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Blade Runner, 30 anos

25 de junho de 2012 0

Em 25 de junho de 1982, chegava aos cinemas dos EUA Blade Runner, filme que ao estrear no Brasil, um mês depois, dia 26 de julho, ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides (com o devido acento).  Nem a crítica, tampouco o público reconheceu de imediato a qualidade daquele que o tempo e o progressivo culto dos fãs consolidaria como um marco da ficção científica. Costuma se relacionar esse culto à redescoberta do filme com  a versão que o diretor Ridley Scott lançou em 1992. De fato, as mudanças que ele fez jogaram nova luz sobre a distopia futurista que segue vívida e impactante  30 anos depois. Mas esse reconhecimento vem de antes, assim que o longa original começou a circular em VHS e teve o tempo devido para ser depurado.

Antes de prosseguirmos, uma dica. O blog amigo Mundo Livro celebra a data com  textos sobre Philip K. Dick,  autor do romance que inspirou Blade Runner, e sobre as diferenças entre livro e filme.

Não custa relembra aos que chegam agora. Blade Runner, terceiro longa de Scott, sucessor de outra joia da ficção científica, Alien – O Oitavo Passageiro (1977), foi renegado pelo diretor em seu lançamento. Depois de ele estourar o orçamento e criar um clima bem ruim no set por conta de seu perfeccionismo e da antipatia mútua entre ele e o ator protagonista, Harrison Ford, Blade Runner foi finalizado a sua revelia pelos produtores, que acrescentaram a narração em off, para “ajudar o espectador a compreender melhor o enredo”,  e pelo final que usou cenas externas não aproveitadas por Stanley Kubrick em O Iluminado.

Eu sempre achei essa versão original tão boa quanto a “versão do diretor” que Scott lançou em 1992. Mas ele também não ficou satisfeito com essa, alegando que trabalhou às pressas para cumprir o prazo do lançamento comemorativo aos 10 anos do lançamento. Nesse corte, Scott eliminou a narração em off, mudou o final e deixou explícita a sugestão de ser Deckard, o caçador de androides vivido por Harrison Ford, também um dos chamados replicantes.

Então, em 2007, Scott apresentou no Festival de Veneza seu “final cut”, versão que, garante ele, seria a definitiva (veja abaixo um resumo de todas as versões conhecidas do filme).  Nos últimos anos, Blade Runner ganhou diferentes edições em DVD e Blu-ray. E tem mais uma saindo agora, comemorativa aos 30 anos do lançamento. É uma caixa que traz tudo o que já saiu antes, incluindo o corte final em Blu-ray e DVD e as outras versões do filme, mais extras inéditos, livreto com mais de mil imagens e a miniatura do veículo/nave spinner.

O material extra que tem saído nessas reedições é por demais saboroso para fãs novos e veteranos e reforça a mitologia perene de Blade Runner. O filme sobrevive como obra visionária e referencial tanto em seu conceito sombrio do futuro nas questões existenciais que aborda antecipando questões éticas, científicas e religiosas relacionadas à engenharia genética.

Entre as cenas de bastidores recuperadas, estão ensaios com o elenco.  Lembram da bela cena em que o replicante Roy (Rutger Hauer), ao morrer, deixa escapar de sua mão uma pomba branca? Pois a tal pomba, encharcada pela chuva constante característica do filme, não conseguia voar, devido ao peso da água, mostra o making of. A solução foi inserir a cena de outra pomba voadora. Hauer, aliás se dedicou com tanto empenho ao papel que o crédito pela seqüência final do filme é todo dele. Foi do ator a ideia da pomba e foi ele quem escreveu, no set, o antológico e emotivo discurso final de Roy, que termina com “(...) esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer” - a fala original prevista no roteiro era muito piegas, lembra Hauer.

Aqui seguem um pouco mais detalhadas as principais diferenças entre as cinco (!) versões de Blade Runner, que, a rigor, são variações de apenas duas . E fica a expectativa da sequência anunciada por Scott, ainda sem data prevista de produção. O diretor antecipou apenas que a trama deve se passar alguns anos depois de 2019 e que a protagonista deve ser um mulher - uma participação de Harrison Ford já foi especulada. Notícia essa que, diante do resultado de Prometheus na retomada do universo Alien, deve ser encaras pelos fãs de Blade Runner com toda calma possível.

Versão original (1982) – Após uma conturbada produção, estreou nos cinemas com grande expectativa, mas não fez o sucesso de público e crítica previstos. Quando prazo e orçamento estouraram, os produtores assumirem o controle do filme e impuseram, por considerar a trama  sombria e confusa , a narração em off do ator Harrison Ford em várias cenas (algumas até estavam previstas no roteiro original, para acentuar e clima noir) . Criaram ainda um “final feliz”, com Deckard e a replicante Rachel partindo ao raiar do dia – com imagens captadas e não usadas por Stanley Kubrik para a abertura de O Iluminado. Sessões de meia-noite e o posterior lançamento em VHS tornaram Blade Runner filme de culto. Seu visual arrojado influenciou a emergente produção de videoclipes para a MTV, a moda e comerciais dos mais variados produtos. Com tempo, além da aproximação da realidade com temas abordados no longa (clonagem, engenharia genética, caos e degradação social das metrópoles, sociedades multiétnicas), Blade Runner consolidou sua posição com clássico do cinema.

Versão internacional (1982) – Em alguns países circulou essa cópia com três cenas violentas cortadas da versão original exibida nos EUA: a que o replicante Roy (Rurger Hauer) perfulha os olhos de seu criador ao matá-lo, outra em que a replicante Pris (Daryl Hannah) arrasta o policial Deckard (Harrison Ford) pelas narinas e uma terceira que mostra a mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992) – Em 1989, um funcionário da Warner, procurando a cópia de Blade Runner para uma sessão especial, encontrou uma versão do filme tal qual Scott pretendia lançá-la 10 anos antes. A exibição dessa versão então inédita fez grande sucesso e estimulou o diretor a relançar o filme, sem a narração e sem o final feliz – o que proporcionou uma nova leitura da obra. A principal mudança, no entanto, foi a inclusão de uma cena em que Deckard sonha com um unicórnio, referência ao fato de ele próprio talvez ser um replicante. Ridley Scott diz que é. Harrison Ford diz que isso é bobagem, que o tira é bem humano.

Versão definitiva (2007) – Além de melhorias de som e imagem, foi corrigida com a cena da morte da replicante Zhora (percebia-se claramente que era uma dublê quebrando as vidraças). A atriz Joanna Cassidy foi chamada filmar novos takes. Outra correção feita foi em relação o número de replicantes a serem mortos por Deckard. Um erro de continuidade informa dois números. Primeiro, o correto, quatro. Depois, quando lhe explicam que seis replicantes rebeldes fugiram para Terra e um já havia sido morto, fica claro que restam cinco. Isso porque as cenas da quinta replicante, Mary, não foram feitas por falta de tempo e grana (a atriz mostra seu desconsolo nos extras, primeiro por perder o papel de Pris para Daryl Hannah e depois por ver Mary limada). A cena com o número errado foi redublada e agora dizem a Deckard que dois deles já morreram em uma tentativa de invadir o prédio do engenheiro genético que os criou.

Original Print – Esta quinta versão do filme, raríssima, está presente nas edições especiais americanas dos DVDs. Na verdade, é a primeira, um copião exibido em sessões internas da Warner e em sessões para testar a receptividade do público. Tem uma seqüência de abertura diferente e narração em off em apenas poucas cenas, como indicava o roteiro original.

PS.: Por fim, não se pode desassociar em Blade Runner a imagem do som. Pois até a inesquecível trilha sonora do filme tem versões diferentes. O autor da trilha é o músico grego Vangelis. Por estar na época envolvido com o longa Carruagens de Fogo (que lhe valeu o Oscar por um dos temas mais conhecidos da história do cinema), ele deixou suas partituras a cargo da The New American Orchestra, que executa música que está no filme. Posteriormente, Vangelis lançou sua própria versão, com novos temas e leves mudanças nas faixas conhecidas.


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