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Posts de maio 2012

Os 30 anos de Palma de Ouro

28 de maio de 2012 0

Encerrado mais um Festival de Cannes, o feito de O Pagador de Promessa segue inigualado. O filme de Anselmo Duarte  (1920 – 2009) é detentor da única Palma de Ouro conquistada pelo cinema nacional, há 50 anos. A data foi devidamente celebrada por ZH no dia 23 passado, na matéria em que entrevistamos Leonardo Villar e Glória Menezes, protagonistas do longa (você pode conferir  clicando aqui).

Logo depois, nosso querido amigo Goida ligou para dar o toque. Em 1992, na ocasião dos 30 anos da Palma de Ouro, foi realizada uma homenagem a O Pagador de Promessas no Festival de Gramado. Em agosto daquele ano, o filme foi escolhido para a abrir a 20ª edição do evento, com presença de Anselmo, Glória, Leonardo, Norma Bengell e Dionísio Azevedo, também integrantes do elenco, e do produtor Oswaldo Massaini (todos ele na foto acima).

Crítico de cinema e um dos principais articuladores e incentivadores do Festival de Gramado, Goida lembra que não foi nada fácil convencer Anselmo a vir receber a homenagem, pois o diretor, então com 72 anos,  não gostava muito de sair de casa.

Pesquisando em nosso arquivo, achamos algumas fotos e a cobertura da noite especial, que se deu em um momento nefasto para o cinema brasileiro –, a produção havia sido paralisada com extinção da Embrafilme pelo governo Collor, que naquele momento agonizava em meio à crise que culminaria no processso de impeachment (a programação de Gramado em 1992 foi majoritariamente de filmes latinos).

Antes da projeção, seguida por aplausos em pé da plateia, Anselmo disse:

- Estou satisfeito em ver que o Brasil não é um país desmemoriado, têm a lembrança do que ocorreu há 30 anos. Espero que esse reconhecimento possa servir de incentivo aos jovens que estão fazendo cinema nesse país.

Anselmo também comentou à situação caótica do cinema nacional à epoca, destacando como agravante o fechamento de salas de exibição e culpando exibidorer e negociantes. E garantiu que não iria mais filmar, apesar de haver recebido uma proposta do Governo Federal para voltar à ativa.

– A saída seria eu trocar de nome e ir filmar no Exterior. Tudo o que fiz depois foi taxado de quadrado, acadêmico.  Não quero mais.

Público e renda

25 de maio de 2012 0

Não custa lembrar que esse recorde de Os Vingadores que está sendo alardeado refere-se tão somente à renda, e não a público. Tem gente dizendo que a aventura já é o filme mais visto no Brasil em todos os tempos. Não é.  E não deverá ser. Esse posto segue ocupado por Titanic. Com o recente relançamento em 3D, a tragédia rômantica de James Cameron  chegou aos 17 milhões de espectadores no país (já tinha mais de 16 milhões antes da versão 3D).

Os Vingadores soma no Brasil 8,4 milhões de espectadores (sem contar este próximo final de semana). Ainda é menos, por exemplo, que Tropa de Elite 2 (11 milhões) . Quando se fala em sucesso de um filme, é sempre bom levar em conta a tendência de se supervalorizar mais renda (como nos EUA) do que o público (mais comum no Brasil), em razão de ingressos inflacionados pelos anos e, agora, turbinados pelo valor mais alto do 3D.

Remakes dos remakes

25 de maio de 2012 4

Vocês já se deram conta da quantidade de refilmagens de filmes que em si já eram refilmagens? Ou, aumentando um pouquinho o campo de visão: da quantidade de refilmagens de filmes que já haviam sido refilmados anteriormente?

Hollywood está se puxando, convenhamos. Dá uma olhada nesta compilação de 10 remakes de remakes, parte deles da última década:

> Sete Homens e um Destino, o western de 1960 dirigido por John Sturges, terá um remake estrelado por Tom Cruise, anunciou esta semana a MGM. Pois o longa já era uma releitura do inesquecível Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa.

> Scarface (1932), o clássico de Howard Hawks e Richard Rosson que já fora refilmado por Brian de Palma em 1983, está sendo readaptado pelo roteirista David Ayer, ao que consta, “para o contexto do século 21″.

> Eu Sou a Lenda (2007), com Will Smith e Alice Braga, lembra? Já tem uma continuação anunciada. E era, veja só, um remake de Omega Man (1971), que por sua vez era um remake de Mortos que Matam (1964) – embora aqui talvez seja mais correto classificar os três de diferentes versões do romance de Richard Matheson.

> Invasores (2007), a controversa e renegada estreia do diretor alemão Oliver Hirschbiegel em Hollywood, é uma releitura da obra-prima Vampiros de Almas (1956), que já ganhara duas releituras anteriores, ambas intituladas Invasores de Corpos e lançadas em 1978 e 1993.

> Prova de que a falta de criatividade não é tão nova assim: Um Milhão de Anos Antes de Cristo (1966), de Don Chaffey, era um remake do homônimo britânico de 194o e ganhou uma refilmagem em 1970 intitulada Quando os Dinossauros Dominavam a Terra.

> A Marca do Zorro (1920), longa com Douglas Fairbanks que tem um trecho exibido no vencedor do Oscar deste ano O Artista, lembra dele? Foi refeito em 1940 com o ator Tyrone Power e, em 1974, com Frank Langella (não vi, mas, pelo que li, o homônimo com Alain Dellon, lançado em 1975, não é uma refilmagem).

> E A Casa de Cera (2005), aquele terror que até a Paris Hilton e a Elisha Cuthberrt (a filha de Jack Bauer) tem no elenco? Remake de Museu de Cera (1953), com Vincent Price, e de outro título homônimo lançado originalmente em 1933 com direção de Michael Curtiz.

> O Enigma de Outro Mundo (2011), horror fantástico que estreou no fim do ano passado, é uma refilmagem do cult homônimo (também conhecido pelo seu título original, The Thing) que fora lançado em 1981. O que nem todo mundo sabe é que o filme oitentista de John Carpenter já era, ele próprio, uma refilmagem de O Monstro do Ártico, de 1951.

> King Kong. Não duvido que daqui a pouco este não vá render um remake do remake do remake, ou uma quarta versão. As três anteriores são o clássico de 1933 dirigido por Merian Cooper e Ernest Schoedsack, a releitura de 1976 com Jeff Bridges e Jessica Lange no elenco e a versão recente (de 2005) do diretor Peter Jackson com Naomi Watts e Andy Serkis.

> Esta é outra das histórias mais revistas pelo cinema: O Céu Pode Esperar. A versão mais recente, de 2001, protagonizada por Chris Rock, foi antecedida pela de 1978, dirigida e estrelada por Warren Beatty, e pela de 1941, dirigida por Alexander Hall e estrelada por Robert Montgomery (esta última tem até uma espécie de continuação, um musical de 1947).

Só para ver em casa

24 de maio de 2012 1


Michael Shannon é o protagonista de O “Abrigo”

Neste segunda-feira, publicamos no Segundo Caderno dicas de filmes que ficaram inéditos nos cinemas locais. Aqui segue uma versão bem mais ampla da lista.

Os critérios e caminhos tortos que regem a decisão de lançar um filme no cinema ou jogá-lo direto nas prateleiras das locadoras já foram mais lógicos e claros. Apelo popular, números de bilheteria em outros países, consagração da crítica, nome de peso nos créditos, por exemplo, eram elementos que ajudavam a balizar as escolhas das distribuidoras. Agora, também tem peso relevante o achatamento de um circuito exibidor cada vez mais voltado para blockbusters e shopping centers (mais da metade das salas de cinema do Brasil estavam ocupadas por apenas dois filmes, Os Vingadores e Battleship — e está chegando Homens de Preto 3).

Assim, muitos filmes bons ou pelo menos dignos de atenção ficaram inéditos nos cinemas da Capital. Zero Hora tem destacado de tempos em tempos alguns títulos lançados direto em DVD. Aqui, você pode conferir alguns dos vários casos de uma safra mais recente que bem poderiam ser vistos na tela grande — no lugar de tantas bombas que ganham esta chance. Menos mal que estão disponíveis para fazer, com atraso, a sessão de cinema em casa.

O Abrigo

Impactante drama apocalíptico que venceu a Semana da Crítica no Festival de Cannes em 2011— seu diretor, Jeff Nichols, disputa agora a Palma de Ouro com o novo filme, Mud. Ambos são estrelados por Michael Shannon. Em O Abrigo, ele vive um homem que surta diante do que imagina ser o iminente fim do mundo e se lança a construir um bunker para nele se proteger com a família.

A Menina que Brincava com Fogo

Produção sueca que adapta o segundo capítulo da aclamada trilogia policial Millennium — o primeiro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, chegou aos cinemas brasileiros e ganhou remake americano. A hacker Lisbeth Salander (Naomi Rapace), de volta a Estocolmo, e o jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) investigam uma rede de tráfico de mulheres que conta com a cumplicidade de autoridades corruptas. De Daniel Alfredson.

Uma Vida Melhor

Dirigido por Chris Weiz, este drama familiar colocou o ator mexicano Demián Bichir nas listas das principais premiações da temporada, incluindo uma consagradora indicação ao Oscar. Ele vive um imigrante ilegal que trabalha duro nos EUA e cumpre uma comovente odisseia para se aproximar do filho adolescente e manter o rapaz afastado das tentações da marginalidade.

Nosso Dia Chegará

O grande cinesta Costa-Gavras tem dois herdeiros seguindo seus passos: a filha, Julie, e, mais recentemente, o filho, Romain Gavras, autor desta curiosa abordagem sobre o proconceito e a intolerância na sociedade francesa. Dois desajustados anarquistas (Olivier Barthelemy e Vincent Cassel) decidem rebater com violência as hostilidades que sofrem por serem… ruivos.

Sentidos do Amor

Título nacional enganoso para Perfect Sense, trama em que o romance até existe, mas tem tom apocalíptico. Chefe de cozinha (Ewan McGregor) se envolve com médica (Eva Green) que depara com estranhos casos: pacientes perdendo progressivamente sentidos como olfato, audição e paladar. O fenômeno é global, sem causa conhecida, e desencadeia uma onda de medo e paranoia. De David Mackenzie.

A Tempestade

Esta que é considerada a última peça de William Shakespeare já ganhou diferentes adaptações no cinema. O diferencial nesta versão é ter uma mulher como protagonista, agora chamada Próspera (vivida pela oscarizada Helen Mirren). Nobre exilada em uma ilha, ela atrai para lá os inimigos com o fim de consumar sua vingança. De Julie Taymor (do musical beatle Across the Universe).

50%

Jonathan Levine mantém no tom certo de drama e emoção um filme com um tema que costuma descambar no melodrama lacrimoso. Teve duas indicações ao Globo de Ouro. O enredo é inspirado na história real do roteirista Will Reiser, que enfrentou a luta contra o câncer com apoio de um grande amigo, o ator Seth Rogen, que revive sua própria história em parceria com Joseph Gordon-Levitt.

Cyrus

Comédia romântica que vai um pouco além dos chichês do gênero, assinada pelos irmãos Jay e Mark Duplass. John C. Reilly vive John, sujeito divorciado que engata um novo romance. Mas sua namorada (Marisa Tomei) é mãe de um rapaz um tanto esquisito de 22 anos (Jonah Hill), a quem ela trata como um bebezão, que decide entrar em guerra territorial com John.

Toda Forma de Amor

Oscar de ator coadjuvante  para Christopher Plummer, que, aos 82 anos, tornou-se o mais velho intérprete a ganhar a estatueta. Ele dá um show nesse visualmente inventivo drama, como pai que assume ser gay quando fica viúvo e decide aproveitar ao máximo o final da vida, servindo de exemplo para o filho depressivo (papel de Ewan McGregor) seguir em frente e dar uma sacudida na sua. De Mike Mills.

Crimes de Amor

Último filme realizado pelo diretor francês Alain Corneau ( 1943 – 2010) autor de filmes como Noturno Indiano e Todas as Manhãs do Mundo. Suspense ambientado no mundo corporativo. Jovem executiva (Ludivine Sagnier) planeja uma rocambolesca e ardilosa vingança contra a chefe (Kristin Scott Thomas) que, não satisfeita em roubar suas ideias, a humilha publicamente.

The Sunset Limited

Depois do ótimo Três Enterros, o ator Tommy Lee Jones voltou à direção neste projeto feito para a TV. Ele protagoniza com Samuel L. Jackson a adaptação de uma peça do escritor Cormac McCarthy (de Onde os Fracos não Têm Vez). Na história, ex-presidiário negro evita que um professor branco cometa suicídio, aproximação que faz os dois homens debaterem sobre profundas questões existenciais.

Pusher e Medo X

Não são lançamentos recentes, mas entram na lista por serem dirigidos pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, autor do, esse sim,  recente e badalado Drive. Pusher (1996) é o primeiro título de uma vilonta trilogia ambientada no submundo criminoso de Copenhague. Medo X (2003) mostra a jornada de um homem (John Turturro) obcecado em encontrar o assassino de sua mulher.

Órfãos de Guerra

De Roger Spottiswoode, se passa no mesmo cenário e aborda tema parecido com o longa que está chegando aos cinemas Flores do Oriente, de Zhang Yimou. Jonathan Rhys Meyers vive jornalista inglês que viaja à China no final dos anos 1930 e acaba testemunhando os massacres cometidos pelos invasores japonesas, às vésperas da II Guerra.

Stake Land – Anoitecer Violento

Um dos destaques do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa), em 2011, mostra uma trama apocalíptica que tem como cenário os EUA devastados por um ataque de vampiros. O clima e o visual lembram o seriado The Walking Dead – os vampiros são parecidos com os zumbis, mas muito mais ágeis, espertos e mortais. Os protagonistas são um caçador de vampiros duro na queda (Nick Damici) e um garoto (Connor Paolo) que vira seu companheiro de jornada. De Jim Mickle.

Jane Eyre

Adaptação de Cary Fukunaga para o clássico romance de Charlotte Brontë ambientado no século 19. Conta, em meio a muitas reviravoltas, a história romântica e trágica de uma órfã que ascende socialmente até se ver diante de uma conturbada paixão. O casal protagonista é vivido por Mia Wasikowska (A Alice de Tim Burton) e Michael Fassbender, um dos astros do momento (de Shame).

Dublê do Diabo

O diretor Lee Tamahori teve um começo promissor nos anos 1990, à frente de filmes vigorosos como O Amor e a Fúria e O Preço da Traição, mas perdeu o gás. Esse novo trabalho não teve grande repercussão, apesar do tema. É inspirado na história real do iraquiano Latif Yahia, militar obrigado a servir de dublê de corpo de Uday Hussein, filho de Saddam, conhecido pela vida de prazeres luxuosos, exóticos e sádicos que levava até cair a casa dos tiranos. Dominic Cooper interpreta os dois personagens.

Sob o Domínio do Medo

Entra na lista mais por curiosidade, pela coragem de refazerem um dos melhores e mais polêmicos filmes do diretor Sam Peckinpah, de 1971 – sobre como um homem comum (Dustin Hoffman) podia virar uma violenta fera quando provocado ao extremo. Agora, James Marsden e Kate Bosworth vivem o casal que se muda para uma idílica casa de campo e se vê na mira de sádicos caipiras locais – um deles é vivido por Alexander Skargard, o vampiro Eric do seriado de TV True Blood. De Rod Lurie.

Envergonhemo-nos

21 de maio de 2012 9

É uma vergonha.

Tem a ver com o que diz o Perrone nos dois posts anteriores deste blog, tem a ver com decisões de distribuidores, atuação de críticos e postura de realizadores. Mas é, sobretudo, culpa dos espectadores.

De volta após quatro curtas semanas de férias, tomei pé de alguns números que só atestam a situação calamitosa do (bom) cinema nacional recente. Luz nas Trevas, retorno em excelente estilo do lendário Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla. O Homem que Não Dormia, elogiado longa lyncheano de Edgard Navarro. Girimunho, linda combinação de autoficção, Guimarães Rosa e Apichatpong Weerasethakul. Uma Longa Viagem, o vencedor do Festival de Gramado que conta com o apelo da presença de Caio Blat. Nenhum deles superou, até aqui, atenção para este dado, a marca dos 3 mil ingressos vendidos nas salas brasileiras.

O fato de Xingu ter feito menos espectadores do que se imaginava, não só no RS (menos de 400 mil no país inteiro), e de Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios sequer ter batido na casa dos 50 mil (apesar de Camila Pitanga) não é ocasional. Está cada vez mais claro que o público está disposto a ver cinema nacional – desde que sejam comédias populares ou blockbusters com apelo social que transcende o cinema (Tropa de Elite é um ótimo exemplo). E só. Títulos de outros perfis invariavelmente naufragam em sua tentativa de comunicação com o público. Fossem vistos por 20 mil pessoas, filmes como Girimunho não poderiam ser considerados um fracasso, afinal, são indiscutivelmente mais restritos. Mas 1,2 mil na primeira semana de Uma Longa Viagem e 2,3 mil em poucos dias a mais para um filme-acontecimento tão significativo como Luz nas Trevas são números inexplicáveis.

A má estratégia dos distribuidores, a falta de atenção da crítica, o bairrismo dos gaúchos, enfim, os motivos para esta situação podem ser muitos, e os mais diversos. Todos, no entanto, são secundários. O fundamental é o desinteresse do público.

O que mais lamento é que este desinteresse coincide com o surgimento de novas gerações de cineastas talentosos, capazes de produzir longas belíssimos como O Céu sobre os OmbrosRiscado Além da Estrada, entre outros. Em outras palavras: você está perdendo filmes muitíssimo interessantes, te liga.

Lançados e jogados

19 de maio de 2012 4

Um eco tardio ainda relacionado ao tema abaixo, sobre a relação do público local com o cinema nacional. Entraram em cartaz em Porto Alegre nesta sexta-feira oito filmes. Três deles são brasileiros: O Homem que não Dormia, de Edgar Navarro, Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, e Romance de Formação, de Julia de Simone. Nenhum deles realizou cabine de imprensa.

Do elogiado O Homem que não Dormia ficou-se sabendo da chegada em cima da hora, com a programação enviada pela sala exibidora (está em cartaz em apenas uma e em dois horários). Romance de Formação entrou em uma sala e em apenas um horário. Nenhum dos dois ganhou espaço no jornal. Uma Longa Viagem teve melhor sorte por já ser conhecido dos festivais em que foi premiado (como Gramado e Paulínia). Ganhou uma página.

O espaço no jornal faz ou não faz diferença no desempenho de um filme pequeno? Já demos matérias de capa recentemente e avaliações muito positivas para filmes como os do projeto Vitrine (exemplo de divulgação competente), Heleno, Eu Receberia as Piores Notícias…, entre outros tantos que não foram exatamente sucesso de público – ou chegaram ao seu público potencialmente certo, vá saber. Mas dá para cravar que, se com divulgação pode mesmo assim ser ruim, sem divulgação alguma será ainda pior.

Mesmo que se assista a O Homem que não Dormia e a Romance de Formação no final de semana e se consiga um espaço nos próximos dias para falar deles, o estrago foi feito, pois a performance dos primeiros dias em cartaz costuma ser decisiva para o futuro de um filme com lançamento modesto.

Girimunho, que entra em cartaz nos próximos dias, teve cabine de imprensa nesta sexta-feira, o que dá um prazo decente para que busque no decorrer da semana entrevistar seus diretores (Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.) e preparar um bom material para a estreia.

A conclusão disso tudo é que realizadores e distribuidores não podem reclamar de interesse de público por um filme  se o público por vezes desconhece a existência desse filme.  E não estamos falando de marketing pesado, mas sim de um simples release, uma foto decente, um DVD de serviço que seja diante do custo de realização de uma cabine. A impressão que passa é que às vezes nem os responsáveis pelo filme acreditam nele, ao ponto de jogá-lo  no circuito à própria sorte tão somente para cumprir cotas, metas, compromissos com investidores, etc. E nem vamos entrar no complexo mérito daqueles que não dependem de bilheteria por  já terem sido remunerados lá no início do projeto pelas leis de incentivo.

Ainda sobre "Xingu" e os gaúchos

11 de maio de 2012 10

Uma consideração que imagino ser relevante nessa bronca do Fernando Meirelles com o público gaúcho por conta do fraco, na avaliação dele, desempenho de Xingu por aqui. O tema já deu pano pra manga em ZH, a começar por um texto exclusivo enviado pelo diretor e na reportagem que procurou investigar qual é, afinal, o gosto cinéfilo do espectador local (leia aqui).

Bom, um ponto importante a destacar é que os números nacionais de Xingu, mais de 300 mil espectadores, não são de todo ruins para um filme que, apesar do grande lançamento, não tem o perfil comercial que seus produtores possam ter imaginado que tivesse – para ser vendido, por exemplo, como uma aventura de heróis desbravadores em terras habitadas por índios hostis. Um indício disso é a percepção que reproduzo a seguir, de que o filme, pelo menos por aqui, não chegou adequadamente a seu público potencial.

Quem fala é Mônica Kanitz, programadora das três salas de cinema da Casa de Cultura Mario Quintana:

“Até já encaminhei para ele (Meirelles) um e-mail com algumas considerações… Acho, por exemplo, que um filme como esse não pode entrar num Cinemark da vida – o público-pipoca não tem esse perfil. O problema é que os caras querem arrecadar, querem grana, aí desconsideram a Cinemateca (nosso ingresso fica na média de R$ 5). Peguei o filme para dar continuidade e coloquei numa sessão só, na Paulo Amorim (150 lugares). No sábado passado, a sessão teve 123 pessoas, no domingo, 141 (mandamos gente embora, inclusive). E as duas sessões foram aplaudidas no final! Claro que isso foi no final de semana, mas mesmo durante a semana o público é sempre bom (com metade da sala, em média). Agora, por causa do Fantaspoa, tive que colocar o filme na Norberto Lubisco (50 lugares), mas agendamos duas sessões para tentar acomodar todo mundo. Outro detalhe muito importante: várias escolas estão ligando para agendar sessões para 50, 60 alunos. Já temos cinco marcadas para os próximos dias! Vamos fazer, inclusive, sessões pela manhã! Acho que um filme como o Xingu tinha que ter um lançamento mais bem pensado, valorizando escolas e os cinemas que têm um perfil alternativo, de autor. Tenho certeza que vai ficar muito tempo na Cinemateca – enquanto o público estiver bacana, nós vamos mantê-lo em cartaz!”.

Diante disso, é equivocado generalizar que houve rejeição ao filme no RS. As pessoas estão indo assistir e estão gostando. Pode não ser na quantidade que Meirelles gostaria, mas isso é literalmente outro negócio.

Por fim, vale lembrar que essa bronca do cineasta com os gaúchos não é de agora. E o curioso é que tem filme dele que, proporcionalmente, saiu-se melhor aqui do que nas capitais de São Paulo e Rio, caso de Ensaio sobre a Cegueira. Os dados foram apurados pelo Carlos André Moreira junto ao Filme B, para a matéria acima referida: Rio : 98.452 espectadores (1,5% dos habitantes); São Paulo: 235.603 ( 2% dos habitantes); Porto Alegre: 40.409 (2,8% dos habitantes).

Em entrevista a ZH, em 2010, Meirelles já havia manifestado essa, digamos, indisposição com os gaúchos:

P – Há diferenças entre os públicos de um Estado e de outro no Brasil? Que diferenças seriam essas? R – Ha diferenças sim, mas nada comparada as diferenças que há entre o mercado gaúcho e o resto do Brasil. Há filmes que só vão bem no Rio Grande do Sul e outros que são solenemente ignorados aí.

P – Baseado na experiência com seus filmes, você considera que (…) o gaúcho seria mais resistente ao cinema nacional?

R – Do meu ponto de vista daqui do norte, cinema nacional para gaúcho é o cinema feito pelo Jorge Furtado, pelo Gerbase, Reichenbach, Paulo Nascimento, Nadotti, etc. Nem sei se os gaúchos sabem que existe terra habitada ao norte de Frederico Westphalen.

A quem tiver mais interesse nessa pendenga sem fim (e sem propósito) do cinema nacional x gaúchos, já tratamos do tema AQUI e AQUI.

Os Vingadores e a retórica da ação

08 de maio de 2012 1

Chris Hemsworth, como Thor, e Chris Evans, como Capitão América. Foto: Estúdios Marvel

Talvez seja engraçado dizer isso, mas, embora vendido por aí como filme de ação, Os Vingadores é um filme retórico. Passando rapidamente por cima de dois mil anos de estudos sobre o tema, simplifiquemos a retórica como a sistematização das técnicas pelas quais uma linguagem é usada para o convencimento. E, embora sua trama possa passar longe da lógica, seus personagens sejam super-heróis e seus recursos visuais não sejam inventivos como os vistos em Batman ou X-Men, Os Vingadores tem um roteiro de tal modo concatenado e usa os recursos de maneira tão eficiente que, no final da sessão, convence.

De modo geral, a trama de um filme de super-heróis não prima pela lógica cartesiana a começar pela sua mais básica premissa: a existência de super-heróis. A de Os Vingadores, por exemplo, poderia ser resumida por: agência supersecreta recruta grupo de super-humanos para lutar contra uma invasão alienígena liderada por um deus nórdico de outra dimensão. O que faz diferença em um filme de quadrinhos é o olhar de cada artista sobre o material — razão pela qual X-Men, Batman e Homem-Aranha deram tão certo. Joss Whedon, o diretor de Os Vingadores, não é um artista visual tão inventivo quanto os demais, mas revela-se um hábil malabarista: tendo que lidar com quase uma dezena de personagens com voz, vez e relevância para o andamento do filme, consegue equilibrar todos os elementos em um filme de ação que empolga na maior parte do tempo, e no qual a conjunção de vários pequenos acertos salva a produção de ser um equívoco.

Um dos acertos: contar com pelo menos alguns atores de verdade. Whedon consegue finalmente fazer o Hulk ter razão de ser. Enquanto humano, Mark Ruffalo retrata de modo apropriado o turbilhão de emoções contidas que é estar sempre à beira de virar outra pessoa, maior, mais forte e infinitamente mais perigosa. Como Hulk, além de a figura criada por computação gráfica destoar menos do conjunto pela ausência de planos e cenários abertos, o monstro proporciona um insuspeitado alívio cômico. A garra de Robert Downey Jr. como Tony Stark — que pôs a perder Homem de Ferro 2 e poderia descambar para o exagero em um novo filme solo — está na medida devido ao fato de ele ter de compartilhar tempo com os demais. Tom Hiddleston, como Loki, oferece um vilão manipulador e insidioso, e a cena de ação final prova, por comparação, quão constrangedoras eram as do filme solo do Thor.

Nem tudo funciona, claro: Whedon tende a ser verborrágico em alguns momentos — os bate-bocas entre os heróis por vezes imitam algumas das piores características dos textos antigos de Stan Lee. E a velha “premissa Marvel” de que heróis precisam trocar porrada entre si antes de se aliarem pelo bem comum pode valer no gibi, mas na tela parece encheção de linguiça.

No conjunto, contudo, este antigo leitor das aventuras de Os Vingadores ainda na extinta revista Heróis da TV saiu empolgado com os Heróis no Cinema. Até sentar para escrever este texto, quando algumas falhas começaram a sobressair, a sensação era de aprovação quase plena.

O que prova o quanto Os Vingadores é eficiente como filme retórico.

Ainda bem que tem o Hulk

03 de maio de 2012 15


Os Vingadores
é o tipo de filme que prescinde das críticas para atrair multidões ao cinema. Era tanta a expectativa dos fãs para ver reunidos Capitão América, Hulk, Thor e Homem de Ferro, e foi tão maciça a estratégia de lançamento (ocupa quase a metade das salas do Brasil), que a aventura com os personagens da Marvel se tornou a terceira maior estreia no país _ nos três primeiros dias de exibição, contabilizou 1,5 milhão de espectadores.

Eu fui um deles, no duplo papel de crítico e fã. Minhas duas identidades saíram mais frustradas do que felizes. Ok, Os Vingadores tem aquilo que se espera de um filme que reúne super-heróis, ou seja, o conflito de egos, a divergência de ideias, superbrigas emolduradas por frases de efeito. Mas as, digamos, discussões morais são rasas como um gibi de antigamente, e as cenas de ação são apenas sujas e ruidosas, nada inventivas.

A trama é ao mesmo tempo banal _ a turma de superpoderosos precisa juntar forças para salvar a Terra _ e complexa (vai um martelo Mjolnir para quem explicar direito o Tesseract). É bacana e até empolgante a maneira como os Vingadores são recrutados pela S.H.I.E.L.D. do coronel Nick Fury (Samuel L. Jackson interpretando seu papel de sempre, só que com tapa-olho). Mas o sexteto formado é desparelho: o Gavião Arqueiro é um herói de segundo escalão, e, fator Scarlett Johansson à parte, a Viúva Negra não combina com aquele universo. Prova é o confronto com os Chitauri, espécie de Orcs versão alienígena _ todo mundo lutando com raios repulsores, escudo indestrutível, martelo mágico, flechas explosivas e, hã, gigantescos punhos verdes; e Natasha Romanoff com uma reles pistolinha…

As pessoas têm dito que Os Vingadores é engraçado. E é mesmo, há diálogos e tiradas impagáveis, especialmente quando saem da boca do Tony Stark vivido por Robert Downey Jr. Mas “engraçado” não deveria ser o principal adjetivo para classificar um filme com personagens tão épicos e/ou trágicos como o Capitão América (o cara passou 70 anos congelado!), Hulk (a versão moderna de Jekyll and Hyde) e Thor (um deus nórdico, ora).

Entre mortos e feridos (e há de serem muitos naquele combate final pelas ruas e pelos céus de Nova York), salvam-se:

_ Como era esperado, depois do filme do Thor, o Loki encarnado por Tom Hiddleston é um belo vilão, malicioso e imprevisível;

_ A superluta na floresta envolvendo Thor, Homem de Ferro e Capitão América;

_ Hulk (enfim) esmaga! Não só Mark Ruffalo faz o melhor Dr. Banner do cinema, como também o Hulk fabricado de Os Vingadores é o mais real (no corpo computadorizado) e o mais fiel (no espírito do personagem) às HQs. É a entrada do Golias Esmeralda em ação que torna o filme mais agradável, mais emocionante, mais vibrante, mais divertido _ duas cenas, uma com Thor, a outra com Loki, são hilariantes.

Resumindo: vai faltar pipoca nos cinemas, mas que venha a gravidade e a tensão de O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Faltam 87 dias.