Nunca houve um ano como 2011 no cinema brasileiro. Não que nesta temporada a produção nacional esteja quebrando recordes de ocupação do mercado ou que tenha atingido um patamar de qualidade superior. Não se trata disso. O feito alcançado é menor, mas representa muito para uma cinematografia que patina para conquistar espaço no circuito e, ao mesmo tempo, evoluir esteticamente. Em 2011, uma nova geração de cineastas está conseguindo apresentar seus longas-metragens nas salas do país e, o que é mais importante, está trazendo alternativas não apenas de exibição, mas também de produção – a maneira com que estes longas são realizados não raramente se reflete na forma dos filmes e se revela diretamente responsável por alguns de seus aspectos mais positivos.
Até o fim de outubro, mais de 80 títulos brasileiros já haviam estreado no circuito nacional desde 1º de janeiro. Em toda a temporada 2010, foram 76 filmes. Pelo menos desde 2006 a média tem ficado entre 70 e 80 estreias anuais, segundo o Filme B, principal portal de dados do mercado nacional. Em 2011, a conta deve bater na casa dos cem longas, se confirmadas as previsões. Não se pode dizer que estes números, em si, representam uma evolução, dado que tem havido uma quantidade variável, porém significativa, de produções irrelevantes tanto pela ocupação das salas quanto pelo conteúdo que oferecem. A questão é que o aumento de lançamentos, este ano, coincide com a aparição de uma nova safra de realizadores que está conseguindo renovar a produção nacional. Em outras palavras, a diferença a mais no total de longas lançados representa a aparição de uma real novidade, que diz respeito à estética e vai além da objetividade dos números.
Essa novidade está nas referências contemporâneas de A Alegria, na chamada política à reflexão sobre a imagem e a narrativa cinematográfica de Os Residentes, na notável construção da protagonista de Riscado, na linda fábula sobre o tempo e a ausência que é o ainda inédito no circuito Sudoeste. A renovação é abrangente e está, também, em três road movies recentes que usam a estrada como elemento cênico e narrativo fundamental: Estrada para Ythaca, Além da Estrada e A Última Estrada da Praia. Em cartaz desde esta sexta-feira (04/11) em mostra da Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, esses três longas têm em comum os baixos orçamentos, a criatividade de realização para suplantá-lo, vários momentos inspirados e, consequência de tudo isso, uma vitalidade rara.
Jill Mulleady e Esteban Feune de Colombi em Além da Estrada
A criatividade, em todos os casos, não diz respeito apenas a aspectos financeiros ou de viabilização dos filmes. É a tradução, em termos práticos, de ideias sobre a linguagem e os caminhos que ela tem percorrido desde o surgimento das câmeras digitais portáteis, da popularização dos vídeos caseiros na internet, de uma espécie de globalização da imagem que nos aproximou de cinematografias antes distantes como a de alguns países da Ásia e do Leste Europeu e, ainda, da rejeição do mercado e também do grande público às produções que ousam ser diferentes daquilo que se vê estabelecido no mainstream – do cinema ou da televisão. Trata-se de uma via de duas mãos: as novas gerações que estão empenhadas em fazer filmes autorais incorporam um imaginário alternativo cada vez mais difundido, porém, ao mesmo tempo, são excluídas do esquema das grandes distribuidoras. O que as fez entrar para a estatística em 2011 foi buscar soluções não somente para realizar os seus longas, mas também para distribuí-los.
A Última Estrada da Praia, adaptação gaúcha de O Louco do Cati, de Dyonelio Machado, foi concebido como um programa da série Escritores, da RBS TV, que tinha duração de menos de meia hora e foi ao ar em 2007. Virou um longa-metragem que cavou seu lugar no circuito porque seu diretor, Fabiano de Souza, soube agir potencializando os recursos limitados de que dispunha e também porque a sua produtora, Okna, resolveu ela própria distribuir o filme batendo à porta dos exibidores – as salas de cinema propriamente ditas. O caso de Estrada para Ythaca e Além da Estrada é outro: ambos fazem parte de um projeto de distribuição criado pela Vitrine Filmes que está dando a pelo menos 20 títulos recentes a oportunidade de exibição nos cinemas de grandes cidades brasileiras. Não é exatamente uma ação entre amigos, sobretudo porque a Vitrine é uma produtora profissional, estabelecida no mercado (em São Paulo), o que significa dizer que não trabalha para “dar uma forcinha”, e sim porque acredita nos filmes nos quais investe.
É bom lembrar que A Última Estrada da Praia não é o primeiro e nem será o último projeto surgido nesses termos, e que chega ao mercado dessa forma. E ainda que a Vitrine, embora precursora devido ao tamanho de sua empreitada, não está inventando nada. O que é preciso ressaltar é que iniciativas assim só existem porque, por trás delas, há uma significativa demanda de produção. Não houvesse Estrada para Ythaca e Além da Estrada, entre alguns outros (inclusive citados anteriormente), não haveria distribuição da Vitrine. Não houvesse a inquietação artística de Fabiano de Souza, não haveria o seu filme e, consequentemente, o esforço da Okna.
Miriã Possani, Marcos Contreras, Rafael Sieg e Marcelo Adams em A Última Estrada da Praia
Estrada para Ythaca e Além da Estrada são duas verdadeiras cartas de intenções da novíssima produção nacional. O primeiro é assinado pelos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e pelos primos Guto Parente e Pedro Diógenes, quarteto que integra o coletivo Alumbramento, de Fortaleza (CE). No filme, os quatro são autores, técnicos e personagens numa viagem de carro rumo a Ythaca – Homero e Kaváfis são referências ao mesmo tempo eruditas e espirituosas: eles estão de porre quando resolvem partir, em homenagem a um amigo que perderam e que por isso não pode compartilhar aquela celebração, mas o que importa, no fundo, não é o objetivo final, e sim o que a experiência de percorrer aquele caminho proporcionará. Embora assente sua base dramatúrgica sobre citações (Glauber, Godard e Caetano em uma única sequência, por exemplo), que fortalecem o longa como manifesto estético, o inesperado cumpre papel fundamental no envolvimento do espectador com os autores-personagens. Em vez de se diluir, a noção de autoria se fortalece. Graças ao sistema de produção. Numa cinematografia que, a despeito do barateamento dos equipamentos de captação e montagem, repete à exaustão sistemas de produção envelhecidos e nem sempre eficazes porque emulam Hollywood mesmo que não consigam reproduzir seus resultados, trata-se de algo muito pertinente.
Também responsável por longas como Sábado à Noite, Praia do Futuro e Os Monstros, o Alumbramento tem como uma das marcas de seu trabalho a incorporação de elementos da linguagem das artes visuais – não por acaso um traço recorrente do cinema contemporâneo universal, e não à toa uma característica do melhor road movie brasileiro dos últimos anos, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009). Além da Estrada, nesse sentido, é bem diferente.
Coprodução Brasil-Uruguai, o primeiro longa do bom diretor de curtas-metragens Charly Braun, 31 anos, está longe de termos como clássico e acadêmico, mas sua abordagem da linguagem é um tantinho mais tradicional. Seu vigor, paradoxalmente, é raro até mesmo em meio ao que o país produziu de mais interessante nos últimos tempos. O caráter semidocumental é responsável apenas em parte por esse resultado: há de se considerar que, na história do jovem argentino rico que, após a morte dos pais, viaja ao encontro de um terreno herdado pela família no litoral do Uruguai, há não apenas a abertura para o imprevisível e o inesperado, mas, fundamentalmente, um tom ainda mais confessional do que o de Ythaca. Os lugares visitados pelo protagonista (vivido pelo argentino Esteban Feune de Colombi) nas províncias uruguaias de Rocha e Maldonado fazem parte do imaginário pessoal do diretor, que morou ou tem familiares nos dois países do Prata – como fica evidente nos créditos finais, quando são exibidas fotografias suas nos locais onde Além da Estrada foi filmado.
O frescor narrativo e o sentido de verdade de suas imagens devem-se a essa combinação. Ou melhor, devem-se, isso sim, à capacidade de Braun de manipular a linguagem a partir dessas opções – não é a simples escolha de um caminho que vai determinar o sucesso de um projeto, mas essa escolha aliada ao talento de quem o percorre. Não deixa de ser uma metáfora para o novíssimo cinema brasileiro como um todo, este que se joga à estrada disposto a enfrentá-la mesmo sem saber o que vai encontrar pela frente e, mais do que isso, pronto para encará-la ainda que ela revele as angústias e os dilemas particulares de seus realizadores. Além da Estrada, aliás, tem uma mise-en-scène melhor do meio para o fim, e atinge seu ápice na belíssima sequência final, o que permite vislumbrar que, conforme passa o tempo em campo, mais adaptada – ou entregue – está a equipe de filmagens. Hoje em dia, as novas gerações provam, mais importante do que ir atrás de recursos buscando usá-los apenas para reproduzir fórmulas do passado é ter disposição para, com os recursos que se tem, mergulhar nas revelações que o desconhecido pode trazer.
Estrada para Ythaca, de Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes
O melhor da novíssima geração
Entre os bons filmes dos jovens cineastas brasileiros há títulos cuja abordagem aproxima a linguagem do cinema à das artes plásticas, casos, por exemplo, de Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo (CE, 2009), e do longa de direção coletiva Praia do Futuro (CE, 2008) - ambos do grupo cearense Alumbramento. Há, também, em quantidade maior, aqueles que visitam os limites do documentário, como Terras, de Maya Da-Rin (RJ, 2009), Álbum de Família, de Wallace Nogueira (BA, 2010), e Morro do Céu, (RS, 2009), no qual o diretor Gustavo Spolidoro acompanha o dia a dia de um adolescente no interior do município de Cotiporã, na serra gaúcha. Outros:
> O Céu sobre os Ombros (MG, 2010). O documentário de Sérgio Borges acompanha - ou seria reencena? - episódios da vida de três personagens sui generis que moram em Belo Horizonte. Estreia nacional marcada para 18 de novembro.
> Terra Deu, Terra Come (SP, 2009). Filme de estreia do diretor Rodrigo Siqueira, é um falso documentário provocativo e sofisticado sobre um ritual fúnebre de matriz africana encenado na região de Diamantina (MG). Estreou em Porto Alegre em março de 2011.
> Um Lugar ao Sol (PE, 2009). Dirigido por Gabriel Mascaro (de Avenida Brasília Formosa, 2010, também distribuído pela Vitrine Filmes), é um documentário incômodo sobre a vida dos privilegiados moradores de coberturas de grandes cidades brasileiras. Já passou no circuito.
> Chantal Akerman, de Cá (RJ, 2010). Filme de Leonardo Luiz Ferreira (crítico de cinema) e Gustavo Beck (de A Casa de Sandro, 2009) que investiga as ideias da artista belga Chantal Akerman a partir de uma entrevista registrada num único plano. Estreou via Vitrine Filmes.
> Pacific (PE, 2010). O revelador, premiado e controvertido longa de Marcelo Pedroso narra um cruzeiro de Recife a Fernando de Noronha usando somente imagens das câmeras particulares dos passageiros. Vencedor do CineEsquemaNovo 2011, já foi exibido no circuito.
> Estrada Real da Cachaça (RJ, 2009). De Minas Gerais a Paraty (RJ), o diretor Pedro Urano refaz o percurso dos fabricantes artesanais de cachaça e usa a bebida para promover um encontro do espectador com a cultura popular brasileira. Também já foi exibido nos cinemas.
Lwei, um dos três personagens de O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges
Além de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz (a dupla de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo), outros cineastas de uma geração anterior, mas com inquietações semelhantes de linguagem, abriram caminho para o que vem sendo chamado de novíssimo cinema brasileiro. Entre eles estão Cao Guimarães (de Andarilho e Ex Isto), José Eduardo Belmonte (A Concepção e Meu Mundo em Perigo), Joel Pizzini (500 Almas e Anabasys) e Lírio Ferreira (O Homem que Engarrafava Nuvens e Cartola - Música para os Olhos). Há ainda realizadores da mesma geração dos cineastas que despontam em 2011, mas que estrearam antes no longa-metragem, como Eryk Rocha (Rocha que Voa e Transeunte), Bruno Safadi (Meu Nome É Dindi e Belair), Petrus Cariry (O Grão e Mãe e Filho), Marília Rocha (Aboio e A Falta que me Faz) e Bruno Vianna (Ressaca e Cafuné). Reuni-los nem sempre faz sentido, afinal, a diversidade de nomes corresponde à diversidade de suas propostas estéticas, mas pode-se dizer que a linha mestra desta produção é formada por ficções que refletem sobre as próprias imagens que apresentam a partir de três tipos de abordagem - as que exploram o registro documental, as que se enquadram na vertente batizada de "autoficção" e as que pensam a sua narrativa a partir da emulação de referências do universo contemporâneo. Alguns de seus destaques:
> Riscado (RJ, 2010). Trabalhando no registro semidocumental, o diretor Gustavo Pizzi (parceiro do produtor Cavi Borges, referência da nova produção carioca) constrói com sua mulher, Karine Teles, um retrato intimista de uma atriz e suas agruras para vencer na carreira artítica. Premiado em Gramado e no Festival do Rio, já estreou no circuito nacional.
> Os Residentes (MG, 2010). Mais político dos filmes da geração, o longa de Tiago Mata Machado retoma o espírito libertário dos anos 1960 para narrar a trajetória de um grupo que instaura uma "zona autônoma temporária" numa casa abandonada. Os protagonistas são os gaúchos Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Estreou em Porto Alegre no CineBancários.
> Estrada para Ythaca (CE, 2010). Também realizadores de Os Monstros (2011), em que filmam a sua própria incompreensão como artistas, Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes são autores e personagens deste road movie que é um dos bons exemplos do que se convencionou chamar de autoficção no país. Já foi exibido nos cinemas.
> Além da Estrada (Brasil/Uruguai, 2010). Primeiro longa de Charly Braun, incorpora imagens e personagens reais à narrativa ficcional de um jovem argentino que viaja pelo litoral uruguaio. Premiado nos festivais Lume e do Rio, tem trilha sonora e referências pop e algumas sequências, ao final, memoráveis. Também já passou no circuito.
> A Alegria (RJ, 2010). Título de maior projeção da trilogia Coração de Fogo, que a dupla Felipe Bragança e Marina Meliande compôs sobre a juventude brasileira com os longas Desassossego (2010) e A Fuga da Mulher Gorila (2009). Emula a obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul para falar de violência e opressão no Rio de Janeiro atual. Estreou na Sala P.F. Gastal e no Unibanco Arteplex e nas últimas semanas voltou ao circuito da capital gaúcha.
> A Última Estrada da Praia (RS, 2010). Diretor dos ótimos curtas Cinco Naipes e Um Estrangeiro em Porto Alegre, Fabiano de Souza na nouvelle vague francesa as principais referências para elaborar a consistente dramaturgia deste road movie litorâneo sobre jovens em busca de liberdade. Já estreou, primeiramente, em Porto Alegre - em outras capitais, deve ficar para 2012.
Gustavo Jahn e Melissa Dullius em Os Residentes