Depois de um filme como este, qual será o próximo? Esta é uma pergunta particularmente pertinente em se tratando do canadense David Cronenberg.
Um dos mais interessantes cineastas em atividade, Cronenberg tem emendado projetos muito distintos entre si desde eXistenZ (1999), até aqui a última de suas ficções científicas orgânicas e existencialistas calcadas em temas como mutações, biotecnologia e futurismo. Spider (2002) não proporcionou exatamente uma quebra em suas ambições estéticas, mas a obra-prima Marcas da Violência (2004) sim.
E se o longa seguinte, o igualmente ótimo Senhores do Crime (2007), deixou uma ideia de continuidade em suas inquietações, o que dizer da investigação da relação entre Freud e Jung em Um Método Perigoso (2011), um dos corpos mais estranhos – em Cronenberg, esta expressão nunca é por acaso – em sua filmografia? Mais: o que esperar de Cosmópolis (2012), definido como um filme-catástrofe que acompanha 24 horas na vida de um milionário nova-iorquino vivido pelo galã crepuscular – outra palavra de múltiplos significados – Robert Pattinson e que tem estreia no Brasil prevista para 10 de agosto?
Independentemente das respostas, voltar a eXistenZ faz cada vez mais sentido. O longa acaba de chegar ao DVD no Brasil, em lançamento da Magnus Opus – mais um caso de um bom filme lançado pela não muito considerada distribuidora de home vídeo. Trata-se de uma trama na qual, num futuro não determinado, uma criadora de jogos de realidade virtual (Jennifer Jason Leigh) é perseguida por fanáticos rivais. Seu parceiro de fuga, um pacato assistente de marketing (Jude Law), funciona como mediador da aproximação do espectador: ele inicialmente é uma figura estranha ao universo de imersão interativa no qual cada jogador recebe um plug na coluna vertebral para poder transcender os limites do organismo entrando num mundo paralelo e experimentando sensações extracorpóreas.
Aos poucos, como era de se prever, a distinção entre o real e o virtual ficam borradas. Nesse clima onírico, Cronenberg põe em debate temas da hora para além da evolução tecnocientífica que fazem Matrix, outra ficção científica lançada em 1999, no crepúsculo do milênio, parecer brincadeira de criança: o terrorismo internacional, a violência conspirativa, o fanatismo fundamentalista e a cada vez menos domada curiosidade acerca dos limites da existência.
O sentido de permanência de eXistenZ também se fortalece a partir de seu realismo visual – não há, no filme, aquela parafernália futurista que às vezes, ao contrário do que propõem seus realizadores, torna as produções do gênero tão datadas. Depois do menos inspirado Um Método Perigoso, nada melhor do que rever um bom Cronenberg para relembrar sua capacidade visionária de interpretar o homem e o seu tempo.
A ver o que será de Cosmópolis.



