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Posts de julho 2012

Chris Marker (1921-2012)

30 de julho de 2012 2

Filósofo, documentarista, fotógrafo e escritor, o francês Chris Marker morreu em Paris, aos 91 anos. No dia de seu aniversário, bizarra coincidência registrada no mês passado com o brasileiro Carlos Reichenbach. Marker (pronuncia-se Markér) foi tudo isso que está ali na primeira frase, parceiro de Alain Resnais e Costa-Gavras e ainda um prolífico autor de curtas-metragens, entre eles a obra-prima absoluta La Jetée (1962), sempre citado como o filme que inspirou o longa Os 12 Macacos (1995), de Terry Gillian.

Vamos deixar bem claro: em seus pouco mais de 26 minutos de duração, Lá Jetée é um dos maiores filmes de ficção científica de todos os tempos, independentemente de ter ajudado a dar vida a outro projeto mais conhecido pelo público. Marker dizia se tratar de um "foto-romance", já que é composto (quase) exclusivamente de "fotografias filmadas". As imagens congeladas ilustram uma história, toda ela narrada em off, sobre as lembranças de um sobrevivente da Terceira Guerra Mundial que vive como prisioneiro nos subterrâneos de uma Paris destruída.

Trata-se de um ensaio poético fascinante sobre a memória, que você pode assistir na íntegra abaixo. Fica como homenagem a um dos grandes nomes do cinema do século 20.

Um filmaço para Violeta Parra

23 de julho de 2012 2

É nada menos que extraordinário o filme do diretor Andrés Wood (de Machuca) sobre a cantora chilena Violeta Parra. No momento em que escrevo este post, Violeta Foi para o Céu está em cartaz em três cinemas de Porto Alegre, o CineBancários, o Guion Center e o Unibanco Arteplex. Não deixe de ver. Nada nos cinemas da cidade merece tanto a sua atenção, e olha que há um razoável Polanski, um bom Woody Allen e um ótimo Koreeda em exibição na Capital.

Mesclando de maneira orgânica as canções da artista com encenações de episódios de sua trajetória pessoal, em grande parte do filme por meio de uma montagem paralela que abre ao espectador todo o universo de possibilidades de interpretação de suas composições, Wood construiu uma narrativa absolutamente primorosa. Há várias sequências inesquecíveis, entre elas aquela em que ouvimos Volver a los 17 diretamente da tenda em que Violeta viveu seus últimos anos (ao pé da Cordilheira dos Andes), aquela que culmina com o enterro da filha da cantora (duvido você não se emocionar) e o trecho final, com uma interpretação literalmente matadora de El Gavilán por parte da protagonista vivida por Francisca Gavilán.

A atriz, dona da voz ouvida nas canções do filme, tem uma das performances mais impressionantes que o cinema viu nos últimos tempos. À força de sua expressão soma-se a beleza de sua voz – há quem, mesmo depois de ver Violeta Foi para o Céu, ainda se questione se era ela mesmo que cantava as músicas da grande letrista. Trata-se de uma lição chilena de como abordar um ícone cultural de seu país, de como investir num projeto que honra a sua memória, independentemente das sempre volúveis leis de mercado – seria tão mais confortável fazer um filme fácil sobre sua trajetória, pasteurizado e sentimentaloide como convém aos projetos que buscam resultados mais imediatos.

Uma questão palpitante para os gaúchos: este filmaço foi apresentado ao Brasil por um festival de cinema latino-americano realizado aqui no país que não é Gramado, e sim o Cine Ceará. Para quem é do Sul, é uma pena que a sessão consagradora com a presença de Andrés Wood e sobretudo Francisca Gavilán não foi realizada por aqui...

A seguir, após o trailer legendado, os dois textos que publicamos na edição impressa de ZH, assinados pelos meus colegas Roger e Perrone. Leia. E corra aos cinemas.

Gracias a La Vida, apresentação do filme por Marcelo Perrone:

Conhecimento prévio ajuda, mas não é fundamental saber quem foi Violeta Parra para ser impactado pelo belo tributo que lhe presta o cineasta chileno Andrés Wood em Violeta Foi para o Céu. Diferentemente das cinebiografias convencionais, Wood optou por não traçar em linha reta a história daquela que é considerada a voz pioneira do cancioneiro latino-americano a cantar suas dores e amores, não com o coração, como a própria artista dizia,mas com o estômago.

Adaptação do livro homônimo escritopor Ángel Parra, filho de Violeta Parra (1917 – 1967), o filme poderia ser eficientemente encenado como um melodrama típico se o foco do diretor sobre a autora de clássicos como Gracias a la Vida e Volver a los 17 fosse cronológico: a menina pobre que venceu a miséria por conta de seu talento, tornou-se uma artista mundialmente reconhecida, rejeitou a exposição midiática para se engajar na divulgação da cultura popular de seu país, marcou posição ao lado dos trabalhadores e foi vencida por seus conflitos interiores, que a levaram ao suicídio.

Wood e o roteirista Eliseo Altunaga apresentam e tentam decifrar Violeta (interpretada de forma excepcional pela atriz e cantora Francisca Gavilán), de maneira não linear, com uma narrativa que se constrói a partir de fragmentos de sua vida em um engenhoso processo de montagem e edição de som– preste atenção no constante ranger de madeira que pontua o filme, sinalizando tanto portas que se abrem e fecham quanto uma estrutura prestes a desabar, recurso sutil que traduz o estado emocional da protagonista.

O fio condutor do enredo é uma entrevista que Violeta concedeu à TV chilena, nos anos 1960, após voltar ao país com um triunfo que se deu além da música: foi a primeira artista latino-americana a expor no Museu do Louvre, em Paris, por conta de seu trabalho em tapeçaria. Em vez de consolidar a carreira internacional nos anos em que viveu na Europa, Violeta dedicou-se, na reta final de sua vida, a um projeto cultural inovador: ergueu em Santiago um centro cultural para difundir a música latino-americana. O insucesso da empreitada, combinado ao fim de um passional relacionamento, foi existencialmente insuportável para ela. Antes de se despedir, deixou como uma desuas últimas canções Gracias a la Vida.

Violeta morreu antes de ver seu país ser tomado, em 1973, por uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina. Muitas de suas canções – como a vigorosa Arriba Quemando el Sol, que surge de forma catártica no filme – tornaram-se hinos na voz dos que tentaram combater Pinochet, como Victor Jara, artista que foi fuzilado no Estádio Nacional, o simbólico abatedouro dos militares chilenos.

Uma mulher por trás do mito, o comentário de Roger Lerina

Filme chileno vencedor do prestigiado Festival de Sundance deste ano, o longa sobre a vida da cantora, compositora e artista plástica Violeta Parra (1917– 1967) foi um dos quatro finalistas na categoria de melhor produção ibero-americana do último Prêmio Goya e empolgou em seu país de origem: assistido por cerca de 400 mil pessoas, tornou-se o título chileno de maior público em 2011. Tamanho entusiasmo é plenamente justificável: Violeta Foi para o Céu consegue humanizar um personagem sacralizado – sem, no entanto, pretender decifrá-lo ou retirar-lhe a aura por completo –, esboçando na tela uma figura complexa e fascinante.

Andrés Wood é um dos diretores mais bem-sucedidos do Chile, assinando filmes que agradaram as plateias como A Febre do Loco (2001) e Machuca (2004) – este último também sucesso internacional, inclusive no Brasil. Com Violeta Foi para o Céu, porém, o realizador conseguiu enfim agradar também a crítica quase unanimemente, já que dessa vez limou por completo os excessos sentimentais que comprometiam a solidez de suas obras anteriores. Wood parte de uma famosa entrevista concedida por Violeta para a TV – curiosamente, mesmo recurso narrativo da recente cinebiografia brasileira de Chico Xavier – a fim de retraçar de maneira não linear a trajetória da protagonista.

Acompanhamos a infância pobre de Violeta no Chile rural, as viagens que fez pelo interior em busca de canções populares de seu país, a apresentação na Polônia comunista, sua estadia na França e a exposição de seus trabalhos visuais no Museu do Louvre, o regresso ao seu país natal e a construção de uma tenda nos arrabaldes de Santiago onde se apresentavam músicos folclóricos, o envolvimento amoroso com o suíço Gilbert Favre. Graças à inventiva montagem, os vaivéns da trama não comprometem o entendimento, mesmo de quem desconhece a vida da autora de hinos da música latino-americana como Volver a los 17 e Gracias a laVida. O apuro técnico, aliás, é uma característica da filmografia do cineasta – e Violeta... não foge ao padrão, apresentando uma fotografia adequadamente crua e rústica e uma expressiva manipulação da trilha sonora e do som.

Mas o grande destaque do filme é aexcelente interpretação de Francisca Gavilán na pele da personagem título, em uma atuação com entrega e gana– a própria atriz é quem canta as músicas de Violeta em cena. Como é praxe no gênero, alguns episódios ou pessoas sofreram adaptações ou mesmo omissões na cinebiografia, em prol da fluidez e da melhor compreensão da história. O resultado, entretanto, compensa qualquer eventual infidelidade: ao abrir mão da hagiografia, Violeta... deixa a santa no altar da cultura crioula do continente e revela a mulher contraditória e de temperamento sanguíneo – uma mãe amorosa que abandona os filhos pequenos enquanto viaja pela Europa, vaidosa em seu jeito desleixado, solidária com os desfavorecidos e ferrenhamente autocentrada, amante ardorosa e dominadora, criatura generosa e ressentida. Uma mulher que dá graças à vida e se mata.

Philippe Garrel, o amor e a morte

23 de julho de 2012 0

Deprimido, lembrando da mulher, a atriz Angèle (Monica Bellucci), o pintor Frédéric (Louis Garrel) dirige por uma estrada escura. Em seus pensamentos Angèle surge nua, linda, deitada sobre uma cama. Ele acelera, joga o carro contra uma árvore e morre. Em seguida a história retrocede no tempo e, apresentado pelo narrador, seu amigo Paul (Jérôme Robart), o espectador vai conhecendo Frédéric e seu charmoso ceticismo.“Não preciso de política ou Revolução; a mim bastam o amor e a arte”, ele diz a Paul.

O começo de Um Verão Escaldante, em cartaz na Capital, é ainda mais promissor se lembrarmos que seu diretor é Philippe Garrel, pai de Louis, ex-marido da cantora Nico e diretor de outros bons romances existencialistas franceses – o recente A Fronteira da Alvorada (2008) entre eles. Entretanto, a história do artista que casa com uma estrela do cinema, fazendo dela sua musa mas perdendo o rumo quando o encanto se esvai tem seu impacto reduzido devido, sobretudo, à previsibilidade dos acontecimentos.

A trama se constrói a partir de idas e vindas no tempo, mas o foco é um verão em que o casal, vivendo em Roma, recebe Paul e sua namorada Élisabeth (Céline Sallette). Philippe Garrel recorre a imagens simbólicas da deterioração do relacionamento durante esta temporada (um rato invade a casa, ela tira uma farpa do pé dele ficando desconfortavelmente submissa etc.) para depois simplesmente mostrar aquilo que já havia sido anunciado antes. Os próprios diálogos de caráter filosófico sobre o amor não são lá muito inspirados, na comparação com títulos dos quais, de algum modo, Um Verão Escaldante quer se aproximar – como o clássico O Desprezo (1963), de Godard.

Há momentos de deleite para quem gosta deste tipo de filme, verdadeira especialidade dos franceses, mas a verdade é que a fruição do mais recente longa dos Garrel é bem menos prazerosa do que se podia presumir.

Stones 50 anos. No cinema

12 de julho de 2012 2

Os 50 anos de Rolling Stones comemorados nesta quinta-feira são um marco para a cultura pop, e não apenas para a música, como deixa claro o especial publicado pelo Segundo Caderno de ZH (veja clicando aqui). Para se ter uma ideia bem concreta disso, basta um – rápido – exame nas participações da banda e de seus integrantes em filmes realizados ao longo destas cinco décadas. O IMDb.com, maior banco de dados do cinema, por exemplo, registra mais de 200 participações dos Stones somente em trilhas sonoras.

Isso contando apenas as trilhas assinadas como a banda inteira, e não aquelas que seus integrantes são os responsáveis individualmente. Entre estas tantas, há as produções oitentistas de Dario Argento Phenomena e Terror na Ópera, que têm música assinada pelo baixista dos Stones Bill Wyman, e também Alfie, o Sedutor (2004), que deu o Globo de Ouro a Mick Jagger pela canção Old Habits Die Hard.

Mais do que isso, há as aventuras de Jagger como produtor (em longas como Enigma, de Michael Apted, lançado em 2001) e as inúmeras participações de seus integrantes nos próprios elencos de alguns filmes de Hollywood (Keith Richards apareceu na franquia Piratas do Caribe interpretando o pai de Jack Sparrow, por exemplo, e o próprio Jagger viveu, entre outros, o fora da lei Ned Kelly em A Força Será tua Recompensa, longa de Tony Richardson lançado em 1970).

Agora, entre as grandes presenças dos Stones no cinema não podem faltar, mesmo, estas abaixo, listadas pela equipe do Segundo Caderno para integrar o especial levado ao ar nesta data histórica.

Confira:

Sympathy for the Devil (1968), de Jean-Luc Godard
Longa-metragem composto de uma colagem de imagens nas quais se vê a banda tocando trechos da canção que dá título e, ainda, esquetes e divagações que abordam 1968, o ano que não acabou. Godard brigou com os produtores e, posteriormente, disse não reconhecer o filme como seu, visto que Sympathy for the Devil teria sido montado à sua revelia.

Popcorn (1969), de Peter Clifton
Entre os documentários de rock compostos a partir de depoimentos e performances musicais variadas, Popcorn é dos que mais destaque dão aos Stones. No filme, Jagger, Richards e companhia assumem a linha de frente juntamente com nomes como Jimi Hendrix, Ottis Redding, Joe Cocker, The Animals e Bee Gees.

Gimme Shelter (1970), de Albert e David Maysles e Charlotte Zwerin
Filme que cobre os últimos momentos da turnê que os Stones realizaram em 1969, em especial o trágico festival de Altamont, na Califórnia – no qual um garoto de 18 anos, Meredith Hunter, foi morto a facadas pelos motoqueiros da Hells Angels.

Cocksucker Blues (1972), de Robert Frank
Nunca lançado nos cinemas, mas sucesso entre fãs e curiosos em cópias piratas – primeiro físicas, agora pela internet –, trata-se de um registro da grande e exitosa turnê de lançamento de Exile on Main St. Buscando limpar a barra após a tragédia documentada em Gimme Shelter, a banda convidou o diretor Robert Frank a filmar os bastidores da tour. Frank acabou flagrando cenas de consumo de drogas e sexo explícito, o que fez com que os Stones impedissem o seu lançamento, transformando Cocksucker Blues num verdadeiro mito entre os filmes de rock.

The Rolling Stones Rock and Roll Circus (1996), de Michael Lindsay-Hogg
Filmado em dezembro de 1968, era para ser apenas um programa de televisão sobre um concerto da banda, com participações especiais de, entre outros, John Lennon, The Who e Eric Clapton. Mas o projeto foi abortado devido à morte, pouco depois, do guitarrista Brian Jones. Retomado quase três décadas depois, tornou-se um raro registro audiovisual não apenas para os fãs de Stones, mas do rock 'n' roll sessentista como um todo.

The Rolling Stones: Just for the Record (2002), de Steven Vosburgh
Este documentário sobre a trajetória da banda, produzido nos EUA e lançado quando os Stones comemoraram 40 anos, destaca-se entre os demais pela amplitude: são 450 minutos dedicados a contar toda a sua trajetória em detalhes, desde 1962, tudo dividido em cinco partes de 90 minutos, que podem ser vistas separadamente como um longa-metragem cada. Não chegou a ser lançado nos cinemas, mas está disponível em DVD.

Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones (2005), de Stephen Woolley
A morte precoce de Brian Jones, o primeiro líder dos Stones, aos 27 anos, é o mote desta cinebiografia, que trabalha com a hipótese de que o guitarrista pode ter sido assassinado por Frank Thorogood, o responsável pela reforma de sua casa. Jones, aqui, é interpretado por Leo Gregory.

Shine a Light (2008), de Martin Scorsese
Em 1978, Scorsese filmou com êxito O Último Concerto de Rock, registrando a despedida da The Band. Bem mais experiente, com o reconhecido talento, o cineasta enquadrou os Stones no palco e nos bastidores da turnê A Bigger Bang, complementando o documentário com belos e históricos registros da banda em anos anteriores.