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Posts de dezembro 2011

Estreias da semana – 30/12/2011

30 de dezembro de 2011 0

L'Apollonide, as tragédias da casa de tolerância

29 de dezembro de 2011 1

O incendiário Bertrand Bonello é conhecido sobretudo pela falta de pudor – e os escândalos consequentes disso – de longas como Tirésia (2003) e O Pornógrafo (2001). Este último já indicava isso, mas com L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, que estreia amanhã em Porto Alegre, o diretor francês deixa claro por que suas polêmicas estão longe de ser gratuitas. O filme é difícil e imperfeito. É também atual, contundente, denso e absolutamente harmônico na relação forma-conteúdo.

Narra o dia a dia do deca­dente bordel L’Apol­lo­nide, frequentado por burgueses parisienses no início do século 20. Não que eles sejam o foco – a Bonello interessa pintar o retrato da árdua batalha cotidiana das prostitutas que vivem naquele casarão. A metáfora com as artes visuais não está aqui por acaso: chama a atenção, de cara, a beleza plástica tanto da reconstituição de época quanto dos enquadramentos com os quais o realizador de 43 anos apresenta as suas mulheres: parecem pinturas delicadas em seus tons sóbrios, detalhistas no exame de suas vaidades e inquietações e com uma ideia onipresente de movimento que dá dinâmica a seus atos e contrasta com a estagnação de sua vida difícil.

Difícil mesmo. O olhar de cada garota tem uma tristeza comovente, acentuada por um conformismo daqueles que traz incômodo ao espectador. Bonello quis, como definiu na entrevista coletiva do último Festival de Cannes, onde lançou L’Apollonide, construir um “teatro de todos os seus fantasmas”. Sejam eles menos palpáveis ou mais evidentes, como o da Mulher que Sempre Ri, rapariga ferida a faca por um cliente perverso que deixou em seu rosto duas terríveis cicatrizes que prolongam seus lábios – aos moldes do Coringa, o arqui-inimigo do Batman, e do protagonista de L’Homme qui Rit (1869), romance de Victor Hugo citado como referência pelo cineasta.

O dia da agressão repugnante é revisitado mais de uma vez, como se Bonello quisesse, de fato, deixar o público incomodado. Trata-se, de certo modo, de um ritual religioso: a repetição que fortalece o envolvimento purifica o espectador. Coloca-o ao lado das prostitutas como a reiterar que elas são vítimas – de uma sociedade que as usa para despejar sobre elas os seus próprios pecados, em forma de violência, doenças e liberdade restrita. É por isso que a nudez não é gratuita. Ela aparece a toda hora, nunca de maneira celebratória, sempre a fim de demonstrar a fragilidade dos corpos femininos. A sequência final, que faz uma ponte com o exercício da profissão no presente, garante a atualidade do longa à medida que a regulamentação da prostituição é uma das questões da hora na França.

Trabalhar com repetições e imagens tão explícitas do que se quer dizer deixa o filme permanentemente na fronteira do exagero – e este é o seu problema. Fosse mais curto e sugestivo, talvez ele também fosse melhor. De todo modo, a dramaturgia consistente, a eficácia da construção visual – que é mais importante do que a simples beleza – e as grandes performances de atrizes como Hafsia Harzi, Noémie Lvovsky, Jasmine Trinca e Alice Barnole (esta a Mulher que Sempre Ri) garantem a força de L’Apollonide.

Estreias da semana – 23/12/2011

25 de dezembro de 2011 0

Um fiapo de vida

É triste o novo Gus Van Sant, estreia deste fim de semana de Natal em Porto Alegre. Mas Inquietos está impregnado do espírito generoso e altruísta desta época do ano: fala do surgimento do amor num contexto improvável, com um tom acima de tudo esperançoso – apesar da dureza e da morbidez do tema abordado.

A história é a do encontro de Enoch (Henry Hopper) com Annabel (Mia Wasikowska), dois jovens que convivem intimamente com a morte – ele perdeu os pais numa tragédia recente, foi expulso da escola e passa os dias exercitando o bizarro hábito de visitar funerais; ela teve diagnosticado um tumor cerebral e tem apenas três meses de vida.

Enoch e Annabel se conhecem a partir de dois enterros de pacientes da mesma ala hospitalar que a garota é obrigada a frequentar. Aproximam-se graças à insistência dela, já que ele, inicialmente na defensiva, se recusa a abrir o coração. Sua relação mais consistente é aquela que mantém com o fantasma de um piloto japonês, kamikase da II Guerra Mundial (Ryo Kase). Nada de psicologismos baratos ou apelos melodramáticos: as informações dispostas sobre os protagonistas dão consistência a ambos na medida certa – não são muletas a justificar as suas ações e o seu comportamento nem estão ali pura e simplesmente para acentuar o drama que os dois estão vivendo.

A presença do amigo imaginário, por exemplo, é um triunfo da forma do filme: o espectador percebe a força dramatúrgica de Inquietos quando vê não apenas Enoch, mas também Annabel interagir com o piloto. Trata-se de uma ótima sacada para demonstrar que os dois alcançaram uma espécie de outro plano, que é única e exclusivamente deles.

São tantos os momentos bonitos que nem a previsibilidade da história e a sua moral um tanto óbvia – a lição de vida imposta por quem parecia ter desistido de viver ou está à beira da morte – atrapalham a fruição. É difícil não se envolver com a descoberta improvável do grande amor, aquele que faz uma existência inteira valer a pena – mesmo que ela ainda tenha não mais do que 90 dias. A sequência final anuncia exatamente o desfecho que se esperava, mas de um jeito arrebatador, em que o silêncio substitui qualquer diálogo e ainda assim o público entende direitinho o significado daquilo que está assistindo.

É necessário reconhecer: Van Sant não chegaria lá sem as grandes performances de sua dupla de atores. Henry Hopper tem 21 anos e cara de bom moço, embora seja filho do doidão, fora-da-lei – e talentoso – Dennis Hopper (1936-2010). É uma descoberta do diretor, ao contrário de Mia Wasikowska, a Alice de Tim Burton. Ela tem 22 e protagoniza dois outros títulos bastante elogiados nos EUA e ainda inéditos no Brasil, Jane Eyre, de Cary Fukunaga, e Albert Nobbs, de Rodrigo García.

Guarde bem os nomes dos dois jovens intérpretes. Inquietos sugere que ainda vai se falar muito de Henry Hopper e Mia Wasikowska. Quanto a Van Sant, por mais que seu trabalho tenha a consistência e a coerência da obra dos bons autores, parece cada vez mais difícil saber em que tipo de projeto o realizador irá se envolver na sequência.

É correto dizer que este é um filme que se coloca no meio do caminho entre as suas experiências mais radicais de linguagem (Paranoid Park, Gerry, Elefante) e os longas de fácil comunicação com o público (Gênio Indomável, Encontrando Forrester, Milk – A Voz da Igualdade). Também é adequado afirmar que, em maior ou menor grau, ele invariavelmente acerta a mão. Mas o que virá a seguir? Se mantiver o nível atual, será algo no mínimo muito interessante.

As marcas de Gus Van Sant
> A morte – É o ponto central de boa parte de seus filmes, incluindo alguns dos melhores, como Elefante e Paranoid Park. Está tão presente que é mais fácil lembrar quais os títulos que não abordam suas consequências, seus significados, a sua aceitação por parte dos personagens…
> Juventude transviada O desajuste dos jovens e a sua inserção, tantas vezes torta, na sociedade: esta é a base da dramaturgia de muitos longas do cineasta desde a sua estreia, com Mala Noche, em 1986.
> A questão do sexo É limitado dizer que apenas a homossexualidade é um tema de Van Sant. O diretor aborda, isso sim, todas as manifestações da sexualidade em meio à inadequação juvenil. Em Inquietos, os protagonistas desajustados formam um casal hétero.
> Cultura pop Do massacre em Columbine (Elefante) a Hitchcock (Psicose), passando por Kurt Cobain (Últimos Dias), a inspiração do realizador invariavelmente visita assuntos e referências do universo pop.
> A imagem que fala De Gerry, com suas paisagens deslumbrantes, até Paranoid Park e Elefante, com suas câmeras e movimentos lentos, Van Sant faz da imagem um elemento marcante na construção dramatúrgica elas estão geralmente carregadas de significados e se tornam fundamentais sobretudo na aplicação das elipses narrativas.
> Drogas O desajuste juvenil volta e meia vem acompanhado delas. Em Garotos de Programa e em Drugstore Cowboy, o assunto está no centro dos acontecimentos, desencadeando conflitos e determinando o destino dos personagens.
> Marginal ou mainstream? Depois de Gênio Indomável, Gus Van Sant refilmou Psicose. Depois de Encontrando Forrester, radicalizou com Gerry. Depois de Milk, veio Inquietos. O autor costuma alternar filmes que se comunicam bem o grande público com projetos ousados ou experimentais. Tornou-se, assim, talvez o mais expressivo e popular entre os diretores egressos do cinema independente norte-americano.

Melhores do ano II

22 de dezembro de 2011 0

Este post é complementar ao anterior, que o Marcelo Perrone publicou ontem. Por isso o II acima – a ideia é compilar os destaques da programação dos cinemas aqui de Porto Alegre, na comparação com os do restante do restante do mundo.

As principais diferenças entre a lista que segue e os demais rankings de melhores do ano (os do post anterior) estão as ausências, aqui, de filmes como A Separação, Habemus Papam e O Artista, que ainda não chegaram à capital gaúcha. Títulos que em outras cidades ou países estrearam em 2010 e só chegaram no RS em 2011 também constituem um desajuste. Ao menos os filmes que são candidatos a figurar no Oscar 2012 (Os Descendentes, Drive, A Invenção de Hugo Cabret, entre outros) devem estrear logo no Sul – nas primeiras semanas de 2012. Aguardemos.

Segue a nossa lista, que foi elaborada aqui na redação de ZH e que tem os mesmos princípios daquela que está no jornal impresso desta quinta-feira: juntar a qualidade com a capacidade de envolvimento do público – o que torna mais adequado chamá-la de lista dos destaques do ano, e não exatamente dos melhores do ano. São 25, soma que fizemos juntando os votos dos nossos preferidos (Perrone, Roger, Ticiano e Daniel) com aqueles que, pela carreira que fizeram nos cinemas, não poderiam ficar de fora de uma retrospectiva da temporada. Ó:

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami (França/Itália)
Poesia, de Lee Chang-dong (Coreia do Sul)
O Garoto da Bicicleta, dos irmãos Dardenne (França/Bélgica)
Tio Boonmee, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)
Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola (EUA)
Incêndios, de Dennis Villeneuve (Canadá)
A Árvore da Vida, de Terrence Malick (EUA)
Submarino, de Thomas Vinterberg (Dinamarca)
Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan (Canadá)
Balada Triste de Trompeta, de Álex de la Iglesia (Espanha)
Cisne Negro, de Darren Aronofsky (EUA)
Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein (Argentina)
Melancolia, de Lars Von Trier (Dinamarca)
A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar (Espanha)
Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (França/EUA)
Namorados para Sempre, de Derek Cianfrance (EUA)
Lola, de Brillante Mendoza (Filipinas)
O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges (Brasil)
Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira (Portugal)
Não me Abandone Jamais, de Mark Romanek (Grã-Bretanha)
O Palhaço, de Selton Mello (Brasil)
O Vencedor, de David O. Russell (EUA)
O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat (Argentina)
Tudo pelo Poder, de George Clooney (EUA)
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, de David Yates (EUA)

Melhores do ano

21 de dezembro de 2011 0

Estamos preparando a nossa lista de melhores filmes de 2011, em meio a muita discussão para selecionar apenas 10 títulos. Um top 10 quase unânime será publicado no Segundo Caderno desta quinta-feira. Enquanto seguimos com a ingrata missão para colocar aqui no blog listas individuais, minha, do Daniel Feix e de quem mais se dispor, segue um apanhado das listas que estão pipocando por aí, antecipando a temporada de premiações prévias  ao Oscar. Pelo que se vê, Tropa de Elite 2 vai encarar um osso duro de roer se chegar ao Oscar, pois o longa iraniano A Separação desponta como o grande favorito ao troféu de melhor filme estrangeiro da temporada. Entre os longas americanos, A Árvore da Vida é uma das presenças unânimes nas votações.

No decorrer dos próximos dias, vamos atualizar este post com listas vindouras.

Top 10 de Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos americanos
1- A Separação, de Asghar Farhadi
2 – Shame, de Steve McQueen.
3 – A Árvore da Vida, de Terrence Mallick
4 – A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
5 – O Abrigo, de Jeff Nichols
6 – Kinyarwanda, de Alrick Brown
7 – Drive, de Nicolas Winding Refn
8 – Meia-Noite em Paris, de Woody Allen
9 - O Porto, de Aki Kaurismaki
10 - The Artist, de Michel Hazanavicius

Top 10 da Cahiers du Cinéma
1 -Habemus Papam, de Nanni Moretti
2 – O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira
3 – A Árvore da Vida, de Terrence Malick
4 – Hors Satan, de Bruno Dumont
5- Essential Killing, de Jerzy Skolimowski
6 – Melancholia, de Lars von Trier
7- Un Été Brûlant, de Philippe Garrel
8 – Super 8, de J. J. Abrams
9 - L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, de Bertrand Bonello
10 – Meek’s Cutoff, de Kelly Reichardt

Top 10 da Rolling Stone
1 – Drive, de Nicolas Winding Refn
2 – The Artist, de Michel Hazanavicius
3 – Os Descendentes, de Alexander Payne
4 – O Homem que Mudou o Jogo, de Bennet Miller
5 – Meia-Moite em Paris, de Woody Allen
6 – A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
7 – O Espião que Sabia Demais, de Tomas Alfredson
8 – Margin Call – O Dia Antes do Fim, de J.C. Chandor
9 – A Árvore da Vida, de Terrence Malick
10- Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg, Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, e Harry Potter  e As Relíquias da MorteParte 2, de David Yates

Melhores do ano do Círculo de Críticos Cinematográficos de Nova York
(principais prêmios)

Filme – The Artist
Diretor – Michel Hazanavizius (The Artist)
Ator – Brad Pitt (A Árvore da Vida e O Homem que Mudou o Jogo)
Atriz -Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Ator coadjuvante – Albert Brooks (Drive)
Atriz coadjuvante – Jessica Chastain (O Abrigo, Histórias Cruzadas e A Árvore da Vida)
Roteiro – Steve Zaillian e Aaron Sorkin (O Homem que Mudou o Jogo)
Fotografia – Emmanuel Lubezki  (A Árvore da Vida)
Filme estrangeiro – A Separação (Irã)
Documentário – A Caverna dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog

Melhores do ano da Associação dos Críticos de Chicago (principais prêmios)
Filme – A Árvore da Vida
Diretor -  Terrence Malick (A Árvore da Vida)
Ator – Michael Shannon (O Abrigo)
Atriz – Michelle Williams (My Week with Marilyn)
Ator coadjuvante – Albert Brooks (Drive)
Atriz coajuvante – Jessica Chastain (A Árvore da Vida)
Roteiro original -  Michel Hazanavicius ( The Artist)
Roteiro adaptado – Steve Zaillian e Aaron Sorkin (O Homem que Mudou o Jogo)
Fotografia – Emmanuel Lubezki  (A Árvore da Vida)
Filme estrangeiro – A Separação (Irã)
Animação – Rango, de Gore Verbinski

Top 10 da IndieWire
1-  A Árvore da Vida, de Terrence Malick
2 – Melancolia, de Lars Von Trier
3 – A Separação, de Asghar Farhadi
4 – Tio Boonmee, que Pode Visitar suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul
5 – Drive, de Nicolas Winding Refn
6 – Cópia Fiel, de Abbas Kiarstami
7 – Mistérios de Lisboa, de Manoel de Oliveira
8 – A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
9 – A Dama de Ferro,  de Phyllida Lloyd
10 – Meek’s Cutoff, de Kelly Reichardt

Melhores do ano da IndieWire (principais prêmios)
Filme - A Árvore da Vida
Diretor – Terrence Malick (A Árvore da Vida)
Ator- Michael Fassbender (Shame) e  Michael Shannon ( O Abrigo)
Atriz – Anna Paquin (Margaret)
Roteiro – A Separação
Documentário - The Interrupters

A comédia romântica do ano

20 de dezembro de 2011 0

Em cartaz no Instituto NT e no Unibanco Arteplex, em Porto Alegre, Os Nomes do Amor é uma das melhores surpresas entre as últimas estreias da temporada nos cinemas. O segundo longa de Michel Leclerc, primeiro a chegar ao Brasil, é uma comédia romântica que narra a atração improvável de dois personagens opostos. Mas nada que lembre a reiterada insistência de Hollywood nesta premissa do gênero: o filme produzido na França se diferencia pela dramaturgia consistente a partir da abordagem de assuntos que envolvem política, identidade, multiculturalismo e liberdade.

Para falar do amor na Paris do século 21, Leclerc absorveu as melhores lições da escola Truffaut de comédias românticas. Filmou sua protagonista, a liberal Bahia (Sara Forestier, de Ervas Daninhas e Perfume), com a reverência com que Domingos Oliveira enquadrou Leila Diniz em Todas as Mulheres do Mundo (1967). Você vai argumentar: talvez ele não tenha visto o maior clássico brasileiro do gênero. Pois certamente viu os longas de Woody Allen. E os emulou com propriedade, tanto em questões de fundo como a observação das relações e das instituições com uma ironia corrosiva, inapelável, quanto em termos mais práticos – Bahia e seu parceiro de cena, Arthur (Jacques Gamblin, o protagonista de O Primeiro Dia do Resto de sua Vida), apresentam-se ao espectador, no início do filme, falando diretamente para a câmera e descrevendo a sua trajetória sem qualquer receio de rir de si próprios.

Truffaut, Woody Allen, Domingos Oliveira – é este o clima de Os Nomes do Amor.

Arthur é um veterinário careta. Tem origem judaica e um passado familiar que remonta a Auschwitz sobre o qual seus pais (Jacques Boudet e Michèle Moretti) não conseguem falar. Tudo o que o homem tem de fechado, a mulher tem de despojada. Bahia carrega o espírito libertário sessentista de sua mãe, uma ex-hippie (Carole Franck), e a militância contra o preconceito sofrido pelo seu pai, um imigrante argelino (Zinedine Soualem). Mais uma surpresa para quem, acostumado com a repetição de clichês das produções semelhantes, espera o óbvio: a união de um judeu com uma descendente de árabes só é lembrada explicitamente em uma piada; as questões, aqui, dizem respeito menos a conceitos religiosos estagnados e mais à forma subjetiva como esses conceitos se misturam e se refletem no comportamento das pessoas.

Especialmente após a mãe de Arthur perder os documentos e ser forçada a recordar os antepassados, Os Nomes do Amor demonstra toda a sua força como libelo contra a intolerância racial. Há também piadas leves e situações de uma comicidade quase ingênua, a exemplo da sequência em que Bahia esquece de se vestir e sai nua pela cidade. A verossimilhança da trama e o envolvimento do espectador não são comprometidos nem com escolhas potencialmente desastrosas como a justificativa da promiscuidade da mulher – que transa com os conser­vadores como estratégia para convertê-los ao esquerdismo – pelos abusos sexuais sofridos na infância.

Tudo em Os Nomes do Amor está exemplarmente amarrado. Se você for assisti-lo, vai concordar: os prêmios conquistados na última edição do César, o Oscar francês, de melhor roteiro para Leclerc e Baya Kasmi e de melhor atriz para Sara Forestier, fazem jus ao que, entre suas muitas qualidades, o filme tem de melhor.

A Revolução de 1941

16 de dezembro de 2011 1

Disponível nos Estados Unidos desde 13 de setembro, quando o lançamento do filme completou 70 anos, a caixa em Blu-ray de Cidadão Kane já saiu também no Brasil. A obra-prima de Orson Welles foi completamente restaurada a partir do celuloide original, quadro a quadro, e depois transferida para uma versão digital de alta definição (4K). Por isso e pela qualidade visual da nova mídia, trata-se da melhor oportunidade para rever o filme, exatamente como ele foi concebido pelo seu autor, com o devido distanciamento de tempo que permite – na medida do possível – uma melhor análise de suas tão propaladas qualidades.

Nem Welles, nem o cinema se recuperaram do impacto do lançamento de Cidadão Kane, em 1941. A excelência técnica e a incorporação simultânea de diversas novidades formais – os flashbacks, as idas e vindas no tempo, a chamada “profundidade de foco” etc. –, assim como o barulho em torno de seu diretor, o jovem de 25 anos que pouco antes havia parado os EUA com o programa de rádio A Guerra dos Mundos, contaminaram, por assim dizer, qualquer leitura que se pudesse fazer do filme. Era uma revolução em forma de longa-metragem, não simplesmente uma obra de arte ou de entretenimento, a exemplo de Como Era Verde o meu Vale, que tirou de Cidadão Kane o Oscar de 1942.

E hoje? Seu sentido de permanência pode continuar sendo posto à prova à vontade: a história de ascensão e queda de Charles Foster Kane, por todos associada ao magnata das comunicações William Randolph Hearst, segue impressionante em sua construção cênica e dramatúrgica, por mais fria que seja a sua absorção. A despeito do impacto que o longa provoca, que no fundo é o envolvimento da arte ou do entretenimento levado a um ponto de altíssima intensidade, vale conferir como o estreante Welles usou os recursos de que dispunha para solucionar seus impasses criativos – aí incluídos desde a incorporação de maquetes cenográficas e enquadramentos até então impensáveis até a construção da narrativa com uma não-linearidade radical para os padrões da época.

Além da alta definição do Blu-ray, que permite observar detalhadamente as escolhas do visionário realizador, a caixa traz como atrativos extras cenas deletadas e um livreto de 48 páginas sobre a produção, com entrevistas, fotografias, storyboards e textos analíticos de Roger Ebert e Peter Bogdanovich. No original norte-americano, há ainda o premiado documentário A Batalha por Cidadão Kane e o drama RKO 281, que narra a luta de Hearst, o homem que inspirou o personagem do filme, para impedir a sua chegada aos cinemas. O lançamento é da Warner.

Estreias da semana - 16/12/2011

16 de dezembro de 2011 0

Indicado a quatro categorias no Globo de Ouro, Tudo pelo Poder chega hoje aos cinemas brasileiros. É um belo de um filme, com ótima direção de George Clooney, presenças de grandes atores como Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman e, à frente do elenco, o astro da hora em Hollywood, Ryan Gosling. O quarto longa dirigido por Clooney vem sendo classificado como um retrato da desilusão política dos norte-americanos na Era Obama, mas é mais do que isso, como você pode ler clicando aqui.

Estreias da semana – 09/12/2011

09 de dezembro de 2011 0

A construção da ilusão: o Théâtre du Soleil e o cinema

08 de dezembro de 2011 0

Sei que os ingressos já estão esgotados, mas nunca é demais lembrar: o Théâtre du Soleil está entre nós até domingo, e ver a companhia de Madame Mnouchkine em cena é algo que todos deveriam fazer ao menos uma vez na vida. Para os cinéfilos, a ocasião é especial, afinal, a montagem que a trupe trouxe desta vez, Os Náufragos da Louca Esperança (que título maravilhoso!), relata a produção de um filme – mudo, rodado em um restaurante em 1914, sobre a aventura colonizadora europeia.

Como escreveu o amigo e colega Fábio Prikladnicki na ZH desta quinta-feira, o espetáculo revê os descaminhos da Europa num momento em que o continente passa por uma crise sem precedentes e, ao mesmo tempo, reencena a própria condição do Théâtre du Soleil à medida que relata a brava resistência de um grupo de artistas mesmo quando a guerra começa a se fazer ouvir lá fora. Também é impossível ver Os Náufragos da Louca Esperança e não sair impressionado com a engenhosidade da mise en scène – são dezenas de atores no palco numa coreografia inacreditavelmente harmônica, interpretando seus personagens, montando e desmontando os cenários, carregando objetos, direcionando spots de luz e manipulando instrumentos responsáveis pela construção visual vista no filme dentro da peça. A ideia de ilusão, que está na essência da arte dramática, aqui aparece não exatamente “em processo”, mas “em surgimento”. O público vê a realidade fílmica, que os teóricos chamam de diegética, em formação. Pode direcionar o olhar para o quadro do filme, imaginando a moldura correspondente aos limites da tela e esquecendo o seu entorno, ou então para toda a estrutura à sua volta – vai perceber que são dois planos muito distintos, porém, de significados complementares, como se não existissem um sem o outro, como se existissem um para o outro.

Os Náufragos da Louca Esperança também é sobre isso, a construção da ilusão. É fascinante como a arte mais sublime porque, além de toda a sua beleza visual e de sua excelência técnica, conduz o espectador à própria essência da criação artística. Sua louvação à arte de resistência só torna essa visita mais sentimental – e, fundamentalmente, ainda mais próxima da intimidade do Théâtre du Soleil.

Bergman dizia que cinema, no fundo, é teatro. Muitos outros já disseram, seguindo linha de raciocínio semelhante, que tudo é teatro. O homem social é teatro. Mnouchkine invocou Aristóteles e sua teoria da estética para nos dizer que a arte (como conceito) é teatro.

A viagem de Méliès, ao som de Air

07 de dezembro de 2011 1

Amanhã, o nascimento de Georges Méliès (1861-1938) completa 150 anos. O começo das comemorações do sesquicentenário se deu em maio passado, com a apresentação oficial, no Festival de Cannes, de uma versão restaurada pra lá de doidona de Viagem à Lua (1902), seu trabalho mais conhecido e influente. Vi o curta-metragem na tela gigante instalada no Auditório do Ibirapuera, na abertura da última Mostra de São Paulo, mas infelizmente não o localizei online para compartilhar com vocês. Descobri no YouTube apenas quatro excertos bem curtos (o filme tem, no total, pouco mais de 10 minutos) que compartilho a seguir – apenas disponibilizando seus links, porque, apesar de se tratar de algo lançado há 109 anos, portanto livre de quaisquer restrições no que diz respeito a direitos autorais, o seu embedamento não é permitido pelo autor das postagens. Veja, estranhe, se impressione. Na sequência falamos sobre eles:

Excerto 1: http://www.youtube.com/watch?v=b64Jwg_kls8
Excerto 2: http://www.youtube.com/watch?v=hCPK2KQ5V0o
Excerto 3: http://www.youtube.com/watch?v=H0ptED56XEY
Excerto 4: http://www.youtube.com/watch?v=38YVp3fYxvM

Comecemos pelo som, que infelizmente não pode ser bem compreendido somente com a apresentação de trechos tão curtos. Além de restaurar as imagens, os responsáveis pelo projeto de recuperação do filme convidaram o excelente duo francês de música eletrônica Air para compor uma trilha sonora para acompanhá-las. Por si só, a presença dos autores de hits como Sexy Boy e Kelly Watch the Stars manteve o espírito inovador e inventivo da obra original, alinhada com o que havia de mais moderno em seu tempo. Com suas trucagens, cenários mirabolantes e o próprio delírio do argumento, que conta, como se pode prever, uma subida ao espaço, Viagem à Lua se tornou o precursor das ficções científicas no cinema. Os sintetizadores e os demais elementos eletrônicos utilizados pelo Air puseram a trilha em sintonia com essa atmosfera futurista, muito embora, no entanto, a música careça de ousadia na criação de climas – que são, na maior parte do tempo, óbvios, restritos a ilustrar aquilo que o espectador vê, em vez de aprimorar as sensações oferecidas pelas imagens que ilustram.

Sobre estas imagens, é o seguinte. Viagem à Lua, por óbvio, foi rodado em preto e branco (o filme é de 1902!), mas ganhou cores a partir de um exercício manual de pintura dos negativos quadro a quadro. Embora insanamente trabalhoso, esse processo se tornou relativamente comum, e foi utilizado pelo visionário Méliès em diversos outros projetos. Ocorre que a versão “colorida” de Viagem à Lua se perdeu com o passar das décadas (quando o cinema se tornou sonoro o filme já tinha um quarto de século!). Algumas cópias em P&B permaneceram, até porque existia a possibilidade de fazer isso mesmo, cópias. Da pintura manual só restaram os desenhos do diretor francês – que acabaram sendo usados como referências para o restauro.

O que é mais impressionante é o quanto a pintura, com todas as suas imperfeições (cores que em determinado frame estão mais fortes e, no frame seguinte, mais fracas; cores que atravessam a linha que não deveriam atravessar num quadro e voltam ao normal no quadro subsequente), ajuda a moldar a aura viajandona do clássico maior de Méliès. Viagem à Lua é um delírio visual de seu autor, mas um delírio racional, coerente e absolutamente eficiente em seu espírito plástico revolucionário. Repare no excerto 3 acima, que narra um contato dos terráqueos viajantes com os marcianos em meio a cogumelos gigantes, golpes de guarda-chuva que transformam os habitantes da lua em pó e uma variação absurda de verdes, laranjas e vermelhos extravagantes. Seria um favor aos cinéfilos do mundo todo alguém disponibilizar Viagem à Lua na íntegra nesses sites de compartilhamento de vídeos.

O Gato de Botas é bom, mas Shrek era melhor

05 de dezembro de 2011 1

É um bom filme, O Gato de Botas, que a Dreamworks e o diretor Chris Miller (o mesmo de Shrek Terceiro) lançam nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. Tecnicamente impecável (o que não é algo assim tão comum para a principal rival da Disney/Pixar), a animação faz bom uso do 3D, é divertida e espirituosa, quase tanto quanto os quatro filmes do ogro verde que apresentaram o personagem dublado por Antonio Banderas – quase, mas não tanto. É daqueles raros longas pelos quais vale a pena pagar um pouco a mais para vê-lo em três dimensões.

O primeiro acerto dos autores foi justamente pensar o filme para o 3D, criando um universo fabular melhor acessado na projeção em três dimensões. O segundo: não abusar das gags do protagonista, fazendo-o dividir as atenções do espectador com seus dois principais parceiros, o ovo falante Humpty Dumpty (voz de Zach Galifianakis) e a gata Kitty Pata-Mansa (voz de Salma Hayek). Embora boa parte da primeira metade de O Gato de Botas seja dedicada a contar a infância no orfanato e a explicar o surgimento do mito do sedutor fora-da-lei que identifica o personagem principal, a grande aventura do longa é vivida tanto por ele quanto pelos seus dois parceiros, sobretudo seu melhor amigo de infância Humpty Dumpty.

Bullying, Zorro, Lewis Carroll e o Pé de Feijão
O Gato de Botas é um personagem criado pelo francês Charles Perrault no século 17, mas a sua adaptação para os cinemas é na verdade uma mistura de diversos contos de fadas seculares e os seus temas universais. Resumidamente: o protagonista se reencontra com Humpty Dumpty, figura fabular incorporada, entre outros, por Lewis Carroll; após um acerto de contas que remete a traumas do passado, Dumpty e sua amiga Kitty Pata-Mansa o convencem a roubar sementes mágicas para, com elas, plantar um pé de feijão que vai conduzi-los às nuvens; lá no alto, o trio quer sequestrar um pinto que põe ovos de ouro; para chegar a ele, entra num castelo e, a seguir, numa mata inóspita na qual vive a gigantesca Mamãe Gansa (mãe do tal pinto, que depois descerá para tentar resgatá-lo). Mais referências: Zorro, personagem interpretado antes por Banderas, é marcante na composição do Gato de Botas, assim como os filmes de John Ford são o norte das perseguições de carruagens pelos desertos norte-americanos, sequências nas quais o trio se apodera das sementes mágicas.

Há diversas soluções questionáveis no desenvolvimento da narrativa, a exemplo da saída do Gato de Botas da cadeia e da principal virada da trama, após a volta da aventura nas nuvens. Nenhuma delas, no entanto, suficiente para comprometer a diversão e o envolvimento do espectador. As ciranças têm tudo para embarcar na loucura toda, enquanto adultos vão rir com aquelas piadas feitas especialmente para eles. Mais do que isso, O Gato de Botas não deixa de trazer reflexões sobre assuntos importantes a serem compartilhados tanto pelos pais quanto pelos filhos – notadamente, o bullying sofrido pelo ovo falante no orfanato, que vai se refletir em todo o seu comportamento ao longo do filme.

Shrek – os dois primeiros, na verdade – eram melhores, mas O Gato de Botas consegue honrar uma das franquias mais divertidas produzidas por Hollywood nos últimos anos.

O trailer:

Estreias da semana - 02/12/11

02 de dezembro de 2011 0

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