Nesta quinta-feira o cinema brasileiro perdeu Carlos Reichenbach, diretor de alguns filmes muito bons (Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Lilian M: Relatório Confidencial, Falsa Loura e Filme Demência), mestre de gerações inteiras de eternos aprendizes da linguagem e verdadeira enciclopédia do cinema e da música popular. Quem cruzou com Carlão, mesmo que por poucos instantes, como é o caso deste fã inveterado, inevitavelmente se deixou contaminar pela paixão com que ele se expressava ao falar de Samuel Fuller, Luís Sérgio Person e tantos outros que o inspiraram, ou piraram, para usar um termo adequado ao efeito que os bons filmes produziam sobre ele.
Não só os bons filmes. Carlão era um apaixonado pela expressão artística mais genuína, aquela que permitia ao espectador enxergar a alma do artista. Tolerava defeitos desde que os propósitos de seu autor fizessem valer a pena e, quando via talento combinado com honestidade intelectual, apaixonava-se com uma convicção absolutamente incomum. Um dos momentos mais marcantes das três entrevistas que fiz com ele foi quando contou como admirava as escolhas de sua mulher, Lygia: "Fiz Anjos do Arrabalde (sobre o universo das professoras de escolas públicas) em homenagem a ela e ao que relatou de suas experiências (como dentista) em projetos sociais numa escola da periferia", disse, numa das três ocasiões.
Filme Demência, que afirmou ser seu preferido e sua obra mais pessoal, ele assinou pensando num acerto de contas com o pai, morto quando tinha 13 anos. Para a mãe tinha a intenção de dedicar Um Anjo Desarticulado, projeto que nunca pôde concluir e que definiu assim no blog Olhos Livres, no ano passado: "(O filme) Não me deixa mais dormir direito, nem morrer. Vai contar um pouco a história da vida da minha mãe da Estônia ao Brasil, na década de 1920, e ilustrar uma fantasia pessoal, emocional e afetiva a respeito de Lenin". Ao ser homenageado no Festival de Brasília, em 2010, Carlão disse a frase que está no título deste post, com o seguinte complemento: "Filmando até morrer – seria a morte ideal, né?".
"Foi uma das pessoas mais bonitas que conheci", definiu o crítico José Geraldo Couto, numa das primeiras manifestações a circularem após a notícia de sua morte. Fácil de entender.
(Atualização do dia seguinte: clique aqui para ler Adeus ao Comodoro, o material que sai no jornal impresso deste sábado)





Acréscimo besta: nunca vi "Amor, Palavra Prostituta', mas acho o título deste longa do Carlão um dos melhores já feitos.
Carlão nos deixa e já são grandes as saudades, Daniel. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente e constatar nele, assim como você bem registrou, esse sentimento de amor imenso que tinha pelos seus particulares mestres, como Fuller e Sirk. Ele, que não tinha medo de falar dos filmes que gostava, mesmo que não fossem aclamados, como é o caso de "A Noite dos Generais", do Litvak (E que bela virtude, essa!). Uma pessoa muito autêntica, um apaixonado pelo cinema, um cineasta-autor: Reichenbach fica na minha memória pessoal como alguém marcante.
Bela e merecida homenagem, Daniel. Adoro ele trabalhando como ator em "Noite em Chamas".
eu gosto muito da sequência de Filme Demência em que ele aparece no... bem, quem viu o filme lembrará.
Aqui o texto do jornal impresso que sairá neste sábado: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/06/adeus-ao-comodoro-3791616.html