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Posts de junho 2012

Tributo a Tony Leung

28 de junho de 2012 0

Um dos maiores atores do mundo neste início de século, Tony Leung completou 50 anos nesta quarta-feira. Talvez você não lembre dele assim, de nome, mas, se viu filmes recentes de Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele, Amores ExpressosFelizes Juntos, entre outros), Zhang Yimou (Herói), Hou Hsiao-hsien (Flores de Xangai), Ang Lee (Desejo e Perigo) e até John Woo (A Batalha dos Três Reinos), sabe de quem estou falando.

Batizado Tony Leung Chiu Wai, ele nasceu e vive até hoje em Hong Kong, fazendo televisão (onde começou como comediante), apresentando-se como cantor (procure no YouTube, mas aviso que ele é muito melhor atuando) e alternando longas de ação e dramas, muitos deles românticos, vários em parceria com a linda atriz Maggie Cheung. É com ela que Tony Leung divide a cena na obra-prima Amor à Flor da Pele (definido por alguns colegas como o Hiroshima, Meu Amor dos novos tempos), que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 2000.

O belo vídeo abaixo traz uma compilação de algumas imagens suas e é uma homenagem a ele feita por algum fã que achou conveniente indentificá-lo como "possivelmente o melhor ator em atividade atualmente". Olha. Não é uma frase absurda.

Carlão, Fausto e o paraíso imaginário

27 de junho de 2012 0

Carlos Reichenbach, morto há poucos dias aos 67 anos, será homenageado nesta sexta-feira com uma edição especial do projeto Raros da Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. A sessão, gratuita e com início marcado para as 20h30min, é uma oportunidade que o público da cidade tem para ver no cinema Filme Demência (1986), que o próprio Carlão considerava o seu melhor longa.

A homenagem é especial porque o cineasta era um admirador da proposta do Raros, que foi criado em maio de 2003 e lhe inspirou a realizar as populares Sessões do Comodoro no Cinesesc de São Paulo. Carlão era um colaborador do Raros, contribuindo com o envio de vários filmes, avisa o pessoal da P.F. Gastal. Foi o convidado da edição número cem do projeto, realizada há exatos cinco anos, em 22 de junho de 2007. Na ocasião, participou de uma sessão histórica, exibindo a versão recém-restaurada de seu clássico Lilian M – Relatório Confidencial (1975).

A trama de Filme Demência, escrita em conjunto com o crítico de cinema Inácio Araújo, acompanha a trajetória de Fausto, um industrial à beira da falência que num momento de crise rompe seus  laços familiares e, munido de uma arma, mergulha na noite de São Paulo em busca de um paraíso imaginário. Trata-se de uma livre adaptação do Fausto de Goethe, transposto para a realidade brasileira. Os comentários serão do jornalista Carlos Thomaz Albornoz e do montador e professor de cinema Milton do Prado, dois amigos e admiradores de Reichenbach em Porto Alegre (Albornoz chegou a atuar em Bens Confiscados, que Carlão rodou no litoral gaúcho e lançou em 2004).

Ainda homenagens: a Abraccine, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, publicou um dossiê com diversos textos sobre o Comodoro, entre os quais uma entrevista que fiz com o mestre em 2001, quando ele foi homenageado no Festival de Gramado. Vá ao blog/site da entidade, clicando aqui, e desça até a Parte I para ler. E leia também o Adeus ao Comodoro publicado em ZH um dia após a sua morte. Viva Carlão!

Blade Runner, 30 anos

25 de junho de 2012 0

Em 25 de junho de 1982, chegava aos cinemas dos EUA Blade Runner, filme que ao estrear no Brasil, um mês depois, dia 26 de julho, ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides (com o devido acento).  Nem a crítica, tampouco o público reconheceu de imediato a qualidade daquele que o tempo e o progressivo culto dos fãs consolidaria como um marco da ficção científica. Costuma se relacionar esse culto à redescoberta do filme com  a versão que o diretor Ridley Scott lançou em 1992. De fato, as mudanças que ele fez jogaram nova luz sobre a distopia futurista que segue vívida e impactante  30 anos depois. Mas esse reconhecimento vem de antes, assim que o longa original começou a circular em VHS e teve o tempo devido para ser depurado.

Antes de prosseguirmos, uma dica. O blog amigo Mundo Livro celebra a data com  textos sobre Philip K. Dick,  autor do romance que inspirou Blade Runner, e sobre as diferenças entre livro e filme.

Não custa relembra aos que chegam agora. Blade Runner, terceiro longa de Scott, sucessor de outra joia da ficção científica, Alien – O Oitavo Passageiro (1977), foi renegado pelo diretor em seu lançamento. Depois de ele estourar o orçamento e criar um clima bem ruim no set por conta de seu perfeccionismo e da antipatia mútua entre ele e o ator protagonista, Harrison Ford, Blade Runner foi finalizado a sua revelia pelos produtores, que acrescentaram a narração em off, para “ajudar o espectador a compreender melhor o enredo”,  e pelo final que usou cenas externas não aproveitadas por Stanley Kubrick em O Iluminado.

Eu sempre achei essa versão original tão boa quanto a “versão do diretor” que Scott lançou em 1992. Mas ele também não ficou satisfeito com essa, alegando que trabalhou às pressas para cumprir o prazo do lançamento comemorativo aos 10 anos do lançamento. Nesse corte, Scott eliminou a narração em off, mudou o final e deixou explícita a sugestão de ser Deckard, o caçador de androides vivido por Harrison Ford, também um dos chamados replicantes.

Então, em 2007, Scott apresentou no Festival de Veneza seu “final cut”, versão que, garante ele, seria a definitiva (veja abaixo um resumo de todas as versões conhecidas do filme).  Nos últimos anos, Blade Runner ganhou diferentes edições em DVD e Blu-ray. E tem mais uma saindo agora, comemorativa aos 30 anos do lançamento. É uma caixa que traz tudo o que já saiu antes, incluindo o corte final em Blu-ray e DVD e as outras versões do filme, mais extras inéditos, livreto com mais de mil imagens e a miniatura do veículo/nave spinner.

O material extra que tem saído nessas reedições é por demais saboroso para fãs novos e veteranos e reforça a mitologia perene de Blade Runner. O filme sobrevive como obra visionária e referencial tanto em seu conceito sombrio do futuro nas questões existenciais que aborda antecipando questões éticas, científicas e religiosas relacionadas à engenharia genética.

Entre as cenas de bastidores recuperadas, estão ensaios com o elenco.  Lembram da bela cena em que o replicante Roy (Rutger Hauer), ao morrer, deixa escapar de sua mão uma pomba branca? Pois a tal pomba, encharcada pela chuva constante característica do filme, não conseguia voar, devido ao peso da água, mostra o making of. A solução foi inserir a cena de outra pomba voadora. Hauer, aliás se dedicou com tanto empenho ao papel que o crédito pela seqüência final do filme é todo dele. Foi do ator a ideia da pomba e foi ele quem escreveu, no set, o antológico e emotivo discurso final de Roy, que termina com “(...) esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer” - a fala original prevista no roteiro era muito piegas, lembra Hauer.

Aqui seguem um pouco mais detalhadas as principais diferenças entre as cinco (!) versões de Blade Runner, que, a rigor, são variações de apenas duas . E fica a expectativa da sequência anunciada por Scott, ainda sem data prevista de produção. O diretor antecipou apenas que a trama deve se passar alguns anos depois de 2019 e que a protagonista deve ser um mulher - uma participação de Harrison Ford já foi especulada. Notícia essa que, diante do resultado de Prometheus na retomada do universo Alien, deve ser encaras pelos fãs de Blade Runner com toda calma possível.

Versão original (1982) – Após uma conturbada produção, estreou nos cinemas com grande expectativa, mas não fez o sucesso de público e crítica previstos. Quando prazo e orçamento estouraram, os produtores assumirem o controle do filme e impuseram, por considerar a trama  sombria e confusa , a narração em off do ator Harrison Ford em várias cenas (algumas até estavam previstas no roteiro original, para acentuar e clima noir) . Criaram ainda um “final feliz”, com Deckard e a replicante Rachel partindo ao raiar do dia – com imagens captadas e não usadas por Stanley Kubrik para a abertura de O Iluminado. Sessões de meia-noite e o posterior lançamento em VHS tornaram Blade Runner filme de culto. Seu visual arrojado influenciou a emergente produção de videoclipes para a MTV, a moda e comerciais dos mais variados produtos. Com tempo, além da aproximação da realidade com temas abordados no longa (clonagem, engenharia genética, caos e degradação social das metrópoles, sociedades multiétnicas), Blade Runner consolidou sua posição com clássico do cinema.

Versão internacional (1982) – Em alguns países circulou essa cópia com três cenas violentas cortadas da versão original exibida nos EUA: a que o replicante Roy (Rurger Hauer) perfulha os olhos de seu criador ao matá-lo, outra em que a replicante Pris (Daryl Hannah) arrasta o policial Deckard (Harrison Ford) pelas narinas e uma terceira que mostra a mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992) – Em 1989, um funcionário da Warner, procurando a cópia de Blade Runner para uma sessão especial, encontrou uma versão do filme tal qual Scott pretendia lançá-la 10 anos antes. A exibição dessa versão então inédita fez grande sucesso e estimulou o diretor a relançar o filme, sem a narração e sem o final feliz – o que proporcionou uma nova leitura da obra. A principal mudança, no entanto, foi a inclusão de uma cena em que Deckard sonha com um unicórnio, referência ao fato de ele próprio talvez ser um replicante. Ridley Scott diz que é. Harrison Ford diz que isso é bobagem, que o tira é bem humano.

Versão definitiva (2007) – Além de melhorias de som e imagem, foi corrigida com a cena da morte da replicante Zhora (percebia-se claramente que era uma dublê quebrando as vidraças). A atriz Joanna Cassidy foi chamada filmar novos takes. Outra correção feita foi em relação o número de replicantes a serem mortos por Deckard. Um erro de continuidade informa dois números. Primeiro, o correto, quatro. Depois, quando lhe explicam que seis replicantes rebeldes fugiram para Terra e um já havia sido morto, fica claro que restam cinco. Isso porque as cenas da quinta replicante, Mary, não foram feitas por falta de tempo e grana (a atriz mostra seu desconsolo nos extras, primeiro por perder o papel de Pris para Daryl Hannah e depois por ver Mary limada). A cena com o número errado foi redublada e agora dizem a Deckard que dois deles já morreram em uma tentativa de invadir o prédio do engenheiro genético que os criou.

Original Print – Esta quinta versão do filme, raríssima, está presente nas edições especiais americanas dos DVDs. Na verdade, é a primeira, um copião exibido em sessões internas da Warner e em sessões para testar a receptividade do público. Tem uma seqüência de abertura diferente e narração em off em apenas poucas cenas, como indicava o roteiro original.

PS.: Por fim, não se pode desassociar em Blade Runner a imagem do som. Pois até a inesquecível trilha sonora do filme tem versões diferentes. O autor da trilha é o músico grego Vangelis. Por estar na época envolvido com o longa Carruagens de Fogo (que lhe valeu o Oscar por um dos temas mais conhecidos da história do cinema), ele deixou suas partituras a cargo da The New American Orchestra, que executa música que está no filme. Posteriormente, Vangelis lançou sua própria versão, com novos temas e leves mudanças nas faixas conhecidas.


O passado pela frente

20 de junho de 2012 0

O desencontro entre dois vizinhos portenhos que pareciam ter nascido um para o outro resultou em Medianeras (2011), boa novidade argentina no circuito brasileiro do ano passado. A presença hermana nos cinemas do país este ano surge com A Velha dos Fundos (2010), um filme construído a partir do encontro fortuito entre um jovem estudante e uma viúva que, como no outro longa, moram de frente um para o outro, com apenas um corredor entre eles. Isso na mesma Buenos Aires cosmopolita e decadente, charmosa e tão cheia de personalidade.

A Velha dos Fundos está em cartaz no Instituto NT e no Unibanco Arteplex. A exemplo de Medianeras, também iniciou carreira no Brasil a partir do Festival de Gramado, cujo júri da edição 2010, numa decisão polêmica e altamente contestável, acabou não consagrando o desempenho de Adriana Aizemberg – a velha do título. Atriz de teatro com quase 40 anos de carreira, mãe do protagonista de O Abraço Partido (2004), presente ainda na linha de frente dos elencos de Mundo Grua (1999) e As Leis de Família (2006), ela aqui brilha como uma senhora solitária em busca de companhia que salva o pobre interiorano interpretado por Martín Piroyanski.

É que, após um esbarrão no elevador, a mulher fica sabendo que o jovem vizinho está prestes a largar a faculdade de Medicina e voltar para o interior: ele não tem dinheiro para pagar o aluguel e arcar com as demais despesas na cidade grande. Surpreendentemente generosa  –  e ranzinza, e mal-humorada  – , ela o convida a ficar na sua casa. Não diz isso com todas as letras, mas ao espectador vai ficando cada vez mais evidente que, no fundo, além de ajudá-lo, quer alguém para dividir a mesa do café da tarde.

La Vieja de Atras, título original, faz referência aos mesmos "fundos" do título em português. Mas também alude ao "passado" que a velha representa, algo que acabou se perdendo na tradução para o lançamento no Brasil. É no que a convivência com uma figura tão tipicamente de outros tempos vai representar para o garoto  –  a rigor, no que o passado incide sobre o presente  –  que está o grande lance do filme. Na descoberta da senhora pelos olhos do menino.

Se parece que você já viu algo parecido, não desanime: em seu segundo longa (o primeiro foi Buenos Aires 100km, de 2004, também exibido por aqui), o diretor Pablo Meza foge de clichês narrativos apostando em elipses certeiras e potencializa o impacto da fruição a partir de um naturalismo radical tanto de imagem quanto de som  –  A Velha dos Fundos praticamente não tem música incidental, além de desnudar uma Buenos Aires completamente desprovida de qualquer filtragem fotográfica.

Detalhe: coprodução com o Brasil (a partir de parceria com a gaúcha Panda Filmes), o longa tem no elenco a presença do jovem ator Rafael Sieg, de filmes como A Última Estrada da Praia (2011) e da novela global Viver a Vida (2009/10).

Três perguntas para Adriana Aizemberg
(entrevista concedida no Festival de Gramado de 2010)

1. Você é muito mais jovem e bem-humorada do que a sua personagem de A Velha dos Fundos. Como foi se transformar em alguém tão diferente?
Adriana Aizemberg – Sabe, tenho dúvidas se a maioria das atrizes argentinas da minha geração, e até de outros países, encarnariam alguém assim, mais velha e complicada, rancorosa. Mas é preciso ser profissional. Este papel exigia um distanciamento: se a atriz escolhida fosse alguém mais próxima dela, da mesma geração que a personagem, acredito que teria menos chance de suportar bem um mergulho tão intenso nessa personalidade tão complicada. Encarnar um tipo como ela mexe demais com a gente.

2. No Brasil, filmes com velhos não costumam ter bons desempenhos de bilheteria – apesar de haver exceções. Como é isso na Argentina, país em que é tão mais comum ver filmes com personagens nessa faixa de idade?
Adriana – Não consigo ver distinção. Personagens podem ser melhores ou piores independentemente da idade. Além das dificuldades dos intérpretes, de que falei na resposta anterior, não creio que haja preconceito de público na Argentina.

3. Você tem trabalhado com diretores jovens, destaques das novas gerações de realizadores argentinos – além de Pablo Meza, também Daniel Burman (O Abraço Partido, As Leis de Família) e Pablo Trapero (Mundo Grua). Por quê?
Adriana Essa garotada me adora! Mas é de fato curioso que eu tenha mais de 35 anos de teatro, seja reconhecida nacionalmente por meu trabalho nos palcos, e só tenha adentrado no cinema cerca de 10 anos atrás. Talvez seja porque o cinema argentino teve um fôlego extra com estas gerações de autores e tenha crescido bastante neste período.

Road movie de montanha russa

19 de junho de 2012 0

É bem divertida a aventura dos animais falantes de Madagascar, agora pela Europa, no terceiro filme da franquia, em cartaz nos cinemas. No longa em que o leão Alex, a zebra Marty, a girafa Melman e a hipopótama Gloria viajam de trem, juntam-se à trupe de um circo, fazem trapézio e malabares com os alpes ao fundo, visitam o Coliseu de Roma e alucinam nas ruas de Mônaco, o que mais chama a atenção é a qualidade técnica. Atrevo-me a dizer: nunca, até aqui, nem com Shrek, nem com Kung Fu Panda, a produtora Dreamworks foi tão competente na elaboração visual de uma animação – a abundância de cores e a riqueza de detalhes em cada sequência, pela primeira vez, fazem com que uma produção da principal concorrente da Disney/Pixar realmente se aproxime do nível alcançado pelo estúdio responsável por Toy Story, Ratatouille e Os Incríveis. Nível técnico, ressalto.

O ritmo de Madagascar 3 – Os Procurados é frenético. Numa sessão 3D, é capaz de tontear os pais que forem levar os filhos ao cinema – o filme diverte o público de todas as idades, mas combina mesmo é com aquelas crianças crescidinhas que já curtem a música de Katy Perry e estão dispostas a entrar na sala de cinema para vivenciar não uma fábula infantil ordinária, mas uma aventura alucinante que às vezes parece menos um filme e mais um videogame.

Graças ao ótimo uso das três dimensões, as perseguições a que a bicharada é submetida na primeira meia hora fazem o espectador se sentir dentro de uma montanha russa. Aí é que está a principal questão em torno do longa: Madagascar 3 deixa mais evidente com quem os autores das grandes animações de Hollywood estão lidando. Se a partir de 1995, com Toy Story, virou chavão dizer que os desenhos passaram a ser "para crianças e adultos", e, a partir de 2001, com Shrek, os jovens mais descolados também foram fisgados, o novo filme aprimora a comunicação com o público adolescente – de espírito, não de idade. A rigor, não é uma faixa muito diferente daquela que consome os filmes de ação, aí incluídas as séries de super-heróis, e que cada vez mais se solidifica como o principal público-alvo dos estúdios norte-americanos. No caso das animações, o grande avanço se dá por conta do uso do 3D. Não há longa-metragem animado que faz tão bom uso da técnica das três dimensões como este terceiro capítulo da franquia Madagascar.

Como se trata de um filme "de viagem", mais parece um road movie de montanha russa: enquanto você ouve uma trilha sonora ultrapop – além de Katy Perry, há The Clash, LMFAO e referências a Piratas do Caribe –, perde o fôlego em meio a perseguições, é submetido a momentos de vertigem no trapézio e tem testada a sua capacidade de resistir a simulações de queda de prédios e lançamentos pelo ar. Há, é claro, aquela fofice dos personagens e das situações, que é comum aos títulos do gênero, mas o fundamental em Madagascar 3 é este aprimoramento da comunicação com o público mais jovem, é o aperfeiçoamento desta comunicação por meio dos recursos da técnica. É o que se pode chamar de um filme bem-sucedido. Muito longe da genialidade de um Toy Story, mas em condições de se tornar parâmetro para muitas produções futuras – da Dreamworks, sobretudo.

Eram os deuses astronautas?

15 de junho de 2012 2

Segue versão ampliada do texto sobre Prometheus publicado no Segundo Caderno do dia 8 de junho, na ocasião das sessões de pré-estreia do filme em Porto Alegre. Na edição desta sexta-feira, voltamos ao filme para traçar alguns paralelos com Alien – O Oitavo Passageiro, sempre com o cuidado (espero) de não estragar nenhuma surpresa importante, como você pode ler clicando AQUI.  Por não querer entrar em detalhes e encher o texto de avisos de "spoilers", esse texto é uma impressão geral que abre o convite para que, com o tempo de todos assistirem, se use o espaço de comentários para um bate-papo mais aprofundado.

A enorme expectativa com a volta de Ridley Scott à ficção científica, 30 anos após o diretor se consagrar com duas obras-primas do gênero, Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides, chega ao fim diante de Prometheus, em cartaz a partir desta sexta-feira. Expectativa essa que, conforme a devoção dos fãs a esses dois clássicos, corre sobre o risco de se transformar em frustração — a recepção inicial ao filme, tanto da crítica quanto do público, é extrema: encanto ou decepção.

Prometheus é, basicamente, um prólogo de Alien, filme que teve três sequências assinadas por outros diretores, nenhuma à altura do original. A retomada desse universo tenta explicar quem era o alienígena encontrado pela tripulação da nave Nostromo nos confins do espaço e a origem do monstrengo que embarcou junto na viagem de volta à Terra, eliminando todos a bordo exceto a tenente Ripley (Sigourney Weaver).

Mas o que surge são ainda mais questionamentos, agora à luz do embate contemporâneo entre fé e ciência e da ancestral inquietação sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O ponto de partida da nova excursão intergaláctica, ambientada no final do século 21, cerca de  30 anos antes do que é mostrado em Alien, é o trabalho do casal de arqueólogos Charlie (Logan Marshall-Green) e Elizabeth (Noomi Rapace). Explorando cavernas mundo afora, eles identificam um elemento comum em pinturas rupestres de diferentes épocas e civilizações: a tentativa de contato de seres de outro planeta ou, na visão da católica pesquisadora, prova da força superior que criou o universo – força essa divina ou alienígena, eis a questão.

Anos depois, Charlie e Elizabeth são recrutados para a espetacular missão espacial da corporação Weyland  (a mesma de Alien) comandada por um trilionário idoso (Guy Pierce) movido pela obsessão de encontrar o ponto seminal de nossa origem e, quem sabe, garantir um tempo de vida extra. Na equipe, destacam-se ainda Janek (Idris Elbao), piloto da espaçonave Prometheus (nome que faz referência ao titã da mitologia grega que seria responsável pela criação do homem), Meredith (Charlize Theron), a gélida chefe da operação, e Dave (Michael Fassbender), um replicante ainda mais avançado do que os de Blade Runner – que tem como modelo visual o personagem de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia.

A missão tem com destino um planeta – ou uma lua na definição mais precisa – semelhante ao visto em Alien. Ali, em vez de respostas, os viajantes cruzam não apenas com uma criatura hospedeira mortífera, mas também uma ameaça ainda maior, que promete aniquilar a raça humana.

O principal trunfo de Prometheus é promover o reencontro conceitual, climático e visual com Alien (está maravilhosamente preservado o trabalho do artista gráfico suíço H.R. Giger) e reacender alguns postulados sobre a relação entre criatura e criador presentes em Blade Runner. Mas o que estes dois filmes trazem de solidez narrativa, Prometheus apresenta de forma diluída, desorientado no equilíbrio entre a reflexão cara à boa ficção científica e o entretenimento da ficção científica comum. Ridley Scott, apesar de seu prestígio e poder na indústria do cinema, enfrenta hoje outra dinâmica de mercado que não lhe facilita a ousadia autoral do passado. Prometheus é um blockbuster que precisa dar retorno alto e rápido, agradar fãs fervorosos – que inclui aqueles nerds capazes de apontar "erros" científicos, tecnológicos e de continuidade no enredo – e comedores de pipoca que matam tempo no shopping.

Alien levou a níveis quase insuportáveis o medo e tensão da plateia com uma trama enxuta, investindo muito no efeito de sugestão provocado pela criatura mortal à espreita no cenário escuro e claustrofóbico da Nostromo. Prometheus investe no deslumbre visual (reforçado, mas não muito, na projeção 3D) e nas cenas de ação. Se os sete tripulantes da Nostromo, todos muito bem desenhados, facilitavam o estofo da dramaturgia, agora são 17 em cena, incluindo aqueles acessórios que, percebe-se logo, serão os primeiros eliminados do jogo. Elizabeth encarnando a nova Ripley e o autômato David são os personagens melhor trabalhados. Por sinal, o dissimulado androide está mais para o replicante Roy (Rutger Hauer) de Blade Runner do que para seu equivalente em Alien, o robô Ash (Ian Holm).

Sem dúvida, Prometheus está muito acima do que se produz em ficção científica no cinema contemporâneo. Mas não tem como ser visto sem levar em conta a mitologia que representa. É uma comparação dura, mas Alien, revisto hoje, se preserva em um nível de excelência tão alto que nem seu próprio criador consegue alcançar. Em meio às especulações sobre uma nova franquia Alien, Scott quer voltar também a Blade Runner. Desde já, o sentimento de júbilo e esperança convive com o receio de se o melhor não seria deixar esse outro clássico quietinho nas boas lembranças de seu admiradores.

Linha do Tempo

Para ajudar o reencontro dos fãs com o universo Alien, o site Indiewire.com fez este VÍDEO com uma linha do tempo que aproxima cronologicamente Prometheus do filme de 1979. (aqui o link para o texto original em inglês).

O material usado no vídeo traz imagens não presentes em Prometheus – foram retiradas dos vídeos virais que circulam desde o final de 2011 anunciando o filme. Confira:

2023 – Nada disso aparece em Prometheus. Peter Weyland (Guy Pierce), o magnata dono da corporação Weyland discursa no TED (evento com conferências nos campos da educação, tecnologia e ciência, entre outros). Apresenta-se como homem de ambição ilimitada que gostaria de mudar o mundo. Afirma que graças a capacidade de criar réplicas cibernética perfeitas de si próprio, o homem assumiu o papel de deus.

2089 – O casal de arqueólogos Charlie (Logan Marshall-Green) e Elizabeth (Noomi Rapace) encontra numa caverna da Escócia pinturas rupestres com um ponto comum a outras tantas de diferentes épocas e civilizações: indícios de visitantes espaciais tentando fazer contato com os humanos.

2093 – A Weyland Industries patrocina a missão que busca fazer esse contato cruzando milhões de anos-luz no espaço. A nave Prometheus pousa na lua LV-223 – que seria próxima à lua LV-426 de Alien (embora muitas acreditem se tratar do mesmo lugar). Junto com as respostas para a origem a vida humana, encontram forças alienígenas destrutivas– uma se volta contra a tripulação, enquanto a outra representa uma ameaça apocalíptica à existência humana.

2122 – Entra-se universo Alien, com a nave cargueiro Nostromo e sua heroína, Ellen Ripley (Sigourney Weaver). A missão é desviada de sua viagem de retorno à Terra para investigar pedido de ajuda em planeta próximo. Os tripulantes encontram uma espaçonave pilotada por um ET que foi morto pela mesma criatura que vai atacar os humanos. Explicar quem é esse piloto (conhecido como Space Jockey), segundo Ridley Scott, foi uma de suas motivações para realizar Prometheus.

Vou filmando até morrer

14 de junho de 2012 4

Nesta quinta-feira o cinema brasileiro perdeu Carlos Reichenbach, diretor de alguns filmes muito bons (Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Lilian M: Relatório Confidencial, Falsa Loura Filme Demência), mestre de gerações inteiras de eternos aprendizes da linguagem e verdadeira enciclopédia do cinema e da música popular. Quem cruzou com Carlão, mesmo que por poucos instantes, como é o caso deste fã inveterado, inevitavelmente se deixou contaminar pela paixão com que ele se expressava ao falar de Samuel Fuller, Luís Sérgio Person e tantos outros que o inspiraram, ou piraram, para usar um termo adequado ao efeito que os bons filmes produziam sobre ele.

Não só os bons filmes. Carlão era um apaixonado pela expressão artística mais genuína, aquela que permitia ao espectador enxergar a alma do artista. Tolerava defeitos desde que os propósitos de seu autor fizessem valer a pena e, quando via talento combinado com honestidade intelectual, apaixonava-se com uma convicção absolutamente incomum. Um dos momentos mais marcantes das três entrevistas que fiz com ele foi quando contou como admirava as escolhas de sua mulher, Lygia: "Fiz Anjos do Arrabalde (sobre o universo das professoras de escolas públicas) em homenagem a ela e ao que relatou de suas experiências (como dentista) em projetos sociais numa escola da periferia", disse, numa das três ocasiões.

Filme Demência, que afirmou ser seu preferido e sua obra mais pessoal, ele assinou pensando num acerto de contas com o pai, morto quando tinha 13 anos. Para a mãe tinha a intenção de dedicar Um Anjo Desarticulado, projeto que nunca pôde concluir e que definiu assim no blog Olhos Livres, no ano passado: "(O filme) Não me deixa mais dormir direito, nem morrer. Vai contar um pouco a história da vida da minha mãe da Estônia ao Brasil, na década de 1920, e ilustrar uma fantasia pessoal, emocional e afetiva a respeito de Lenin". Ao ser homenageado no Festival de Brasília, em 2010, Carlão disse a frase que está no título deste post, com o seguinte complemento: "Filmando até morrer – seria a morte ideal, né?".

"Foi uma das pessoas mais bonitas que conheci", definiu o crítico José Geraldo Couto, numa das primeiras manifestações a circularem após a notícia de sua morte. Fácil de entender.

(Atualização do dia seguinte: clique aqui para ler Adeus ao Comodoro, o material que sai no jornal impresso deste sábado)


Carlão dirigindo Sandra Bréa em Sede de Amar

eXistenZ e as mutações de Cronenberg

11 de junho de 2012 1

Depois de um filme como este, qual será o próximo? Esta é uma pergunta particularmente pertinente em se tratando do canadense David Cronenberg.

Um dos mais interessantes cineastas em atividade, Cronenberg tem emendado projetos muito distintos entre si desde eXistenZ (1999), até aqui a última de suas ficções científicas orgânicas e existencialistas calcadas em temas como mutações, biotecnologia e futurismo. Spider (2002) não proporcionou exatamente uma quebra em suas ambições estéticas, mas a obra-prima Marcas da Violência (2004) sim.

E se o longa seguinte, o igualmente ótimo Senhores do Crime (2007), deixou uma ideia de continuidade em suas inquietações, o que dizer da investigação da relação entre Freud e Jung em Um Método Perigoso (2011), um dos corpos mais estranhos – em Cronenberg, esta expressão nunca é por acaso – em sua filmografia? Mais: o que esperar de Cosmópolis (2012), definido como um filme-catástrofe que acompanha 24 horas na vida de um milionário nova-iorquino vivido pelo galã crepuscular – outra palavra de múltiplos significados – Robert Pattinson e que tem estreia no Brasil prevista para 10 de agosto?

Independentemente das respostas, voltar a eXistenZ faz cada vez mais sentido. O longa acaba de chegar ao DVD no Brasil, em lançamento da Magnus Opus – mais um caso de um bom filme lançado pela não muito considerada distribuidora de home vídeo. Trata-se de uma trama na qual, num futuro não determinado, uma criadora de jogos de realidade virtual (Jennifer Jason Leigh) é perseguida por fanáticos rivais. Seu parceiro de fuga, um pacato assistente de mar­keting (Jude Law), funciona como mediador da aproximação do espectador: ele inicialmente é uma figura estranha ao universo de imersão interativa no qual cada jogador recebe um plug na coluna vertebral para poder transcender os limites do organismo entrando num mundo paralelo e experimentando sensações extracorpóreas.

Aos poucos, como era de se prever, a distinção entre o real e o virtual ficam borradas. Nesse clima onírico, Cronenberg põe em debate temas da hora para além da evolução tecnocientífica que fazem Matrix, outra ficção científica lançada em 1999, no crepúsculo do milênio, parecer brincadeira de criança: o terrorismo internacional, a violência conspirativa, o fanatismo fundamentalista e a cada vez menos domada curiosidade acerca dos limites da existência.

O sentido de permanência de eXistenZ também se fortalece a partir de seu realismo visual – não há, no filme, aquela parafernália futurista que às vezes, ao contrário do que propõem seus realizadores, torna as produções do gênero tão datadas. Depois do menos inspirado Um Método Perigoso, nada melhor do que rever um bom Cronenberg para relembrar sua capacidade visionária de interpretar o homem e o seu tempo.

A ver o que será de Cosmópolis.

Qual é seu Ridley Scott favorito?

07 de junho de 2012 7

Prometheus é 20º longa de Ridley Scott, diretor que, acho eu, mostra uma trajetória irregular nos diferentes gêneros em que já investiu – mas, por enquanto, não fez  nada do que se envergonhar. Lembro de 19 destes filmes – creio que não vi Tormenta (1996) – e faço aqui a lista dos que considero os cinco melhores. Está aberto o convite para que vocês façam suas próprias listas com cinco títulos.

PS.: não gostei de Prometheus, mas volto a falar dele quando mais gente assistir, para não estragar surpresas e fazer render o papo.

1) Blade Runner – O Caçador de Androides (1982)

2) Alien – O Oitavo Passageiro (1979)

3) Os Duelistas (1979)

4) Thelma & Louise (1991)

5) Chuva Negra (1989)

Adendo: fiquei em dúvida na quinta colocação entre Os Vigaristas (2003),  O Gângster (2007) e Gladiador (2000).

Bradbury: de John Huston a Truffaut

06 de junho de 2012 1

O escritor Ray Bradbury, que morreu ontem, aos 91 anos, deu nova dimensão à ficção científica, começam a apontar os textos de obituário que pipocam por aí. Os cinéfilos também vão lembrar que o autor norte-americano teve pelo menos duas referências bem sólidas no cinema, uma pelas mãos de John Huston e outra pelas de François Truffaut.

Para Huston, ele roteirizou a adaptação de Moby Dick, de Herman Melville, lançada em 1956 – período de auge da popularidade de Bradbury. A colaboração com Truffaut não foi ativa: o autor não participou da adaptação da obra-prima Fahrenheit 451 – o cineasta francês assinou o roteiro junto a Jean-Louis Richard.

A célebre trama de perseguição em um mundo que vive sob um regime totalitário no qual os livros são proibidos, assim como o pensamento crítico (451ºF é a temperatura na qual o papel queima), constitui o único filme que Truffaut rodou (predominantemente) em inglês. Lembro que não foi fácil encontrá-lo, no tempo do VHS, quando de maneira obsessiva decidi que veria todos os filmes dos grandes realizadores europeus do pós-neorrealismo italiano: no final dos anos 1990, Fahrenheit 451 só circulava no Brasil em cópias ilegais, que naquela época de fiscalização menos rigorosa até podiam ser encontradas nas velhas videolocadoras.

É um belíssimo exercício de gênero de Truffaut e uma das melhores ficções científicas de seu tempo – o longa foi lançado em 1966, 13 anos após a publicação do livro original de Bradbury. Em DVD ele está disponível no mercado brasileiro, veja um bom trailer (sem legendas) clicando aqui.

Só que ao contrário II

05 de junho de 2012 0

Os ótimos (só que ao contrário) exemplos do post anterior e de seus comentários fizeram lembrar aquela que para mim foi a pior tradução de título que as distribuidoras brasileiras já foram capazes de cometer. L'âge des Ténèbres (2007), de Denys Arcand, que originalmente significa A Idade das Trevas, foi traduzido como A Era da Inocência - verdadeira barbárie que, além de impor ao título algo oposto à reflexão proposta pelo diretor canadense, ignorou a ideia de continuidade histórica da trilogia da qual ainda fazem parte os ótimos O Declínio do Império Americano (1986) e o vencedor do Oscar As Invasões Bárbaras (2007).

À época do lançamento do longa, foi impossível não dedicar boa parte do comentário publicado nas páginas de ZH para esta questão, literalmente porque, como digo no texto, "a tradução já saiu privando o espectador de entender uma das premissas do filme".

Olhe:

Com receio de que o título "para baixo" espantasse o público dos cinemas, os distribuidores brasileiros transformaram A Idade das Trevas, nome original do filme do canadense Denys Arcand, em A Era da Inocência. Quem é cinéfilo já se acostumou à falta de sentido de algumas traduções dos títulos das produções estrangeiras, mas é impossível falar sobre esta, especificamente, sem entrar no assunto. Primeiro porque Arcand se propõe a discutir um mundo sombrio – daí as "trevas" – que é consequência de diversos fatores culturais, políticos e sociais literalmente opostos à ideia de "inocência". Segundo porque A Idade das Trevas, ou melhor, A Era da Inocência, tanto quanto O Declínio do Império Americano (1986) e diferentemente de As Invasões Bárbaras (2003), com os quais forma uma trilogia informal sobre esse mundo sombrio, é um filme de diálogo difícil com o grande público que tanta preocupação rendeu à distribuidora nacional.

A "era das trevas", como alguns historiadores caracterizam a Idade Média, foi um período histórico que se seguiu às chamadas invasões bárbaras, que por sua vez haviam posto fim ao decadente Império Romano. Arcand, no entanto, está falando da contemporaneidade – seguindo a premissa de que a história se repete, está fazendo uma relação do universo desolador da atualidade com a barbárie que levou o homem a invadir territórios alheios recentemente, que por sua vez tem relação com o declínio de outro império, o norte-americano. A tradução já saiu privando o espectador de entender uma das premissas do filme.

A ação, em A Era da Inocência, gira em torno de uma espécie de personagem-símbolo dessa época – Jean-Marc Leblanc, interpretado com precisão por Marc Labrèche. Tudo em sua vida é terrível – mulher e filhas não o amam, sua comida é artificial, suas relações são todas mediadas pelo "politicamente correto" e seu trabalho é mecânico e revela total impotência diante do mundo. O homem, então, sonha – e o que vislumbra são situações totalmente díspares da realidade, que têm a ver com sexo, dinheiro, sucesso e poder.

As imagens desses sonhos, que ocupam grande parte da narrativa, têm um humor às vezes sutil, noutras sarcástico – há piadas que provocam dos fãs de O Senhor dos Aneis à indústria que tem em Brad Pitt um ícone do grande ator. As ironias fazem de A Era da Inocência um filme bastante distinto dos exclusivamente dramáticos O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras – mas igualmente bem sucedido: ao sabotar instituições como a família, a mídia e outros pilares importantes da "idade das trevas", Arcand desperta no espectador o senso de humanidade, de alerta, de convocação a refletir sobre essa época.

O diretor é cético, mas, como já sucedera anteriormente, não fez um filme que se encerra no próprio pessimismo – armadilha à qual sucumbem tantos outros realizadores, como o alemão Oskar Roehler em Partículas Elementares, também em cartaz em Porto Alegre. O recolhimento final do protagonista pode ser interpretado como uma desistência, mas seu destino não fica claro – é como se Arcand deixasse a questão em aberto, incitando o público a pensar sobre o futuro de Leblanc, que afinal de contas é o futuro de todos nós.

Só que ao contrário

04 de junho de 2012 3

Tempos atrás,  tratamos da (conforme o caso e o gosto) curiosa, divertida, irritante e absurda operação de batismo em português de títulos estrangeiros (relembre clicando AQUI).

Mas fora a questão da tradução que dá uma ideia errada do enredo de  filme (Namorados para Sempre não é uma comédia romântica), a que o torna ainda mais épico (Assim Caminha a Humanidade em vez de Giant) e aquela que só pode ser brincadeira do tradutor  (minha preferida é O Tiro que não Saiu pela Culatra para Parenthood), tem uma outra categoria peculiar: a tradução que, além  mudar totalmente o título original, comete um erro grosseiro:

Exemplo: O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder, tenta ser mais específico à razão da aflição do protagonista do que o título original, Seven Year Itch (referêcia ao "comichão dos sete anos" que acusa  o marasmo do casamento e incentiva a pulada de cerca). Detalhe: o pecado Marilyn Monroe não mora ao lado, mas sim no apartamento de cima do vizinho babão.

Aos poucos e fieis leitores que lembrarem de outros casos como esse, mandem para ampliarmos a lista. Mas vale lembrar: tem de ser título cuja tradução traga algum tipo de equívoco deste porte, não apenas ser esquisita ou inapropriada, pois dessas já falamos aqui.