Mais ou menos por esta mesma época (a do Oscar) no ano passado, o Segundo Caderno, em sua versão impressa, dedicou toda a página central ao filme Cisne Negro. Vocês que nos leem aqui no blog CineclubeZH devem lembrar: o longa de Darren Aronofsky sobre uma bailarina obcecada pela perfeição (papel que deu o Oscar de melhor atriz a Natalie Portman) rendeu debates – de um lado, os arrebatados; do outro, os decepcionados.
Aqui no Segundo Caderno, ficamos todos no primeiro time – Cisne Negro ganhou a cotação máxima, o que fez alguns colegas e leitores nos perguntarem: como assim? Daí viemos com essa página central que citei, que trazia um texto do Roger Lerina justificando as cinco estrelas do filme, um comentário do Inácio Araújo, crítico da Folha, apontando os defeitos do longa, um artigo da psicanalista Diana Corso e um texto meu intitulado "Como são feitas as cotações dos filmes em cartaz". Nesse texto, tentei explicar como nós – eu, Ticiano Osório, mais o Daniel Feix, o Marcelo Perrone e o Roger – chegamos a um número para traduzir uma apreciação que é subjetiva. Relembro alguns trechos aqui:
"À medida que vamos assistindo aos filmes, trocamos opiniões, concordamos aqui, divergimos ali, discutimos avaliações. (...) Por mais subjetiva que seja a apreciação de uma obra de arte, há parâmetros objetivos segundo os quais se pode determinar se seus autores foram bem-sucedidos.
Entre esses parâmetros, pode-se citar a pertinência de um tema, a criatividade na abordagem desse tema, a verossimilhança – ou a chamada suspension of disbelief –, o impacto do filme como um todo (ou até de uma única cena), a capacidade de invenção do diretor, as atuações do elenco...
Não raro, um título que recebeu três estrelas no jornal é rebaixado ou promovido. Não quer dizer que a gente faça uma média entre as notas: um filme cinco estrelas para o Roger não vai virar três estrelas na cotação de ZH só porque o Perrone acha que merece apenas uma. Vale o consenso da maioria.
É uma briga, posso dizer a vocês. Por conta da dissonância, chegamos a criar em 2009 a meia estrela, que não vingou porque essa meia estrela a mais ou a menos também gerava debates intermináveis, e também porque tornava muito matemática a avaliação. Mas é uma briga boa (...) Afinal, que bom quando um filme nos faz sair do cinema refletindo sobre ele, e que bom, para nós críticos, quando o que escrevemos provoca nos leitores a troca de ideias, sejam elas pró ou contra."
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Fiz toda essa introdução para chegar ao ponto deste post: Drive mereceu capa e página central do Segundo Caderno desta quinta, 1º de março, véspera de sua estreia nos cinemas brasileiros, porque atingiu um raro consenso entre os quatro integrantes da chamada editoria de cinema. (Reitero: nem sempre a nota dada por ZH a um filme é unânime – ou seja, nem sempre é minha a culpa por um cinco estrelas que você não entende, ;p).
Com um pé no acelerador e outro no freio (é o que se poderia chamar de um filme de ação contemplativo), um pé na delicadeza e outro, literalmente, na violência, com um pé no passado (as referências a mitos cinematográficos americanos, como o do cavaleiro solitário) e outro no que há de mais contemporâneo (ou seja, uma estética... retrô), o longa do diretor Nicolas Winding Refn leva o espectador para uma daquelas viagens que só o cinema – preferencialmente o cinema mesmo – pode oferecer. Drive não é um livro filmado, não é teatro filmado, muito menos um gibi filmado. É cinema. Para além do roteiro, da direção e das atuações, a montagem, o encadeamento das cenas, a justaposição de imagem e som tem papel fundamental no estabelecimento de significados e sensações.
Vá e veja.
E vá e leia o Segundo Caderno desta quinta.









