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E a Febre do Rato, hein?

03 de setembro de 2012 4

É curiosíssima a trajetória de A Febre do Rato em Porto Alegre. O terceiro longa de Cláudio Assis teve sessões de pré-estreia em quatro fins de semana entre julho e agosto – quando aliás publicamos em ZH o texto abaixo. Sumiu assim que o Unibanco Arteplex fechou para reformas e só voltou agora, com a reabertura do mesmo complexo, com o nome Espaço Itaú de Cinema. Sua estreia na cidade, no fim de semana que passou, deu-se apenas no próprio Espaço Itaú. O resultado que o filme poderá obter, após esta verdadeira lambança que foi o seu lançamento por aqui? É difícil prever, mas não será fácil que ele encontre o seu público desta maneira. Dê uma olhada no texto de apresentação e comentário dele e não deixe de ir ao cinema, porque, como digo a seguir, seus defeitos não diminuem o fato de que se trata de uma das melhores novidades da produção nacional recente.

O diretor pernambucano Cláudio Assis costuma causar ainda mais escândalo do que os filmes que assina – o irregular Amarelo Manga (2002), o ótimo Baixio das Bestas (2006) e, agora, este A Febre do Rato. Faz parte da proposta: cineasta doidão provoca a tudo e a todos com postura radical transformada em longas que buscam a poesia na violência verbal e no choque visual. Às vezes dá certo. Às vezes, nem tanto. Em um mesmo longa, inclusive.

É o caso de A Febre do Rato, grande vencedor do Festival de Paulínia do ano passado, ocasião em que superou, entre outros concorrentes, O Palhaço, de Selton Mello. No filme, o sempre ótimo Irandhir Santos (o deputado/antagonista de Tropa de Elite 2 e o narrador-protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo) interpreta um poeta popular anacrônico, militante do anarquismo e editor de fanzine que sai pelas ruas do Recife gritando seus textos com um megafone enquanto dirige um carro velho. Zizo é o seu nome.“Febre do rato”, gíria local recifense para indicar “fora de controle”, é como ele batizou o zine.

Zizo prega a libertinagem. Seus poemas, no entanto, têm uma notável doçura – eles revelam o talento superlativo do roteirista Hilton Lacerda, autor de todos os versos recitados. Não é uma contradição: Zizo é um romântico libertário, que defende – e pratica – o sexo livre, sem que isso o impeça de se apaixonar intensamente e tentar, de todas as maneiras, conquistar a estudante Eneida (Nanda Costa). O relacionamento ideal, ele diz na trama, é aquele que um amigo sensível (Matheus Nachtergaele) mantém com a transexual de tratamento mais rude a quem chama de “macho da minha vida” (Tânia Granussi).

A dicotomia regramento versus subversão está na essência de A Febre do Rato, à medida que o filme narra uma clássica história de amor não realizado (Eneida o admira, mas não cai na lábia do poeta), tão tradicional que é quase careta, mas que se apresenta ao espectador por meio de um discurso completamente desprovido de moral. A bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho espelha o visual do fanzine revelando Recife às avessas, bem diferente da cidade dos cartões-postais coloridos, bem parecida com o centro urbano pulsante visto nos Super-8 sujos de Paulo Bruscky e no folk rock poético de Chico Science.

Há momentos de pura inspiração mais intimistas, como o da conversa de Zizo e Eneida no barco, e verdadeiramente espetaculares, como aquele em que o poeta dá um discurso inflamado conclamando seus seguidores a tirarem a roupa no meio da rua – uma das sequências mais impressionantes do cinema brasileiro recente. Há, em contrapartida, um certo maneirismo visto em alguns movimentos e angulações de câmera e na própria criação de situações exageradas, que pouco acrescentam à construção dramática ou narrativa.

Se antes Cláudio Assis já dava a impressão de forçar a mão para aumentar o impacto daquilo que apresenta, aqui, em determinados momentos, soa repetitivo. Provoca, consequentemente, a sensação de déjà vu, quando não de ter criado algo de certo modo fake. Para um filme sanguíneo, enérgico, que aposta no risco – situação por princípio interessante –, não se trata de algo definitivamente comprometedor. Com seus defeitos, A Febre do Rato é uma das melhores novidades da temporada no cinema nacional.

Comentários (4)

  • Hudson diz: 3 de setembro de 2012

    Ainda bem que voltou a ser exibido. Lembro que ficou mais de 2 semanas em pré-estreia, e quando estreou ficou apenas uma semana em cartaz!

    Vou conferir de uma vez antes que saia de cartaz novamente.

  • Hudson diz: 3 de setembro de 2012

    Ahh, agora faz sentido. Achei que no lugar da última pré-estreia ele tinha ficado em cartaz durante a semana. Abs.

  • André diz: 7 de setembro de 2012

    Desde hoje, sobrevive com uma única sessão no Unibanco Arteplex ( vou continuar chamando pelo antigo nome ...) . Quinta-feira que vem ,13/9, deve estar dando adeus ...

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