elogios dos presentes; no de O Palhaço, de Selton Mello, não faltou emoção dos atores; o de As Hiper Mulheres, dirigido pelo antropólogo e cineasta Carlos Fausto, pelo diretor Leonardo Sette e pelo curta-metragista de origem índigena Takumã Kuikuro, foi marcado pela curiosidade dos críticos quanto ao belo e exótico ritual feminino de cantoria e acasalamento chamado Jamurikumalu, que é realizado no Alto Xingu (MT). Ponto Final, o filme do carioca Marcelo Taranto, e País do Desejo, quarto longa do diretor Paulo Caldas, foram contestados, confirmando seu status de maiores decepções do festival. Um ponto positivo foi a transferência do local onde os debates são realizados, da fria e distante ExpoGramado para o Centro de Eventos do Hotel Serra Azul, que fica muito perto do Palácio dos Festivais e das demais atividades do evento. Um negativo: o tamanho reduzido da sala, que para acomodar todos os interessados obriga os presentes a algum aperto.

As projeções
No domingo, a organização do Festival de Gramado mandou os apresentadores do evento lerem um comunicado no qual culpavam a distribuidora do longa mexicano A Tiro de Piedra pelo atraso no envio da cópia em 35mm do filme, que teve então de ser exibido em DVD. Na segunda e na terça-feira, o aviso prévio ou mesmo o pedido de desculpas foram deixados de lado, mas não as projeções em condições precárias. A plateia do Palácio dos Festivais foi submetida a assistir ao peruano Las Malas Intenciónes e ao chileno La Lección de Pintura (foto acima) igualmente a partir de uma matriz em DVD. O caso do primeiro foi escandaloso: o longa foi exibido numa cópia de resolução tão baixa que mal dava para ver a definição do rosto da protagonista. Ficou feio para o festival e pior para o júri, que precisa avaliar cada um dos títulos exibidos antes de conceder os troféus Kikito. No caso de A Tiro de Piedra e Las Malas Intenciónes, serão necessárias sessões extra quando as cópias em 35mm chegarem - ou então a premiação estará completamente comprometida.

A questão dos inéditos
Riscado e O Palhaço, os dois melhores longas nacionais exibidos até aqui, chegaram a Gramado com um histórico de participação em outros festivais. Ponto Final e País do Desejo, os dois piores, vieram cercados de expectativa porque teriam, por aqui, a sua primeira exibição. Parece claro, diante disso, que o ineditismo é um impeditivo para aumentar a qualidade geral do que é exibido. Se houve um brasileiro inédito que surpreendeu positivamente, até agora, foi As Hiper Mulheres (foto acima), produção da Vídeo nas Aldeias (de Vincent Carelli, premiado com Corumbiara) bastante rica na reencenação do Jamurikumalu - embora sem a inventividade de um Serras da Desordem, de Tonacci, e sem momentos de transcendência como os do primeiro encontro dos índios com o homem branco registrados em Corumbiara.

O valor dos latinos
Nos anos anteriores, os longas latino-americanos apresentaram qualidade geral superior à dos brasileiros. Não tem sido exatamente assim nesta temporada: enquanto os brasileiros apresentam uma grande irregularidade, com o melhor e o pior de Gramado 2011, os latinos têm mantido um nível bastante parelho - sem nenhum destaque maior. Alguns dirão que o argentino Medianeras (foto acima) é excelente. Outros já disseram no debate do filme que o chileno La Lección de Pintura é primoroso. E outros ainda vão exaltar o trabalho dos jovens mexicanos Sebastián Hiriart (diretor) e Gabino Rodrigues (ator) em A Tiro de Piedra. Nenhum está de todo errado, sobretudo no que se refere a este último, mas já se pode antever que, na comparação entre os títulos nacionais e os estrangeiros, talvez este seja um ano um tantinho diferente dos precedentes. Uma pena que, para a organização do evento, os latino-americanos sigam com tratamento menos cuidadoso do que os brasileleiros - não é possível que três dos quatro primeiros filmes da mostra competitiva latina sejam exibidos em DVD com a falta de capricho que se viu nestes dias no Palácio dos Festivais.

Gramado 2011: idiossincrasias

08 de agosto de 2011 2

Gramado estava perdido quando Sérgio Sanz e José Carlos Avellar assumiram a curadoria do festival, em meados da década passada. Logo em seu primeiro ano, impactaram a todos com a seleção de Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, que se tornou um símbolo de uma certa volta do evento à relevância do ponto de vista cinematográfico. Passados meia-dúzia de anos, estão escancaradas as idiossincrasias da dupla - para o bem e para o mal.

A mais preocupante delas: a falta de critérios no que diz respeito ao ineditismo dos longas eleitos - num ano A Última Estrada da Praia, de Fabiano de Souza, não é selecionado porque uma versão mais curta do filme já passou na RBS TV; antes, no entanto, Canção de Baal, de Helena Ignez, compete apesar de já ter sido exibido na íntegra no Canal Brasil. Este ano, Riscado, que é um ótimo longa, o melhor dos competidores brasileiros até aqui, faz parte da seleção apesar de já ter sido exibido em Porto Alegre no Festival de Verão, em março.

Uma de suas idiossincrasias mais notáveis é a sua preferência por certos temas como a ditadura militar. No ano passado, o chileno Mi Vida con Carlos e o brasileiro Diário de uma Busca saíram premiados ao abordarem o assunto. Este ano, quem cumpre este papel é Uma Longa Viagem (foto acima), de Lúcia Murat - a diretora de Quase Dois Irmãos, Brava Gente Brasileira e outros. O documentário exibido noe domingo revisita a relação da cineasta com dois irmãos durante o regime. Um deles, Miguel, a quem o filme é dedicado, já morreu. O outro, Heitor, é a estrela do longa: enviado a Londres pela família para se afastar da luta armada e não ter o mesmo destino de Lúcia - que foi presa e torturada -, ele correu o mundo, experimentou todos os tipos de drogas e hoje sofre com as sequelas da vida sem limites dos anos 1970. Caio Blat interpreta Heitor quando jovem, em dramatizações bem dirigidas, mas cujas inserções em meio à narrativa são comprometidas pela reiteração dos efeitos de pós-produção, que interpõem às suas imagens as imagens da época, sombras e trechos ampliados das cartas trocadas pelo trio.

Uma Longa Viagem é emocionante, mas é prejudicado pelos próprios excessos. Algumas opções de montagem também levam o público a se divertir com o, por assim dizer, exotismo do irmão da realizadora - o que faz questionar a sua exposição e, consequentemente, a ética do filme. O público não quis saber: recebeu o longa de maneira calorosa, algo que já permite concluir que ele tem boas chances de vencer o festival - se o fizer, no entanto, não será sem contestações.

Antes da projeção de Uma Longa Viagem, houve o primeiro grave - gravíssimo, na verdade - problema técnico de Gramado 2011. A cópia em 35mm do mexicano A Tiro de Piedra (foto acima) não chegou a tempo e, em vez de trocar o longa latino-americano do dia, a organização preferiu redigir um comunicado culpando a distribuidora do longa pelo atraso no envio, mandar os apresentadores do festival lerem o texto no palco e projetar o filme em DVD. Só não foi um desastre completo porque o filme, em si, é bom.

A Tiro de Piedra trouxe de volta a Gramado um dos vencedores do Kikito de melhor ator do ano passado, Gabino Rodrigues (de Perpetuum Mobile). Mais uma vez em ótima performance, ele interpreta Jacinto Medina, um camponês pobre que vive em São Luís de Potosí, no México, e que tem um sonho recorrente no qual, em meio a muita neve, depara com um tesouro escondido num baú. Quando encontra um chaveiro perdido identificado com uma localidade do Oregon (EUA), acredita estar diante de um sinal de que tal tesouro pode estar lá.

São milhares de quilômetros ao norte, mas chegar àquele lugar se torna uma obsessão para o protagonista. Com uma câmera digital portátil à mão, o diretor Sebastián Hiriart constrói a narrativa acompanhando-o nesta caminhada - que literalmente se dá a pé. A estética crua, quase documental, ajuda a mergulhar em sua intimidade, mas o melhor de A Tiro de Piedra é que, mesmo tão próximo de seu personagem, Hiriart não o julga, deixando para o espectador a tarefa de entender se é o ambiente hostil ou se são os seus próprios fantasmas os responsáveis pela sua tristeza e inadequação tão profundas.

No debate sobre o longa, Hiriart - que tem menos de 30 anos, assim como Gabino Rodrigues - explicou que se pôs a viajar com o ator com só US$ 8 mil no bolso. A rigor, foi o que a produção custou. Só depois ele conseguiu US$ 250 mil, gastos para pós-produção, montagem e transfer das imagens para película. Já é um candidato a surpresa do festival.

Gramado 2011: irregularidade

07 de agosto de 2011 4

Ainda que O Palhaço e Riscado já haviam sido exibidos em outros festivais e recebido os merecidos elogios, o 39º Festival de Gramado começou melhor do que se podia imaginar. Com ambos fazendo dobradinha, Gramado teve uma noite de abertura acima da sua própria média nos últimos anos. Nada, no entanto, que se mantivesse no segundo dia de mostra competitiva.

O carioca Ponto Final (foto acima), escolhido para fechar o sábado à noite, teoricamente um momento nobre da programação no Palácio dos Festivais, não podia ser mais decepcionante. Precisamente definido por colegas após a sessão como uma tentativa de ser David Lynch mas que se perde em meio aos vícios de Neville d'Almeida, o filme de Marcelo Taranto (de A Hora Marcada, de 2001) é pretensioso tanto formalmente (a narrativa não é linear, está repleta de idas e vindas no tempo e mistura acontecimentos e cenários reais e imaginários) quanto do ponto de vista discursivo (são muitos os momentos em que personagens se voltam para a câmera para fazer comentários sobre as mazelas do Brasil). O ponto de partida é a morte de uma menina atingida por uma bala perdida e como a sua perda é administrada, por assim dizer, pelos seus pais (Roberto Bomtempo e Dedina Bernadelli). A presença de Hermila Guedes e Othon Bastos, ambos esforçados mas perdidos em meio aos discursos de autoajuda, só ratifica a impressão de desperdício do elenco.

Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Digital é bonito e bem feito em sua pretensa simplicidade sobre a busca de dois jovens (Pilar López de Ayala e Javier Drolas) pelo amor em meio ao isolamento das metrópoles. Mas o longa argentino que deu início à competição latino-americana carece de uma dramaturgia mais densa e de algumas escolhas menos óbvias do diretor estreante Gustavo Taretto, muitas vezes reiterativo na composição psicológica da dupla de protagonistas. O bom de Gramado 2011, por enquanto, foram mesmo os seus dois primeiros filmes.

O Palhaço (foto acima) e Riscado são imensamente diferentes entre si, o primeiro com sua fotografia cheia de filtros, paleta de cores quentes, maquiagem exagerada e interpretações às vezes teatrais, o segundo em seu registro hipernaturalista, literalmente documental em certas sequências. Mas não podiam ser mais convergentes, o que só acentua o acerto da organização ao uni-los na abertura do festival: os dois são centrados nas figuras de dois intérpretes que lutam contra um sentimento muito parecido de inadequação social.

O personagem de Selton Mello em O Palhaço faz os outros rirem, mas o que vê à sua volta só o deixa com vontade de chorar. Sua jornada Brasil adentro - jornada felliniana, que faz referência a títulos como Bye, Bye, Brasil e Feios, Sujos e Malvados - funciona, dramaticamente, como uma autodescoberta, sobretudo no que diz respeito à sua vocação. Trata-se de uma comédia triste com forte apelo melodramático, mas com uma mise en scène rigorosa e sutilezas narrativas, especialmente as elipses da metade final, que não o deixam ultrapassar as fronteiras tanto da lágrima forçada quanto do riso gratuito.

Já a protagonista de Riscado, a atriz batalhadora vivida por Karine Teles (foto abaixo), tem força suficiente para se tornar uma das grandes personagens da cinematografia brasileira recente. Sua disposição para encarar as inúmeras, intermináveis dificuldades da profissão é comovente. Contudo, ela só é de fato notável graças à capacidade de sua intérprete de sintetizar tanto estes percalços quanto toda a paixão que a atuação é capaz de provocar. A direção do jovem Gustavo Pizzi, que é marido de Karine, é bastante segura, e sua construção narrativa, explorando as imagens das figuras célebres que a atriz imita e os vídeos caseiros que ela própria realiza, só fortalecem a rica composição da personagem. Pode-se dizer desde já, Karine só perde o Kikito de melhor atriz se houver uma grande surpresa ao longo da semana no Palácio dos Festivais.


Estreias da semana - 05/08/2011

05 de agosto de 2011 0

Neste fim de semana, o grande destaque entre os filmes que estão entrando em cartaz em Porto Alegre é Melancolia (4 estrelas), dirigido por Lars Von Trier e estrelado por Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg e Kiefer Sutherland - longa sobre o apocalipse não tem Jack Bauer por acaso, não é verdade? Dá uma olhada no vídeo das estreias de cinema de hoje.

A Serbian Film é péssimo

02 de agosto de 2011 16

O Segundo Caderno de ZH deu nesta terça-feira (02) capa para a polêmica em torno de A Serbian Film - sobre a qual você pode ler aqui. Sobre o filme em si (mais informações nos posts abaixo, especialmente os da cobertura do Festival Lume), o que há a dizer é algo bem direto, como você pode ler abaixo. Fica até complicado combater a censura diante de um projeto assim. Ó:

A Serbian Film é mais do que ruim; é péssimo.

Dificilmente estaríamos falando sobre ele, quanto mais dando capas de suplementos culturais dos jornais, não fosse a grande bobagem que começou com a senhora desembargadora Katerine Jatahy Nygaard, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro. Foi um típico caso de tiro no próprio pé: A Serbian Film seria visto por um público adulto e bem específico, que provavelmente já viu este tipo de violência no cinema; com a proibição, o caso se tornou muito mais amplo, e a mobilização em torno do filme, muito maior.

As imagens do longa de estreia de Srdjan Spasojevic são asquerosas, mas o que o torna tão lastimável é o fato de ele se levar a sério, de imbuir por trás da trasheira um discurso político lamentável que relaciona o terror de cunho sexual ao horror real vivido pela Sérvia nos últimos anos e ao "estado de degradação" a que chegou a humanidade atualmente. A história é a de um astro pornô aposentado que recebe uma proposta milionária para fazer um snuff movie - título de terror extremo. Foi "o escolhido" devido a sua capacidade de performance acima da média. Deve apenas assinar o contrato sem saber o que exatamente será obrigado a fazer.

Antes de entrar nas filmagens em si, A Serbian Film parece um daqueles longas eróticos soft da série Emanuelle, inofensivos inclusive na sua capacidade de excitar o espectador. Quando o protagonista, interpretado por Srdjan Todorovic, entra no misterioso set de filmagens, o tom muda. A sequência mais forte é aquelas em que o produtor que o contrata apresenta um vídeo em que há um parto e, na sequência, a criança é violentada por um de seus homens. Nunca há sexo explícito e, neste trecho particularmente, fica claro que o bebê é na verdade um robô - não fosse tão nojento, A Serbian Film seria involuntariamente cômico.

Quando o astro pornô pensa em saltar fora já é tarde demais: ele foi drogado enquanto via este vídeo e agora pode ser manipulado à vontade. Vai estuprar uma mulher e matá-la durante o ato e, ao fim, na outra de suas cenas mais repugnantes, será obrigado a transar com duas pessoas que estão com os corpos cobertos - só depois vai descobrir que elas são a sua mulher e o seu filho de no máximo 10 anos de idade.

Nada seria tão ruim não fosse tudo isso justificado pelo tal "estado de degradação" da humanidade. A única coisa que faz A Serbian Film uma produção defensável é, justamente, a inoportuna intervenção do Estado, que o impediu de seguir o seu curso natural - no caso, ser exibido aqui e ali e esquecido muito mais rapidamente do que imaginaram aqueles que, na tentativa de censurá-lo, apenas jogaram mais luz sobre ele.

Um mistério de Lisboa

01 de agosto de 2011 0

Um dos melhores e mais ativos cineastas do mundo atual, Manoel de Oliveira tem 102 anos e segue firme rodando ao menos um longa-metragem por ano. Sublinhe-se a palavra "atual", por mais paradoxal que pareça: cada vez mais, o português depura um estilo refinado, essencialmente contemporâneo, que resulta em narrativas bastante concisas mas de uma complexidade rara, só atingida graças ao pleno domínio dos recursos de que dispõe.

E olha que não são muitos: O Gebo e a Sombra, que ele vai filmar em setembro, em Paris, tem orçamento de 1,6 milhão de euros, mais ou menos o mesmo que O Estranho Caso de Angélica (2010) e o ainda não lançado A Igreja do Diabo. O longa imediatamente anterior a estes, Singularidades de uma Rapariga Loira, é provavelmente o grande destaque desta sua fase e um dos pontos altos de sua prolífica carreira - que começou, atenção ao que você vai ler, com filmes silenciosos, lançados ainda no tempo do cinema mudo.

Singularidades, que passou pelo circuito de festivais em 2009 e foi ganhando as salas de cinema ao longo de 2010, estreou neste fim de semana em Porto Alegre. O título estranho e belo é o mesmo do conto em que se inspira, lançado por Eça de Queirós em 1874 e considerado um dos primeiros de cunho realista escrito em língua portuguesa. Seu tema central não é este, mas Oliveira aproveita o deslocamento temporal para fazer, também, um ensaio sobre o tempo.

São apenas 63 minutos de filme. O primeiro plano, de mais de cinco minutos, mostra o fiscal de um trem perfurando os bilhetes de todos os passageiros do vagão onde estão o protagonista, Macário (Ricardo Trêpa), e a interlocutora (Leonor Silveira) para quem ele vai contar a sua história de paixão por Luísa (Catarina Wallenstein), a jovem referida no título. Oliveira é um velhinho provocador: depois daquele início interminável, constrói uma narrativa seca, que causa espanto pela rapidez com que os acontecimentos se sucedem sem que se percam as suas mais significativas sutilezas.

Singularidades trata do desejo com pessimismo e ironia. Usa alguns signos contemporâneos - Macário trabalha à frente de um computador, por exemplo - mas deixa claro, pelas convenções sociais a que os personagens estão submetidos, que considera tudo aquilo absolutamente arcaico. Antes da grande desilusão, o protagonista vai ter de largar tudo o que tem porque o tio com quem vive não aceita que ele se case com Luísa. Oliveira está satirizando a pompa dos cortejos amorosos - em toda e qualquer época.

A paixão de Macário surge quando ele vislumbra a amada pela janela, numa imagem parecida com a da fotografia abaixo. O plano em que a garota aparece é dos mais marcantes dos últimos tempos. Primeiro, vê-se uma senhora mais velha. "Imagino como ela deve ter sido bela quando jovem", ele pensa. Ela sai. E então aparece Luísa.

O espectador pode ficar em dúvida: seria uma visão do passado? Na verdade, tudo vai se explicando rapidamente com o passar do tempo - de novo o tempo -, muito embora novos mistérios passem a surgir a todo o instante, sempre acerca da enigmática e excêntrica figura da rapariga loira. Singularidades lembra Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977), de Buñuel, mas pode ser associado a todos os bons filmes que questionam o valor das imagens que eles próprios apresentam - como, por exemplo, o recente Cópia Fiel (2010), de Kiarostami. Não é pouca coisa.