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O passado pela frente

20 de junho de 2012 0

O desencontro entre dois vizinhos portenhos que pareciam ter nascido um para o outro resultou em Medianeras (2011), boa novidade argentina no circuito brasileiro do ano passado. A presença hermana nos cinemas do país este ano surge com A Velha dos Fundos (2010), um filme construído a partir do encontro fortuito entre um jovem estudante e uma viúva que, como no outro longa, moram de frente um para o outro, com apenas um corredor entre eles. Isso na mesma Buenos Aires cosmopolita e decadente, charmosa e tão cheia de personalidade.

A Velha dos Fundos está em cartaz no Instituto NT e no Unibanco Arteplex. A exemplo de Medianeras, também iniciou carreira no Brasil a partir do Festival de Gramado, cujo júri da edição 2010, numa decisão polêmica e altamente contestável, acabou não consagrando o desempenho de Adriana Aizemberg – a velha do título. Atriz de teatro com quase 40 anos de carreira, mãe do protagonista de O Abraço Partido (2004), presente ainda na linha de frente dos elencos de Mundo Grua (1999) e As Leis de Família (2006), ela aqui brilha como uma senhora solitária em busca de companhia que salva o pobre interiorano interpretado por Martín Piroyanski.

É que, após um esbarrão no elevador, a mulher fica sabendo que o jovem vizinho está prestes a largar a faculdade de Medicina e voltar para o interior: ele não tem dinheiro para pagar o aluguel e arcar com as demais despesas na cidade grande. Surpreendentemente generosa  –  e ranzinza, e mal-humorada  – , ela o convida a ficar na sua casa. Não diz isso com todas as letras, mas ao espectador vai ficando cada vez mais evidente que, no fundo, além de ajudá-lo, quer alguém para dividir a mesa do café da tarde.

La Vieja de Atras, título original, faz referência aos mesmos "fundos" do título em português. Mas também alude ao "passado" que a velha representa, algo que acabou se perdendo na tradução para o lançamento no Brasil. É no que a convivência com uma figura tão tipicamente de outros tempos vai representar para o garoto  –  a rigor, no que o passado incide sobre o presente  –  que está o grande lance do filme. Na descoberta da senhora pelos olhos do menino.

Se parece que você já viu algo parecido, não desanime: em seu segundo longa (o primeiro foi Buenos Aires 100km, de 2004, também exibido por aqui), o diretor Pablo Meza foge de clichês narrativos apostando em elipses certeiras e potencializa o impacto da fruição a partir de um naturalismo radical tanto de imagem quanto de som  –  A Velha dos Fundos praticamente não tem música incidental, além de desnudar uma Buenos Aires completamente desprovida de qualquer filtragem fotográfica.

Detalhe: coprodução com o Brasil (a partir de parceria com a gaúcha Panda Filmes), o longa tem no elenco a presença do jovem ator Rafael Sieg, de filmes como A Última Estrada da Praia (2011) e da novela global Viver a Vida (2009/10).

Três perguntas para Adriana Aizemberg
(entrevista concedida no Festival de Gramado de 2010)

1. Você é muito mais jovem e bem-humorada do que a sua personagem de A Velha dos Fundos. Como foi se transformar em alguém tão diferente?
Adriana Aizemberg – Sabe, tenho dúvidas se a maioria das atrizes argentinas da minha geração, e até de outros países, encarnariam alguém assim, mais velha e complicada, rancorosa. Mas é preciso ser profissional. Este papel exigia um distanciamento: se a atriz escolhida fosse alguém mais próxima dela, da mesma geração que a personagem, acredito que teria menos chance de suportar bem um mergulho tão intenso nessa personalidade tão complicada. Encarnar um tipo como ela mexe demais com a gente.

2. No Brasil, filmes com velhos não costumam ter bons desempenhos de bilheteria – apesar de haver exceções. Como é isso na Argentina, país em que é tão mais comum ver filmes com personagens nessa faixa de idade?
Adriana – Não consigo ver distinção. Personagens podem ser melhores ou piores independentemente da idade. Além das dificuldades dos intérpretes, de que falei na resposta anterior, não creio que haja preconceito de público na Argentina.

3. Você tem trabalhado com diretores jovens, destaques das novas gerações de realizadores argentinos – além de Pablo Meza, também Daniel Burman (O Abraço Partido, As Leis de Família) e Pablo Trapero (Mundo Grua). Por quê?
Adriana Essa garotada me adora! Mas é de fato curioso que eu tenha mais de 35 anos de teatro, seja reconhecida nacionalmente por meu trabalho nos palcos, e só tenha adentrado no cinema cerca de 10 anos atrás. Talvez seja porque o cinema argentino teve um fôlego extra com estas gerações de autores e tenha crescido bastante neste período.

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