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Oscar 2012: o estrangeiro da hora

03 de fevereiro de 2012 4

– O futuro do Irã será determinado pelas mulheres – declarou Asghar Farhadi ao receber o Urso de Ouro na última edição do Festival de Berlim por A Separação.

Aos 39 anos, o cineasta parece mesmo determinado a quebrar paradigmas. Urbano, universal, contemporâneo, seu mais recente filme tem pouco a ver com a imagem corrente do cinema iraniano.

Procurando Elly (2009), quarto longa de sua carreira e o primeiro a ser lançado no Brasil — e que ganhou o prêmio de direção em Berlim —, já evidenciava sua vontade de refletir sobre a classe média ocidentalizada do Irã, a partir de códigos de gêneros clássicos como o thriller psicológico. A Separação, filme da sua aclamação mundial, segue a mesma cartilha, mas é ainda mais profundo em sua reflexão sobre a vida no país no contexto da contemporaneidade. Já venceu o Globo de Ouro e só não leva o Oscar de melhor longa estrangeiro no próximo dia 26 se houver uma grande zebra. Estreia nesta sexta-feira (2) em Porto Alegre.

Seu ponto de partida é a crise conjugal entre o bancário Nader (Peyman Moaadi) e a professora de cabelos pintados Simin (Leila Hatami). O casal obteve um visto para deixar o Irã, e ela quer aproveitar e tirar do país a filha adolescente (Sarina Farhadi). Nader não aceita deixar o pai senil (Ali-Ashar Shahbazi), e sem a autorização do marido a mulher não pode levar a garota — o que dá origem ao conflito. Simin sai de casa, e o homem resolve contratar Hodjat (Shahab Husseini), que está grávida de seu segundo filho, para as tarefas domésticas. Não pense que conto demais — é apenas após um incidente entre patrão e empregada que as intenções do diretor se revelam.

Com a câmera na mão, poucos silêncios e fazendo uso de um naturalismo diferente daquele que consagrou Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf, o cineasta constrói uma teia de acontecimentos cuja complexidade impressiona — não pelas surpresas típicas dos thrillers vazios, mas pelo significado de cada movimento dos personagens e pela capacidade de sobreposição dos conflitos sem induzir o público a julgamentos precipitados. Hodjat deixa o velho doente sozinho e sai de casa. Ele cai e quase morre. Em seguida, o patrão nota que seu dinheiro sumiu. Acusa a empregada de roubo. Ela não aceita. Os dois discutem. Ele a empurra, e ela cai. Pouco depois, suas famílias estão no tribunal — Hodjat perdeu o bebê e acusa o gesto violento de Nader de provocar o aborto.

É um turbilhão que se segue, e que tira o fôlego do espectador ao mesmo tempo em que o faz pensar sobre o que está por trás do comportamento dos envolvidos — razão e religiosidade, maturidade e incapacidade de lidar com os problemas — e, fundamentalmente, as motivações que levam a optar pela verdade ou pelas mentiras convenientes. Este texto começou falando das mulheres e do futuro do Irã? Não foi à toa que Farhadi deu à filha adolescente papel fundamental no desfecho da trama. Não deixe de ver, ainda mais se a justificativa for o velho — e aqui incabível — preconceito para com filmes iranianos. A Separação é imperdível.

5 clichês do cinema iraniano derrubados por Farhadi:
1) “As tramas tratam sempre dos pobres e de suas dificuldades extremas”. Procurando Elly e A Separação, seus dois filmes lançados no Brasil, abordam a vida da classe média no Irã.

2) “A câmera é estática, e os planos, sempre longos”. Farhadi usa a câmera na mão, o que aumenta a sensação de movimento em seus longas.

3) “As histórias invariavelmente falam sobre a vida no campo”. A Separação é um drama urbano sobre questões contemporâneas.

4) “Os diretores deixam completamente de lado os gêneros clássicos”. Os elementos do suspense e do policial são marcantes em Procurando Elly, e A Separação lembra um filme de tribunal.

5) “As tramas são contemplativas e têm dramaturgia minimalista”. Nos filmes de Farhadi, as reflexões surgem a partir da sobreposição dos conflitos.

Comentários (4)

  • Juliana diz: 3 de fevereiro de 2012

    Não conhecia o Cineclube, vou ler com mais frequência!

    Gostei muito da proposta do post, mas preciso discordar no conteúdo. A maioria desses “clichês”, que sequer aplicam-se ao grosso do cinema iraniano contemporâneo tão prestigiado, já foi quebrado em filmes famosos como, por exemplo, os de Jafar Panahi – “O Espelho”, ou “O Círculo”. Sobretudo os primeiros apontados.

    Aliás, é interessante notar como Farhadi soube aproveitar-se de recursos tradicionais do cinema iraniano em “A Separação”. A quebra da “quarta parede”, a câmera em mãos, o roteiro focado nos problemas cotidianos de uma classe média e urbana, tudo bastante similar a filmes de Panahi ou mesmo do Kiarostami…

    Aliás, acho muito bacana que o filme tenha incorporado esses elementos e tenha popularizado-se no Ocidente – essa é uma oportunidade única para desmistificar o cinema iraniano e aproximar o público dele, que é tão rico.

    Abraços!

  • Juliana diz: 3 de fevereiro de 2012

    Então, Daniel, a questão que fica para mim, na verdade, é a seguinte: será que assumindo que “A Separação”, o filme “da hora” do Irã, é diferente dos demais filmes iranianos (ao vez de assumir que, na verdade, ele mais tem de parecido que de diferente) não é apenas contribuir para essa mistificação do cinema iraniano?

    Digo isso no sentido de um leitor que, lendo a matéria, pense: “Ah, então por isso eu gostei desse filme, mas não vou gostar daqueles outros filmes iranianos…”. E afastar ainda mais o público desse tipo de filme?

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