O incendiário Bertrand Bonello é conhecido sobretudo pela falta de pudor – e os escândalos consequentes disso – de longas como Tirésia (2003) e O Pornógrafo (2001). Este último já indicava isso, mas com L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, que estreia amanhã em Porto Alegre, o diretor francês deixa claro por que suas polêmicas estão longe de ser gratuitas. O filme é difícil e imperfeito. É também atual, contundente, denso e absolutamente harmônico na relação forma-conteúdo.
Narra o dia a dia do decadente bordel L’Apollonide, frequentado por burgueses parisienses no início do século 20. Não que eles sejam o foco – a Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha cotidiana das prostitutas que vivem naquele casarão. A metáfora com as artes visuais não está aqui por acaso: chama a atenção, de cara, a beleza plástica tanto da reconstituição de época quanto dos enquadramentos com os quais o realizador de 43 anos apresenta as suas mulheres: parecem pinturas delicadas em seus tons sóbrios, detalhistas no exame de suas vaidades e inquietações e com uma ideia onipresente de movimento que dá dinâmica a seus atos e contrasta com a estagnação de sua vida difícil.
Difícil mesmo. O olhar de cada garota tem uma tristeza comovente, acentuada por um conformismo daqueles que traz incômodo ao espectador. Bonello quis, como definiu na entrevista coletiva do último Festival de Cannes, onde lançou L’Apollonide, construir um “teatro de todos os seus fantasmas”. Sejam eles menos palpáveis ou mais evidentes, como o da Mulher que Sempre Ri, rapariga ferida a faca por um cliente perverso que deixou em seu rosto duas terríveis cicatrizes que prolongam seus lábios – aos moldes do Coringa, o arqui-inimigo do Batman, e do protagonista de L’Homme qui Rit (1869), romance de Victor Hugo citado como referência pelo cineasta.
O dia da agressão repugnante é revisitado mais de uma vez, como se Bonello quisesse, de fato, deixar o público incomodado. Trata-se, de certo modo, de um ritual religioso: a repetição que fortalece o envolvimento purifica o espectador. Coloca-o ao lado das prostitutas como a reiterar que elas são vítimas – de uma sociedade que as usa para despejar sobre elas os seus próprios pecados, em forma de violência, doenças e liberdade restrita. É por isso que a nudez não é gratuita. Ela aparece a toda hora, nunca de maneira celebratória, sempre a fim de demonstrar a fragilidade dos corpos femininos. A sequência final, que faz uma ponte com o exercício da profissão no presente, garante a atualidade do longa à medida que a regulamentação da prostituição é uma das questões da hora na França.
Trabalhar com repetições e imagens tão explícitas do que se quer dizer deixa o filme permanentemente na fronteira do exagero – e este é o seu problema. Fosse mais curto e sugestivo, talvez ele também fosse melhor. De todo modo, a dramaturgia consistente, a eficácia da construção visual – que é mais importante do que a simples beleza – e as grandes performances de atrizes como Hafsia Harzi, Noémie Lvovsky, Jasmine Trinca e Alice Barnole (esta a Mulher que Sempre Ri) garantem a força de L’Apollonide.

















