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Eram os deuses astronautas?

15 de junho de 2012 2

Segue versão ampliada do texto sobre Prometheus publicado no Segundo Caderno do dia 8 de junho, na ocasião das sessões de pré-estreia do filme em Porto Alegre. Na edição desta sexta-feira, voltamos ao filme para traçar alguns paralelos com Alien – O Oitavo Passageiro, sempre com o cuidado (espero) de não estragar nenhuma surpresa importante, como você pode ler clicando AQUI.  Por não querer entrar em detalhes e encher o texto de avisos de "spoilers", esse texto é uma impressão geral que abre o convite para que, com o tempo de todos assistirem, se use o espaço de comentários para um bate-papo mais aprofundado.

A enorme expectativa com a volta de Ridley Scott à ficção científica, 30 anos após o diretor se consagrar com duas obras-primas do gênero, Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides, chega ao fim diante de Prometheus, em cartaz a partir desta sexta-feira. Expectativa essa que, conforme a devoção dos fãs a esses dois clássicos, corre sobre o risco de se transformar em frustração — a recepção inicial ao filme, tanto da crítica quanto do público, é extrema: encanto ou decepção.

Prometheus é, basicamente, um prólogo de Alien, filme que teve três sequências assinadas por outros diretores, nenhuma à altura do original. A retomada desse universo tenta explicar quem era o alienígena encontrado pela tripulação da nave Nostromo nos confins do espaço e a origem do monstrengo que embarcou junto na viagem de volta à Terra, eliminando todos a bordo exceto a tenente Ripley (Sigourney Weaver).

Mas o que surge são ainda mais questionamentos, agora à luz do embate contemporâneo entre fé e ciência e da ancestral inquietação sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O ponto de partida da nova excursão intergaláctica, ambientada no final do século 21, cerca de  30 anos antes do que é mostrado em Alien, é o trabalho do casal de arqueólogos Charlie (Logan Marshall-Green) e Elizabeth (Noomi Rapace). Explorando cavernas mundo afora, eles identificam um elemento comum em pinturas rupestres de diferentes épocas e civilizações: a tentativa de contato de seres de outro planeta ou, na visão da católica pesquisadora, prova da força superior que criou o universo – força essa divina ou alienígena, eis a questão.

Anos depois, Charlie e Elizabeth são recrutados para a espetacular missão espacial da corporação Weyland  (a mesma de Alien) comandada por um trilionário idoso (Guy Pierce) movido pela obsessão de encontrar o ponto seminal de nossa origem e, quem sabe, garantir um tempo de vida extra. Na equipe, destacam-se ainda Janek (Idris Elbao), piloto da espaçonave Prometheus (nome que faz referência ao titã da mitologia grega que seria responsável pela criação do homem), Meredith (Charlize Theron), a gélida chefe da operação, e Dave (Michael Fassbender), um replicante ainda mais avançado do que os de Blade Runner – que tem como modelo visual o personagem de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia.

A missão tem com destino um planeta – ou uma lua na definição mais precisa – semelhante ao visto em Alien. Ali, em vez de respostas, os viajantes cruzam não apenas com uma criatura hospedeira mortífera, mas também uma ameaça ainda maior, que promete aniquilar a raça humana.

O principal trunfo de Prometheus é promover o reencontro conceitual, climático e visual com Alien (está maravilhosamente preservado o trabalho do artista gráfico suíço H.R. Giger) e reacender alguns postulados sobre a relação entre criatura e criador presentes em Blade Runner. Mas o que estes dois filmes trazem de solidez narrativa, Prometheus apresenta de forma diluída, desorientado no equilíbrio entre a reflexão cara à boa ficção científica e o entretenimento da ficção científica comum. Ridley Scott, apesar de seu prestígio e poder na indústria do cinema, enfrenta hoje outra dinâmica de mercado que não lhe facilita a ousadia autoral do passado. Prometheus é um blockbuster que precisa dar retorno alto e rápido, agradar fãs fervorosos – que inclui aqueles nerds capazes de apontar "erros" científicos, tecnológicos e de continuidade no enredo – e comedores de pipoca que matam tempo no shopping.

Alien levou a níveis quase insuportáveis o medo e tensão da plateia com uma trama enxuta, investindo muito no efeito de sugestão provocado pela criatura mortal à espreita no cenário escuro e claustrofóbico da Nostromo. Prometheus investe no deslumbre visual (reforçado, mas não muito, na projeção 3D) e nas cenas de ação. Se os sete tripulantes da Nostromo, todos muito bem desenhados, facilitavam o estofo da dramaturgia, agora são 17 em cena, incluindo aqueles acessórios que, percebe-se logo, serão os primeiros eliminados do jogo. Elizabeth encarnando a nova Ripley e o autômato David são os personagens melhor trabalhados. Por sinal, o dissimulado androide está mais para o replicante Roy (Rutger Hauer) de Blade Runner do que para seu equivalente em Alien, o robô Ash (Ian Holm).

Sem dúvida, Prometheus está muito acima do que se produz em ficção científica no cinema contemporâneo. Mas não tem como ser visto sem levar em conta a mitologia que representa. É uma comparação dura, mas Alien, revisto hoje, se preserva em um nível de excelência tão alto que nem seu próprio criador consegue alcançar. Em meio às especulações sobre uma nova franquia Alien, Scott quer voltar também a Blade Runner. Desde já, o sentimento de júbilo e esperança convive com o receio de se o melhor não seria deixar esse outro clássico quietinho nas boas lembranças de seu admiradores.

Linha do Tempo

Para ajudar o reencontro dos fãs com o universo Alien, o site Indiewire.com fez este VÍDEO com uma linha do tempo que aproxima cronologicamente Prometheus do filme de 1979. (aqui o link para o texto original em inglês).

O material usado no vídeo traz imagens não presentes em Prometheus – foram retiradas dos vídeos virais que circulam desde o final de 2011 anunciando o filme. Confira:

2023 – Nada disso aparece em Prometheus. Peter Weyland (Guy Pierce), o magnata dono da corporação Weyland discursa no TED (evento com conferências nos campos da educação, tecnologia e ciência, entre outros). Apresenta-se como homem de ambição ilimitada que gostaria de mudar o mundo. Afirma que graças a capacidade de criar réplicas cibernética perfeitas de si próprio, o homem assumiu o papel de deus.

2089 – O casal de arqueólogos Charlie (Logan Marshall-Green) e Elizabeth (Noomi Rapace) encontra numa caverna da Escócia pinturas rupestres com um ponto comum a outras tantas de diferentes épocas e civilizações: indícios de visitantes espaciais tentando fazer contato com os humanos.

2093 – A Weyland Industries patrocina a missão que busca fazer esse contato cruzando milhões de anos-luz no espaço. A nave Prometheus pousa na lua LV-223 – que seria próxima à lua LV-426 de Alien (embora muitas acreditem se tratar do mesmo lugar). Junto com as respostas para a origem a vida humana, encontram forças alienígenas destrutivas– uma se volta contra a tripulação, enquanto a outra representa uma ameaça apocalíptica à existência humana.

2122 – Entra-se universo Alien, com a nave cargueiro Nostromo e sua heroína, Ellen Ripley (Sigourney Weaver). A missão é desviada de sua viagem de retorno à Terra para investigar pedido de ajuda em planeta próximo. Os tripulantes encontram uma espaçonave pilotada por um ET que foi morto pela mesma criatura que vai atacar os humanos. Explicar quem é esse piloto (conhecido como Space Jockey), segundo Ridley Scott, foi uma de suas motivações para realizar Prometheus.

Comentários (2)

  • Paulo Moreira diz: 15 de junho de 2012

    Só uma correção, Perrone. O personagem Dave, de "Prometheus" é inspirado no Lawrence da Arábia de PETER O'TOOLE!!! Abração do PM.

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