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Posts de março 2012

Freud, Jung e Cronenberg

30 de março de 2012 3

O austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939) e o suíço Carl Jung (1875 – 1961) mantiveram uma amizade curta, porém intensa, seguida de um rompimento turbulento no início do século 20. Suas trocas de confidências e informações sobre descobertas científicas e pessoais foram registradas em cartas – que acabaram publicadas em livro, no Brasil, pela editora Artenova.

Esta relação, que inclui uma mítica conversa entre ambos que durou 13 horas em 27 de fevereiro de 1907, é o tema central de Um Método Perigoso, longa-metragem que estreia nesta sexta-feira no país. Seu diretor, David Cronenberg, estabeleceu como principal elo entre os dois a figura de Sabina Spielrein, judia russa que se tornou paciente de Jung e o intrigou por conta do prazer que sentia ao receber castigos físicos do pai.

Esta Electra dos primórdios da psicanálise é interpretada por Keira Knightley num registro bastante discutível – sua performance é propositalmente exagerada –, enquanto Freud e o protagonista Jung, respectivamente encarnados por Viggo Mortensen e Michael Fassbender (também em cartaz como o protagonista de Shame), encontram um tom adequado entre a sabedoria intelectual e as recorrentes dificuldades de lidar com aquilo que desconhecem.

Cronenberg, mestre absoluto de um cinema físico no qual as pulsões psicológicas são invariavelmente traduzidas em imagens de uma crueza extraordinária, aqui exercita uma contenção não vista nem mesmo nos recentes Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), dois dos filmes mais facilmente digeríveis de toda a sua extensa carreira. Não que haja incoerência, como alguns dos fãs mais radicais do cineasta canadense de 69 anos já denunciaram: nem as fachadas decorosas da Viena da virada do século 19 para o 20 escondem os impulsos bestiais dos personagens, aí incluída a notável dupla de médicos – as nuanças de suas personalidades estão entre aquilo que de melhor Um Método Perigoso tem a oferecer ao espectador.

Escrito pelo oscarizado roteirista e dramaturgo Christopher Hampton a partir de seu próprio livro The Talking Cure e de A Most Dangerous Method, de John Kerr, o longa não deixa de ser um retrato de um triângulo amoroso em todas as suas trivialidades. Mas é bom por conta da capacidade de articulação de suas inúmeras sutilezas, que falam sobre temas atemporais e genéricos como repressão e libertação e específicos como as referências à I Guerra Mundial que estava prestes a eclodir.

Não se pode dizer, no entanto, que todas as pretensões de Cronenberg estão plenamente correspondidas. Se a ideia de construção da sociabilidade a partir da ocultação de fantasmas e vergonhas mantém a atualidade da dramaturgia de Um Método Perigoso, a personagem de Sabina, que deveria simbolizar esta premissa, não tem a empatia necessária para cativar o público. Notável pela arquitetura de temas e pela complexidade de suas abordagens, o filme sofre pela dificuldade de emocionar aqueles que se dispuserem a assisti-lo.

O papa em seu labirinto

30 de março de 2012 2

Ao  anunciar que faria um filme ambientado nos bastidores do Vaticano, Nanni Moretti fez tremer os ancestrais pilares da igreja católica. Apreensão justificada na folha corrida do premiado cineasta italiano, ateu convicto e crítico ácido dos poderes constituídos que regem seu país. Mas Habemus Papam, em cartaz a partir desta sexta-feira em Porto Alegre, apesar de uma que outra ameaça de excomunhão que pairou sobre Moretti, é até contido e, ao seu modo, respeitoso.

No ano passado, na apresentação de Habemus Papam no Festival de Cannes, no qual ganhou a Palma de Ouro com O Quarto do Filho (2001) e o prêmio de direção por Caro Diário (1993), Moretti avisou: "Muita gente esperava que eu denunciasse certas coisas do Vaticano. Todos conhecemos os escândalos de pedofilia e as notícias sobre a crise de autoridade da igreja. Isso é um bom motivo para não falar deles de novo".

De fato, o foco do diretor, o mesmo que esculhambou o político magnata Silvio Berlusconi em O Crocodilo (2006), está menos sobre questões teológicas e institucionais e mais sobre o plano terreno das aflições humanas. Habemus Papam trata do embate entre o desejo e a vocação, entre o destino seguido em linha reta por inércia e os caminhos tortos por vezes necessários tomar rumo a uma reviravolta na vida.

Seu protagonista é o cardeal Melville, brilhantemente interpretado pelo veterano ator francês Michel Piccoli. Figura coadjuvante no conclave que está elegendo um novo papa, ele, diante do impasse que não consegue definir o escolhido entre os favoritos que despontam, acaba sendo aclamado por consenso no peculiar sufrágio canônico. Mas antes que o anúncio seja feito, o Sumo Pontífice surta e emite um urro que ecoa pela Capela Sistina: “Eu não consigo!”.

Tem início uma tensa corrida contra o relógio para dar satisfação ao mundo do porque, eleito o novo papa, ele não é revelado. Nesses primeiros movimentos, o tom de humor de Habemus Papam é mais escrachado, da encenação do sisudo conclave eleitoral aos meios que as autoridades religiosas buscam para solucionar o impasse. Entre eles, está arrumar um integrante da Guarda Suíça para fazer as vezes de dublê nos aposentos do papa e convocar um conceituado psicanalista, vivido pelo próprio Moretti. A entrada em cena do terapeuta, ateu como o diretor, rende diálogos espirituosos, como discutir se os conceitos de alma e inconsciente podem coexistir e a imposição de abordar o “paciente” com discrição, sem prospectar traumas de infância ou desvios sexuais.

Diferentemente do que sugere com esse encontro,  Moretti logo desvia do embate entre fé e razão para conduzir seu filme numa clave mais dramática. Ao fugir do Vaticano, o novo papa depara nas ruas de Roma com sua antiga aspiração da juventude, o que torna ainda mais angustiante sua crise existencial. Esse guinada de ritmo pode parecer brusca, mas sublinha, sobretudo amarrada no emotivo desfecho, que o objetivo de Moretti não foi o de criar polêmica. Buscou sim, de forma alegórica e agridoce,  mais que falar sobre as responsabilidades do poder, colocar o livre-arbítrio sob perspectiva mais filosófica que religiosa.

Precisamos falar sobre o sexo

26 de março de 2012 4

Em Drive, vê-se uma cabeça esmagada e um garfo cravado no olho de um dos vilões. Em Shame, veem-se três ou quatro corpos nus e algumas cenas de sexo, nunca explícito. A classificação etária de Drive: 16 anos. A de Shame: 18.

Isso diz muito sobre como o Brasil trata seus temas tabus na tevê e no cinema.

Podemos aqui falar de racismo, assunto raramente discutido com a contundência que merece, tanto nas produções nacionais quanto nas estrangeiras adquiridas pelas distribuidoras brasileiras para exibição no país – pense bem na forma pasteurizada com que este tema é tratado em Histórias Cruzadas antes de citar o longa indicado ao Oscar 2012. À exceção da violência, só entramos em temas delicados com muito receio e, aparentemente, vontade de discutir as coisas de maneira superficial ou restrita.

Também devemos aqui lembrar que, em Drive, a violência é estilizada, gráfica, o que diferencia o seu tratamento, por parte dos autores de um filme, e a sua absorção, por parte dos seus espectadores. No fundo, no entanto, isso só reforça a impressão de que falamos sobre a violência de uma maneira muito menos presa e, mais do que isso, muito mais profunda do que falamos sobre o sexo – ou o racismo.

Pense bem: você acha que os mesmos responsáveis por classificar Drive como um filme 16 anos e Shame como um 18 teriam outro veredito que não proibir a exibição de A Serbian Film no país, no ano passado, caso suas sequências mais chocantes não envolvessem estupro? Lembro, alguns anos atrás, de Tolerância, de Carlos Gerbase, longa que recebeu uma absurda classificação etária 18 anos por conta de duas ou três cenas de sexo que nem explícito era. Explícito, esta é a palavra: a violência pode, o sexo, não. Mas, espera, eu disse que o sexo não é explícito, nem em Tolerância, nem em Shame – imagina se fosse.

Está mais do que claro que as restrições a temas tabu que não a violência são sempre maiores. E não exclusivamente por parte dos responsáveis pelas classificações etárias de filmes e programas de tevê – eles apenas refletem um moralismo que é amplo e generalizado, e que se revela por completo a cada vez que o tema é tratado no cinema. Aguarde A Febre do Rato, de Cláudio Assis, e Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, de Beto Brant, dois dos títulos brasileiros mais interessantes que vão estrear em 2012: entre outras coisas, eles ousam falar de sexo apresentando... cenas de sexo. É muito atrevimento.

Michael Fassbender em Shame

Shame é quase decepcionante

16 de março de 2012 3

A tradução literal de Shame é vergonha. Fala-se muito do filme de Steve McQueen que estreia nesta sexta-feira por conta do sexo. Suas principais reflexões, no entanto, dizem respeito a liberdade e solidão. Isolamento – algo sobre o que o artista plástico e cineasta britânico de 42 anos tão bem falou no ótimo Hunger, seu primeiro longa-metragem, lançado em 2008.

Shame é o segundo. Venceu os prêmios da crítica e de melhor ator no Festival de Veneza, além de render uma indicação ao Globo de Ouro para Michael Fassbender. Se em Hunger o ator de origem alemã interpretava um guerrilheiro do IRA em greve de fome na prisão, aqui ele é um bem-sucedido habitante de Manhattan que, com seus 30 e poucos anos, vive feliz afastado de qualquer afeto, num estado de solidão paradoxalmente alcançado devido às dificuldades de lidar com a liberdade de que dispõe.

Não há nada de novo na abordagem de McQueen, e se há algo decepcionante em Shame é exatamente o fato de que sua dramaturgia pouco acrescenta a tudo que já se falou sobre o isolamento individual nas grandes cidades. Não sabemos bem no que Brandon, o protagonista, trabalha. Também desconhecemos seu passado familiar. Tudo o que o cineasta nos informa reitera o fato de que ele é bonito, agrada às garotas e é viciado em sexo – consome pornografia, mantém chats eróticos na internet, masturba-se a toda hora etc.

Sua confortável rotina só é abalada quando a irmã Sissy (Carey Mulligan), uma cantora tarja preta, chega de surpresa a Nova York para passar uns dias em seu sofisticado apartamento. Com a liberdade restringida, exposto a um certo constrangimento e incitado a dar e a receber afeto, Brandon se perde. Um Fassbender menos intenso do que aquele visto em Hunger, mas igualmente impressionante, dá – razoável – profundidade a um roteiro limitado, apontando sugestões e até mesmo comentários sobre a crise existencial que se desencadeia a partir de então.

Mas há muito a ver em Shame além da atuação de seu protagonista. Atente, por exemplo, para a sequência que se segue à briga entre os dois irmãos, já na metade final do filme. São mais de 15 minutos de um verdadeiro mergulho na consciência do personagem principal, dirigido e principalmente montado com uma precisão digna dos mestres. McQueen sabe filmar, além de falar sem medo e muito menos restrições morais sobre temas tabus como o sexo. Pena que, desta vez, parece ter um pouco menos a dizer.

Pina em 3D, imperdível

15 de março de 2012 3

Dance, dance, senão estaremos perdidos. É a frase que encerra Pina e que sintetiza o estado de espírito deste grande filme de Wim Wenders que terá sua primeira exibição em Porto Alegre nesta quinta-feira, dentro da programação do 8º Festival de Verão. A partir desta sexta, o longa ganha sessões diárias de pré-estreia na Capital e em Novo Hamburgo até estrear oficialmente na sexta-feira da semana que vem.

O cineasta alemão começou a trabalhar num documentário sobre Pina Bausch em 2008. Com a morte da coreógrafa em 2009, aos 68 anos, Wenders mudou o foco, deixando qualquer didatismo de lado e transformando o projeto num filme-homenagem no qual se veem performances de algumas de suas coreografias – primeiro A Sagração da Primavera, depois Café Müller, Kontakthof, Água e Vollmond – intercaladas com imagens antigas de Pina e depoimentos dos bailarinos cooptados nos mais diversos países para integrar a companhia que a lendária artista fundou na cidade de Wuppertal, oeste da Alemanha.

Esses depoimentos – alguns emocionados, todos revelando gratidão e encantamento com seu método de trabalho – são ouvidos em off, enquanto as imagens apresentam os entrevistados em silêncio, potencializando assim a sua expressividade. É apenas um detalhe formal do filme, mas que faz toda a diferença na percepção que se tem dele. Outra sábia decisão do diretor de Paris, Texas (1984) e Asas do Desejo (1987), esta fundamental para o encantamento do espectador: rodar e apresentar Pina em 3D.

Assim como outro documentário que outro grande realizador alemão lançou quase simultaneamente – A Caverna dos Sonhos Perdidos (2010), de Werner Herzog, que não deve chegar ao circuito no Brasil –, Pina se tornou um fenômeno de aceitação de público e crítica na Europa. Juntos, ambos constituem uma espécie de marco inicial do uso do 3D, este artifício tão banalizado pela indústria, na produção de caráter mais autoral.

Em Pina, as três dimensões permitem ao espectador se sentir dentro da cena, quase tocando nos bailarinos, interagindo com eles. É como se o filme derrubasse, também no cinema, a chamada “quarta parede” do teatro e da dança, chamando o público a se aproximar daquilo que lhe é apresentado. Como a obra de Pina Bausch se constrói a partir do uso de elementos orgânicos como a terra e a água, há um aguçamento dos sentidos como a linguagem do cinema raramente consegue proporcionar.

Wenders, ao se reinventar como cineasta depois de filmes menos bem-sucedidos como Estrela Solitária (2005) e Palermo Shooting (2008), construiu um trabalho de caráter híbrido, que mostra que além de dialogar com as artes visuais, algo tão usual no universo contemporâneo, o cinema pode aproveitar a tecnologia para rever, de maneira original, a sua proximidade com as artes cênicas. Imperdível.

Drive: quatro sequências (quase) na íntegra...

02 de março de 2012 4