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Posts de novembro 2011

O talento e o maneirismo de Xavier Dolan

29 de novembro de 2011 2

Quando surgiu com Eu Matei Minha Mãe (2009), o canadense Xavier Dolan foi incensado como um talento do cinema contemporâneo. A empolgação fazia sentido à medida que se firmava a partir de um filme de enorme intensidade dramática, altamente confessional mas muito competente no uso das ferramentas da linguagem para se expressar. Seus excessos não comprometiam: o que ficou da estreia de Dolan foi, a despeito de sua imaturidade (tinha 18 anos quando iniciou o projeto e 20 quando o lançou), a sua capacidade de transformar uma história pessoal num longa capaz de emocionar o público.

Não se pode dizer o mesmo de Amores Imaginários (2010), seu segundo filme, que está em cartaz em Porto Alegre. No novo longa, Dolan repete somente os excessos do primeiro, e, talvez por seu distanciamento da história (desta vez não se trata de um drama pessoal), elabora uma dramaturgia mais pobre e com menos capacidade de tocar o espectador. Amores Imaginários tem seus bons momentos e está longe de ser um filme ruim. Mas não tem a intensidade de Eu Matei Minha Mãe.

O triângulo amoroso formado por Dolan e a dupla Monia Chokri e Niels Schneider (antes vistos em pontas em A Era da Inocência, de Denys Arcand) é interessante em sua origem – o bonitão que desperta simultaneamente o amor em dois amigos, uma mulher heterossexual e seu "best friend" gay (Dolan) –, mas pouco inspirado em seu desenrolar. No roteiro escrito pelo próprio diretor veem-se muitas elipses e poucas sequências de real conflito, o que resulta numa construção dramática um tanto capenga. Não chega a se concretizar a tensão esperada em uma situação como esta.

Perfumaria há de sobra: câmeras lentas e filtragem fotográfica são recursos utilizados a todo instante, às vezes homenageando sequências de outros filmes – de Wong Kar Wai em particular. Vive La Fête (duo franco-belga de electrorock, que já aparecia em destaque no primeiro longa) e Dalida (com uma versão italiana de Bang Bang, canção ouvida no Kill Bill de Tarantino) acentuam o ar contemporâneo calcado na mistura de referências que conquistam em um primeiro momento. Expreme-se tudo, no entanto, e o que resta é um caldo de muito pouca espessura.

É um caso clássico de maneirismo autoral, no qual o realizador está excessivamente preocupado em dotar o seu trabalho de traços do trabalho dos outros, que acabam sufocando a sua própria expressão. O ator e diretor nascido em Québec em 1989 tem talento, mas precisa repensar algumas escolhas para Lawrence Anyways, seu terceiro longa, que tem previsão de lançamento para 2012. Menos muletas narrativas (desta vez foi o excesso de elipses e efeitos de pós-produção) e mais complexidade na abordagem dos temas (o que não falta a Eu Matei Minha Mãe), por exemplo.

Acima, o trailer de Amores Imaginários com legendas em português. Abaixo, a sequência, na íntegra, na qual o espectador vê Francis (Dolan) e Marie (Monia Chokri) se preparando para encontrar Nicholas (Niels Schneider), ao som da versão de Dalida para Bang Bang. É puro Wong Kar Wai e, ao mesmo tempo, reverente a Tarantino. Momento muito bonito – se visto isoladamente. Para ser um grande autor, Xavier Dolan terá de fazer mais. O bom é que tem potencial para isso.

Estreias da semana - 25/11/2011

25 de novembro de 2011 0

Uma semana depois da quebra do recorde de ocupação das salas brasileiras (1.104 cinemas tomados por Amanhecer - Parte 1), Porto Alegre recebe 15 novos filmes - 11 estreando e quatro em pré-estreia. Boa parte desses filmes, no entanto, chega em pouquíssimos cinemas e em sessões bastante restritas. Não é exatamente o caso de Minhas Tardes com Margueritte e Late Bloomers - O Amor Não Tem Fim: ambos entram primeiramente em sessões de pré-estreia, iniciando um percurso no circuito que tem tudo para ser longo e exitoso, dada a temática e a capacidade de encantamento que possuem. São longas cheios de apelo que dialogam com todos os tipos de público e que abordam a maturidade - de formas diferentes, porém, com a mesma graça e sensibilidade. Veja!

Estreias da semana - 18/11/11

18 de novembro de 2011 2

A grande pedida para os cinéfilos, neste fim de semana de estreia de um novo arrasa-quarteirão da saga Crepúsculo, é a 8ª Seleção de Filmes, antiga Seleção Bourbon, produzida pela Panda Filmes e que traz a Porto Alegre, Novo Hamburgo e São Leopoldo 14 longas inéditos no circuito local. No vídeo desta sexta-feira destacamos o Fausto de Sokurov, O Porto de Kaurismäki e O Garoto da Bicicleta dos irmãos Dardenne. Mas tem mais, muito mais, como você pode ler na matéria de apresentação da mostra que publicamos aqui.

Como resistir à invasão dos vampiros

17 de novembro de 2011 5

Segundo dados de 2010 da Ancine, o Brasil conta com 2.206 salas de cinema. Pois metade delas, 1.100, serão ocupadas nesta sexta-feira por Amanhecer — Parte 1,  primeiro capítulo do epílogo da saga vampiresca Crepúsculo. O recente boletim do portal Filme B informa que se trata de uma ocupação do circuito nacional possivelmente sem precedentes – em abril, a animação Rio estreou de forma retumbante em 1.024 salas.

No Rio Grande do Sul, são 142 salas de exibição. E das 66 de Porto Alegre,  25  estarão com Amanhecer em cartaz, uma taxa de ocupação (38%) menor que a média nacional (50%). Talvez ajude a arrefecer o brutal impacto que uma estreia desse porte provoca no circuito o fato de a Capital ter consolidado relevantes espaços "de resistência" no chamado circuito alternativo, integrado tanto por salas comerciais tradicionais como a rede Guion, por algumas salas do Unibanco Arteplex, por espaços públicos (Sala P.F. Gastal, as três salas da Casa de Cultura e a Sala Redenção) e privados (CineBancários, Cine Santander e Instituto NT). Desta forma, é possível garantir que estreiem nesta sexta junto com o blockbuster filmes como o canadense Amores Imaginários, os brasileiros O Céu sobre os Ombros, Roubando Ofício Ademar Berois e Walachai, o francês A Chave de Sarah e o alemão Se Não Nós, Quem?

Além disso, permancem em cartaz  para citar apenas filmes com perfil menos comercial , Além da Estrada, A Árvore do Amor, Avenida Brasília Formosa, Caminho para o Nada, Copacabana, Cópia Fiel, A Criança da Meia-Noite, O Guri, Medianeras, Meia-noite em Paris, O Palhaço, A Pele que Habito, Rock Brasília, Tarde Demais, Transeunte, Uma Doce Mentira, Um Conto Chinês, Um Gato em Paris, Um Homem que Grita e Whisky. E tem ainda mostra Seleção de Filmes, que vai exibir até o dia 24, 14 longas inéditos, entre eles os premiados O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne, Fausto, de Alexander Sokurov, e O Porto, de Aki Kaurismäki.

Por fim, um dado curioso. Nos EUA, com cerca de 36 mil salas, Amanhecer estreia em 4 mil (11%).

É  tema para muito debate, que abrange a carência de salas no Brasil, o gosto do público (afinal, um lançamento ambicioso desses atende a uma demanda), a estratégia voraz dos estúdios para faturar em massa nos cinemas o mais rapidamente possível, antes dos estragos da pirataria, e até mesmo a falta (ou necessidade) de políticas regulamentárias como, por exemplo, a que existe na Argentina, que prevê taxação de filmes estrangeiros lançados no país em valores que aumentam conforme o número de cópias.

Drive, filmaço

14 de novembro de 2011 1

Foi assim: a gente se empolgou tanto com Drive, falou tanto do filme na redação, que os editores não resistiram e encomendaram dois textinhos rápidos sobre ele para uma capa do Segundo Caderno. Ambos podem ser lidos aqui. Eles são bem diferentes entre si porque era para ser assim mesmo: duas reflexões complementares. O filmaço de Nicolas Winding Refn estrelado por Ryan Gosling estreia no Brasil no dia 6 de janeiro. Anote na agenda e não perca!

O trailer internacional acima tem legendas em francês - a Imagem Filmes, distribuidora do longa no Brasil, ainda não disponibilizou uma versão com legendas em português.

A seguir, na ordem: a abertura do filme, com a música de Kavinsky (chama-se Nightcall e tem a participação no vocal da brasileira Lovefoxx, do Cansei de Ser Sexy); o videoclipe, apenas com imagens do longa, de A Real Hero, do College, uma das melhores canções da trilha sonora; e, por fim, a parte inicial de uma das primeira sequências de perseguição da trama.

Estreias da semana - 11/11/11

11 de novembro de 2011 0

Os 3, de Nando Olival - aqui o texto, abaixo o vídeo:

Dublar ou não dublar, eis a (velha) questão

07 de novembro de 2011 2

O Segundo Caderno publicou, pouco tempo atrás, uma matéria sobre a questão da dublagem no cinema, em cima da percepção, comprovada em números, de que aumentou nos últimos anos a oferta de filmes falados em português em outros gêneros além do infantil. Foram ouvidas diferentes fontes, do público que rejeita a dublagem aos distribuidores e exibidores que a justificam em razão de uma crescente preferência deste mesmo público - e pesquisas de opinião sustentam que os espectadores, em sua maioria, preferem mesmo filmes dublados. A pauta incluiu também a televisão por assinatura, na qual os canais que exibem filmes e seriados dublados são os campões de audiência - credita-se grande parte dessa tendência ao maior acesso da classe C à TV paga. O tema desperta reações inflamadas, sobretudo daqueles que veem na dublagem uma interferência grave na obra original, mesmo com o  fato de que em países de grande tradição cinéfila, como França, Itália e Alemanha, a dublagem ser regra.

Essa introdução toda é para dizer que a discussão pró e contra a dublagem não vem de hoje no Brasil e já foi, inclusive, tema de discussão nas mais altas esferas. Num daqueles ótimos acasos que ocorrem quando se tenta arrumar uma estante de livros em casa, calhou de cair na minha frente - e justo nessa página – o referencial livro A Crítica de Cinema em Porto Alegre na Década de 1960,  da jornalista, professora e pesquisadora de cinema gaúcha Fatimarlei Lunardelli.

A autora lembra que esse debate entre legendagem e dublagem ganhou força no Brasil em 1960, em meio à discussão de um projeto cinematográfico nacionalista, e foi decidido no campo da crítica. O epicentro da questão foi o projeto de lei do então senador federal gaúcho Geraldo Lindgren (PRP). Em novembro daquele ano, com organização da Cinemateca Brasileira, foi realizada em São Paulo a Primeira Convenção Nacional da Crítica Cinematográfica. que colocou o tema em pauta e concluiu:

"Tendo em vista que a dublagem de películas estrangeiras na fase atual do cinema brasileiro aumentará a capacidade de penetração de filmes que, hoje, legendados, nem sempre atingem com facilidade as plateias; e considerando que tramita no Congresso Nacional projeto de lei tornando obrigatória a dublagem (...), os críticos de todo o país (...) manifestam aos legisladores a sua repulsa total ao projeto em causa".

Destaca Fatimarlei que críticos e intelectuais de todo o país contrários ao projeto argumentavam que a dublagem seria prejudicial ao cinema brasileiro, que teria de competir por público também no terreno do idioma, e aumentaria os custos dos distribuidores, que poderiam reduzir a importação e a consequente oferta no país de títulos estrangeiros. Visto à distância, esse primeiro item para justificar a contrariedade ao projeto parece hoje meio forçado - e teve resultado inócuo para salvaguardar e incrementar a produção nacional.

A pressão fez o  projeto ser rejeitado, e o relatório do senador Mem de Sá traduziu o pensamento dominante:

" A voz, tanto quanto o gesto, o físico, a expressão, caracteriza o artista e lhe faculta, de maneira personalíssima, o meio de se afirmar e de transmitir ao público a sua forma de viver as emoções e os sentimentos do personagem (...) Imponha-se-lhe , pelo artifício da dublagem, outra voz, e ele já não será o mesmo. Sua arte foi distorcida e corrompida (...)

Mas, apesar do consenso, a autora questiona a pouca importância que os críticos dão ao fato de que a total fruição do filme também pode ser comprometida ao se desviar os olhos da imagem para se acompanhar as legendas na parte inferior da tela. Uma observação muito interessante feita no livro destaca o posicionamento de Paulo Emilio Sales Gomes, um dos mais importantes e influentes nomes do pensamento crítico no Brasil. Ele reconhecia a importância da voz original nos filmes, mas questionava:

" Os críticos do mundo inteiro fazem de conta que não tem importância o fato de não entenderam a língua falada numa porção considerável das fitas que discutem. Todos desprezam a dublagem e estão certos. Ao mesmo tempo, porém, apenas porque o letreiro superposto permite compreender do que se trata, se convencem de que estão plenamente capacitados para julgar películas dialogadas em línguas que desconhecem.

(...) Não sei se o conhecimento da língua sueca me faria gostar mais, ou menos, da obra de Bergman. Afirmo simplesmente que recebo menos do que existe, e que nada me permite afirmar que haja maior significação naquilo que compreendo do que naquilo que ignoro. O cinema sueco, o japonês, o russo, e outros, que dentre nós amamos tanto, constituem na realidade universos que só nos são acessíveis numa proporção bem limitada".

Uma câmera na mão, uma estrada pela frente

07 de novembro de 2011 7

Nunca houve um ano como 2011 no cinema brasileiro. Não que nesta temporada a produção nacional esteja quebrando recordes de ocupação do mercado ou que tenha atingido um patamar de qualidade superior. Não se trata disso. O feito alcançado é menor, mas representa muito para uma cinematografia que patina para conquistar espaço no circuito e, ao mesmo tempo, evoluir esteticamente. Em 2011, uma nova geração de cineastas está conseguindo apresentar seus longas-metragens nas salas do país e, o que é mais importante, está trazendo alternativas não apenas de exibição, mas também de produção – a maneira com que estes longas são realizados não raramente se reflete na forma dos filmes e se revela diretamente responsável por alguns de seus aspectos mais positivos.

Até o fim de outubro, mais de 80 títulos brasileiros já haviam estreado no circuito nacional desde 1º de janeiro. Em toda a temporada 2010, foram 76 filmes. Pelo menos desde 2006 a média tem ficado entre 70 e 80 estreias anuais, segundo o Filme B, principal portal de dados do mercado nacional. Em 2011, a conta deve bater na casa dos cem longas, se confirmadas as previsões. Não se pode dizer que estes números, em si, representam uma evolução, dado que tem havido uma quantidade variável, porém significativa, de produções irrelevantes tanto pela ocupação das salas quanto pelo conteúdo que oferecem. A questão é que o aumento de lançamentos, este ano, coincide com a aparição de uma nova safra de realizadores que está conseguindo renovar a produção nacional. Em outras palavras, a diferença a mais no total de longas lançados representa a aparição de uma real novidade, que diz respeito à estética e vai além da objetividade dos números.

Essa novidade está nas referências contemporâneas de A Alegria, na chamada política à reflexão sobre a imagem e a narrativa cinematográfica de Os Residentes, na notável construção da protagonista de Riscado, na linda fábula sobre o tempo e a ausência que é o ainda inédito no circuito Sudoeste. A renovação é abrangente e está, também, em três road movies recentes que usam a estrada como elemento cênico e narrativo fundamental: Estrada para Ythaca, Além da Estrada e A Última Estrada da Praia. Em cartaz desde esta sexta-feira (04/11) em mostra da Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, esses três longas têm em comum os baixos orçamentos, a criatividade de realização para suplantá-lo, vários momentos inspirados e, consequência de tudo isso, uma vitalidade rara.

Jill Mulleady e Esteban Feune de Colombi em Além da Estrada

A criatividade, em todos os casos, não diz respeito apenas a aspectos financeiros ou de viabilização dos filmes. É a tradução, em termos práticos, de ideias sobre a linguagem e os caminhos que ela tem percorrido desde o surgimento das câmeras digitais portáteis, da popularização dos vídeos caseiros na internet, de uma espécie de globalização da imagem que nos aproximou de cinematografias antes distantes como a de alguns países da Ásia e do Leste Europeu e, ainda, da rejeição do mercado e também do grande público às produções que ousam ser diferentes daquilo que se vê estabelecido no mainstream – do cinema ou da televisão. Trata-se de uma via de duas mãos: as novas gerações que estão empenhadas em fazer filmes autorais incorporam um imaginário alternativo cada vez mais difundido, porém, ao mesmo tempo, são excluídas do esquema das grandes distribuidoras. O que as fez entrar para a estatística em 2011 foi buscar soluções não somente para realizar os seus longas, mas também para distribuí-los.

A Última Estrada da Praia, adaptação gaúcha de O Louco do Cati, de Dyonelio Machado, foi concebido como um programa da série Escritores, da RBS TV, que tinha duração de menos de meia hora e foi ao ar em 2007. Virou um longa-metragem que cavou seu lugar no circuito porque seu diretor, Fabiano de Souza, soube agir potencializando os recursos limitados de que dispunha e também porque a sua produtora, Okna, resolveu ela própria distribuir o filme batendo à porta dos exibidores – as salas de cinema propriamente ditas. O caso de Estrada para Ythaca e Além da Estrada é outro: ambos fazem parte de um projeto de distribuição criado pela Vitrine Filmes que está dando a pelo menos 20 títulos recentes a oportunidade de exibição nos cinemas de grandes cidades brasileiras. Não é exatamente uma ação entre amigos, sobretudo porque a Vitrine é uma produtora profissional, estabelecida no mercado (em São Paulo), o que significa dizer que não trabalha para “dar uma forcinha”, e sim porque acredita nos filmes nos quais investe.

É bom lembrar que A Última Estrada da Praia não é o primeiro e nem será o último projeto surgido nesses termos, e que chega ao mercado dessa forma. E ainda que a Vitrine, embora precursora devido ao tamanho de sua empreitada, não está inventando nada. O que é preciso ressaltar é que iniciativas assim só existem porque, por trás delas, há uma significativa demanda de produção. Não houvesse Estrada para Ythaca e Além da Estrada, entre alguns outros (inclusive citados anteriormente), não haveria distribuição da Vitrine. Não houvesse a inquietação artística de Fabiano de Souza, não haveria o seu filme e, consequentemente, o esforço da Okna.

Miriã Possani, Marcos Contreras, Rafael Sieg e Marcelo Adams em A Última Estrada da Praia

Estrada para Ythaca e Além da Estrada são duas verdadeiras cartas de intenções da novíssima produção nacional. O primeiro é assinado pelos irmãos Luiz e Ricardo Pretti e pelos primos Guto Parente e Pedro Diógenes, quarteto que integra o coletivo Alumbramento, de Fortaleza (CE). No filme, os quatro são autores, técnicos e personagens numa viagem de carro rumo a Ythaca – Homero e Kaváfis são referências ao mesmo tempo eruditas e espirituosas: eles estão de porre quando resolvem partir, em homenagem a um amigo que perderam e que por isso não pode compartilhar aquela celebração, mas o que importa, no fundo, não é o objetivo final, e sim o que a experiência de percorrer aquele caminho proporcionará. Embora assente sua base dramatúrgica sobre citações (Glauber, Godard e Caetano em uma única sequência, por exemplo), que fortalecem o longa como manifesto estético, o inesperado cumpre papel fundamental no envolvimento do espectador com os autores-personagens. Em vez de se diluir, a noção de autoria se fortalece. Graças ao sistema de produção. Numa cinematografia que, a despeito do barateamento dos equipamentos de captação e montagem, repete à exaustão sistemas de produção envelhecidos e nem sempre eficazes porque emulam Hollywood mesmo que não consigam reproduzir seus resultados, trata-se de algo muito pertinente.

Também responsável por longas como Sábado à Noite, Praia do Futuro e Os Monstros, o Alumbramento tem como uma das marcas de seu trabalho a incorporação de elementos da linguagem das artes visuais – não por acaso um traço recorrente do cinema contemporâneo universal, e não à toa uma característica do melhor road movie brasileiro dos últimos anos, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009). Além da Estrada, nesse sentido, é bem diferente.

Coprodução Brasil-Uruguai, o primeiro longa do bom diretor de curtas-metragens Charly Braun, 31 anos, está longe de termos como clássico e acadêmico, mas sua abordagem da linguagem é um tantinho mais tradicional. Seu vigor, paradoxalmente, é raro até mesmo em meio ao que o país produziu de mais interessante nos últimos tempos. O caráter semidocumental é responsável apenas em parte por esse resultado: há de se considerar que, na história do jovem argentino rico que, após a morte dos pais, viaja ao encontro de um terreno herdado pela família no litoral do Uruguai, há não apenas a abertura para o imprevisível e o inesperado, mas, fundamentalmente, um tom ainda mais confessional do que o de Ythaca. Os lugares visitados pelo protagonista (vivido pelo argentino Esteban Feune de Colombi) nas províncias uruguaias de Rocha e Maldonado fazem parte do imaginário pessoal do diretor, que morou ou tem familiares nos dois países do Prata – como fica evidente nos créditos finais, quando são exibidas fotografias suas nos locais onde Além da Estrada foi filmado.

O frescor narrativo e o sentido de verdade de suas imagens devem-se a essa combinação. Ou melhor, devem-se, isso sim, à capacidade de Braun de manipular a linguagem a partir dessas opções – não é a simples escolha de um caminho que vai determinar o sucesso de um projeto, mas essa escolha aliada ao talento de quem o percorre. Não deixa de ser uma metáfora para o novíssimo cinema brasileiro como um todo, este que se joga à estrada disposto a enfrentá-la mesmo sem saber o que vai encontrar pela frente e, mais do que isso, pronto para encará-la ainda que ela revele as angústias e os dilemas particulares de seus realizadores. Além da Estrada, aliás, tem uma mise-en-scène melhor do meio para o fim, e atinge seu ápice na belíssima sequência final, o que permite vislumbrar que, conforme passa o tempo em campo, mais adaptada – ou entregue – está a equipe de filmagens. Hoje em dia, as novas gerações provam, mais importante do que ir atrás de recursos buscando usá-los apenas para reproduzir fórmulas do passado é ter disposição para, com os recursos que se tem, mergulhar nas revelações que o desconhecido pode trazer.

Estrada para Ythaca, de Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes

O melhor da novíssima geração

Entre os bons filmes dos jovens cineastas brasileiros há títulos cuja abordagem aproxima a linguagem do cinema à das artes plásticas, casos, por exemplo, de Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo (CE, 2009), e do longa de direção coletiva Praia do Futuro (CE, 2008) - ambos do grupo cearense Alumbramento. Há, também, em quantidade maior, aqueles que visitam os limites do documentário, como Terras, de Maya Da-Rin (RJ, 2009), Álbum de Família, de Wallace Nogueira (BA, 2010), e Morro do Céu, (RS, 2009), no qual o diretor Gustavo Spolidoro acompanha o dia a dia de um adolescente no interior do município de Cotiporã, na serra gaúcha. Outros:

> O Céu sobre os Ombros (MG, 2010). O documentário de Sérgio Borges acompanha - ou seria reencena? - episódios da vida de três personagens sui generis que moram em Belo Horizonte. Estreia nacional marcada para 18 de novembro.

> Terra Deu, Terra Come (SP, 2009). Filme de estreia do diretor Rodrigo Siqueira, é um falso documentário provocativo e sofisticado sobre um ritual fúnebre de matriz africana encenado na região de Diamantina (MG). Estreou em Porto Alegre em março de 2011.

> Um Lugar ao Sol (PE, 2009). Dirigido por Gabriel Mascaro (de Avenida Brasília Formosa, 2010, também distribuído pela Vitrine Filmes), é um documentário incômodo sobre a vida dos privilegiados moradores de coberturas de grandes cidades brasileiras. Já passou no circuito.

> Chantal Akerman, de Cá (RJ, 2010). Filme de Leonardo Luiz Ferreira (crítico de cinema) e Gustavo Beck (de A Casa de Sandro, 2009) que investiga as ideias da artista belga Chantal Akerman a partir de uma entrevista registrada num único plano. Estreou via Vitrine Filmes.

> Pacific (PE, 2010). O revelador, premiado e controvertido longa de Marcelo Pedroso narra um cruzeiro de Recife a Fernando de Noronha usando somente imagens das câmeras particulares dos passageiros. Vencedor do CineEsquemaNovo 2011, já foi exibido no circuito.

> Estrada Real da Cachaça (RJ, 2009). De Minas Gerais a Paraty (RJ), o diretor Pedro Urano refaz o percurso dos fabricantes artesanais de cachaça e usa a bebida para promover um encontro do espectador com a cultura popular brasileira. Também já foi exibido nos cinemas.

Lwei, um dos três personagens de O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges

Além de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz (a dupla de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo), outros cineastas de uma geração anterior, mas com inquietações semelhantes de linguagem, abriram caminho para o que vem sendo chamado de novíssimo cinema brasileiro. Entre eles estão Cao Guimarães (de Andarilho e Ex Isto), José Eduardo Belmonte (A Concepção e Meu Mundo em Perigo), Joel Pizzini (500 Almas e Anabasys) e Lírio Ferreira (O Homem que Engarrafava Nuvens e Cartola - Música para os Olhos). Há ainda realizadores da mesma geração dos cineastas que despontam em 2011, mas que estrearam antes no longa-metragem, como Eryk Rocha (Rocha que Voa e Transeunte), Bruno Safadi (Meu Nome É Dindi e Belair), Petrus Cariry (O Grão e Mãe e Filho), Marília Rocha (Aboio e A Falta que me Faz) e Bruno Vianna (Ressaca e Cafuné). Reuni-los nem sempre faz sentido, afinal, a diversidade de nomes corresponde à diversidade de suas propostas estéticas, mas pode-se dizer que a linha mestra desta produção é formada por ficções que refletem sobre as próprias imagens que apresentam a partir de três tipos de abordagem - as que exploram o registro documental, as que se enquadram na vertente batizada de "autoficção" e as que pensam a sua narrativa a partir da emulação de referências do universo contemporâneo. Alguns de seus destaques:

> Riscado (RJ, 2010). Trabalhando no registro semidocumental, o diretor Gustavo Pizzi (parceiro do produtor Cavi Borges, referência da nova produção carioca) constrói com sua mulher, Karine Teles, um retrato intimista de uma atriz e suas agruras para vencer na carreira artítica. Premiado em Gramado e no Festival do Rio, já estreou no circuito nacional.

> Os Residentes (MG, 2010). Mais político dos filmes da geração, o longa de Tiago Mata Machado retoma o espírito libertário dos anos 1960 para narrar a trajetória de um grupo que instaura uma "zona autônoma temporária" numa casa abandonada. Os protagonistas são os gaúchos Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Estreou em Porto Alegre no CineBancários.

> Estrada para Ythaca (CE, 2010). Também realizadores de Os Monstros (2011), em que filmam a sua própria incompreensão como artistas, Luiz e Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes são autores e personagens deste road movie que é um dos bons exemplos do que se convencionou chamar de autoficção no país. Já foi exibido nos cinemas.

> Além da Estrada (Brasil/Uruguai, 2010). Primeiro longa de Charly Braun, incorpora imagens e personagens reais à narrativa ficcional de um jovem argentino que viaja pelo litoral uruguaio. Premiado nos festivais Lume e do Rio, tem trilha sonora e referências pop e algumas sequências, ao final, memoráveis. Também já passou no circuito.

> A Alegria (RJ, 2010). Título de maior projeção da trilogia Coração de Fogo, que a dupla Felipe Bragança e Marina Meliande compôs sobre a juventude brasileira com os longas Desassossego (2010) e A Fuga da Mulher Gorila (2009). Emula a obra do tailandês Apichatpong Weerasethakul para falar de violência e opressão no Rio de Janeiro atual. Estreou na Sala P.F. Gastal e no Unibanco Arteplex e nas últimas semanas voltou ao circuito da capital gaúcha.

> A Última Estrada da Praia (RS, 2010). Diretor dos ótimos curtas Cinco Naipes e Um Estrangeiro em Porto Alegre, Fabiano de Souza na nouvelle vague francesa as principais referências para elaborar a consistente dramaturgia deste road movie litorâneo sobre jovens em busca de liberdade. Já estreou, primeiramente, em Porto Alegre - em outras capitais, deve ficar para 2012.

Gustavo Jahn e Melissa Dullius em Os Residentes

Estreias da semana - 04/11/2011

04 de novembro de 2011 0

A Pele que Habito, um filme de Almodóvar.

Aqui o texto sobre ele, acompanhado de uma compilação de algumas das características que formam a identidade e o estilo almodovariano. E, abaixo, o vídeo do canal Estreias da Semana desta sexta-feira. É o primeiro gravado fora da redação de ZH, lá no Casa e Cia., projeto de decoração do Grupo RBS que, nesta edição, é temático sobre filmes, diretores, astros e estrelas de cinema. Ó:

De volta a Morro do Céu

03 de novembro de 2011 0

É sempre interessante, às vezes bem pertinente, saber como andam e o que fazem os personagens dos grandes documentários depois que seus filmes foram realizados e exibidos. No caso de Morro do Céu (2009), o ótimo longa gaúcho de Gustavo Spolidoro, a gente pode ter uma provinha do que anda fazendo Bruno Storti, seu protagonista, no vídeo abaixo. O Bruno é o menino de boné branco com aba amarela. O vídeo foi postado no YouTube com o título Método Mais Fácil de Tirar Anel, com um revelador "haha" ao final.

Sorti é um jovem morador da localidade de Morro do Céu, que fica no interior do pequeno município de Cotiporã, na serra gaúcha. Um pouquinho mais sobre o filme você pode ler neste post antigo deste blog. O teaser/trailer do filme está aqui.

Tropa 2: nosso melhor representante no Oscar

02 de novembro de 2011 8

E Tropa de Elite 2 vai finalmente estrear nos EUA - dia 11 de novembro em Nova York, dia 18 em Los Angeles e, em dezembro, em Seattle, Chicago, Phoenix e Denver. Até por conta disso, e porque a categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar conta com pouco lobby e estratégias de marketing bem menos agressivas do que as utilizadas pelos estúdios para promover filmes norte-americanos, pode-se considerar que ainda é cedo para falar em favoritismo ou algum tipo de tendência. Mas, isso já se pode dizer, poucas vezes o Brasil teve tantas chances de trazer uma estatueta para o país.

Isso porque Tropa 2 é um dos melhores, se não o melhor representante que já escolhemos. Um projeto que une contundência política com competência cênica e narrativa numa conjunção rara para qualquer cinematografia. Poucos filmes conseguem dizer tanto sobre um país quanto ele. Poucos obtiveram um êxito de público tão significativo quanto ele. Poucos, ao mesmo tempo, têm tamanha capacidade de se comunicar com qualquer plateia, de qualquer canto do mundo, chamando-a à reflexão de maneira tão poderosa.

A questão talvez mais interessante é a seguinte: e se Tropa de Elite 2 vencer? O que muda? O filme já alcançou o que era mais significativo, ou seja, os históricos, quase inacreditáveis mais de 11 milhões de espectadores nos cinemas, outros tantos milhões no DVD, na internet, na televisão, no camelô, que confirmam a aceitação da produção nacional por parte do público e todas as suas consequências no que diz respeito ao fortalecimento dessa produção como um todo. Fora, é claro, o estabelecimento de debates, muito consistentes por sinal, sobre os temas mais candentes da sociedade brasileira contemporânea. Além do prazer da fruição proporcionado a quem o assistiu, o que mais se pode querer de um filme?

Quem sabe a resposta venha no próximo verão: será preciso finalmente conquistar o troféu mais cobiçado parar entender que, tanto quanto uma Palma, um Leão ou um Urso de Ouro (vencido por Tropa 1 em Berlim), o prêmio da Academia de Hollywood é nada além disso, um prêmio. Mais um prêmio, e nada mais.

O trailer acima, de Elite Squad – The Enemy Within (referência ao subtítulo nacional O Inimigo Agora É Outro), foi concebido especialmente para o mercado norte-americano, ressaltando aspectos que chamam a atenção para o público daquele país: lembra tratar-se do maior sucesso cinematográfico da história no Brasil, destaca a figura do coronel Nascimento como um tipo durão que combate  criminosos e poderosos e informa que o roteirista, Bráulio Mantovani, é o mesmo do internacionalmente aclamado Cidade de Deus. O trailer mostra ainda trechos de resenhas elogiosas que Tropa 2 obteve fora do Brasil, como aquelas que o compararam aos épicos violentos de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese - nada, no entanto, de lembrar dos filmes políticos italianos dos anos 1970, referências talvez mais presentes no filme de Padilha.

Dá uma olhada abaixo em alguns dos principais filmes entre os outros candidatos concorrentes às cinco vagas de indicados ao Oscar. São 63 no total.

> Aballay, el Hombre sin Miedo, de Fernando Spiner (Argentina) – Western no pampa argentino, com diretor e atores pouco conhecidos, teve exibição no último Fantaspoa. Foi escolhido para representar o país vizinho superando o fenômeno local de bilheteria Um Conto Chinês.

> The Flowers of War, de Zhang Yimou (China) – Diretor de Herói e O Clã das Adagas Voadoras, Yimou é conhecido por superproduções que envolvem cenários deslumbrantes e milhares de figurinistas. Esta é estrelada pelo americano Christian Bale e fala sobre garotos de programa em meio à II Guerra Mundial, tema da preferência da Academia de Hollywood.

> O Porto, de Aki Kaurismäki (Finlândia) – Prêmio da crítica no Festival de Cannes, narra a amizade de um sapateiro com um jovem imigrante negro em Helsinque. Ótimo diretor, Kaurismäki é o cara por trás de, entre outros, O Homem sem Passado.

> Pina, de Wim Wenders (Alemanha) – O aclamado longa em 3D que Wenders rodou sobre a grande coreógrafa Pina Bausch é o primeiro em três dimensões a representar um país no Oscar. Quem viu – na Alemanha a arrecadação foi histórica para um documentário – se encantou.

> A Guerra Está Declarada, de Valérie Donzelli (França) – Surpresa do Festival de Cannes, este drama francês traz os jovens atores Valérie Donzelli (também diretora) e Jérémie Elkaïm (também roteirista) interpretando um casal (Romeu e Julieta) que luta para curar o filho de um câncer.

> A Separação, de Asghar Farhadi (Irã) – Urso de Ouro no Festival de Berlim, narra a história de um casal dividido entre sair do Irã para dar um futuro melhor ao filho ou ficar e cuidar do pai de um deles, que sofre do Mal de Alzheimer. A repressão no país e a prisão recente de artistas dão ao filme uma dimensão ainda maior.

> Terraferma, de Emanuele Crialese (Itália) – O representante italiano é também o representante da vertente contemporânea que trata do multiculturalismo na Europa. No Festival de Veneza, saiu vencedor do Grande Prêmio do Júri.

> Era uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia) – Assinado pelo realizador de Três Macacos, é também vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e um policial às avessas – lento e contemplativo – sobre as relações pessoais que se desenvolvem entre homens que buscam pelo corpo de um morto.

Guia do Terror

01 de novembro de 2011 0

Bonito, completo e ainda por cima interativo o Guia do Terror elaborado pela equipe de Arte de ZH e pela editora do site do Segundo Caderno, Bruna Amaral. Há ali filmes (e HQs, e livros, e bandas) listados pelos autores do especial e também pelos visitantes que podem entrar e fazer acréscimos. Quantos longas citados você já viu? Se gosta do gênero, pode usá-lo como um manual, uma enciclopédia para descobrir o que há de mais fundamental - e mainstream - nele.

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