É curiosíssima a trajetória de A Febre do Rato em Porto Alegre. O terceiro longa de Cláudio Assis teve sessões de pré-estreia em quatro fins de semana entre julho e agosto – quando aliás publicamos em ZH o texto abaixo. Sumiu assim que o Unibanco Arteplex fechou para reformas e só voltou agora, com a reabertura do mesmo complexo, com o nome Espaço Itaú de Cinema. Sua estreia na cidade, no fim de semana que passou, deu-se apenas no próprio Espaço Itaú. O resultado que o filme poderá obter, após esta verdadeira lambança que foi o seu lançamento por aqui? É difícil prever, mas não será fácil que ele encontre o seu público desta maneira. Dê uma olhada no texto de apresentação e comentário dele e não deixe de ir ao cinema, porque, como digo a seguir, seus defeitos não diminuem o fato de que se trata de uma das melhores novidades da produção nacional recente.
O diretor pernambucano Cláudio Assis costuma causar ainda mais escândalo do que os filmes que assina – o irregular Amarelo Manga (2002), o ótimo Baixio das Bestas (2006) e, agora, este A Febre do Rato. Faz parte da proposta: cineasta doidão provoca a tudo e a todos com postura radical transformada em longas que buscam a poesia na violência verbal e no choque visual. Às vezes dá certo. Às vezes, nem tanto. Em um mesmo longa, inclusive.
É o caso de A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado, ocasião em que superou, entre outros concorrentes, O Palhaço, de Selton Mello. No filme, o sempre ótimo Irandhir Santos (o deputado/antagonista de Tropa de Elite 2 e o narrador-protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo) interpreta um poeta popular anacrônico, militante do anarquismo e editor de fanzine que sai pelas ruas do Recife gritando seus textos com um megafone enquanto dirige um carro velho. Zizo é o seu nome.“Febre do rato”, gíria local recifense para indicar “fora de controle”, é como ele batizou o zine.
Zizo prega a libertinagem. Seus poemas, no entanto, têm uma notável doçura – eles revelam o talento superlativo do roteirista Hilton Lacerda, autor de todos os versos recitados. Não é uma contradição: Zizo é um romântico libertário, que defende – e pratica – o sexo livre, sem que isso o impeça de se apaixonar intensamente e tentar, de todas as maneiras, conquistar a estudante Eneida (Nanda Costa). O relacionamento ideal, ele diz na trama, é aquele que um amigo sensível (Matheus Nachtergaele) mantém com a transexual de tratamento mais rude a quem chama de “macho da minha vida” (Tânia Granussi).
A dicotomia regramento versus subversão está na essência de A Febre do Rato, à medida que o filme narra uma clássica história de amor não realizado (Eneida o admira, mas não cai na lábia do poeta), tão tradicional que é quase careta, mas que se apresenta ao espectador por meio de um discurso completamente desprovido de moral. A bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho espelha o visual do fanzine revelando Recife às avessas, bem diferente da cidade dos cartões-postais coloridos, bem parecida com o centro urbano pulsante visto nos Super-8 sujos de Paulo Bruscky e no folk rock poético de Chico Science.
Há momentos de pura inspiração mais intimistas, como o da conversa de Zizo e Eneida no barco, e verdadeiramente espetaculares, como aquele em que o poeta dá um discurso inflamado conclamando seus seguidores a tirarem a roupa no meio da rua – uma das sequências mais impressionantes do cinema brasileiro recente. Há, em contrapartida, um certo maneirismo visto em alguns movimentos e angulações de câmera e na própria criação de situações exageradas, que pouco acrescentam à construção dramática ou narrativa.
Se antes Cláudio Assis já dava a impressão de forçar a mão para aumentar o impacto daquilo que apresenta, aqui, em determinados momentos, soa repetitivo. Provoca, consequentemente, a sensação de déjà vu, quando não de ter criado algo de certo modo fake. Para um filme sanguíneo, enérgico, que aposta no risco – situação por princípio interessante –, não se trata de algo definitivamente comprometedor. Com seus defeitos, A Febre do Rato é uma das melhores novidades da temporada no cinema nacional.




Ainda bem que voltou a ser exibido. Lembro que ficou mais de 2 semanas em pré-estreia, e quando estreou ficou apenas uma semana em cartaz!
Vou conferir de uma vez antes que saia de cartaz novamente.
Oi, Hudson. Em POA só estreou agora, neste fim de semana dos dias 1º e 2 de setembro. Teve sessões isoladas de pré-estreia em quatro fins de semana entre 14 de julho e 4 de agosto, conferi há pouco. Abs.
Ahh, agora faz sentido. Achei que no lugar da última pré-estreia ele tinha ficado em cartaz durante a semana. Abs.
Desde hoje, sobrevive com uma única sessão no Unibanco Arteplex ( vou continuar chamando pelo antigo nome ...) . Quinta-feira que vem ,13/9, deve estar dando adeus ...