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Os Vingadores e a retórica da ação

08 de maio de 2012 1

Chris Hemsworth, como Thor, e Chris Evans, como Capitão América. Foto: Estúdios Marvel

Talvez seja engraçado dizer isso, mas, embora vendido por aí como filme de ação, Os Vingadores é um filme retórico. Passando rapidamente por cima de dois mil anos de estudos sobre o tema, simplifiquemos a retórica como a sistematização das técnicas pelas quais uma linguagem é usada para o convencimento. E, embora sua trama possa passar longe da lógica, seus personagens sejam super-heróis e seus recursos visuais não sejam inventivos como os vistos em Batman ou X-Men, Os Vingadores tem um roteiro de tal modo concatenado e usa os recursos de maneira tão eficiente que, no final da sessão, convence.

De modo geral, a trama de um filme de super-heróis não prima pela lógica cartesiana a começar pela sua mais básica premissa: a existência de super-heróis. A de Os Vingadores, por exemplo, poderia ser resumida por: agência supersecreta recruta grupo de super-humanos para lutar contra uma invasão alienígena liderada por um deus nórdico de outra dimensão. O que faz diferença em um filme de quadrinhos é o olhar de cada artista sobre o material — razão pela qual X-Men, Batman e Homem-Aranha deram tão certo. Joss Whedon, o diretor de Os Vingadores, não é um artista visual tão inventivo quanto os demais, mas revela-se um hábil malabarista: tendo que lidar com quase uma dezena de personagens com voz, vez e relevância para o andamento do filme, consegue equilibrar todos os elementos em um filme de ação que empolga na maior parte do tempo, e no qual a conjunção de vários pequenos acertos salva a produção de ser um equívoco.

Um dos acertos: contar com pelo menos alguns atores de verdade. Whedon consegue finalmente fazer o Hulk ter razão de ser. Enquanto humano, Mark Ruffalo retrata de modo apropriado o turbilhão de emoções contidas que é estar sempre à beira de virar outra pessoa, maior, mais forte e infinitamente mais perigosa. Como Hulk, além de a figura criada por computação gráfica destoar menos do conjunto pela ausência de planos e cenários abertos, o monstro proporciona um insuspeitado alívio cômico. A garra de Robert Downey Jr. como Tony Stark — que pôs a perder Homem de Ferro 2 e poderia descambar para o exagero em um novo filme solo — está na medida devido ao fato de ele ter de compartilhar tempo com os demais. Tom Hiddleston, como Loki, oferece um vilão manipulador e insidioso, e a cena de ação final prova, por comparação, quão constrangedoras eram as do filme solo do Thor.

Nem tudo funciona, claro: Whedon tende a ser verborrágico em alguns momentos — os bate-bocas entre os heróis por vezes imitam algumas das piores características dos textos antigos de Stan Lee. E a velha “premissa Marvel” de que heróis precisam trocar porrada entre si antes de se aliarem pelo bem comum pode valer no gibi, mas na tela parece encheção de linguiça.

No conjunto, contudo, este antigo leitor das aventuras de Os Vingadores ainda na extinta revista Heróis da TV saiu empolgado com os Heróis no Cinema. Até sentar para escrever este texto, quando algumas falhas começaram a sobressair, a sensação era de aprovação quase plena.

O que prova o quanto Os Vingadores é eficiente como filme retórico.

Comentários (1)

  • Marcelo Castro Moraes diz: 9 de maio de 2012

    Sou fã de carteirinha de HQ, mas nem por isso vou dar voto à favor, quando uma adaptação de HQ não prestar. Mas no caso dos Vingadores, funciona dos dois lados, tanto para aquele que procura uma boa historia na tela, como para aquele que é fã fervoroso pelas HQ clássicas. O ato final é uma lição de como deve ser tratado uma seqüência de ação com inúmeros acontecimentos acontecendo. Diferente das dispensáveis seqüencias de Transformers, ali, cada personagem tem algo para fazer com um objetivo, como se fosse um vídeo game onde cada avatar te sua função, e não um monte de cenas onde deixa o olho do espectador cansado e torcendo para aquilo tudo acabe. No caso desse, desejamos que o ato final não termine tão cedo.

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