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Mostra de SP: volta ao mundo

24 de outubro de 2011 0

É uma verdadeira volta ao mundo. Durante duas semanas, os cinéfilos brasileiros fazem fila e superlotam as salas paulistanas para ver filmes premiados no circuito internacional de festivais ou simplesmente pinçados pela atenta curadoria da Mostra Internacional de São Paulo em países dos cinco continentes.

Os dois vencedores do Grande Prêmio do Júri em Cannes 2011, um vindo da Bélgica, outro da Turquia, estão entre os destaques dos primeiros dias do evento, que começou na quinta-feira passada e se estende até o dia 3 aqui na capital paulista. Os outros vêm da Argentina (o que, dada a qualidade dos longas do país vizinho, não é uma surpresa), do Leste Europeu (idem) e de países asiáticos como o Japão e a Coreia do Sul (cada vez mais afirmada como uma das melhores cinematografias do mundo atualmente).

Uma grande notícia é o novo longa de Cesar Charlone: Artigas é, seguramente, um dos melhores filmes já feitos sobre o mito do gaúcho. Mais sobre ele e os demais destaques da Mostra (tome fôlego, fiz condensado, mas são muitos filmes) você lê a seguir:

Jorge Esmoris é o uruguaio José Artigas no filme de Cesar Charlone

O gaúcho como nunca visto
Uruguaio radicado em São Paulo, Cesar Charlone fez carreira como diretor de fotografia (de Cidade de Deus, entre outros) e se lançou à direção com o aclamado O Banheiro do Papa (codirigido por Enrique Fernández). Ele acompanhou pessoalmente a primeira sessão de Artigas, seu segundo longa, nesta 35ª Mostra. Andava pela Reserva Cultural procurando um espacinho para pendurar o cartaz do filme, mostrou-se tenso com o atraso de 15 minutos de chegada da cópia, mas, ao fim, deve ter ficado satisfeito: o grupo de jornalistas e pesquisadores que o cercou após a exibição tinha elogios sinceros a fazer. Não é para menos: o filme que apresenta o histórico herói uruguaio José Artigas (1764-1850) a partir da visão do pintor Juan Manuel Blanes é contundente, muito bem realizado apesar das limitações de recursos para a recriação de época e, sobretudo, emocionante mesmo que mantendo distância de seu objeto de estudo.

É desde já um dos destaques latinos do evento, juntamente com os argentinos O Desaparecimento do Gato, de Carlos Sorín (de Histórias Mínimas), e Um Mundo Misterioso, de Rodrigo Moreno (de O Guardião). Ambos lotaram a enorme sala do Cine Livraria Cultura na sexta-feira à noite. O primeiro, com seu humor negro sobre a volta à rotina de um professor que esteve internado para tratamento psiquiátrico, agradou mais à plateia, mas o melhor deles é o segundo, verdadeiro tratado sobre o isolamento e a incomunicabilidade da juventude portenha – um Revéillon numa oficina mecânica e uma festa na cozinha de um apartamento são daquelas sequências que não saem facilmente da memória.

Entre os brasileiros, todas as atenções estão voltadas para Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, filme que Beto Brant, um dos mais representativos diretores paulistas contemporâneos, codirige com Renato Ciasca a partir do livro de Marçal Aquinho. O trio tem vários projetos conjuntos, contudo, este talvez seja o melhor deles – até porque a história do quentíssimo triângulo amoroso entre uma ex-prostituta (Camila Pitanga), um pastor evangélico (Zecarlos Machado) e um fotógrafo (Gustavo Machado) numa pequena comunidade do Pará é uma espécie de súmula dos temas preferidos do trio, sobretudo aqueles que envolvem as relações de dominação entre homem e mulher. Há muito sexo, como você já deve ter ouvido falar, mas bem mais do que isso. Não perca quando Eu Receberia estrear no circuito, em março de 2012.

Yu Jun-sang (D) protagoniza The Day He Arrives, de Hong Sang-soo

Reverência aos asiáticos
Alguns dos grandes momentos da Mostra de São Paulo são proporcionados por certos filmes asiáticos, aqueles que são reverenciados nos festivais europeus e estão entre o que de melhor se produz no cinema global atualmente mas que, mesmo assim, não conseguem espaço para estrear no circuito brasileiro. Os antenados cinéfilos paulistanos sabem que as oportunidades de vê-los são raras, tanto é que lotaram a maior sala do Unibanco Arteplex do Shopping Frei Caneca às 16h de sexta-feira para ver o excelente sul-coreano The Day He Arrives.

Comédia romântica superprovocativa, em preto e branco, com idas e vindas no tempo e repetições propositais de diálogos e situações, o filme apresenta um cineasta em crise e seus encontros e desencontros com as mulheres de Seul – e confirma o talento superlativo do diretor Hong Sang-soo, que já fora premiado em Cannes em 2010 com seu filme anterior, Hahaha. Também demonstra o quanto se pode esperar do cinema da Coreia do Sul para além dos dramas intensos como Oldboy, Mother e Poesia.

Do Japão veio Hanezu, espécie de mistura de Ozu com Apichatpong – ou um drama familiar cotidiano pontuado pela convivência harmônica entre homem e natureza e até uma visita a vidas passadas – dirigida pela cineasta Naomi Kawase. No mesmo Arteplex, sábado, havia gente esparramada pelos corredores da sala, sentada no chão, entre as poltronas, vidradas na história que recorre a lendas milenares para falar da aproximação entre um homem e a sua mulher.

Até a sessão de um filme ruim (a coprodução China/Japão Novo Mundo, de Lim Kah Wai), na noite de domingo, invadindo a madrugada de segunda-feira, arrastou um grande público para o Cine Sabesp, no bairro de Pinheiros. Tudo bem: com tantas opções e produções vindas de fontes tão seguras, as decepções geralmente vêm em número bem menor do que as surpresas e as confirmações.

Firat Tanis interpreta o assassino de Era uma Vez na Anatólia, filmaço de Nur Bilge Ceylan

Da Sérvia à Anatólia
Depois de estrear com o pessoalíssimo A Culpa É do Fidel, a francesa Julie Gavras, filha de Costa Gavras, provocava expectativa para o seu segundo longa ficcional. Tratando de envelhecimento e dirigindo Isabella Rossellini e William Hurt, a diretora não decepcionou e demonstrou maturidade na condução do drama britânico Late Bloomers: o Amor Não Tem Fim – filme com poucas inquietações autorais mas grande capacidade de comunicação com o público que tem estreia nacional marcada para o próximo dia 11.

Em registros completamente diferentes, o sérvio Look, Stranger, de Arielle Javitch, e o romeno Loverboy, de Catalin Mitulescu, registram de maneira crua a perda de valores em regiões europeias marcadas por graves problemas sociais – a curiosidade é que a atriz Anamaria Marinca, rosto mais marcante do novo e pungente cinema romeno, é a estrela do drama vindo da Sérvia que narra a luta desesperada pela sobrevivência de uma mulher num país devastado pela guerra.

Mas os grandes destaques vindos da Europa são o belga O Garoto de Bicicleta, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, e Era uma Vez na Anatólia – que na verdade é todo rodado na região citada no título, que fica na parte asiática da Turquia. Este último, assinado pelo excelente diretor Nuri Bilge Ceylan (de Três Macacos), merecia ainda mais do que o Grande Prêmio do Júri em Cannes. Conta a jornada de uma noite de um grupo formado por 12 pessoas, entre elas o promotor, o chefe de polícia e o médico legista de uma pequena localidade da Anatólia, em busca do corpo de um homem assassinado. Trata-se de uma história de mistério, porém, narrada de maneira oposta à dos policiais convencionais, num ritmo contemplativo e com uma dramaturgia minimalista que encontra transcendência a partir daquilo que, em vez de mostrar, apenas sugere – a brutalidade das relações pessoais, sobretudo.

É uma pena que, por enquanto, Era uma Vez na Anatolia ainda não tenha distribuidor garantido no Brasil. O Garoto de Bicicleta tetem estreia nacional prevista para 16 de dezembro.

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