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A viagem de Méliès, ao som de Air

07 de dezembro de 2011 1

Amanhã, o nascimento de Georges Méliès (1861-1938) completa 150 anos. O começo das comemorações do sesquicentenário se deu em maio passado, com a apresentação oficial, no Festival de Cannes, de uma versão restaurada pra lá de doidona de Viagem à Lua (1902), seu trabalho mais conhecido e influente. Vi o curta-metragem na tela gigante instalada no Auditório do Ibirapuera, na abertura da última Mostra de São Paulo, mas infelizmente não o localizei online para compartilhar com vocês. Descobri no YouTube apenas quatro excertos bem curtos (o filme tem, no total, pouco mais de 10 minutos) que compartilho a seguir – apenas disponibilizando seus links, porque, apesar de se tratar de algo lançado há 109 anos, portanto livre de quaisquer restrições no que diz respeito a direitos autorais, o seu embedamento não é permitido pelo autor das postagens. Veja, estranhe, se impressione. Na sequência falamos sobre eles:

Excerto 1: http://www.youtube.com/watch?v=b64Jwg_kls8
Excerto 2: http://www.youtube.com/watch?v=hCPK2KQ5V0o
Excerto 3: http://www.youtube.com/watch?v=H0ptED56XEY
Excerto 4: http://www.youtube.com/watch?v=38YVp3fYxvM

Comecemos pelo som, que infelizmente não pode ser bem compreendido somente com a apresentação de trechos tão curtos. Além de restaurar as imagens, os responsáveis pelo projeto de recuperação do filme convidaram o excelente duo francês de música eletrônica Air para compor uma trilha sonora para acompanhá-las. Por si só, a presença dos autores de hits como Sexy Boy e Kelly Watch the Stars manteve o espírito inovador e inventivo da obra original, alinhada com o que havia de mais moderno em seu tempo. Com suas trucagens, cenários mirabolantes e o próprio delírio do argumento, que conta, como se pode prever, uma subida ao espaço, Viagem à Lua se tornou o precursor das ficções científicas no cinema. Os sintetizadores e os demais elementos eletrônicos utilizados pelo Air puseram a trilha em sintonia com essa atmosfera futurista, muito embora, no entanto, a música careça de ousadia na criação de climas – que são, na maior parte do tempo, óbvios, restritos a ilustrar aquilo que o espectador vê, em vez de aprimorar as sensações oferecidas pelas imagens que ilustram.

Sobre estas imagens, é o seguinte. Viagem à Lua, por óbvio, foi rodado em preto e branco (o filme é de 1902!), mas ganhou cores a partir de um exercício manual de pintura dos negativos quadro a quadro. Embora insanamente trabalhoso, esse processo se tornou relativamente comum, e foi utilizado pelo visionário Méliès em diversos outros projetos. Ocorre que a versão “colorida” de Viagem à Lua se perdeu com o passar das décadas (quando o cinema se tornou sonoro o filme já tinha um quarto de século!). Algumas cópias em P&B permaneceram, até porque existia a possibilidade de fazer isso mesmo, cópias. Da pintura manual só restaram os desenhos do diretor francês – que acabaram sendo usados como referências para o restauro.

O que é mais impressionante é o quanto a pintura, com todas as suas imperfeições (cores que em determinado frame estão mais fortes e, no frame seguinte, mais fracas; cores que atravessam a linha que não deveriam atravessar num quadro e voltam ao normal no quadro subsequente), ajuda a moldar a aura viajandona do clássico maior de Méliès. Viagem à Lua é um delírio visual de seu autor, mas um delírio racional, coerente e absolutamente eficiente em seu espírito plástico revolucionário. Repare no excerto 3 acima, que narra um contato dos terráqueos viajantes com os marcianos em meio a cogumelos gigantes, golpes de guarda-chuva que transformam os habitantes da lua em pó e uma variação absurda de verdes, laranjas e vermelhos extravagantes. Seria um favor aos cinéfilos do mundo todo alguém disponibilizar Viagem à Lua na íntegra nesses sites de compartilhamento de vídeos.

Comentários (1)

  • Fábio diz: 23 de dezembro de 2011

    Méliés era mesmo um gênio, um pioneiro dos efeitos especiais, verdadeiro artista. Pra quem gosta e quer conhecer um pouco mais, existe no Brasil um DVD chamado Uma Sessão Méliés, gravado a partir de uma apresentação comemorativa em um teatro de Paris. O disco apresenta diversos curtas do artista acompanhados ao vivo por um pianista (os filmes são todos mudos) e apresentados/introduzidos por uma neta (ou bisneta, agora não lembro) do próprio Méliés. Vale a pena!

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