O austríaco Sigmund Freud (1856 – 1939) e o suíço Carl Jung (1875 – 1961) mantiveram uma amizade curta, porém intensa, seguida de um rompimento turbulento no início do século 20. Suas trocas de confidências e informações sobre descobertas científicas e pessoais foram registradas em cartas – que acabaram publicadas em livro, no Brasil, pela editora Artenova.
Esta relação, que inclui uma mítica conversa entre ambos que durou 13 horas em 27 de fevereiro de 1907, é o tema central de Um Método Perigoso, longa-metragem que estreia nesta sexta-feira no país. Seu diretor, David Cronenberg, estabeleceu como principal elo entre os dois a figura de Sabina Spielrein, judia russa que se tornou paciente de Jung e o intrigou por conta do prazer que sentia ao receber castigos físicos do pai.
Esta Electra dos primórdios da psicanálise é interpretada por Keira Knightley num registro bastante discutível – sua performance é propositalmente exagerada –, enquanto Freud e o protagonista Jung, respectivamente encarnados por Viggo Mortensen e Michael Fassbender (também em cartaz como o protagonista de Shame), encontram um tom adequado entre a sabedoria intelectual e as recorrentes dificuldades de lidar com aquilo que desconhecem.
Cronenberg, mestre absoluto de um cinema físico no qual as pulsões psicológicas são invariavelmente traduzidas em imagens de uma crueza extraordinária, aqui exercita uma contenção não vista nem mesmo nos recentes Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), dois dos filmes mais facilmente digeríveis de toda a sua extensa carreira. Não que haja incoerência, como alguns dos fãs mais radicais do cineasta canadense de 69 anos já denunciaram: nem as fachadas decorosas da Viena da virada do século 19 para o 20 escondem os impulsos bestiais dos personagens, aí incluída a notável dupla de médicos – as nuanças de suas personalidades estão entre aquilo que de melhor Um Método Perigoso tem a oferecer ao espectador.
Escrito pelo oscarizado roteirista e dramaturgo Christopher Hampton a partir de seu próprio livro The Talking Cure e de A Most Dangerous Method, de John Kerr, o longa não deixa de ser um retrato de um triângulo amoroso em todas as suas trivialidades. Mas é bom por conta da capacidade de articulação de suas inúmeras sutilezas, que falam sobre temas atemporais e genéricos como repressão e libertação e específicos como as referências à I Guerra Mundial que estava prestes a eclodir.
Não se pode dizer, no entanto, que todas as pretensões de Cronenberg estão plenamente correspondidas. Se a ideia de construção da sociabilidade a partir da ocultação de fantasmas e vergonhas mantém a atualidade da dramaturgia de Um Método Perigoso, a personagem de Sabina, que deveria simbolizar esta premissa, não tem a empatia necessária para cativar o público. Notável pela arquitetura de temas e pela complexidade de suas abordagens, o filme sofre pela dificuldade de emocionar aqueles que se dispuserem a assisti-lo.








