Os fãs de Quentin Tarantino contam os dias até 25 de dezembro, data de estreia nos EUA do faroeste Django Unchained – no Brasil, o filme chega em 18 de janeiro. As primeiras imagens divulgadas apresentam os protagonistas da trama ambientada no sul dos EUA à época da Guerra Civil americana.
Jamie Foxx vive Django, escravo fugitivo que deseja se vingar de seus antigos senhores e reencontrar a mulher. Em sua busca, ele se junta a Schultz, um caçador de recompensas vivido por Christoph Waltz, que trabalhou com Tarantino em Bastardos Inglórios – no desempenho antológico que lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes e o Oscar de coadjuvante.
Já Leonardo DiCaprio interpreta o vilão, Calvin (Leonardo DiCaprio), fazendeiro que tem o hábito cruel de fazer de seus escravos gladiadores que lutam até a morte. É com ele e seus capangas que Django e Schultz vão cruzar. O elenco traz ainda dois chapas de Tarantino, Kurt Russell (À Prova de Morte) e Samuel L. Jackson (Pulp Fiction), além de Sacha Baron Cohen e Don Johnson.
Embora o faroeste, sobretudo o universo criado pelo italiano Sergio Leone, seja uma das influências mais caras de Tarantino no seu inventivo cinema recorte-cole-transforme-recicle, Django Unchained é primeira incursão do diretor no gênero.
As Praias de Agnès é o filme de uma vida. No sentido estrito, pois trata-se de um registro biográfico, e no metafórico, por ser daquelas arrebatadoras obras máximas que todo artista sonha em realizar.
Se Agnès Varda apenas ficasse diante da câmera para contar histórias de sua vida e mostrar trechos de seus filmes, certamente já se teria um documentário dos mais relevantes. Mas o que essa inventiva e permanentemente inquieta realizadora de 83 anos faz nesse que anunciou como seu último longa-metragem, lançado em 2008, é um criativo autorretrato. E nele potencializa seu talento narrativo, seu olhar humanista de cineasta, fotógrafa e artista plástica e seu afeto de mãe e avó.
"Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias", diz Agnès, apresentando-se como uma "vovozinha gordinha e apaixonada com grande interesse em pessoas". E são pessoas que revivem nesta reflexão sobre o tempo e a memória que tem como partida o litoral da Bélgica, com ela lembrando as férias da infância com a família nas praias no Mar do Norte. Sobre as areias de uma praia, Agnès apresenta sua equipe, coloca espelhos, móveis e molduras, objetos que são como portais de uma entrada para uma outra dimensão, na qual ela é a guia de uma divertida viagem no tempo e no espaço que ora flerta com o rigor do cinema-verdade, ora ganha um tom próximo do fabular, ora se deixa levar por digressões sentimentais. Alterna um segmento documental com outro de tresloucada alegoria, como encenar um espetáculo circense à beira-mar, colocar-se, como Jonas, no ventre de uma baleia cenográfica, pilotar um carro de papelão ou ser entrevistada pela caricatura do simpático gato criado pelo amigo Chris Marker.
As ondas do mar ditaram o ritmo da vida de Agnès. Para ela, a aparente serenidade daquele eterno vai-e-vem é o contraponto para as constantes e por vezes bruscas mutações da vida. Em 1940, em meio à II Guerra, fugiu com os pais e os quatro irmãos para a França. Morando em cidades costeiras, trabalhou em colônias de pescadores, interessou-se pela fotografia e pelo registro da vida cotidiana no Mediterrâneo, viés documental que seria a marca do seu cinema. Já vivendo em Paris, Agnès foi a protagonista feminina da nova onda do cinema francês, ao lado de Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais e Jacques Demy, com quem se casou.
Fotografia, cinema, pintura, poesia e música são algumas das paixões que a diretora combina em seu tributo memorialista. As imagens que lhe faltam no baú de recordações, Agnès recria ficcionalmente. Ela volta a lugares de sua juventude, reencontra amigos e os confronta com imagens que fez deles décadas antes - em um segmento de beleza ímpar, faz senhores se emocionaram ao verem seus pais quando jovens -, revive a tragédia da ocupação nazista, lembra alguns de seus grandes filmes - como Cléo das 5 às 7 (1962), Sem Teto Sem Lei (1985) e Os Catadores e Eu (2000), recorta fragmentos biográficos de seus curtas experimentais.
Agnès destaca ainda que foi com ela que atores como Philippe Noiret e Gérard Depardieu iniciaram no cinema, expõe a intimidade doméstica colocando filhos netos a interagir com ela, lembra a relação apaixonada com Demy (1931 - 1990) e dor de perdê-lo precocemente. Brinca sobre sua ausência no Maio de 68: "Não estava lá". À época, passava uma temporada nos EUA, engajada nos protestos contra a Guerra do Vietnã e nos filmes que fazia com grupo radical Panteras Negras e outras figuras de frente na luta pelos direitos civis. Antes, havia passado por Cuba, encantada que estava com a revolução socialista e a salsa da ilha de Fidel (é dela uma das mais famosas fotos do líder cubano, que o mostra diante de pedras que simulam asas - veja abaixo), e pela China, registrando a Revolução Cultural de Mao.
Este paralelo que Agnès faz entre a perenidade das onda do mar e fugacidade de vida é o fio condutor desse que é , mais que um documentário, um filme-ensaio no qual criadora e suas criações (artísticas e biológicas) se fundem de maneira orgânica. Brotam da tela tanto a melancolia que regem os balanços existenciais da maturidade quanto o genuíno deslumbramento juvenil diante das boas descobertas. Das janelas físicas e imaginárias que a cineasta abre diante do espectador é possível olhar tanto para dentro, e vislumbar um imensurável tesouro afetivo, e para além do horizonte, até onde alcança sua imaginação. Enfim, recordar é viver. Ou como diz Agnès: "Enquanto viver, eu lembro".
Confira o trailer de As Praias de Agnès (são dois juntos, espere um pouquinho antes de entrar o segundo):
E a tal foto do Fidel:
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