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Estreias da semana - 14/10/2011

14 de outubro de 2011 0

O cantor silencioso

Destaque da programação da Mostra Lume Filmes, em cartaz até o dia 27 na Cinemateca Paulo Amorim, o uruguaio Hiroshima – Um Musical Silencioso estreia amanhã em Porto Alegre. É o primeiro longa-metragem que Pablo Stoll, 37 anos, dirige sem a parceria de Juan Pablo Rebella, com quem dividiu a direção dos ótimos 25 Watts (2001) e Whisky (2004). É também o seu filme mais pessoal e aquele que Stoll dedica à memória de Rebella, que se suicidou em 2006, aos 32 anos.

O título é inusitado, mas não mente a respeito da forma de Hiroshima: trata-se, por mais que pareça contraditório, de um musical silencioso – um filme praticamente sem diá­logos e com música quase onipresente. A história é a de Juan Andrés Stoll, personagem vivido pelo irmão do diretor. Pode-se dizer que boa parte da família está ali, o que inclui os pais de ambos, e também seus amigos – até o realizador de Gigante (2009), Adrián Biniez, faz uma ponta como vendedor em uma feira de antiguidades de Montevidéu.

Mais: a casa que se vê é a mesma em que Juan Andrés mora com os pais, seus parceiros de cena representam papéis que lhes cabem na vida real e todas as canções da trilha são da banda do protagonista ou das bandas de seus amigos – todas de post rock ou pós-punk, quase sempre na linha do trabalho dos escoceses do Mogwai, com suas melodias complexas e, não à toa, com poucos vocais.

Ouvem-se todos os ruídos de cena em Hiroshima, bola quicando no chão, louças batendo na pia etc., exceto os diálogos de seus personagens. Estes são apresentados em letreiros brancos sobre cartelas pretas, como nos tempos do cinema mudo. A intenção de Stoll é clara: falar da incomunicabilidade, de isolamento e pertencimento do jovem contemporâneo ao contexto em que vive. Juan Andrés trabalha numa padaria pela madrugada, quando o filme inicia, mas no fim de sua jornada – ao que tudo indica, no final das mesmas 24 horas – já terá ganho dois outros empregos, além de ter encontrado a namorada, ter sido assaltado, jogado futebol com amigos, andado de bicicleta pela periferia da capital uruguaia com os fones de ouvido dos quais ele nunca se separa.

O que ele procura? Não fica claro, e é bom que seja assim. Hiroshima foge dos clichês dos filmes sobre a dificuldade de crescer e se encontrar no mundo atual. Além do formato surpreendente, tem uma dramaturgia consistente mesmo sem apresentar detalhes psicológicos ou do passado do personagem. Em vez de elipses narrativas, a trama se constrói sobre fragmentos de sua rotina, todos simbólicos de um estado de espírito que é ao mesmo tempo seu e de toda uma geração – demonstrando conformismo, ele praticamente só balbucia “claro”, “sim” e “pode ser”.

Uma vertente a que ele se filia é a das autoficções, cada vez mais em voga no cinema contemporâneo. A exemplo da coprodução Brasil-Uruguai Além da Estrada, título imperdível de Charly Braun que segue em cartaz na Sala P.F. Gastal, lugares e momentos íntimos de seus realizadores são revisitados – até trechos de filmes familiares em Super-8 aparecem na trama. No caso de Hiroshima, esses filmes trazem imagens do diretor e também do ator principal, quando ambos eram crianças. É outra subversão: em vez de uma ficção sobre si próprio, Stoll centrou a sua história no irmão.

Hiroshima é bem diferente não apenas dos citados Whisky, 25 Watts e Gigante, mas também de Coração de Fogo (2002) e O Banheiro do Papa (2007). Não é o melhor, mas é o mais inventivo dos longas uruguaios a chegar ao Brasil nos últimos tempos.

Whisky de volta
Segundo longa de Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella, Whisky será exibido em uma sessão diária no Instituto NT a partir de amanhã. A programação especial, elaborada para marcar a estreia de Hiroshima em Porto Alegre, permite aos cinéfilos da cidade o reencontro com um de seus filmes preferidos nas últimas temporadas: em 2005, quando estreou na Capital, Whisky bateu o recorde de permanência naquele ano na Capital.

Até por ser um trabalho com uma pegada diferente, era o filme da confirmação do talento da dupla que estreara em 2001 com o enérgico 25 Watts. Se no primeiro longa eles falavam de problemas da juventude num tom que lembrava o do Trainspotting de Danny Boyle  (1996), no segundo surpreenderam com um roteiro intimista sobre a aproximação de um solitário homem maduro (Andrés Pazos) com uma funcionária de sua fábrica de meias (Mirella Pascual) numa Montevidéu ainda mais velha e decadente.

Com seu humor sutil, refinado, e sua maturidade tanto no domínio da linguagem quanto na abordagem do tema, Whisky encantou plateias por todo o mundo: conquistou o prêmio da crítica no Festival de Cannes e o Goya de melhor filme estrangeiro (fora da Espanha), entre várias outras distinções (o que inclui três Kikitos em Gramado, melhor filme latino-americano inclusive). Estará em cartaz às 21h30min, desta sexta até a próxima quinta-feira, na pequena e aconchegante sala da Rua Marquês do Pombal, 1.111.

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